"e nossas sombras pelas paredes
moviam-se, aconchegadas como nós
e gesticulavam, sem voz."
(Cecília Meireles)
Se a aflição supera o meu desejo de saber, encolho-me no meu silêncio, busca sem motivo no interior das coisas que
me sustêm. O frio soprou seu gélido bafo em mim (como foi?) e percebi um certo tremor em meus músculos e até um
fragmento daquilo que hoje chamo de dor, mas que antes não saberia nomear. Impus-me então o mormaço de outro corpo? Que
nesse abraço severo dividiria a aflição? A revolta das células e o conspirar dos órgãos. Quem me exigiu a crença naquilo que
meu espírito considera com um ardor soberano algo falso e inútil?
Quando a ausência me rebaixou ao sopé da solidão e do remorso. Brando assim o meu desvelo para com o que
penso a meu respeito. Deve ter sido crescente o aprendizado. Primeiro engatinhei, depois senti a firmeza dos meus ossos e a
coragem insurgindo contra a debilidade que herdei e, resoluto, ergui-me, sustentado por duas pernas vagarosas. Os passos para
alcançar o colo de minha mãe: os joelhos ardendo em viva carne. O chão ao qual estava acostumado surgiu distante e mais alto e
poderoso estive frente às formigas e outros insetos que me acompanharam durante os meses de reconhecimento. Então um frêmito
me sacudiu e por pouco não pisoteei meus antigos companheiros. O poder que seduz as criaturas inferiores. Tateando com
a limítrofe dificuldade os objetos que me circundavam, alvejando a mulher que ria do meu esforço, agrupando toda a
intensidade de meus desejos para alcançá-la, sobrepujando o meu próprio vigor, o seu rosto a cintilação que me guiava, divisei bem
perto a maldição de braços com a esperança. Percebi também que jamais alguém sofreria por mim, que o fustigo na minha
pele não acarretaria qualquer sofrimento na epiderme de outrem. Enfim alcancei os peitos de mamãe, macios e suculentos,
jorrando um líquido branco e quente que preencheu o meu estômago, embora dali tenha brotado apenas o necessário para
amenizar a avidez da fome, pois eles não queriam que acreditasse em recompensas por um esforço que dependia antes da minha
sorte do que de algum talento especial.
Não sei quando me vieram as frases, primeiramente desconexas e ininteligíveis, mais tarde apenas lacônicas. E a
invasão, a pilhagem? Detalhes que se amalgamaram sorrateiramente ao meu caráter e hoje o lamento pela desatenção. Não haja
culpa a não ser daqueles que se aproveitaram da veleidade de uma criatura incompleta.
As roupas chegaram e já controlava meu corpo e a sabia a hora certa de ir ao banheiro para deixar no vaso o que
meus órgãos não quiseram aproveitar. Cerrava a porta do quarto para me trocar e educadamente dizia "muito obrigado", "por
favor". Quem se arriscaria a dizer que me calaria em tantos idiomas?
Como recompensa pelos sapatos lustrados e pelas camisas limpas e bem passadas, levaram-me à escola. Bendito dia.
Com alvoroço eu tentava adivinhar o significado dos símbolos e depois a atração por Lucilene, pressenti que seria para
sempre um desgraçado. A necessidade mórbida de substituir as mamas, de afagar com indolência as suas coxas brancas e
frívolas... E que frialdade na sua condescendência comprada! Como conciliar o amor com a carne? E com a moeda.
Arremessada imprudentemente contra meu peito esperançoso, a mágoa assolou um a um os sentimentos felizes que jurava possuir.
Façamos assim: que eu pense ter isolado o que de melhor há em você, que não arrebanhei o conjunto inteiro no
leilão dos homens, que casta, sensível, inteligente, e apenas isso, e para complicar, mas também para aperfeiçoá-la, você verá
apenas o naco bom das pessoas, mantendo então um sorriso constante e mais ainda: será esse sorrir a sua verdade. Mesmo que
se aproveitem dessa inocência e, acredite, não tardará a acontecer.
Envelheci. Conheci sozinho os estragos dos anos e não me queixei. Era a morte que eu esperava viesse duelar
comigo, o tabuleiro de xadrez sempre pronto, como no filme de Bergman. Os cabelos ralearam e a gengiva expulsou os dentes,
como fossem intrusos na harmonia do riso. Nem assim soube da maturidade ou do conhecimento total sobre a mínima coisa.
Com que arbitrariedade eu vi os fatos se desenvolverem, no curso interminável do acaso. Soube que as coisas que aprendi
foram artimanhas do meu instinto e que só me serviam à sobrevivência.
Sempre uma réstia, o suficiente para deixar nas paredes ou ainda no chão o meu contorno deformado (que hoje
penso ser mais exato do que o meu corpo). Ela, dia ou noite, infalivelmente a me acompanhar.
Nos amamos. Porque não havia outra esperança de humanidade que não esta, sutil e espectral. Não tivesse opção de
refrear a mágoa que se acumulara, feito manancial de ruindades inesgotáveis.
Envergonho-me ao dizer que o amor se apresente tão disforme e talvez até um tanto frágil.
Mas nos amamos. Ainda assim.
Convulsiva e desesperadamente.
Numa dessas conversas que nos tomavam noites completas e durante as quais se consumiam dezenas de velas,
lembro-me de falarmos da composição da sombra.
Dela. O que seria? Matéria, onda? Invocamos os meandros da física
quântica, tentamos uma explicação através dos quasares, dos quarks, até que, exaustos e sem chegarmos a lugar que nos
permitisse qualquer conclusão, nos abraçamos, decididos a continuar a perquirição num outro dia.
De repente a vela se consumiu por inteira e a luz se extinguiu. A solidão apresentou-se arrogante e apressei-me em
acender uma outra. Após, pouquíssimas vezes faltou luz em nosso quarto, tão dependente de mim era a sua vida, que a sua morte
só podia ser culpa minha. De dia, janelas escancaradas, eu corria para perto do sol, e nas noites nunca faltaram artifícios
para produzir um pouco de claridade.
Líamos livros, os seus gestos: mímicas dos meus, em tudo estavam dizimadas as pegadas da solitude.
Mas ainda nos atormentava a sua origem. Tantas teorias para explicar a minha própria, que não podíamos abandonar
o assunto sem indagações. Paradoxal o nosso relacionamento, se disséssemos basta: sejamos felizes assim, sem o
conhecimento, estaríamos fadados ao desgosto, pois a busca sempre nos moveu. Ela não poderia, portanto, ser evitada. A única saída
para nós dois era a resposta.
O vinho nunca bastava para as noites de discussões calorosas. Bebíamos da mesma taça, falávamos pela mesma voz,
mas percebia argumentos tão díspares!
Até que você se ergueu arrogante, ficamos frente a frente quando fui puxado pelo colarinho, um terrível esgar
dominava a sua face escura, exigindo ardentemente uma explicação para tudo. Aflito, tentei abraçá-la, como se houvesse nesse
gesto a única resposta cabível para aquela indagação e apática, você se aquietou e foi aí que senti a lâmina afiada da sua
incompreensão. Sorrateiro, me desprendi do enlace e com um sopro apaguei a chama para nunca mais reacendê-la.
Só assim prosseguir em vasta escuridão.
One
i became a very fearful man. i already knew that, last time we met you told me that the whole time
we knew each other you felt afraid, and this fear bothers me more than your other fears, for sure.
people scare me. i don't care about how afraid you are of people, i care about how afraid you are of
me.
Whisner Fraga
segunda-feira. mesmo antes nada podia ser feito? orar. não adianta falar com mais ninguém, não há quem me
conheça. nem eu a conheço. ainda assim sabe mais que os outros. se você diz. é o que penso. fico preocupado com você. e o que
posso dizer?, que me alivia sua preocupação?, não seria verdade. nem é minha intenção qualquer espécie de alívio, preocupar
me basta. certo. é um vínculo nosso, não? foi aí que tudo começou, não foi? sim, e depois outras coisas se juntaram. sim,
outras coisas sempre se amalgamam. sempre? creio nisso. entendo, e como desfazer essa união? impossível nos reduzirmos a
tanto, ao menos para nós. é nisso que acredita? não, é o que vejo. e o que você sente, corresponde ao que vê? o que sinto não
importa. em mim é essa necessidade de reclusão, não consigo mais lidar com a idéia de ter de me comunicar com as pessoas,
convivo, converso, mas não há empatia, não há o que me prenda a elas. eu sempre fui assim, talvez você me entenda, afinal.
talvez, mas minhas formas de lidar com as coisas são diferentes das suas, eu já lhe disse em uma das nossas conversas recentes
que acredito que você tenha razão ao pensar como pensa, não é? acho que não, você jamais me deu razão na mais pífia
coisa. ou talvez sua memória o esteja traindo, e você a mim. trai-se de tantas formas, é o que comentam. o que acontece com
você? como assim, o que acontece comigo? como você está? desintegrando. como assim? rompendo com algo, ainda não sei
bem o que é, dizer que seja o mundo é muito por enquanto, mas desintegrando, rompendo, me entregando. não me
surpreende. o que não deixa de ser doído. se sente dor, ainda há algo, não é? sempre se sente algo. quando digo que não me
surpreende não é porque seja você, mas porque vejo que tem acontecido com alguns personagens de minha vida algo semelhante,
muito metodicamente semelhante, as árvores secas que lembram suas folhas, creio não haver mais nada do que a entrega de
que você fala. penso que assim seja, a entrega. sinto-a como uma espécie de fim. é somente isso. não sei se é o que posso
ter, gostaria de ter um fim menos tangível que a morte. às vezes nem a morte é o fim. nunca tivemos realmente um ao outro,
não é? e o que seria esse ter um ao outro? boa pergunta. pois é. quem sabe tenha sido essa morte, mesmo não sendo uma
pessoa querida. quem sabe. perder alguém é triste. sim. você consegue entender como sou? sim, entendo porque sou como
você, eu acho, mas sinto sua falta, como você também já sentiu a minha antes, quando os papéis estavam invertidos, você
esperava o meu contato e eu não o procurava, lembra-se? sim. talvez como me sinto seja da mesma forma que você se sentiu. a
diferença é que me lembro de você ter me cobrado e se chateado comigo, eu não me chateio com você, só penso que ambos
perdemos algo com isso, algo importante. eu sei. na situação inversa, eu podia fazer algo, agora, não sei de nada que possa fazer
que já não tenha feito para lhe mostrar que você era importante, mesmo antes de saber do bebê e de todas as mudanças que
vem acontecendo comigo, recordo-me de ter lhe pedido inclusive para que nos encontrássemos. sim, mas o mais importante
é que tenho medo, tornei-me um homem muito medroso. eu já sabia disso, da última vez em que nos vimos você me disse
que em todo o tempo em que nos conhecemos você sentiu medo, e esse medo me importa mais do que seus outros medos, é
claro. as pessoas me assustam. não me importo com seu medo das pessoas, me importo com seu medo de mim. ainda assim
você é importante pra mim. sim, mas isso não me põe na sua vida, quer dizer, posso ter sido importante e ser uma lembrança
dessa importância, de algum momento, você não pode dizer que eu faço parte da sua vida porque você pensa em mim. não é
isso, é mais. eu gostaria de entender, mas acho que essas coisas são diferentes para mim e para você. sim, são sim, eu até
tento me importar com as pessoas, mas não dá. não estou falando das pessoas. tampouco eu. então você tenta se importar
comigo, mas não dá. não, estava falando de mim, me importo com você mais do que gostaria e muito menos do que você gosta.
você não sabe o quanto eu gostaria, é menos uma questão de quanto que uma questão de como, por que diz que se importa
comigo mais do que gostaria?, se não se importasse tanto, talvez estivesse mais perto... e importaria muito mais se estivesse
perto. se se importasse menos, não teria medo. sim, mas me importo, que fazer? não sei mesmo, não é meu medo, eu tive medo
quando percebi o seu, só conheço como é o meu, o que me pertence. não pense você que faz muito, ambos fizemos pouco a
respeito de nós. sim, eu não sei quanto a você, mas no meu caso foi uma escolha, de certa forma, não fazer tanto quanto poderia
ou queria. e por quê? acho que para não me sentir sozinha com você. e se sente assim comigo? não, mas me sentiria hoje
em dia se tivesse feito mais por nós dois. disso nada pode afirmar. sinto muito, sinto porque agora não vejo o que posso
fazer e nenhum de nós fez algo quando poderia ter feito. o mais irônico é que quando estou com você, não sinto medo. ainda
assim sente medo de estar comigo. enquanto estou não, mas depois tenho medo de voltar a estar com você. por quê? não sei,
mas pensarei a respeito. quando você me diz que irá pensar em algo e depois me dirá, a sensação que tenho é a de que nunca
saberei. talvez, mas isso não quer dizer que não pensei. e que você foi o tempo todo desleixado conosco. mas fui autêntico. antes
não tivesse sido, então. aonde nos levará este entendimento tardio?, as uvas já apodreceram demais. há tempo para tudo, diz
a sua bíblia, chegará o de sabermos o quanto avançamos. sinto muito pelo seu pai. não é a morte que me importa e sim a
ausência. uma é conseqüência da outra e contra as duas não há armas eficientes. e me fazem querer você por perto. tenho vontade
de conhecer a sua filha. gostaria que você a conhecesse, seria uma experiência para nós dois. e é sempre grave viver desses
ensaios, parecemos personagens do murilo rubião. grave? sim, você não vê gravidade nisso tudo?, não enxerga dois doutos
discutindo as trivialidades de um relacionamento? e não crescemos nada? e o que é crescer?, de minha parte penso que não, ainda
estou vivendo com a mesada do meu pai, trinta e seis anos e desempregado, duro, você acha que posso ser chamado de
homem? se é justamente o menino que eu anseio em você... e agora, o que será desse medo, tão truffautiano, decisivo, ingênuo?
será o que tiver de ser, como nós. como nada. é, talvez. talvez.
the man who reminisced
the woman is tamed to suffice her man and obviously to serve him, I suspected that his
satisfaction found shelter in the finding and knowing these male tricks recognized that if violets corrupt,
roses, the white ones mostly, betray, and this way she knew to treat one and of couse, the other.
Whisner Fraga
À Lucilene
", são eles, todos, os vorazes culpados de tantas memórias destruídas,"
(José Saramago, em Todos os Nomes)
"como uma árvore seca preserva ainda a memória de suas folhas."
(Tatiana Leão em seu blog Fim da Mente)
não é o peso que deposita seu jugo nos ombros ou mesmo a sua cautelosa presença, mas a inexistência de uma
certeza consciente e é por isso que há tanto a recordar?, ela entretanto já se dirigia a um outro quarto e lá inumeráveis arquivos,
porque aos números impuseram somente tarefas de exatidão e jamais aquelas que dizem respeito a memórias, sendo assim o
motivo pelo qual freqüentemente dizemos um certo dia em vez de em vinte e quatro de maio de mil novecentos e oitenta e dois
beirando as três da tarde, as recordações se impõem às contas, os fatos ao desassossego dos algarismos, já supunha um
amontoado de caixas e gavetas incomodamente espalhadas, mas a minha imaginação humilde não previa tamanha organização,
como se tivesse completado, nesses quinze anos em que ficamos distantes, variados cursos de catalogação, e em poucos
minutos estendia-me um bilhete e eu ri achando impossível um encontro defasado de tanto tempo e embora tenha aprendido a
assimilar da incoerência do mundo tanto a insensatez quanto a surpresa, surpreendi-me ao encontrá-las emaranhadas em
também inesperados tempo e lugar, reconheci a caligrafia cinzelada e precisa do futuro engenheiro, ela compreendendo
devolveu o papel à sua origem, fosse desaparecer ou mesmo o esquecimento, e antes que lhe cedesse o triunfo, demandei a
coerência daqueles arquivos e indicando-me os móveis, explicou que as gavetas continham as fotos e estavam apartadas não por
qualquer definição de época, indicando as etiquetas, expunha que distavam umas das outras por questões de prazer, não
organizacional, mas o outro, que nos impedem de propalar a estranhos e às vezes até aos mais chegados, onde foi escrito que há amigos
mais próximos do que irmãos?, estas proximidades não carecem julgamentos, era que falava, portanto, do prazer carnal. e
embotava-se o perene em sua face, dando vez a um sorriso congestionado embora radiante, notando a minha incompreensão
adiantou-se: dos outros, e exibindo uma foto cujo colorido se mantinha intacto, como se a cópia houvesse sido feita há pouco, e
apontando a imagem inquiriu sobre sua beleza e como não a conhecera em semelhantes perfeições, invejei o fotógrafo, que
partilhou não apenas o corpo exuberante, mas também toda aquela plenitude, e o que deveria concluir dessa exposição?, ela outra
vez, previsse a dúvida e que da mesma forma necessitava encadear as peças de modo correto, arriscando, caso contrário, que
tirasse minhas conclusões, nem sempre lineares, como bem se lembrou, prosseguiu: era dele, jamais satisfiz outro homem
naquela intensidade. desejando, como por extensão e definição o fazem os demais seres, atê-la à ruína da minha vida, por meio
desta lembrança e por simples competição, quis ocupar o lugar daquele e fosse o desespero, procurei seu rosto e não restava
que decepção, apontei as caixas e ali as flores, e divididas não em espécies, mas em aromas e maciez, embora possuísse o
olfato como o tato treinados para distinguir entre essências de canela e olmos a que melhor a sensibilizasse, bem como a
brandura do contato de suas mãos, não era por suas habilidades que desunira begônias e gerânios, mas pelos outros, e antes que
concluísse pelo altruísmo, ou desconfiasse de educações mineiras, em que a mulher é domesticada para bastar a seu homem e
obviamente servi-lo, pressenti que a sua satisfação encontrava guarida na descoberta e conhecedora das artimanhas masculinas, que
erigem couraças mais portentosas do que pêlos no peito ou mesmo barba por fazer, ou silêncios recalcando ignorâncias em vez
de reflexões, antes de averiguar pergunta a pergunta, mesmo que desviasse os olhos amendoados se a encarassem, escuros
como tempestade vindoura, reconhecia que se as violetas corrompem, as rosas, sobretudo brancas, traem, e assim entendia
como tratar a um e claro, a outro. e portanto correspondia a acautelar sobre a natureza de seus sexos, precavendo-se para não
sentir além do que planejara, pois se aos homens atribuem frialdades, às mulheres, cautela e planejamento. e as fotos, com
idêntica classificação, não as encontrando a esbarrar com um lírio ou ainda um bilhete, fato raríssimo, ao que pude concluir,
dada a intensidade que sobraria a este agrado, desconhecendo se seria, a exemplo de maiakovski, toda coração, e em caso
afirmativo, carregasse em seu corpo-âmago tamanha resistência para enfrentar demônios ou, como dormíssemos, um ruído
inesperado rasgando a quietude de nossos sonos, um elefante de porcelana a tombar e após, ficar sem uma orelha, zombei de seu
susto, proferindo se tratar de seus fantasmas, que todos nós os carregamos, mesmo em tardes de verão ou em dias de
namorados, e dessa raridade posso supor que seja tamanha, que sequer tenha acontecido, isto é, fotografia, flor e bilhete ladeados, e
como cobicei aquela posição, somente para imprimir na hierarquia de seus valores, em cume mais elevado, meu nome. que
poder nos dão em batismos, e que responsabilidade!, honrar não o verbo, que este para nós não representa muito, visto que
alheio, pertencendo desde a bíblia a uma criatura superior, mas o substantivo, e a tarefa que temos de completar antes que o fim
o exclua com todas as letras, é suplantá-lo, salvá-lo à nossa destruição. tendo recolhido, em escalas menores ou mais
importantes, a impressão que me sugeriram as matérias, e portanto me doutrinado com a facilidade do transitório, velando apenas por
um passado que não me tenha incitado alegrias irrestritas ou infelicidades excessivas, vertido em doses controláveis, como
um resto de cachorro que não nos valeu como melhor amizade ou que prestava somente para coisas práticas, por exemplo,
buscar o jornal ferozmente lançado pelo jornaleiro à soleira da porta, quando já fatiava o pão ou enchia o copo com suco de
laranja, e ainda assim não logro deste cão a coleira ou uma pata devidamente conservada em formol e transformada em
berloque, sequer um retrato, talvez uma namorada que não tenha excedido as raias do sexo, também dela não guardaria a
camisinha da última noite, ou a calcinha do primeiro orgasmo, ignorando, portanto, as razões para se ocupar com tantas provas de
que o tempo ocorreu como dizem os papéis ou as flores, perdendo, neste caso, o encanto da invenção, porque se expusesse
que havia sentido uma decisiva paixão por ela, imediatamente retrucaria, de posse de um bilhete de dezesseis anos,
retorquindo que a amava, conforme pode ser lido na linha dois do referido documento, e o meu respeito cartesiano pela lógica se
encontraria coagido a aceitar como amor o que a experiência dos anos me fez inferir como tesão, intuindo sábia a minha avó, que
ainda hoje sentencia que recordar é sofrer duas vezes, só assim o é, porque do intangível brota a frustração, e a parte todas as
coisas, que devesse estar ali pela quitação de uma promessa antiga, já que em seu cérebro era vazio onde me detive, encostado
na mureta, de papo com o professor de história, a mirar o sorriso tanto de derrota quanto de galhofa, ou em outra ocasião,
já de cabelos compridos (e você um dia esteve assim?) antevendo a paciência e também que minha cabeça contivesse
afinal um sistema mais preciso de arquivos, dotado de tecnologias orgânicas que permitiam o acesso a eles de modo mais
rápido ou aleatório, embora desse hábito, o de acessar as pastas, me utilizasse apenas nos dois casos citados, o do cachorro
imprestável e o da namorada substituída, e posso saber o que prometi?, ela avançou. você. e trata de mim esse seu resgate?
tão-somente. pronto, me tem. não, e que daqui a dois, dez anos o que possuirei de verdade é este agora que tanto a atormenta,
havendo, portanto, uma única maneira de me diferenciar dos demais. sim, sei do que fala, é de você, não guardará retrato ou flor
ou carta, mas não se esquecerá, e daria tudo para que mudasse de idéia. e por que tanto assim? porque me machucará. e se
importa tanto com ferimentos? os dessa espécie sim. e de que espécie são? daquela do rancor. que pelo menos eu seja um caso
que não pertença aos dois que você expôs. disso eu não posso saber agora. então só me resta uma atitude: que nos duremos
o ínfimo, não se guarda tão pouco. ou o máximo, que nos amalgamamos até nos desprezarmos. ou. e que pode ser, na sua
aritmética, esta bagatela, um dia, dois, cinco? e essa abundância, cinco, onze anos? teremos de descobrir. e arriscar. sim, e arriscar.
These short stories were called in the original "Quando abraço minha sombra," "Um," and "o homem que lembrava,".
Whisner Fraga is a writer and the author of two
short-story books (Coreografia dos Danados e A cidade
devolvida) as well as the poetry work As três infâncias ou o livro dos
verbos, still unpublished. You may contact the author at
whisner@sc.usp.br