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 He was good, very good. Good all the time and everywhere.
His kindness caused me nausea. I don't know why, but it did. By Nelson Rodrigues
Personagens
ALAÍDE
LÚCIA
PEDRO
MADAME CLESSI (cocote de 1905)
MULHER DE VÉU
PRIMEIRO REPÓRTER (Pimenta)
SEGUNDO REPÓRTER
TERCEIRO REPÓRTER
QUARTO REPÓRTER
HOMEM INATUAL
MULHER INATUAL
SEGUNDO HOMEM INATUAL
O LIMPADOR (cara de Pedro)
HOMEM DE CAPA (cara de Pedro)
NAMORADO E ASSASSINO DE CLESSI
LEITORA DO "DIÁRIO DA NOITE"
GASTÃO (pai de Alaíde e de Lúcia)
D. LÍGIA (mãe de Alaíde e de Lúcia)
D. LAURA (sogra de Alaíde e de Lúcia)
PRIMEIRO MÉDICO
SEGUNDO MÉDICO
TERCEIRO MÉDICO
QUARTO MÉDICO
MULHER DA "PACIÊNCIA"
DANÇARINA (lupanar)
TERCEIRA MULHER (lupanar)
Quatro Pequenos Jornaleiros
PRIMEIRO ATO
(Cenáriodividido em 3 planos: 1° plano: alucinação; 2° plano: memória; 3°
plano: realidade. Quatro arcos no plano da memória; duas escadas laterais. Trevas.)
MICROFONEBuzina de automóvel. Rumor de derrapagem violenta. Som de
vidraças partidas.
Silêncio. Assistência. Silêncio.
VOZ DE ALAÍDE (microfone)Clessi... Clessi...
(Luz em resistência no plano da alucinação. 3 mesas, 3 mulheres escandalosamente
pintadas, com vestidos berrantes e compridos. Decotes. Duas delas dançam ao som de uma
vitrola invisível, dando uma vaga sugestão lésbica. Alaíde, uma jovem senhora, vestida
com sobriedade e bom gosto, aparece no centro da cena. Vestido cinzento e uma bolsa
vermelha.)
ALAÍDE (nervosa)Quero falar com Madame Clessi! Ela está?
(Fala à 1ª mulher que, numa das três mesas, faz "paciência". A mulher
não responde.)
ALAÍDE (com angústia)Madame Clessi estápode-me dizer?
ALAÍDE (com ar ingênuo)Não responde! (com doçura) Não quer responder?
(Silêncio da outra.)
ALAÍDE (hesitante)Então perguntarei (pausa) àquela ali.
(Corre para as mulheres que dançam.)
ALAÍDEDesculpe. Madame Clessi. Ela está?
(2ª Mulher também não responde.)
ALAÍDE (sempre doce)Ah! também não responde?
(Hesita. Olha para cada uma das mulheres. Passa um homem, empregado da casa, camisa de
malandro. Carrega uma vassoura de borracha e um pano de chão. O mesmo cavalheiro aparece
em toda a peça, com roupas e personalidades diferentes. Alaíde corre para ele.)
ALAÍDE (amável)Podia-me dizer se madame...
(O homem apressa o passo e desaparece.)
ALAÍDE (num desapontamento infantil)Fugiu de mim! (no meio da cena,
dirigindo-se a todas, meio agressiva) Eu não quero nada demais. Só saber se Madame
Clessi está!
(A 3ª mulher deixa de dançar e vai mudar o disco da vitrola. Faz toda a mímica de
quem escolhe um disco, que ninguém vê, coloca-o na vitrola também invisível. Um samba
coincidindo com este último movimento. A 2ª mulher aproxima-se lenta, de Alaíde.)
1ª MULHER (misteriosa)Madame Clessi?
ALAÍDE (numa alegria evidente)Oh! Graças a Deus! Madame Clessi, sim.
2ª MULHER (voz máscula)Uma que morreu?
ALAÍDE (espantada, olhando para todas)Morreu?
2ª MULHER (para as outras)Não morreu?
1ª MULHER (a que joga "paciência")Morreu. Assassinada.
3ª MULHER (com voz lenta e velada)Madame Clessi morreu! (brusca e
violenta) Agora, saia!
ALAÍDE (recuando)É mentira. Madame Clessi não morreu. (olhando para as
mulheres) Que é que estão me olhando? (noutro tom) Não adianta, porque eu não
acredito!...
2ª MULHERMorreu, sim. Foi enterrada de branco. Eu vi.
ALAÍDEMas ela não podia ser enterrada de branco! Não pode ser.
1ª MULHEREstava bonita. Parecia uma noiva.
ALAÍDE (excitada)Noiva? (com exaltação) Noivaela? (tem um riso
entrecortado, histérico) Madame Clessi, noiva! (o riso, em crescendo, transforma-se em
soluço) Parem com essa música! Que coisa!
(Música cortada. Ilumina-se o plano da realidade. Quatro telefones, em cena, falando
ao mesmo tempo. Excitação.)
PIMENTAÉ o Diário?
REDATORÉ.
PIMENTAAqui é o Pimenta.
CARIOCA-REPÓRTERÉ A Noite?
PIMENTAUm automóvel acaba de pegar uma mulher.
REDATOR D'A NOITEO que é que há?
PIMENTAAqui na Glória, perto do relógio.
CARIOCA-REPÓRTERUma senhora foi atropelada.
REDATOR DO DIÁRIONa Glória, perto do relógio?
REDATOR D'A NOITEOnde?
CARIOCA-REPÓRTERNa Glória.
PIMENTAA Assistência já levou.
CARIOCA-REPÓRTERMais ou menos no relógio. Atravessou na frente do bonde.
REDATOR D'A NOITERelógio.
PIMENTAO chofer fugiu.
REDATOR DE DIÁRIOO.K.
CARIOCA-REPÓRTERO Chofer meteu o pé
PIMENTABonita, bem vestida.
REDATOR D'A NOITEMorreu?
CARIOCA-REPÓRTERAinda não. Mas vai.
(Trevas. Ilumina-se o plano da alucinação.)
ALAÍDE (trazendo, de braço, a 1ª mulher, para um canto) Aquele homem ali.
Quem é?
(Indica um homem que acaba de entrar e que fica olhando para Alaíde.)
3ª MULHERSei lá! (noutro tom) Vem aos sábados.
ALAÍDE (aterrorizada)Tem o rosto do meu marido. (recua, puxando a outra)
A mesma cara!
3ª MULHERVocê é casada?
ALAÍDE (fica em suspenso)Não sei. (em dúvida) Me esqueci de tudo. Não
tenho memóriasou uma mulher sem memória. (impressionada) Mas todo o mundo tem um
passado; eu também devo terora essa!
3ª MULHER (em voz baixa)Você o que é, é louca.
ALAÍDE (impressionada).Sou louca? (com doçura) Que felicidade!
2ª MULHER (aproximando-se)O que é que vocês estão conversando aí?
3ª MULHER (para Alaíde)Isso é aliança?
ALAÍDE (mostrando o dedo)É.
3ª MULHER (olhando)Aliança de casamento
2ª MULHERA da minha irmã é mais fina.
3ª MULHER (céptica)Grossa ou fina, tanto faz. (dá passos de dança)
ALAÍDE (excitada)Oh! Meu Deus! Madame Clessi! Madame Clessi! Madame
Clessi!
(O homem solitário aproxima-se. Alaíde afasta-se com a 3ª mulher.)
ALAÍDEEle vem aí! Digam que eu não sou daqui! Depressa! Expliquem!
3ª MULHER (fala dançando samba)Eu dizer o que, minha filha!
O HOMEMÉ nova aqui?
ALAÍDE (modificando a atitude inteiramente)Não, não sou nova. Não
tinha me visto ainda?
O HOMEM (sério)Não.
ALAÍDE (excitada, mas amável)Pois admira. Estou aquideixe ver. Faz
uns três meses...
O HOMEMAgora me lembro perfeitamente.
ALAÍDE (sardônica)Lembra-se de mim?
O HOMEMMe lembro, sim.
ALAÍDE (cortante)Bufão!
O HOMEM (espantado)O quê?
2ª MULHER (apaziguadora)Desculpe, doutor. Ela é louca (para Alaíde)
Madame não gosta disso!
O HOMEMPor que é que põem uma louca aqui?
ALAÍDE (excitada)Bufão, sim. (desafiadora) Diga se já me viu alguma
vez? Diga, se tem coragem!
O HOMEM (formalizado)Vou-me queixar à Madame. Não está direito!
2ª MULHER (para Alaíde, repreensiva)Viu? Estou dizendo!
ALAÍDEDiga! Já me viu? Eu devia esbofeteá-lo...
O HOMEM (oferecendo a face)Quero ver.
ALAÍDE (numa transição inesperada)...mas não quero. (passa da
violência para a doçura) Estou sorrindoviu? Aquilo não foi nada! (sorri
docemente).
O HOMEMVamos sentar ali?
ALAÍDE (sorrindo sempre)Estou sorrindo, sem vontade. Nenhuma. Vou com
vocênem sei por quê. Sou assim. (doce) Vamos, meu amor?
O HOMEM (desconfiado)Por que é que você está vestida diferente das
outras? (as outras estão vestidas de cetim vermelho, amarelo e cor-de-rosa)
ALAÍDE (doce)Viu como eu disse"meu amor"! Eu direi outras
vezes"meu amor"e coisas piores! Madame Clessi está demorando!
(noutro tom) Mas ela morreu mesmo?
O HOMEM (numa gargalhada)Madame Clessi morreugorda e velha.
ALAÍDE (num transporte)Mentira! (agressiva) Gorda e velha o quê! Madame
Clessi era linda.
(sonhadora) Linda!
O HOMEM (continuando a gargalhada e sentando-se no chão)Tinha varizes!
Andava gemendo e arrastando os chinelos!
ALAÍDE (obstinada)Mulher gorda, velha, cheia de varizes, não é amada! E
ela foi tão amada!
(feroz) Seu mentiroso! (Alaíde esbofeteia o homem, que corta bruscamente a
gargalhada).
(A 3ª mulher vem, em passo de samba, e acaricia a cabeça do homem).
1ª MULHEREle disse a verdade. Madame tinha varizes.
ALAÍDE (sonhadora)Depois de morta foi vestida de noiva!
1ª MULHERBobagem ser enterrada com vestido de noiva!
ALAÍDE (angustiada)Madame Clessi! Madame Clessi!
O HOMEM (levantando-se, grave)Agora vou-me embora fui esbofeteado e é o
bastante.
ALAÍDE (com uma amabilidade nervosa)Ah! Já vai? Quer o número do meu
telefone?
O HOMEM (sem dar atenção)Nunca fui tão feliz! Levei uma bofetada e não
reagi.
(cumprimentando exageradamente) Me dão licença.
ALAÍDE (correndo atrás dele)Não vá assim! Fique mais um pouco!
O HOMEMAdeus, madame. (sai)
(A 3ª mulher dança com uma sensualidade ostensiva. Passa o empregado, de volta, com a
vassoura, o pano de chão e o balde.)
ALAÍDE (saturada)Ah! meu Deus! Esse também!
1ª MULHERQuem?
ALAÍDEAquele. Tem a cara do meu noivo. Os olhos, o nariz do meu
noivoestão-me perseguindo. Todo o mundo tem a cara dele.
(2 mesas e 3 mulheres desaparecem. Duas mulhereslevam 2 cadeiras. As duas mesas
são puxadas para cima. Surge na escada uma mulher. Espartilhada, chapéu de plumas. Uma
elegância antiquada de 1905. Bela figura. Luz sobre ela.)
ALAÍDE (num sopro de admiração)Oh!
MADAME CLESSIQuer falar comigo?
ALAÍDE (aproximando-se, fascinada)Quero, sim. Queria...
MADAME CLESSIVou botar um disco. (dirige-se para a invisível vitrola, com
Alaíde atrás.)
ALAÍDEA senhora não morreu?
MADAME CLESSIVou botar um samba. Esse aqui não é muito bom. Mas vai
assim mesmo.
(Samba surdinando.)
MADAME CLESSIEstá vendo como estou gorda, velha, cheia de varizes e de
dinheiro?
ALAÍDELi o seu diário.
MADAME CLESSI (céptica)Leu? Duvido! Onde?
ALAÍDE (afirmativa)Li, sim. Quero morrer agora mesmo, se não é verdade!
MADAME CLESSIEntão diga como é que começa. (Clessi fala de costas para
Alaíde)
ALAÍDE (recordando)Quer ver? É assim... (ligeira pausa) "ontem, fui
com Paulo a Paineiras"...
(feliz) É assim que começa.
MADAME CLESSI (evocativa) Assim mesmo. É.
ALAÍDE (perturbada)Não sei como a senhora pôde escrever aquilo! Como
teve coragem! Eu não tinha!
MADAME CLESSI (à vontade)Mas não é só aquilo. Tem outras coisas.
ALAÍDE (excitada)Eu sei. Tem muito mais. Fiquei!... (inquieta) Meu Deus!
Não sei o que é que eu tenho. É uma coisanão sei. Por que é que eu estou aqui?
MADAME CLESSIÉ a mim que você pergunta?
ALAÍDE (com volubilidade)Aconteceu uma coisa, na minha vida, que me fez
vir aqui. Quando foi que ouvi seu nome pela primeira vez? (pausa) Estou-me lembrando!
(Entra o cliente anterior com guarda-chuva, chapéu e capa. Parece boiar.)
ALAÍDEAquele homem! Tem a mesma cara do meu noivo!
MADAME CLESSIDeixa o homem! Como foi que você soube do meu nome?
ALAÍDEMe lembrei agora! (noutro tom) Ele está-me olhando. (noutro tom,
ainda) Foi uma conversa que eu ouvi quando a gente se mudou. No dia mesmo, entre papai e
mamãe. Deixe eu me recordar como foi . Já sei! Papai estava dizendo: "O negócio
acabava..."
(Escurece o plano da alucinação. Luz no plano da memória. Aparecem pai e mãe de
Alaíde.)
PAI (continuando a frase)...numa orgia louca."
MÃEE tudo isso aqui?
PAIAqui, então?!
MÃEAlaíde e Lúcia morando em casa de Madame Clessi. Com certeza, é no
quarto de Alaíde que ela dormia. O melhor da casa!
PAIDeixa a mulher! Já morreu!
MÃEAssassinada. O jornal não deu?
PAIDeu. Eu ainda não sonhava conhecer você. Foi um crime muito falado.
Saiu fotografia.
MÃENo sótão tem retratos dela, uma mala cheia de roupas. Vou mandar
botar fogo em tudo.
PAIManda.
(Apaga-se o plano da memória. Luz no plano da alucinação.)
ALAÍDE (preocupada)Mamãe falou em Lúcia. Mas quem é Lúcia? Não sei.
Não me lembro.
MADAME CLESSIEntão vocês foram morar lá? (nostálgica) A casa deve
estar muito velha.
ALAÍDEEstava, mas Pedro... (excitada) Agora me lembrei: Pedro. É meu
marido! Sou casada. (noutro tom) Mas essa Lúcia, meu Deus! (noutro tom) Eu acho que estou
ameaçada de morte! (assustada) Ele vem para cá (refere-se ao homem solitário que se
aproxima).
CLESSIDeixa.
ALAÍDE (animada)Pedro mandou reformar tudo, pintar. Ficou nova, a casa.
(noutro tom) Ah! eu corri ao sótão, antes que mamãe mandasse queimar tudo!
CLESSIEntão?
ALAÍDELá vi a malacom as roupas, as ligas, o espartilho
cor-de-rosa. E encontrei o diário.
(arrebatada) Tão lindo, ele!
CLESSI (forte)Quer ser como eu, quer?
ALAÍDE (veemente)Quero, sim. Quero.
CLESSI (exaltada, gritando)Ter a fama que tive. A vida. O dinheiro. E
morrer assassinada?
ALAÍDE (abstrata)Fui à Biblioteca ler todos os jornais do tempo. Li
tudo!
CLESSI (transportada)Botaram cada anúncio sobre o crime! Houve um
repórter que escreveu uma coisa muito bonita!
ALAÍDE (alheando-se bruscamente)Espera, estou-me lembrando de uma coisa.
Espera. Deixa eu ver! Mamãe dizendo a papai.
(Apaga-se o plano da alucinação. Luz no plano da memória. Pai e mãe.)
MÃECruz ! Até pensei ter visto um vultoando tão nervosa. Também
esses corredores! A alma de madame Clessi pode andar por aí... e...
PAIPerca essa mania de alma! A mulher está morta, enterrada!
MÃEPois é...
(Apaga-se o plano da memória. Luz no plano da alucinação.)
MADAME CLESSIMas o que foi?
ALAÍDENada. Coisa sem importância que eu me lembrei. (forte) Quero ser
como a senhora. Usar espartilho. (doce) Acho espartilho elegante!
CLESSIMas seu marido, seu pai, sua mãe e... Lúcia?
HOMEM (para Alaíde)Assassina!
(Apaga-se o plano da alucinação. Luz no plano da realidade. Sala de operação.)
1° MÉDICOPulso?
2° MÉDICO160.
1° MÉDICORugina.
2° MÉDICOComo está isso!
1° MÉDICOTenta-se uma osteossíntese!
3° MÉDICOOlha aqui.
1° MÉDICOFios de bronze.
(Pausa.)
1° MÉDICOO osso!
3° MÉDICOAgora é ir até o fim.
1° MÉDICOSe não der certo, faz-se a amputação.
(Rumor de ferros cirúrgicos)
1° MÉDICODepressa!
(Apaga-se a sala de operação. Luz no plano da alucinação.)
HOMEM (para Alaíde, sinistro)Assassina!
CLESSI (espantada)O quê?
HOMEM (indicando)Ela! Assassina!
CLESSI (para Alaíde)Você?
ALAÍDE (nervosíssima)Não me pergunte nada. Não sei. Não me lembro.
(num lamento) Se, ao menos; soubesse quem é Lúcia!
HOMEM (angustiado)Não tem ninguém aqui? Quero chope!
ALAÍDE (em pânico)Ele quer-me prender! Não deixe!
CLESSI (assombrada)Você... Matou? Você?
ALAÍDE (desesperada)Matei, sim. Matei, pronto!
HOMEM (queixoso)Meu Deus! Não tem ninguém para me servir. (com
angústia) Ninguém!
(olha para Alaíde) Assassina!
ALAÍDE (patética)Matei. Matei meu noivo.
HOMEMEla disse"matei meu noivo". Foi. Eu assisti.
ALAÍDENão assistiu nada! Não tinha ninguém. Lá não tinha ninguém! E
não foi meu noivo. Foi meu marido!
CLESSI (frívola)Marido ou noivo, tanto faz.
ALAÍDE (histérica, para o homem)Agora me leve, me prendasou uma
assassina.
HOMEMNão prendo. Não tenho nada com isso! (angustiado) Não há ninguém
para me servir?
(melancólico) Ninguém!
CLESSIO senhor tem a cara do marido de Alaíde?
ALAÍDETem, sim. Ele vai dizer que não, mas tem.
HOMEM (grave)Tenho...
(O homem afasta-se. Mesa desaparece. O homem carrega a cadeira.)
Quando quiser carregar o corpo, eu ajudo. (sai)
ALAÍDEEle está ali. Ali.
CLESSI (admirada)Ele quem
ALAÍDE (baixo)Meu marido.
CLESSIVivo?
ALAÍDEMorto.
(Alaíde guia Clessi. Aponta para um invisível cadáver.)
ALAÍDEViu?
CLESSIEstou vendo. Mas você?...
ALAÍDEEu. Olha os pés. Assimtortos. (faz a mímica correspondente)
(Buzina. Rumor de derrapagem. Ambulância. Alaíde e Clessi imóveis.)
CLESSIMas por que fez isso?
ALAÍDE (excitada)Ele era bom, muito bom. Bom a toda hora e em toda parte.
Eu tinha nojo de sua bondade. (pensa, confirma) Não sei, tinha nojo. Estou-me lembrando
de tudo, direitinho, como foi. Naquele dia eu disse: "Eu queria ser Madame Clessi,
Pedro. Que tal?"
(Apaga-se o·pIano da alucinação. Luz no plano da memória.)
PEDROVocê continua com essa brincadeira?
ALAÍDEBrincadeira o quê? Sério!
PEDRONão me aborreça, Alaíde!
ALAÍDEO que é que você fazia?
PEDRONão sei. (rápido) Matava você.
ALAÍDE (céptica)Duvido. Nunca você teria essa coragem!
PEDRO (olhando-a)É. Não teria.
ALAÍDENão disse? Mas se eu fugisse, se me transformasse numa Madame
Clessi?
PEDROSei lá, Alaíde! Sei lá!
ALAÍDE (perversa)Ah! É assim que você responde? Pois fique sabendo...
PEDROO quê?...
ALAÍDE (maliciosa)Não digo! (cantarola "Danúbio Azul")
PEDRO (gritando)Agora diga. Diga.
ALAÍDE (maliciosa)Digo o quê!
PEDROEntão não falasse!
(Trevas. Luz no plano da alucinação, onde já está Alaíde.)
ALAÍDE (num tom sinistro e inesperado)Tem alguém querendo me matar.
CLESSIIsso já sei. O que eu quero saber é como você matou Pedro. Como
foi?
ALAÍDEInteressante. Estou-me lembrando de uma mulher, mas não consigo
ver o rosto. Tem um véu. Se eu a reconhecesse!...
CLESSIDeixa a mulher de véu. Como foi que você matou?
ALAÍDE (atormentada)Estou sentindo um cheiro de flores, de muitas flores.
Estou até enjoada.
(noutro tom) Como eu matei? Nem sei direito. Estou com a cabeça tão embaralhada!
Começo a me lembrar. Só esqueci o motivo. Naquele dia eu estava doida. (trevas)
VOZ DE ALAÍDE (das trevas)Doida de ódio. Talvez por causa da mulher do
véu. Ainda não sei quem ela é, mas hei de me lembrar. Pedro estava lendo um livro.
(Luz no plano da memória. Pedro lê um livro.)
ALAÍDE (provocadora)Você não acaba com esse livro?
PEDROMas, minha filha; comecei agora!
ALAÍDE (com irritação)Por causa dos seus livros você até esquece que
eu existo!
PEDRO (conciliatório)Não seja boba! (levanta-se, quer abraçar a mulher)
ALAÍDE (repelindo-o) Fique quieto! Não, não, já disse!
(Pedro insiste.)
ALAÍDE (sentida)Não quero! Vá ler seu livro, vá!
PEDRO (brincando)Não vou!
VOZ DE CLESSI (microfone)Quem é essa mulher de véu?
PEDRONão seja assim, Alaíde!
ALAÍDE (veemente)Não seja assim o que! Você nem me liga e agora está
com esses fingimentos.
PEDRO (afetuoso)Deixe de ser criança! Venha cá! Um beijinho só!
ALAÍDE (intransigente)Não, não vou, não! Desista. (ameaçadora) Pedro!
(repele-o) Também vou ler!
PEDROO quê?
ALAÍDE (enigmática)Você nem faz idéia! Um diário! O diário de uma
grande mulher!
(Trevas.)
ALAÍDE (nas trevas, ao microfone)Ele não sabia por que eu estava mudada.
Tão mudada. Como podia saber que era um fantasmao fantasma de Madame
Clessique me enlouquecia?
VOZ DE CLESSI (microfone)Só o meu fantasma, não. E os outros dois
fantasmas? A mulher de véu e Lúcia?
VOZ DE ALAÍDEDepois, eu vejo isso. (noutro tom) Se ele soubesse que ia
morrer!...
(Luz no plano da memória. Pedro lê.)
ALAÍDE (provocante)Pedro. (diz o nome de maneira cantante) destacando as
sílabas, PE-DRO;
(silêncio de Pedro) Ah! está assim, hem!
PEDRO (sem se voltar)Quem manda você fazer o que fez?
ALAÍDEEu não fiz nada!
PEDROMe repeliu!
ALAÍDERepeli, sim. Eu não gosto de você! Deixei de gostar há muito
tempo! Desde o dia de nosso casamento...
PEDRO (levanta-se e aproxima-se)Bobinha!
ALAÍDESério!
(Os dois se olham.)
ALAÍDE (ficando de costas)Gosto de outro.
PEDRO (apreensivo)Alaíde! Olhe o que eu lhe disse!
ALAÍDE (acintosa)Gosto, sim. Gosto de outro. Que é que está me olhando?
PEDRO (com certa ameaça)Não continue, Alaíde!
ALAÍDENo mínimo, você está pensando: "Se ela gostasse de outro,
não diria." Acertei?
PEDROVocê é completamente doida!
ALAÍDEPor que é que você não se ofende com as coisas que estou
dizendo?
PEDROVou ligar ao que você diz?
ALAÍDE (irônica)Ah! Não! (exaltada) Faz mal em dizer que não mataria
nunca a sua mulher!... Um marido que dá garantias de vida está liqüidado.
PEDRO (irritado)Não provoque, Alaíde!
ALAÍDE (exaltada)Vou abandonar você, fugir daqui! Quero ser livre, meu
filho! Livre! Tão bom!
PEDRO (impulsivo, pega-lhe o braço, torce-lhe o pulso. Terrível)Não
disse para não me provocarnão disse?
ALAÍDE (desesperada)Aiai! Eu estava brincando, Pedro. Ai! Ai!
PEDRO (sinistro)Nunca mais na sua vida brinque assimnunca mais!
Ouviu?
ALAÍDE (louca de dor)Pelo amor de Deus, Pedroai. Não, Pedro!
Juro...
(Pedro larga. Alaíde esconde o braço machucado nas costas.)
ALAÍDE (ofegando)Você me machucou. Eu estava brincando só...
(Pedro vira-lhe as costas. Acende, com a mão trêmula, um cigarro. Volta-se para
Alaíde.)
ALAÍDE (deixando cair a pulseira)Pedro, minha pulseira caiu. Quer apanhar
para mim? Quer?
(Pedro vai apanhar. Abaixa-se. Rápida e diabólica, Alaíde apanha um ferro,
invisível, ou coisa que o valha, e, possessa, entra a dar golpes. Pedro cai em câmara
lenta.) (Trevas.)
VOZ DE ALAÍDE (microfone)Eu bati aqui detrás, acho que na base do
crânio. Ele deu arrancos antes de morrer, como um cachorro atropelado.
VOZ DE CLESSI (microfone)Mas como foi que você arranjou o ferro?
VOZ DE ALAÍDE (microfone)Sei lá! Apareceu! (noutro tom) Às vezes penso
que ele pode estar vivo! Não sei de nada, meu Deus! Nunca pensei que fosse tão fácil
matar um marido.
(Luz no plano da alucinação. Alaíde e Clessi sentadas no chão e no lugar em que,
supostamente, está o cadáver invisível. As duas olham.)
CLESSIVamos carregar o homem?
CLESSI (acariciando o morto presumivelmente na cabeça)Coitado!
ALAÍDEUm morto é bom, porque a gente deixa num lugar e quando volta ele
está na mesma posição.
CLESSIVocê está mesmo sentindo um cheiro de flores?
ALAÍDE (agitada)Vamos carregar? (noutro tom) Mas para onde, meu Deus!
Não tem lugar!
CLESSlA gente esconde debaixo da cama.
ALAÍDE (desesperada)Mas ele não pode ficar lá a vida inteira. O
empregadoquando for arrumar o quartodescobre.
CLESSlAqui é pior. Pode vir a polícia.
ALAÍDE (agoniada).Vamos logo, então?!
CLESSI (explicando)Olha, eu puxo por um braço e você por outro.
ALAÍDEArrastando o corpo, faz-se menos força.
(Cada uma puxa pelo braço de um invisível cadáver, arrastando-o. Realizam o
respectivo esforço. Arquejam.)
ALAÍDE (ofegando)Isso como pesa! (as duas detêm-se. Fazem como se,
cuidadosamente, estendessem o corpo da vítima no chão. Clessi passa por cima do
cadáver.)
CLESSI (sentando-se no chão)Você agora não está com pena dele?
ALAÍDE (excitada)Pena, eu? Pena nenhuma! Só ódio! (noutro tom) Meu
Deus, o que é que ele fez? (confusa e angustiada) O que foi?
CLESSIEu não sei, minha filha.
ALAÍDE (angustiada)Não consigo me lembrar. Mas fez alguma coisa, sim. No
mínimo, a mulher de véu está metida nisso!...
CLESSlE Lúcia também.
(Entra o homem de capa e guarda-chuva. Aproxima-se. As duas olham, sem dizer palavra.)
HOMEM (perto de Alaíde)Assassina!
(Imobilizam-se, emudecem os personagens. Rumor de derrapagem; grito. Ambulância.)
ALAÍDEQue é que está me olhando? Nunca me viu? (noutro tom)
Prendaande, está com medo? (para Clessi) Você ouviu um grito? Vamos para a
polícia?
HOMEMAssassina!
(Trevas. Luz no plano da memória. Quatro jornaleiros, um em cada arco.)
1° PEQUENO JORNALElROOlha. A NOITE! O DIÁRIO! A mulher que matou o
marido!
2° PEQUENO JORNALElROVai querer? A NOITE! O DIÁRIO! Tragédia em
Copacabana!
3° PEQUENO JORNALElROA NOITE! DIÁRIO! Morreu o coisa!
4° PEQUENO JORNALElRODIÁRIO! Violento artigo! Já leu aí?
1° PEQUENO JORNALElROOlha a mulher que engoliu um tijolo! O DIÁRIO!
(Os quatro jornaleiros repetem, ao mesmo tempo, os pregões acima. Trevas. Luz no plano
da alucinação.)
ALAÍDE (angustiada)Papai e mamãe, todo o mundo vai ler nos jornais. Vão
pôr o meu retrato!
HOMEMPor que você matou seu marido?
CLESSI (intervindo)Ele era muito ruim! O doutor não imagina!
ALAÍDE (veemente)Ruim nada! Era até muito bom. (excitada) Nobre!
CLESSIBoba! Você estragou tudo!
ALAÍDEMas eu não me lembro por que mateinão me lembro!
HOMEM -. Eu sei.
ALAÍDEEntão diga.
HOMEMHá mulher no meio. (confidencial) Uma mulher de véu. Tem um véu
tapando o rosto. Percebeu?
ALAÍDE (surpresa)Uma mulher de véu? (animada) Mas o senhor então deve
saber quem é ela. Tem que saber! Diga!
HOMEMNão digo. (cumprimenta) Com licença. Adeus! (antes de desaparecer)
Lembre-se de seu casamento! (Sai) (Trevas. Luz no plano da realidade. Redação e casa.)
MULHER (gritando)Quem fala?
REDATOR DO DIÁRIO (comendo sanduíche)O DIÁRIO.
MULHER (esganiçada)Aqui é uma leitora.
REDATOR DO DIÁRIOMuito bem.
MULHEREu moro aqui num apartamento, na Glória! Vi um desastre horrível!
REDATOR DO DIÁRIOUma mulher atropelada.
MULHERA culpa toda foi do chofer. Eles passam por aqui, o senhor não
imagina! Então, quem tem criança!...
REDATOR DO DIÁRIOClaro!
MULHERQuando a mulher viu, já era tarde! O DIÁRIO podia botar uma
reclamação contra o abuso dos automóveis!
REDATOR DO DIÁRIOVamos, sim! (desliga)
MULHER (continuando)Obrigada, ouviu?
FIRST OF THREE PARTS. TO BE CONTINUED.
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