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Brazzil - Fiction - April 2004
 

Brazilian Stone Age

The poor Indian rolled his eyes.
He started to count, but did not
go beyond the number two.
There was nothing in this world
that would make him adopt the
abstract concept of the numbers
three, four, or twenty. "What is
wrong with my way of counting?"
he asked. "I only need
two numbers to count
the universe."

Willer de Oliveira


When the young Antônio Homoxi woke up in the morning, he didn't know that the world had been shocked by the news that seventy-three Yanomami Indians had been killed by gold miners in the equatorial Amazon, in retaliation for the new reservation created by the Brazilian government.

To make things worse, the city and the jungle were full of conflicting information. There was talk about the killing, but not a single body had been found. Some said the Indians had cremated their dead and had eaten the ashes with bananas, as part of a funeral ritual. Others joked about the accuracy of the number of victims, since the Yanomami people, one of the most primitive tribes, still in the Stone Age, did not have much notion about numbers, time, and space.

"These are stupid Indians who cannot count beyond the number two," said a miner lobbyist to a television station. "Above two, they clap their hands and say `many, many, many' to express higher numbers. The massacre never happened. It's pure invention on the part of the Indians and the communist priests."

Meanwhile, on the upper banks of the Orinoco River, the missionary sister Maria Carmela went over an elementary math table with the 17-year-old Antônio Homoxi, the sole survivor of the massacre.

"You already know how to read and write in Portuguese. Now you need to learn how to count. Don't embarrass me in front of the Archbishop and the international press with your stubborn way of counting. Tell everybody that you are alive because you hid from the white men while they mutilated the bodies of your people. You counted them all. Now, repeat with me, Antônio:

"One + one = two

One + two = three...."

The poor Indian rolled his eyes in frustration. He started to count, but did not go beyond the number two. There was nothing in this world that would make him adopt the abstract concept of the numbers three, four, or for that matter, twenty.

"What is wrong with my way of counting?" asked the perplexed Indian. "I only need two numbers to count the universe. And if I am not mistaken, isn't this the way your computers operate?"

"Yes... With zeros and ones."

"Well then," said Antônio, "mine is a binary system too: one, two. The number three is nothing more, nothing less than two plus one. Four is two plus two; five is two plus two plus one. We can go on forever, ad infinitum. Very simple to me."

And with determination, totally oblivious to the nun's presence, the Indian proceeded undistracted in his ritual. Clapping his hands with a high and low pitch to differentiate the number one from the number two, like in a Morse code, Antônio Homoxi recited the astronomic, but calculable number 73 of the victims of the massacre.

Willer de Oliveira (b. 1954) was born in Rio de Janeiro. He studied chemistry at Rio de Janeiro Federal University and graduated with a MS degree in Forest Products and a PhD in Materials Science from Virginia Tech in the US. He works as a Chemical Engineer and lives in Mt. Pleasant, South Carolina. He can be reached at willer2002@hotmail.com.

Idade da Pedra

O pobre índio revirava os olhos.
Começava a contar, e não ia
além do dois. Não havia nada
que o fizesse adotar o conceito
extremamente complicado do
número três, do quatro, ou do
vinte. "O que há de errado com
a nossa maneira de contar?"
perguntou. Só precisamos de
dois números para contar
o universo."

Willer de Oliveira


Quando o jovem Antônio Homoxi acordou naquela manhã, ele não sabia que tinha chocado o mundo com a notícia de que setenta e três índios Yanomamis haviam sido assassinados pelos mineiros na Amazônia equatorial, em retaliação a uma nova reserva indígena criada pelo governo brasileiro.

Para piorar ainda as coisas, a cidade e a floresta estavam vivas de informações conflitantes. Diziam que 73 índios haviam morrido, mas nenhum fora ainda encontrado, pois era hábito dos Yanomamis cremarem os corpos e os comerem com banana, como parte de um ritual funerário; outros gracejavam da veracidade do número das vítimas, uma vez que os Yanomamis, uma das mais antigas tribos ainda na idade da pedra, não tinham muita noção sobre números, tempo, e espaço.

—Trata-se de estúpidos índios que não sabem contar além do número dois —dizia um dos mineiros lobistas numa entrevista a uma estação de televisão.

—Além do dois, eles batem palmas e dizem muito, muito, muito para expressarem qualquer número. Este massacre nunca existiu.

Enquanto isto, nos altos bancos do rio Orinoco, a irmã missionária Carmela lia uma tabuada ao índio de dezessete anos Antônio Homoxi, o único sobrevivente do massacre.

—Você já sabe ler e escrever em português. Agora só precisa aprender a contar. Não me faça passar vergonha perante o arcebispo e a imprensa internacional com a sua maneira cabeçuda de contar. Diga que se salvou porque se escondeu dos homens brancos enquanto estes mutilavam os corpos dos Yanomamis, seu povo. Você os contou todos. Repita comigo Antônio:

—Um + um = dois

—Um + dois = três ....

O pobre índio revirava os olhos com aflição. Começava a contar, e não ia além do número dois. Não havia nada neste mundo que o fizesse adotar o conceito abstrato e extremamente complicado do número três, do quatro, ou do vinte.

—O que há de errado com a nossa maneira de contar? —perguntava perplexo o índio —Só precisamos de dois números para contar o universo. E se não me engano, não é desta maneira que os seus computadores operam?

—Sim... Com zeros e uns.

—Pois então —disse Antônio —operamos com uns e dois.

—Um, dois. O três não é nada mais nada menos que dois mais um. O quatro, dois mais dois; o cinco, dois mais dois mais um. Podemos continuar, deste jeito, ad infinitum. Compreende?

E assim falando, com paciência e determinação, totalmente esquecido da presença da freira, o índio prosseguia com o seu ritual. Modulando o ritmo das palmas em tom alto e baixo para diferençar o um do dois, qual no código Morse, Antônio Homoxi recitava o astronômico, mas calculável número 73 das vítimas do massacre.



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