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2001 - March 2001
Friday, 01 March 2002 08:54

Wedding Gown

What matters is that you're going to die. I don't know how, but you're going to and the… I'll marry a widower. That's all. A very natural, serious thing, a woman marrying a widower.
By Nelson Rodrigues

(SECOND OF THREE PARTS)

(Trevas. Luz no plano da alucinação. Alaíde e Clessi no mesmo lugar. Mas no chão, deitado, está realmente um homem—o mesmo de sempre. Roupa diferente.)

ALAÍDE (perturbada)—Que é que tem meu casamento? Ele disse: "Lembre-se de seu casamento."

(Som da "Marcha Nupcial". Alaíde levanta-se. Faz um gesto como que apanhando a cauda do invisível vestido de noiva. Faz que se ajeita.)

CLESSI—Bonito vestido! Quem foi que teve a idéia?

ALAÍDE (transportada)—Eu vi num filme. A grinalda é que é diferente. Mas o resto é igualzinho à fita.

(Alaíde passa ao plano da memória que se ilumina.)

PEDRO (levantando-se naturalmente e passando também ao plano da memória) (puxa o relógio)—Está quase na hora. Temos que andar depressa; depois do nosso, tem outro casamento.

ALAÍDE—Quer dizer que o outro casamento vai aproveitar a nossa ornamentação?

PEDRO—Deixa. Não tem importância.

ALAÍDE—Ah! Pedro!

PEDRO—Que foi?

ALAÍDE (numa atitude inesperada)—Me esqueci que faz mal o noivo ver a noiva antes. Não é bom! (vira as costas)

PEDRO—Isso é criancice! Agora não adianta! Já vi!

ALAÍDE (suplicante)—Vá, Pedro, vá!

(Entra a mãe de Alaíde)

ALAÍDE (com um ar de sonâmbula.)—O bouquet, mamãe?

CLESSI—Sua mãe não pode ser.

(A mãe volta em marcha-à-ré.)

CLESSI—Ela só apareceu depois! Você sozinha no quarto, sem ninguém, Alaíde? Uma noiva sempre tem gente perto. O quê? Você pode não se lembrar, mas lá devia ter alguém, sem ser sua mãe! Lembre-se.

(Marcha Nupcial. Alaíde faz mímica de quem retoca a toilette. O pai e a mãe de Alaíde entram, com roupa de passeio.)

PAI—Tudo pronto?

ALAÍDE—Quase. Vão tocar mesmo a Ave-Maria de Gounod, papai?

PAI—Vão. Já falei na igreja.

MÃE—Está ai D. Laura.

ALAÍDE (virando-se)—Ah! D. Laura.

D. LAURA—Como vai?

(Beijam-se.)

ALAÍDE (faceira, expondo-se)—Que tal a sua nora? Muito feia?

D. LAURA—Linda. Um amor!

ALAÍDE—Olha, papai. Desculp D. Laura.

D. LAURA—Ora, minha filha.

ALAÍDE (para o pai)—Ou Ave-Maria de Gounod, ou então, de Schubert. Faço questão. Outra não serve.

PAI—Já sei.

D. LAURA—De Schubert ou de Gounod, qualquer uma é muito bonita. Ah!

(D. Laura parece ter notado a presença de uma pessoa que até então não vira. Dirige-se a essa pessoa invisível, beijando-a, presumivelmente, na testa.)

D. LAURA—Desculpe. Eu não tinha visto você.

(Pausa para uma resposta que ninguém ouve.)

D. LAURA (risonha)—Quando é o seu?

(Pausa para uma resposta.)

D. LAURA (maliciosa)—Qual o quê? Está aí, não acredito! Tão moça, tão cheia de vida.

PAI (para Alaíde, que está pronta)—Então vamos!

(D. Laura f az um gesto qualquer para a invisível pessoa e vai para junto de Alaíde.)

D. LAURA—Cuidado com a cauda!

(D. Laura apanha a imaginária cauda e entrega-a a Alaíde.)

ALAÍDE (num último olhar)—Não falta mais nada?

MÃE (olhando também)—Nada. Acho que não.

PAI (impaciente)—Já é tarde. Vamos descer.

(Marcha Nupcial. Trevas.)

FIM DO PRIMEIRO ATO

SEGUNDO ATO

(Inicia-se o segundo ato. Trevas. Voz de Alaíde e Clessi ao microfone.)

CLESSI—É impossível que não tenha havido mais coisas.

ALAÍDE (impaciente com a própria memória)—Mas não me lembro, Clessi. Estou com a memória tão ruim!

CLESSI—Olha, Alaíde. Antes de sua mãe entrar, quando você pediu o bouquet, tinha alguém lá? Sem ser Pedro?

ALAÍDE (desorientada)—Antes de mamãe entrar?

CLESSI—Sim. Tinha que ter mais alguém. Já disse—uma noiva nunca fica tão abandonada na hora de vestir!

ALAÍDE (como que fazendo um esforço de memória)—Antes de mamãe entrar... Só pensando. Deixa eu ver...

(Luz no plano da memória. Alaíde, vestida realmente de noiva, está sentada numa banqueta. Agora o espelho imaginário se transformou num espelho verdadeiro, grande, quase do tamanho de uma pessoa. A grinalda não está posta ainda. Alaíde sozinha.)

CLESSI (microfone)—Ah! Quer ver uma coisa? Quem foi que D. Laura beijou na testa, depois que falou com você?

(Diante do espelho, Alaíde está retocando a toilette, ajeitando os cabelos, recuando e aproximando o rosto do espelho etc.)

CLESSI (microfone)—Ah! outra coisa! Quem foi que vestiu você? Foi sua mãe? Não? Pois é, Alaíde!

(Luz amortecida em penumbra. Entra uma mulher, quase que magicamente. Um véu tapa-lhe o rosto. Luz normal.)

CLESSI (microfone)—Não disse que tinha que ter mais gente? Olha aí! (noutro tom) A mulher de véu!

ALAÍDE (nervosa como compete a uma noiva)—Achou?

MULHER DE VÉU—Não. Remexi tudo!

ALAÍDE (agoniada)—Mas eu deixei a linha branca lá no seu quarto! Viu na cômoda?

MULHER DE VÉU (taciturna)—Vi. Não achei nada.

ALAÍDE—Na gaveta de baixo?

MULHER DE VÉU—Também.

ALAÍDE (impaciente, retocando um detalhe da toilette)—Você está tão esquisita!

(A mulher de véu procura ajeitar qualquer coisa no ombro de Alaíde.)

ALAÍDE—Quer chamar mamãe um instantinho?

(Silêncio.)

ALAÍDE (virando-se)—Quer chamar?

MULHER DE VÉU (virando-lhe as costas)—Não. Não chamo ninguém. (agressiva) Vá você!

ALAÍDE (sentida, põe rouge lentamente; vira-se outra vez para a mulher de véu)—Você tem alguma coisa!

MULHER DE VÉU (de costas)—Eu? Não tenho nada. Nada, minha filha (ficando de frente para Alaíde, rápida e ríspida) Você sabe muito bem! (violenta) Sabe e ainda pergunta!

CLESSI (levantando-se e apanhando a cauda)—Chega. Eu mesma vou chamar.

(A mulher de véu, com rápida e sinistra decisão, coloca-se na frente de Alaíde.)

ALAÍDE (assombrada)—Que é isso? (noutro tom) Eu acho que você não está regulando bem!

MULHER DE VÉU (intimativa)—Sente-se aí. (as duas se enfrentam) Não vai chamar ninguém!

(Maquinalmente, Alaíde senta-se na banqueta, olhando, com espanto, a mulher de véu; esta mostra-se bastante excitada.)

ALAÍDE (numa alegação ingênua)—Mas eu preciso da linha branca!

MULHER DE VÉU—Primeiro, vamos conversar! (sardônica) Linha branca!

ALAÍDE—Você vai querer discutir agora! Agora!

MULHER DE VÉU (exaltada)—Então! Por que não será agora? Que é que tem de mais? (noutro tom) Eu nunca falei, nunca disse nada, mas agora você tem que me ouvir!

ALAÍDE (gritando)—Tem gente ouvindo! Fale baixo.

MULHER DE VÉU (excitada)—Então você pensa que podia roubar o meu namorado e ficar por isso mesmo?

ALAÍDE (entre suplicante e intimativa)—Você não vai fazer nada!

MULHER DE VÉU (com desprezo)—Ah! Está com medo! (irônica) Natural. Casamento até na porta da igreja se desmancha.

ALAÍDE (com mais coragem)—Mas o meu, não.

MULHER DE VÉU (aproximando-se)—O seu não, coitada! (noutro tom) O seu, sim! Você não me desafie, Alaíde, não me desafie.

ALAÍDE (erguendo-se)—Então não fale nesse tom!

MULHER DE VÉU (agressiva)—Falo, falo—e se você duvida, faço escândalo agora mesmo. Aqui, quer ver?

(Silêncio de Alaíde.)

MULHER DE VÉU (ameaçadora)—Se eu disser uma coisa que sei. Uma coisa que nem você sabe!

ALAÍDE (baixo)—O que é que você sabe?

MULHER DE VÉU—Se eu disser—Alaíde—duvido, e muito, que esse casamento se realize.

(Imobilizam-se mulher de véu e Alaíde. Depois, trevas.)

CLESSI (microfone)—Você parou quando a mulher de véu disse: "Duvido muito...

(Acende-se a luz. Só Alaíde e a mulher de véu, na mesma posição da cena anterior.)

CLESSI (microfone continuando)—...que esse casamento se realize!"

ALAÍDE—Mas o que foi que eu lhe fiz—diga? Para você estar assim?

MULHER DE VÉU (exaltada)—O que foi? Sua hipócrita!

ALAÍDE—Diga então o que foi!

MULHER DE VÉU—Quer dizer que não sabia que eu estava namorando Pedro?

ALAÍDE (mais indignada)—Aquilo, "namoro"?! Um flirt, um flirt à-toa!

MULHER DE VÉU (mais indignada)—Você quer dizer a mim que foi flirt. Quer-me convencer?

ALAÍDE (teimosa)—Foi.

MULHER DE VÉU (violenta)—E aquele beijo que ele me deu no jardim também foi flirt?

ALAÍDE—Sei lá de beijo! Que beijo?

MULHER DE VÉU—Está vendo como você é? Viu tudo! Você apareceu no terraço e entrou logo. Mas viu!

ALAÍDE (desesperada)—Eu não admito que você venha recordar essas coisas! Ele é meu noivo!

MULHER DE VÉU (perversa)—Viu ou não viu?

ALAÍDE—Não!

MULHER DE VÉU—Viu, Sim!

ALAÍDE (patética)—Por que é que você não protestou antes? Por que não falou na hora?

MULHER DE VÉU—Porque não quis. Quis ver até onde você chegava. (noutro tom) Esperei por este momento.

(Batem na porta.)

ALAÍDE (em pânico)—Olha mamãe!

MÃE (da porta)—Alaíde!

MULHER DE VÉU (baixo e resoluta)—Deixe que eu respondo!

MÃE—Vocês abrem isso?

MULHER DE VÉU (alto)—Já vai. (para Alaíde, baixo) Fique aí. Olhe o que eu lhe disse: faço um escândalo!

(A mulher de véu dirige-se em direção de uma presumível porta.)

MULHER DE VÉU (com naturalidade.)—Já chamamos a senhora. Falta pouco.

MÃE—O que é que vocês estão fazendo aí?

MULHER DE VÉU—Alaíde já está quase pronta.

MÃE—Abre. Eu quero ver.

MULHER DE VÉU (com intransigência brincalhona)—Não. Só depois que acabar.

MÃE—Que meninas!

MULHER DE VÉU—Daqui a 5 minutos—está bem?

MÃE—Então andem.

(Mulher de véu volta-se para junto de Alaíde.)

ALAÍDE (advertindo)—Mamãe deve estar estranhando.

MULHER DE VÉU—Não f az mal. Deixa! (noutro tom) Se você não fosse o monstro que é.

ALAÍDE (rápida)—E você presta, talvez?

MULHER DE VÉU (patética)—Pelo menos, nunca me casei com os seus namorados! Nunca fiz o que você fez comigo: tirar o único homem que eu amei! (com a possível dignidade dramática) O único!

ALAÍDE—Não tenho nada com isso! Ele me preferiu a você—pronto!

MULHER DE VÉU—Preferiu o quê? Você se aproveitou daquele mês que eu fiquei de cama, andou atrás dele, deu em cima. Uma vergonha!

ALAÍDE (sardônica)—Por que você não fez a mesma coisa?

MULHER DE VÉU—Eu estava doente!

ALAÍDE—Por que então não fez depois? Tenho nada que você não saiba conquistar ou... reconquistar um homem? Que não seja mais mulher—tenho?

MULHER DE VÉU (agressiva)—O que me faltou sempre foi seu impudor.

ALAÍDE (rápida)—E quem é que tem pudor quando gosta?

MULHER DE VÉU (saturada)—Bem, não adianta discutir.

ALAÍDE (agressiva)—Não adianta mesmo!

MULHER DE VÉU—Mas uma coisa só eu quero que você saiba. Você a vida toda me tirou todos os namorados, um por um.

ALAÍDE (irônica)—Mania de perseguição!

CLESSI (microfone)—Então você tirou os namorados da mulher de véu? (pausa para uma réplica de Alaíde que ninguém ouve)

CLESSI (microfone)—Também você não se lembra de nada! Procure vê-la sem véu. Ela não pode ser uma mulher sem rosto. Tem que haver um rosto debaixo do véu

(Pausa para outra réplica não ouvida.)

CLESSI (microfone)—Daqui a pouco você se lembra, Alaíde.

(Trevas. Luz no plano da realidade. Sala de operação)

MÉDICO—Pulso?

MÉDICO—160 .

1° MÉDICO (pedindo)—Pinça.

2° MÉDICO—Bonito corpo.

1° MÉDICO—Cureta.

3° MÉDICO—Casada—olha a aliança.

(Rumor de ferros cirúrgicos.)

1° MÉDICO—Aqui é amputação.

3° MÉDICO—Só milagre.

1° MÉDICO—Serrote.

(Rumor de ferros cirúrgicos.)

(A memória de Alaíde em franca desagregação. Imagens do passado e do presente se confundem e se superpõem. As recordações deixaram de ter ordem cronológica. Apaga-se o plano da memória. Luz nas escadas laterais. Dois homens aparecem no alto das escadas, cada um empunhando dois círios; descem, lentamente. A luz os acompanha. Um deles é gordo, ventre considerável, já entrado em anos; usa imensas barbas negras, cartola; o outro é um adolescente, lírico e magro. Ambos de negro, vestidos à maneira de 1905. Colocam os quatro círios; acendem. Depois do que, cumprimentam-se e vão se ajoelhar, diante de um cadáver invisível. Fazem o sinal da cruz com absoluta coincidência de movimentos. Os dois cavalheiros estão no plano da alucinação.)

(Luz no plano da memória. Alaíde e mulher de véu.)

MULHER DE VÉU (continuando a f rase)—...mas com Pedro você errou. (luz vertical sobre cada grupo)

ALAÍDE (levantando-se e atravessando entre os círios com ar de deboche. Luz vertical acompanha)—Vou-me casar com ele daqui a uma hora, minha filha.

MULHER DE VÉU—Pois é por isso que eu estou dizendo que você errou. Porque vai casar!

ALAÍDE (irônica)—Ah! é? Não sabia!

MULHER DE VÉU—Você roubou meus namorados. Mas vou roubar o marido. (acintosa) Só isso!

ALAÍDE (numa cólera reprimida)—Vá esperando!

(Alaíde volta para o espelho e a mulher de véu atrás.)

MULHER DE VÉU—Você vai ver. (noutro tom) Não é propriamente roubar.

ALAÍDE (irônica)—Então está melhorando.

MULHER DE VÉU—Você pode morrer, minha filha não morre?

ALAÍDE—Você quer dizer talvez que me mata?

MULHER DE VÉU (mais a sério)—Quem sabe? (noutro tom) (baixo) Você acha que eu não posso matar você?

(Luz no plano da alucinação onde já está uma mulher, espartilhada, com vestido à 1905, e f az o sinal da cruz ante o invisível ataúde. A referida senhora, depois de cumprimentar os dois cavalheiros presentes, tira da bolsa um lencinho e chora em silêncio. Luz no plano da memória.)

ALAÍDE (afirmativa)—Você não teria coragem. Duvido!

MULHER DE VÉU—Talvez não tenha coragem para matar. Mas para isso tenho!

(Esbofeteia Alaíde. Esta recua, levando a mão à face. Luz sobre Clessi e o namorado. Clessi numa recamier. Namorado, uniforme colegial cáqui. O rapaz tem a mesma cara de Pedro. Plano da memória.)

CLESSI (carinhosa e maternal)—Eu gosto de você porque você é criança! Tão criança!

FULANO (suplicante)—Vai? Vamos ao piquenique, amanhã?

CLESSI (negligente)—Onde é?

FULANO—Paquetá. Todo o mundo vai na barca das dez...

CLESSI—Não.

FULANO (suplicante)—Amanhã é domingo!

CLESSI (sem Ihe dar atenção)—Tão branco—17 anos! As mulheres só deviam amar meninos de 17 anos!

FULANO (sempre implorando)—Não mude de assunto! Vai? (zangado) Não peço mais!

CLESSI (com doçura)—Amanhã, não. Tenho um compromisso.

FULANO (meigo e suplicante)—E aquilo que eu lhe disse?

CLESSI—Não me lembro! O quê?

FULANO (meigo e suplicante)—Quer morrer comigo? Fazer um pacto como aqueles dois namorados da Tijuca?

CLESSI (sempre terna)—Lindo! Tem os cabelos tão finos!

(Luz sobre Alaíde e a mulher de véu.)

ALAÍDE (superior)—Pode dizer o que quiser. (irritante) Sou eu que vou casar, não é? Então não faz mal.

MULHER DE VÉU—Outra coisa: você está crente de que ele é só seu, não está?

(Silêncio superior de Alaíde.)

MULHER DE VÉU—Está mais do que crente, é claro! Pois olhe: sabe quem é esse namorado que eu arranjei? Tantas vezes vim conversar com você sobre ele! Contar cada passagem, meu Deus! (com ironia) pois olhe: esse namorado era seu noivo. Seu noivo, apenas!

ALAÍDE (cortante)—Mentira! Não acredito!

MULHER DE VÉU (superior)—Então é—então é mentira!

ALAÍDE (afirmativa)—Nunca, nunca que ele lhe daria essa confiança!

MULHER DE VÉU (irritante)—Mas não é isso que interessa.

ALAÍDE (agressiva)—Mentirosa!

MULHER DE VÉU—O que interessa é que você vai morrer. Não sei como, mas vai e eu então... me casarei com o viúvo. Só. Tipo da coisa natural, séria, uma mulher se casar com um viúvo.

(Alaíde senta-se. Mergulha o rosto entre as mãos. Luz no plano da alucinação.)

HOMEM DE BARBA (num gesto largo e voz grave, redonda oratória)—Está irreconhecível.

MULHER INATUAL—Também, uma navalhada no rosto!

HOMEM DE BARBA (descrevendo o golpe)—Pegou tudo isso aqui!

RAPAZ ROMÂNTICO (lírico)—Foi tão bonita—nem parece!

(A mulher aproxima-se do invisível caixão e faz que levanta um lenço que estaria sobre o rosto de um cadáver invisível. Luz sobre Alaíde e a mulher de véu.)

ALAÍDE (ameaçadora)—Vou dizer a Pedro o que você me contou!

MULHER DE VÉU—Se disser, vai ver o escândalo que eu faço! Experimente!

(Batem na porta.)

MULHER DE VÉU—Quem é?

MÃE—Sou eu!

MULHER DE VÉU—Agora está quase no fim.

MÃE—Mas parece brincadeira!

MULHER DE VÉU (cinicamente suplicante)—Só mais um pouquinho. Depois, nós chamamos. Está bem?

(Luz no plano da alucinação. Outro diálogo, junto ao caixão fantástico, enquanto a mulher de véu volta para junto de Alaíde.)

MULHER INATUAL—Que horas são?

HOMEM DE BARBA (Consultando o relógio de corrente)—Três horas da manhã.

RAPAZ ROMÂNTICO (patético)—Pensei que fosse mais.

HOMEM DE BARBA (tira laboriosamente um vasto lenço, do bolso traseiro da calça)—(Assoa-se estrepitosamente) Tudo porque ela não quis ir a um piquenique.

MULHER INATUAL—Dizem que tinham combinado morrer juntos. Na hora, ela não quis. Ele então...

HOMEM DE BARBA—Me disseram o negócio do piquenique.

MULHER INATUAL (filosófica)—Dizem tanta coisa! A gente nunca sabe!

(Luz no plano da memória. A mulher de véu aproxima-se de Alaíde, depois de apanhar a grinalda.)

MULHER DE VÉU (fria)—E a grinalda?

ALAÍDE (recuando o corpo)—Deixe que eu ponho!

MULHER DE VÉU—Eu mesma ponho. Já fiz tudo. Faço mais isso.

ALAÍDE (com rancor, olhando-a)—Foi por isso que você pediu a mamãe para me vestir.

MULHER DE VÉU (violenta)—Foi.

ALAÍDE (chorosa)—E eu, boba, sem desconfiar! Também a mamãe deixou!

(Mulher de véu quer colocar a grinalda.)

ALAÍDE (como que fugindo a um contacto repelente)—E não me toque!

(Batem na porta.)

MULHER DE VÉU (exasperada)—Oh! Meu Deus, será possível?

ALAÍDE (sombria)—Então você deseja minha morte!

PEDRO (da porta)—Alaíde!

MULHER DE VÉU (noutro tom)—Pedro!

ALAÍDE (noutro tom)—Já vai, Pedro (para a mulher de véu, ríspida). Vá abrir.

MULHER DE VÉU (baixo)—Não diga nada do que eu lhe disse. Senão já sabe!

(As duas olham-se rapidamente. A mulher de véu vai abrir a porta. Alaíde coloca a grinalda.)

PEDRO (jovial)—D. Lígia está indignada. Me disse que vocês se trancaram aí e não deixam ninguém entrar.

CLESSI (microfone)—Mas que coisa fizeram com você!

ALAÍDE (natural)—Bobagem de mamãe!

(A mulher de véu, fechada, permanece a distância.)

PEDRO (curvando-se)—Um beijinho!

ALAÍDE (ainda olhando para o .espelho)—Você dá ou pede?

PEDRO—Peço.

ALAÍDE (com dengue)—Assim estraga a minha pintura. E, além disso... (Alaíde indica a mulher de véu.)

PEDRO (cínico)—Ela finge que não vê!

MULHER DE VÉU—Até vou-me embora!

ALAÍDE (cheia de ironia)—Ela é muito escrupulosa, Pedro! Você não imagina!

CLESSI (microfone)—Se fosse comigo, eu desmanchava o casamento!

MULHER DE VÉU (com lentidão calculada)—Você se lembra do que eu lhe disse, Alaíde?

PEDRO (curioso)—O que foi?

ALAÍDE—Nada. Coisa sem importância.

PEDRO (perverso, para a mulher de véu)—Você tem namorado?

MULHER DE VÉU (fria)—Por quê?

PEDRO (cínico)—Por nada. Seu gênio é tão esquisito!

MULHER DE VÉU—Tenho. (com perversidade) Tive. Ele vai-se casar com outra.

PEDRO—Então o homem é um vilão autêntico!

MULHER DE VÉU—É.

ALAÍDE (sardônica)—Não faz mal. Ela gosta dele assim mesmo.

MULHER DE VÉU—E gosto, sim. Ninguém tem nada com isso!

PEDRO (já para sa.ir)—Deixem D. Lígia entrar, antes que ela chore.

ALAÍDE (ríspida)—Mamãe é muito boba. Ainda pede licença para entrar no quarto da filha! Fica do lado de fora, implorando!

PEDRO—Está quase na hora. Temos que andar depressa; depois do nosso, há outro casamento.

ALAÍDE (queixosa)—Quer dizer que o outro casamento vai aproveitar a nossa ornamentação?

PEDRO (displicente)—Deixa. Não tem importância.

ALAÍDE (queixosa)—Ah! Pedro!

PEDRO—Que foi?

ALAÍDE (virando-se de costas com dengue)—Me esqueci que faz mal o noivo ver a noiva antes. Não é bom.

PEDRO (com bom humor)—Isso é criancice! Agora não adianta! Já vi! `

ALAÍDE—Vá, Pedro, vá!

(Imobilizam-se e emudecem Alaíde e a mulher de véu.)

CLESSI (microfone)—Bem. O resto já sei, Alaíde. (noutro tom) O quê?

(Parece ouvir um aparte que ninguém ouve.)

CLESSI (microfone)—Ah, você tinha pulado outra coisa? Que foi?

MULHER DE VÉU—Nós somos três cínicos: eu, você e ele. Você ainda é pior, porque quer ser inocente até o fim.

ALAÍDE (com raiva concentrada)—É melhor eu calar minha boca!

MULHER DE VÉU—Ele tão natural, perguntando: "Você tem namorado?" Que idéia ele faz de nós, meu Deus!

ALAÍDE (revoltada)—Eu sei que idéia!

MULHER DE VÉU (veemente)—De mim, que sou uma pervertida! De você, que é uma idiota!

(sardônica) Em todo o caso, prefiro mil vezes ser pervertida do que idiota!

ALAÍDE (indignada)—Você ainda acha preferível! Ainda diz que é!

MULHER DE VÉU (sardônica)—Claro, minha filha! Então não é? "Deixem D. Lígia entrar"... Como ele é infame—esse noivo que você arranjou!

ALAÍDE (irônica)—Assim mesmo você gosta dele!

MULHER DE VÉU—Gosto. Amo. Mas gosto sabendo o que ele é e por isso mesmo. Mas você... Ah, meu Deus. Aposto que não acredita em nada do que eu contei.

ALAÍDE (enfurecida)—E não acredito!

(Trevas para que novas personagens entrem no plano da memória.)

CLESSI (microfone)—Ah, então a pessoa que D. Laura beijou na testa—a tal que você não se lembrava quem era—é a mulher de véu? O que foi que as duas disseram naquela hora, Alaíde?

(Luz no plano da memória. A cena do quarto de Alaíde, no ponto em que dona Laura, já vestida de grande gala, está falando a uma pessoa, que é a mulher de véu. Presente o pai e a mãe de Alaíde, também vestidos para a cerimônia.)

D. LAURA (para a mulher de véu, que está um pouco retirada)—Desculpe. Eu não tinha visto você.

MULHER DE VÉU—Não faz mal.

(D. Laura beija-a na testa.)

D. LAURA (risonha)—Quando é o seu?

MULHER DE VÉU—Tem tempo! (noutro tom) (com certa amargura) Nunca!

D. LAURA (maliciosa)—Qual o quê! Está aí, não acredito! Tão moça, tão cheia de vida!

PAI (para Alaíde, que está pronta)—Então, vamos.

(Som da Marcha Nupcial. D. Laura faz um gesto qualquer para a mulher de véu e vai para junto de Alaíde.)

D. LAURA (solícita)—Cuidado com a cauda! (apanha a cauda, que entrega a Alaíde)

ALAÍDE (num último olhar)—Não falta mais nada? (todos olham, estando situados como no final do 1° ato)

MÃE (olhando em torno)—Não. Acho que não.

PAI (impaciente)—Já é tarde! Vamos descer!

(Ao som da Marcha Nupcial, saem os personagens do casamento. Fica a mulher de véu, numa atitude patética. Luz amortecida. Os dois homens do velório cochicham e afastam-se um pouco para fumar. Acendem o cigarro num dos círios e fumam.)

CLESSI (microfone)—Então a mulher de véu não foi?

ALAÍDE (idem)—Não.

CLESSI (idem)—Por quê?

ALAÍDE (idem)—Não quis ir. De maneira nenhuma. Não sei quem me contou depois que, enquanto nós esperávamos no salão a hora de sair, mamãe voltou para buscar a mulher de véu.

(Luz normal no plano da memória. Entra D. Lígia apressada. A mulher de véu, na mesma posição.)

MÃE—Você ainda está aí? Todo o mundo já desceu!

MULHER DE VÉU—Eu não vou. Eu fico!

MÃE (surpresa)—O que é que você tem?

MULHER DE VÉU (de costas)—Nada.

MÃE (desconfiada)—Vocês duas brigaram?

MULHER DE VÉU (impaciente)—Não sei, não sei.

MÃE—Vamos! Não seja assim!

MULHER DE VÉU—Não vou—não adianta. Está perdendo seu tempo.

MÃE (olhando-a, chocada)—Mas não vai por quê?

MULHER DE VÉU (com raiva concentrada)—Porque não—ora essa! (noutro tom) (de frente) Vou lá ao casamento dessa mulher!

MÃE (sentida)—Oh! Isso é termo "Mulher"?

MULHER DE VÉU (sardônica)—Não tenho outro!

MÃE—Que foi isso, de repente? Vocês, tão amigas!

MULHER DE VÉU (com amargura)—Amigas, nós? Oh! meu Deus! Como se pode ser tão cega! (noutro tom) Eu ir a esse casamento, quando eu é que devia ser a noiva!

MÃE (em pânico)—Você está doida?

MULHER DE VÉU (violenta)—Eu, sim senhora, eu!

MÃE (suspensa)—Você gosta de Pedro! (pausa; as duas se olham) Então é isso?

MULHER DE VÉU (sardônica)—A senhora pensava que fosse o quê?

(Luz no plano da alucinação. A mulher inatual, junto ao esquife, levanta o lenço para ver a fisionomia da morta invisível. Faz uma mímica de piedade. Alaíde e Clessi aparecem no alto de uma das escadas laterais, sentadas num degrau. Penumbra no velório.)

CLESSI—Você parece maluca!

ALAÍDE (ao lado de Clessi)—Eu?

CLESSI—Você está fazendo uma confusão! Casamento com enterro!... Moda antiga com moda moderna! Ninguém usa mais aquele chapéu de plumas, nem aquele colarinho!

ALAÍDE (agoniada)—Tudo está tão, embaralhado na minha memória! Misturo coisa que aconteceu e coisa que não aconteceu. Passado com o presente. (num lamento) É uma misturada!

CLESSI (impaciente)—Você fala tanto nessa mulher que morreu! Ela é o que, afinal?

ALAÍDE (agoniada)—Pois é, não posso me lembrar. Não consigo! Só me lembro que estavam fazendo quarto a uma senhora com um chapéu de plumas, espartilho, e dois homens com bigodes, pastinha e colarinho alto.

CLESSI—Essa moda é antiga. Então isso foi há muito tempo.

ALAÍDE (fazendo um esforço de memória)—Estou vendo se me lembro de mais alguma coisa...

(O homem de barba fala, agora, sentado no chão com a mulher inatual, em franco idílio.)

HOMEM DE BARBA—Clessi nem podia pensar que hoje estaria morta!'

CLESSI (no alto da escada, levantando-se e descendo)—Clessi... (com espanto e medo) Clessi!...

ALAÍDE (triunfante, levantando-se também e descendo)—Agora me lembro! De tudo, tudinho! Seu nome! É você—a morta é você!

(Alaíde e Clessi aproximam-se do esquife.)

CLESSI (apontando para o seu próprio cadáver invisível)—(Com melancolia) Você não tinha meio de se lembrar! E eu aqui!

ALAÍDE (excitada)—É isso mesmo! Eu estava tão confusa! Mas agora sei. Li tudo isso na Biblioteca Nacional. Vi todas as notícias sobre o crime. O repórter descrevia tudo, até as pessoas que fizeram quarto, de madrugada...

CLESSI (com melancolia)—Teve muita gente no meu enterro?

ALAÍDE (com exaltação)—Muita! De manhã, começou a chegar gente...

CLESSI (vaidosa)—Quanto mais ou menos?

(O homem de barba aproxima-se do rapaz romântico.)

HOMEM DE BARBA—Só nós aqui?

RAPAZ ROMÂNTICO—Mas deixa chegar 7 horas! Vai ver como fica isso!

HOMEM DE BARBA (consultando o relógio de corrente)—Ainda são 4 horas.

(Clessi e Alaíde sentadas junto aos dois círios.)

CLESSI (doce)—Enterro de anjo é mais bonito do que de gente grande.

ALAÍDE—Então mamãe disse à mulher de véu...

CLESSI (repreensiva)—A gente está falando numa coisa e vem você com outra muito diferente!

(Luz no plano da memória. Dona Lígia e a mulher de véu. A mulher de véu arranca o véu.)

MÃE—Já disse·para você não chamar sua irmã de mulher, Lúcia!

LÚCIA (exaltadíssima)—Chamo, sim! Mulher, mulher e mulher!

MÃE—Vou chamar seu pai! Você não me respeita!

LÚCIA (desafiante)—Pode chamar! (noutro tom) Bater em mim, ele não vai!

MÃE—Isso é coisa que se faça! Rogar praga para sua irmã!

LÚCIA—Então! Depois do que ela me fez!

MÃE (indo sentar-se na banqueta, patética)—A gente tem filhos...

LÚCIA (interrompendo com violência)—Eu mandei a senhora me botar no mundo, mandei?

MÃE (com lágrimas, explodindo)—E, depois, é isso!

(Entra o pai de Alaíde. Dona Lígia levanta-se, rápido. Lúcia assume uma atitude discreta. O pai vem furioso.)

PAI (gritando)—Vocês vêm ou não vêm?

MÃE—Vou, sim. (disfarçando) Estava aqui conversando...

PAI (azedo)—Isso é hora de conversar!?...

(Sai Dona Lígia.)

PAI—E você? Não vem?

LÚCIA—Não. Eu fico...

PAI (estranhando)—Por quê?

LÚCIA—Não estou me sentindo bem. Se for, vou desmaiar na igreja.

PAI (furioso)—Está bem.

SECOND OF THREE PARTS. TO BE CONTINUED.

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