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2001 - February 2001
Friday, 01 February 2002 08:54

Wedding Gown

He was good, very good. Good all the time and everywhere. His kindness caused me nausea. I don't know why, but it did.
By Nelson Rodrigues

Personagens

ALAÍDE

LÚCIA

PEDRO

MADAME CLESSI (cocote de 1905)

MULHER DE VÉU

PRIMEIRO REPÓRTER (Pimenta)

SEGUNDO REPÓRTER

TERCEIRO REPÓRTER

QUARTO REPÓRTER

HOMEM INATUAL

MULHER INATUAL

SEGUNDO HOMEM INATUAL

O LIMPADOR (cara de Pedro)

HOMEM DE CAPA (cara de Pedro)

NAMORADO E ASSASSINO DE CLESSI

LEITORA DO "DIÁRIO DA NOITE"

GASTÃO (pai de Alaíde e de Lúcia)

D. LÍGIA (mãe de Alaíde e de Lúcia)

D. LAURA (sogra de Alaíde e de Lúcia)

PRIMEIRO MÉDICO

SEGUNDO MÉDICO

TERCEIRO MÉDICO

QUARTO MÉDICO

MULHER DA "PACIÊNCIA"

DANÇARINA (lupanar)

TERCEIRA MULHER (lupanar)

Quatro Pequenos Jornaleiros

 

PRIMEIRO ATO

(Cenário—dividido em 3 planos: 1° plano: alucinação; 2° plano: memória; 3° plano: realidade. Quatro arcos no plano da memória; duas escadas laterais. Trevas.)

MICROFONE—Buzina de automóvel. Rumor de derrapagem violenta. Som de vidraças partidas.

Silêncio. Assistência. Silêncio.

VOZ DE ALAÍDE (microfone)—Clessi... Clessi...

(Luz em resistência no plano da alucinação. 3 mesas, 3 mulheres escandalosamente pintadas, com vestidos berrantes e compridos. Decotes. Duas delas dançam ao som de uma vitrola invisível, dando uma vaga sugestão lésbica. Alaíde, uma jovem senhora, vestida com sobriedade e bom gosto, aparece no centro da cena. Vestido cinzento e uma bolsa vermelha.)

ALAÍDE (nervosa)—Quero falar com Madame Clessi! Ela está?

(Fala à 1ª mulher que, numa das três mesas, faz "paciência". A mulher não responde.)

ALAÍDE (com angústia)—Madame Clessi está—pode-me dizer?

ALAÍDE (com ar ingênuo)—Não responde! (com doçura) Não quer responder?

(Silêncio da outra.)

ALAÍDE (hesitante)—Então perguntarei (pausa) àquela ali.

(Corre para as mulheres que dançam.)

ALAÍDE—Desculpe. Madame Clessi. Ela está?

(2ª Mulher também não responde.)

ALAÍDE (sempre doce)—Ah! também não responde?

(Hesita. Olha para cada uma das mulheres. Passa um homem, empregado da casa, camisa de malandro. Carrega uma vassoura de borracha e um pano de chão. O mesmo cavalheiro aparece em toda a peça, com roupas e personalidades diferentes. Alaíde corre para ele.)

ALAÍDE (amável)—Podia-me dizer se madame...

(O homem apressa o passo e desaparece.)

ALAÍDE (num desapontamento infantil)—Fugiu de mim! (no meio da cena, dirigindo-se a todas, meio agressiva) Eu não quero nada demais. Só saber se Madame Clessi está!

(A 3ª mulher deixa de dançar e vai mudar o disco da vitrola. Faz toda a mímica de quem escolhe um disco, que ninguém vê, coloca-o na vitrola também invisível. Um samba coincidindo com este último movimento. A 2ª mulher aproxima-se lenta, de Alaíde.)

1ª MULHER (misteriosa)—Madame Clessi?

ALAÍDE (numa alegria evidente)—Oh! Graças a Deus! Madame Clessi, sim.

2ª MULHER (voz máscula)—Uma que morreu?

ALAÍDE (espantada, olhando para todas)—Morreu?

2ª MULHER (para as outras)—Não morreu?

1ª MULHER (a que joga "paciência")—Morreu. Assassinada.

3ª MULHER (com voz lenta e velada)—Madame Clessi morreu! (brusca e violenta) Agora, saia!

ALAÍDE (recuando)—É mentira. Madame Clessi não morreu. (olhando para as mulheres) Que é que estão me olhando? (noutro tom) Não adianta, porque eu não acredito!...

2ª MULHER—Morreu, sim. Foi enterrada de branco. Eu vi.

ALAÍDE—Mas ela não podia ser enterrada de branco! Não pode ser.

1ª MULHER—Estava bonita. Parecia uma noiva.

ALAÍDE (excitada)—Noiva? (com exaltação) Noiva—ela? (tem um riso entrecortado, histérico) Madame Clessi, noiva! (o riso, em crescendo, transforma-se em soluço) Parem com essa música! Que coisa!

(Música cortada. Ilumina-se o plano da realidade. Quatro telefones, em cena, falando ao mesmo tempo. Excitação.)

PIMENTA—É o Diário?

REDATOR—É.

PIMENTA—Aqui é o Pimenta.

CARIOCA-REPÓRTER—É A Noite?

PIMENTA—Um automóvel acaba de pegar uma mulher.

REDATOR D'A NOITE—O que é que há?

PIMENTA—Aqui na Glória, perto do relógio.

CARIOCA-REPÓRTER—Uma senhora foi atropelada.

REDATOR DO DIÁRIO—Na Glória, perto do relógio?

REDATOR D'A NOITE—Onde?

CARIOCA-REPÓRTER—Na Glória.

PIMENTA—A Assistência já levou.

CARIOCA-REPÓRTER—Mais ou menos no relógio. Atravessou na frente do bonde.

REDATOR D'A NOITE—Relógio.

PIMENTA—O chofer fugiu.

REDATOR DE DIÁRIO—O.K.

CARIOCA-REPÓRTER—O Chofer meteu o pé

PIMENTA—Bonita, bem vestida.

REDATOR D'A NOITE—Morreu?

CARIOCA-REPÓRTER—Ainda não. Mas vai.

(Trevas. Ilumina-se o plano da alucinação.)

ALAÍDE (trazendo, de braço, a 1ª mulher, para um canto) Aquele homem ali. Quem é?

(Indica um homem que acaba de entrar e que fica olhando para Alaíde.)

3ª MULHER—Sei lá! (noutro tom) Vem aos sábados.

ALAÍDE (aterrorizada)—Tem o rosto do meu marido. (recua, puxando a outra) A mesma cara!

3ª MULHER—Você é casada?

ALAÍDE (fica em suspenso)—Não sei. (em dúvida) Me esqueci de tudo. Não tenho memória—sou uma mulher sem memória. (impressionada) Mas todo o mundo tem um passado; eu também devo ter—ora essa!

3ª MULHER (em voz baixa)—Você o que é, é louca.

ALAÍDE (impressionada).—Sou louca? (com doçura) Que felicidade!

2ª MULHER (aproximando-se)—O que é que vocês estão conversando aí?

3ª MULHER (para Alaíde)—Isso é aliança?

ALAÍDE (mostrando o dedo)—É.

3ª MULHER (olhando)—Aliança de casamento

2ª MULHER—A da minha irmã é mais fina.

3ª MULHER (céptica)—Grossa ou fina, tanto faz. (dá passos de dança)

ALAÍDE (excitada)—Oh! Meu Deus! Madame Clessi! Madame Clessi! Madame Clessi!

(O homem solitário aproxima-se. Alaíde afasta-se com a 3ª mulher.)

ALAÍDE—Ele vem aí! Digam que eu não sou daqui! Depressa! Expliquem!

3ª MULHER (fala dançando samba)—Eu dizer o que, minha filha!

O HOMEM—É nova aqui?

ALAÍDE (modificando a atitude inteiramente)—Não, não sou nova. Não tinha me visto ainda?

O HOMEM (sério)—Não.

ALAÍDE (excitada, mas amável)—Pois admira. Estou aqui—deixe ver. Faz uns três meses...

O HOMEM—Agora me lembro perfeitamente.

ALAÍDE (sardônica)—Lembra-se de mim?

O HOMEM—Me lembro, sim.

ALAÍDE (cortante)—Bufão!

O HOMEM (espantado)—O quê?

2ª MULHER (apaziguadora)—Desculpe, doutor. Ela é louca (para Alaíde) Madame não gosta disso!

O HOMEM—Por que é que põem uma louca aqui?

ALAÍDE (excitada)—Bufão, sim. (desafiadora) Diga se já me viu alguma vez? Diga, se tem coragem!

O HOMEM (formalizado)—Vou-me queixar à Madame. Não está direito!

2ª MULHER (para Alaíde, repreensiva)—Viu? Estou dizendo!

ALAÍDE—Diga! Já me viu? Eu devia esbofeteá-lo...

O HOMEM (oferecendo a face)—Quero ver.

ALAÍDE (numa transição inesperada)—...mas não quero. (passa da violência para a doçura) Estou sorrindo—viu? Aquilo não foi nada! (sorri docemente).

O HOMEM—Vamos sentar ali?

ALAÍDE (sorrindo sempre)—Estou sorrindo, sem vontade. Nenhuma. Vou com você—nem sei por quê. Sou assim. (doce) Vamos, meu amor?

O HOMEM (desconfiado)—Por que é que você está vestida diferente das outras? (as outras estão vestidas de cetim vermelho, amarelo e cor-de-rosa)

ALAÍDE (doce)—Viu como eu disse—"meu amor"! Eu direi outras vezes—"meu amor"—e coisas piores! Madame Clessi está demorando! (noutro tom) Mas ela morreu mesmo?

O HOMEM (numa gargalhada)—Madame Clessi morreu—gorda e velha.

ALAÍDE (num transporte)—Mentira! (agressiva) Gorda e velha o quê! Madame Clessi era linda.

(sonhadora) Linda!

O HOMEM (continuando a gargalhada e sentando-se no chão)—Tinha varizes! Andava gemendo e arrastando os chinelos!

ALAÍDE (obstinada)—Mulher gorda, velha, cheia de varizes, não é amada! E ela foi tão amada!

(feroz) Seu mentiroso! (Alaíde esbofeteia o homem, que corta bruscamente a gargalhada).

(A 3ª mulher vem, em passo de samba, e acaricia a cabeça do homem).

1ª MULHER—Ele disse a verdade. Madame tinha varizes.

ALAÍDE (sonhadora)—Depois de morta foi vestida de noiva!

1ª MULHER—Bobagem ser enterrada com vestido de noiva!

ALAÍDE (angustiada)—Madame Clessi! Madame Clessi!

O HOMEM (levantando-se, grave)—Agora vou-me embora fui esbofeteado e é o bastante.

ALAÍDE (com uma amabilidade nervosa)—Ah! Já vai? Quer o número do meu telefone?

O HOMEM (sem dar atenção)—Nunca fui tão feliz! Levei uma bofetada e não reagi.

(cumprimentando exageradamente) Me dão licença.

ALAÍDE (correndo atrás dele)—Não vá assim! Fique mais um pouco!

O HOMEM—Adeus, madame. (sai)

(A 3ª mulher dança com uma sensualidade ostensiva. Passa o empregado, de volta, com a vassoura, o pano de chão e o balde.)

ALAÍDE (saturada)—Ah! meu Deus! Esse também!

1ª MULHER—Quem?

ALAÍDE—Aquele. Tem a cara do meu noivo. Os olhos, o nariz do meu noivo—estão-me perseguindo. Todo o mundo tem a cara dele.

(2 mesas e 3 mulheres desaparecem. Duas mulheres—levam 2 cadeiras. As duas mesas são puxadas para cima. Surge na escada uma mulher. Espartilhada, chapéu de plumas. Uma elegância antiquada de 1905. Bela figura. Luz sobre ela.)

ALAÍDE (num sopro de admiração)—Oh!

MADAME CLESSI—Quer falar comigo?

ALAÍDE (aproximando-se, fascinada)—Quero, sim. Queria...

MADAME CLESSI—Vou botar um disco. (dirige-se para a invisível vitrola, com Alaíde atrás.)

ALAÍDE—A senhora não morreu?

MADAME CLESSI—Vou botar um samba. Esse aqui não é muito bom. Mas vai assim mesmo.

(Samba surdinando.)

MADAME CLESSI—Está vendo como estou gorda, velha, cheia de varizes e de dinheiro?

ALAÍDE—Li o seu diário.

MADAME CLESSI (céptica)—Leu? Duvido! Onde?

ALAÍDE (afirmativa)—Li, sim. Quero morrer agora mesmo, se não é verdade!

MADAME CLESSI—Então diga como é que começa. (Clessi fala de costas para Alaíde)

ALAÍDE (recordando)—Quer ver? É assim... (ligeira pausa) "ontem, fui com Paulo a Paineiras"...

(feliz) É assim que começa.

MADAME CLESSI (evocativa) Assim mesmo. É.

ALAÍDE (perturbada)—Não sei como a senhora pôde escrever aquilo! Como teve coragem! Eu não tinha!

MADAME CLESSI (à vontade)—Mas não é só aquilo. Tem outras coisas.

ALAÍDE (excitada)—Eu sei. Tem muito mais. Fiquei!... (inquieta) Meu Deus! Não sei o que é que eu tenho. É uma coisa—não sei. Por que é que eu estou aqui?

MADAME CLESSI—É a mim que você pergunta?

ALAÍDE (com volubilidade)—Aconteceu uma coisa, na minha vida, que me fez vir aqui. Quando foi que ouvi seu nome pela primeira vez? (pausa) Estou-me lembrando!

(Entra o cliente anterior com guarda-chuva, chapéu e capa. Parece boiar.)

ALAÍDE—Aquele homem! Tem a mesma cara do meu noivo!

MADAME CLESSI—Deixa o homem! Como foi que você soube do meu nome?

ALAÍDE—Me lembrei agora! (noutro tom) Ele está-me olhando. (noutro tom, ainda) Foi uma conversa que eu ouvi quando a gente se mudou. No dia mesmo, entre papai e mamãe. Deixe eu me recordar como foi . Já sei! Papai estava dizendo: "O negócio acabava..."

(Escurece o plano da alucinação. Luz no plano da memória. Aparecem pai e mãe de Alaíde.)

PAI (continuando a frase)—...numa orgia louca."

MÃE—E tudo isso aqui?

PAI—Aqui, então?!

MÃE—Alaíde e Lúcia morando em casa de Madame Clessi. Com certeza, é no quarto de Alaíde que ela dormia. O melhor da casa!

PAI—Deixa a mulher! Já morreu!

MÃE—Assassinada. O jornal não deu?

PAI—Deu. Eu ainda não sonhava conhecer você. Foi um crime muito falado. Saiu fotografia.

MÃE—No sótão tem retratos dela, uma mala cheia de roupas. Vou mandar botar fogo em tudo.

PAI—Manda.

(Apaga-se o plano da memória. Luz no plano da alucinação.)

ALAÍDE (preocupada)—Mamãe falou em Lúcia. Mas quem é Lúcia? Não sei. Não me lembro.

MADAME CLESSI—Então vocês foram morar lá? (nostálgica) A casa deve estar muito velha.

ALAÍDE—Estava, mas Pedro... (excitada) Agora me lembrei: Pedro. É meu marido! Sou casada. (noutro tom) Mas essa Lúcia, meu Deus! (noutro tom) Eu acho que estou ameaçada de morte! (assustada) Ele vem para cá (refere-se ao homem solitário que se aproxima).

CLESSI—Deixa.

ALAÍDE (animada)—Pedro mandou reformar tudo, pintar. Ficou nova, a casa. (noutro tom) Ah! eu corri ao sótão, antes que mamãe mandasse queimar tudo!

CLESSI—Então?

ALAÍDE—Lá vi a mala—com as roupas, as ligas, o espartilho cor-de-rosa. E encontrei o diário.

(arrebatada) Tão lindo, ele!

CLESSI (forte)—Quer ser como eu, quer?

ALAÍDE (veemente)—Quero, sim. Quero.

CLESSI (exaltada, gritando)—Ter a fama que tive. A vida. O dinheiro. E morrer assassinada?

ALAÍDE (abstrata)—Fui à Biblioteca ler todos os jornais do tempo. Li tudo!

CLESSI (transportada)—Botaram cada anúncio sobre o crime! Houve um repórter que escreveu uma coisa muito bonita!

ALAÍDE (alheando-se bruscamente)—Espera, estou-me lembrando de uma coisa. Espera. Deixa eu ver! Mamãe dizendo a papai.

(Apaga-se o plano da alucinação. Luz no plano da memória. Pai e mãe.)

MÃE—Cruz ! Até pensei ter visto um vulto—ando tão nervosa. Também esses corredores! A alma de madame Clessi pode andar por aí... e...

PAI—Perca essa mania de alma! A mulher está morta, enterrada!

MÃE—Pois é...

(Apaga-se o plano da memória. Luz no plano da alucinação.)

MADAME CLESSI—Mas o que foi?

ALAÍDE—Nada. Coisa sem importância que eu me lembrei. (forte) Quero ser como a senhora. Usar espartilho. (doce) Acho espartilho elegante!

CLESSI—Mas seu marido, seu pai, sua mãe e... Lúcia?

HOMEM (para Alaíde)—Assassina!

(Apaga-se o plano da alucinação. Luz no plano da realidade. Sala de operação.)

1° MÉDICO—Pulso?

2° MÉDICO—160.

1° MÉDICO—Rugina.

2° MÉDICO—Como está isso!

1° MÉDICO—Tenta-se uma osteossíntese!

3° MÉDICO—Olha aqui.

1° MÉDICO—Fios de bronze.

(Pausa.)

1° MÉDICO—O osso!

3° MÉDICO—Agora é ir até o fim.

1° MÉDICO—Se não der certo, faz-se a amputação.

(Rumor de ferros cirúrgicos)

1° MÉDICO—Depressa!

(Apaga-se a sala de operação. Luz no plano da alucinação.)

HOMEM (para Alaíde, sinistro)—Assassina!

CLESSI (espantada)—O quê?

HOMEM (indicando)—Ela! Assassina!

CLESSI (para Alaíde)—Você?

ALAÍDE (nervosíssima)—Não me pergunte nada. Não sei. Não me lembro. (num lamento) Se, ao menos; soubesse quem é Lúcia!

HOMEM (angustiado)—Não tem ninguém aqui? Quero chope!

ALAÍDE (em pânico)—Ele quer-me prender! Não deixe!

CLESSI (assombrada)—Você... Matou? Você?

ALAÍDE (desesperada)—Matei, sim. Matei, pronto!

HOMEM (queixoso)—Meu Deus! Não tem ninguém para me servir. (com angústia) Ninguém!

(olha para Alaíde) Assassina!

ALAÍDE (patética)—Matei. Matei meu noivo.

HOMEM—Ela disse—"matei meu noivo". Foi. Eu assisti.

ALAÍDE—Não assistiu nada! Não tinha ninguém. Lá não tinha ninguém! E não foi meu noivo. Foi meu marido!

CLESSI (frívola)—Marido ou noivo, tanto faz.

ALAÍDE (histérica, para o homem)—Agora me leve, me prenda—sou uma assassina.

HOMEM—Não prendo. Não tenho nada com isso! (angustiado) Não há ninguém para me servir?

(melancólico) Ninguém!

CLESSI—O senhor tem a cara do marido de Alaíde?

ALAÍDE—Tem, sim. Ele vai dizer que não, mas tem.

HOMEM (grave)—Tenho...

(O homem afasta-se. Mesa desaparece. O homem carrega a cadeira.)

Quando quiser carregar o corpo, eu ajudo. (sai)

ALAÍDE—Ele está ali. Ali.

CLESSI (admirada)—Ele quem

ALAÍDE (baixo)—Meu marido.

CLESSI—Vivo?

ALAÍDE—Morto.

(Alaíde guia Clessi. Aponta para um invisível cadáver.)

ALAÍDE—Viu?

CLESSI—Estou vendo. Mas você?...

ALAÍDE—Eu. Olha os pés. Assim—tortos. (faz a mímica correspondente)

(Buzina. Rumor de derrapagem. Ambulância. Alaíde e Clessi imóveis.)

CLESSI—Mas por que fez isso?

ALAÍDE (excitada)—Ele era bom, muito bom. Bom a toda hora e em toda parte. Eu tinha nojo de sua bondade. (pensa, confirma) Não sei, tinha nojo. Estou-me lembrando de tudo, direitinho, como foi. Naquele dia eu disse: "Eu queria ser Madame Clessi, Pedro. Que tal?"

(Apaga-se o·pIano da alucinação. Luz no plano da memória.)

PEDRO—Você continua com essa brincadeira?

ALAÍDE—Brincadeira o quê? Sério!

PEDRO—Não me aborreça, Alaíde!

ALAÍDE—O que é que você fazia?

PEDRO—Não sei. (rápido) Matava você.

ALAÍDE (céptica)—Duvido. Nunca você teria essa coragem!

PEDRO (olhando-a)—É. Não teria.

ALAÍDE—Não disse? Mas se eu fugisse, se me transformasse numa Madame Clessi?

PEDRO—Sei lá, Alaíde! Sei lá!

ALAÍDE (perversa)—Ah! É assim que você responde? Pois fique sabendo...

PEDRO—O quê?...

ALAÍDE (maliciosa)—Não digo! (cantarola "Danúbio Azul")

PEDRO (gritando)—Agora diga. Diga.

ALAÍDE (maliciosa)—Digo o quê!

PEDRO—Então não falasse!

(Trevas. Luz no plano da alucinação, onde já está Alaíde.)

ALAÍDE (num tom sinistro e inesperado)—Tem alguém querendo me matar.

CLESSI—Isso já sei. O que eu quero saber é como você matou Pedro. Como foi?

ALAÍDE—Interessante. Estou-me lembrando de uma mulher, mas não consigo ver o rosto. Tem um véu. Se eu a reconhecesse!...

CLESSI—Deixa a mulher de véu. Como foi que você matou?

ALAÍDE (atormentada)—Estou sentindo um cheiro de flores, de muitas flores. Estou até enjoada.

(noutro tom) Como eu matei? Nem sei direito. Estou com a cabeça tão embaralhada!

Começo a me lembrar. Só esqueci o motivo. Naquele dia eu estava doida. (trevas)

VOZ DE ALAÍDE (das trevas)—Doida de ódio. Talvez por causa da mulher do véu. Ainda não sei quem ela é, mas hei de me lembrar. Pedro estava lendo um livro.

(Luz no plano da memória. Pedro lê um livro.)

ALAÍDE (provocadora)—Você não acaba com esse livro?

PEDRO—Mas, minha filha; comecei agora!

ALAÍDE (com irritação)—Por causa dos seus livros você até esquece que eu existo!

PEDRO (conciliatório)—Não seja boba! (levanta-se, quer abraçar a mulher)

ALAÍDE (repelindo-o) Fique quieto! Não, não, já disse!

(Pedro insiste.)

ALAÍDE (sentida)—Não quero! Vá ler seu livro, vá!

PEDRO (brincando)—Não vou!

VOZ DE CLESSI (microfone)—Quem é essa mulher de véu?

PEDRO—Não seja assim, Alaíde!

ALAÍDE (veemente)—Não seja assim o que! Você nem me liga e agora está com esses fingimentos.

PEDRO (afetuoso)—Deixe de ser criança! Venha cá! Um beijinho só!

ALAÍDE (intransigente)—Não, não vou, não! Desista. (ameaçadora) Pedro! (repele-o) Também vou ler!

PEDRO—O quê?

ALAÍDE (enigmática)—Você nem faz idéia! Um diário! O diário de uma grande mulher!

(Trevas.)

ALAÍDE (nas trevas, ao microfone)—Ele não sabia por que eu estava mudada. Tão mudada. Como podia saber que era um fantasma—o fantasma de Madame Clessi—que me enlouquecia?

VOZ DE CLESSI (microfone)—Só o meu fantasma, não. E os outros dois fantasmas? A mulher de véu e Lúcia?

VOZ DE ALAÍDE—Depois, eu vejo isso. (noutro tom) Se ele soubesse que ia morrer!...

(Luz no plano da memória. Pedro lê.)

ALAÍDE (provocante)—Pedro. (diz o nome de maneira cantante) destacando as sílabas, PE-DRO;

(silêncio de Pedro) Ah! está assim, hem!

PEDRO (sem se voltar)—Quem manda você fazer o que fez?

ALAÍDE—Eu não fiz nada!

PEDRO—Me repeliu!

ALAÍDE—Repeli, sim. Eu não gosto de você! Deixei de gostar há muito tempo! Desde o dia de nosso casamento...

PEDRO (levanta-se e aproxima-se)—Bobinha!

ALAÍDE—Sério!

(Os dois se olham.)

ALAÍDE (ficando de costas)—Gosto de outro.

PEDRO (apreensivo)—Alaíde! Olhe o que eu lhe disse!

ALAÍDE (acintosa)—Gosto, sim. Gosto de outro. Que é que está me olhando?

PEDRO (com certa ameaça)—Não continue, Alaíde!

ALAÍDE—No mínimo, você está pensando: "Se ela gostasse de outro, não diria." Acertei?

PEDRO—Você é completamente doida!

ALAÍDE—Por que é que você não se ofende com as coisas que estou dizendo?

PEDRO—Vou ligar ao que você diz?

ALAÍDE (irônica)—Ah! Não! (exaltada) Faz mal em dizer que não mataria nunca a sua mulher!... Um marido que dá garantias de vida está liqüidado.

PEDRO (irritado)—Não provoque, Alaíde!

ALAÍDE (exaltada)—Vou abandonar você, fugir daqui! Quero ser livre, meu filho! Livre! Tão bom!

PEDRO (impulsivo, pega-lhe o braço, torce-lhe o pulso. Terrível)—Não disse para não me provocar—não disse?

ALAÍDE (desesperada)—Ai—ai! Eu estava brincando, Pedro. Ai! Ai!

PEDRO (sinistro)—Nunca mais na sua vida brinque assim—nunca mais! Ouviu?

ALAÍDE (louca de dor)—Pelo amor de Deus, Pedro—ai. Não, Pedro! Juro...

(Pedro larga. Alaíde esconde o braço machucado nas costas.)

ALAÍDE (ofegando)—Você me machucou. Eu estava brincando só...

(Pedro vira-lhe as costas. Acende, com a mão trêmula, um cigarro. Volta-se para Alaíde.)

ALAÍDE (deixando cair a pulseira)—Pedro, minha pulseira caiu. Quer apanhar para mim? Quer?

(Pedro vai apanhar. Abaixa-se. Rápida e diabólica, Alaíde apanha um ferro, invisível, ou coisa que o valha, e, possessa, entra a dar golpes. Pedro cai em câmara lenta.) (Trevas.)

VOZ DE ALAÍDE (microfone)—Eu bati aqui detrás, acho que na base do crânio. Ele deu arrancos antes de morrer, como um cachorro atropelado.

VOZ DE CLESSI (microfone)—Mas como foi que você arranjou o ferro?

VOZ DE ALAÍDE (microfone)—Sei lá! Apareceu! (noutro tom) Às vezes penso que ele pode estar vivo! Não sei de nada, meu Deus! Nunca pensei que fosse tão fácil matar um marido.

(Luz no plano da alucinação. Alaíde e Clessi sentadas no chão e no lugar em que, supostamente, está o cadáver invisível. As duas olham.)

CLESSI—Vamos carregar o homem?

CLESSI (acariciando o morto presumivelmente na cabeça)—Coitado!

ALAÍDE—Um morto é bom, porque a gente deixa num lugar e quando volta ele está na mesma posição.

CLESSI—Você está mesmo sentindo um cheiro de flores?

ALAÍDE (agitada)—Vamos carregar? (noutro tom) Mas para onde, meu Deus! Não tem lugar!

CLESSl—A gente esconde debaixo da cama.

ALAÍDE (desesperada)—Mas ele não pode ficar lá a vida inteira. O empregado—quando for arrumar o quarto—descobre.

CLESSl—Aqui é pior. Pode vir a polícia.

ALAÍDE (agoniada).—Vamos logo, então?!

CLESSI (explicando)—Olha, eu puxo por um braço e você por outro.

ALAÍDE—Arrastando o corpo, faz-se menos força.

(Cada uma puxa pelo braço de um invisível cadáver, arrastando-o. Realizam o respectivo esforço. Arquejam.)

ALAÍDE (ofegando)—Isso como pesa! (as duas detêm-se. Fazem como se, cuidadosamente, estendessem o corpo da vítima no chão. Clessi passa por cima do cadáver.)

CLESSI (sentando-se no chão)—Você agora não está com pena dele?

ALAÍDE (excitada)—Pena, eu? Pena nenhuma! Só ódio! (noutro tom) Meu Deus, o que é que ele fez? (confusa e angustiada) O que foi?

CLESSI—Eu não sei, minha filha.

ALAÍDE (angustiada)—Não consigo me lembrar. Mas fez alguma coisa, sim. No mínimo, a mulher de véu está metida nisso!...

CLESSl—E Lúcia também.

(Entra o homem de capa e guarda-chuva. Aproxima-se. As duas olham, sem dizer palavra.)

HOMEM (perto de Alaíde)—Assassina!

(Imobilizam-se, emudecem os personagens. Rumor de derrapagem; grito. Ambulância.)

ALAÍDE—Que é que está me olhando? Nunca me viu? (noutro tom) Prenda—ande, está com medo? (para Clessi) Você ouviu um grito? Vamos para a polícia?

HOMEM—Assassina!

(Trevas. Luz no plano da memória. Quatro jornaleiros, um em cada arco.)

1° PEQUENO JORNALElRO—Olha. A NOITE! O DIÁRIO! A mulher que matou o marido!

2° PEQUENO JORNALElRO—Vai querer? A NOITE! O DIÁRIO! Tragédia em Copacabana!

3° PEQUENO JORNALElRO—A NOITE! DIÁRIO! Morreu o coisa!

4° PEQUENO JORNALElRO—DIÁRIO! Violento artigo! Já leu aí?

1° PEQUENO JORNALElRO—Olha a mulher que engoliu um tijolo! O DIÁRIO!

(Os quatro jornaleiros repetem, ao mesmo tempo, os pregões acima. Trevas. Luz no plano da alucinação.)

ALAÍDE (angustiada)—Papai e mamãe, todo o mundo vai ler nos jornais. Vão pôr o meu retrato!

HOMEM—Por que você matou seu marido?

CLESSI (intervindo)—Ele era muito ruim! O doutor não imagina!

ALAÍDE (veemente)—Ruim nada! Era até muito bom. (excitada) Nobre!

CLESSI—Boba! Você estragou tudo!

ALAÍDE—Mas eu não me lembro por que matei—não me lembro!

HOMEM -. Eu sei.

ALAÍDE—Então diga.

HOMEM—Há mulher no meio. (confidencial) Uma mulher de véu. Tem um véu tapando o rosto. Percebeu?

ALAÍDE (surpresa)—Uma mulher de véu? (animada) Mas o senhor então deve saber quem é ela. Tem que saber! Diga!

HOMEM—Não digo. (cumprimenta) Com licença. Adeus! (antes de desaparecer) Lembre-se de seu casamento! (Sai) (Trevas. Luz no plano da realidade. Redação e casa.)

MULHER (gritando)—Quem fala?

REDATOR DO DIÁRIO (comendo sanduíche)—O DIÁRIO.

MULHER (esganiçada)—Aqui é uma leitora.

REDATOR DO DIÁRIO—Muito bem.

MULHER—Eu moro aqui num apartamento, na Glória! Vi um desastre horrível!

REDATOR DO DIÁRIO—Uma mulher atropelada.

MULHER—A culpa toda foi do chofer. Eles passam por aqui, o senhor não imagina! Então, quem tem criança!...

REDATOR DO DIÁRIO—Claro!

MULHER—Quando a mulher viu, já era tarde! O DIÁRIO podia botar uma reclamação contra o abuso dos automóveis!

REDATOR DO DIÁRIO—Vamos, sim! (desliga)

MULHER (continuando)—Obrigada, ouviu?

FIRST OF THREE PARTS. TO BE CONTINUED.

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