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 Jorge Amado By Jorge Amado
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Jorge Amado, who died August 6, 2001, four days before celebrating his 89th
birthday, began writing Boris, o Vermelho (Boris,
the Red One) in the early 80s, but was never able to finish it. We publish here a
draft for the first chapter and his explanation for one of the several beginnings he wrote
for the book. The following text and the Siroca episode appeared in Playboy, August 1982. You can also read the
entirety of Amados book A Morte e a Morte de
Quincas Berro DÁgua below.
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A little explanation:
Boris, o Vermelho ainda é apenas uma idéia
minha: a visão, ainda pouco nítida de um jovem de nossos dias e de seu inevitável
choque com a sociedade. Uma idéia que está em suspenso, mas que me atrai. Voltarei a ela
em breve, com certeza. "Episódio de Siroca" é um dos diversos começos com os
quais tentei colocar em pé a história ainda imatura de Horis. Cumpro, assim, uma
promessa que fizera a Playboy ao ceder-lhes os
primeiros capítulos de Boris. E entrego aos
leitores uma curiosidade em matéria de ficção: a tentativa de um primeiro capítulo de
romance que de futuro será ou não aproveitada. A figura de Siroca, com seus problemas de
jovem doméstica, seu obstinado amor, sua estranha lealdade, sua sabedoria de vida,
persistirá no romance quando eu voltar a trabalhar na história de Boris? Só Deus sabe.
Eu de nada sei: apenas escuto a risada de Boris, a gaitada irresistível, e tento
decifrá-la, descobrir o significado da adivinha. (Jorge Amado)
Episódio de Siroca
Tudo começou, segundo afirmam alguns, no
dia do desaparecimento de Siroca. Outros discordam. Tais divergências são comuns entre
cidadãos liberais que não costumam impor suas convicções; o debate é o sal da
convivência.
É certo que a polícia andou na pista de
Boris, por ordem expressa do juiz de Menores. Após ter lido a descrição do suposto
raptor, o juiz, doutor Alceu Benevides, disse ao Comissário: "É ele, não é outro.
Ah! se eu ponho a mão nesse marginal, ele vai ver o que é bom!" Velhas contas a
saldar, refletiu o experiente Comissário, enquanto o juiz acrescentava: "Para seu
governo, fique sabendo que o indivíduo se chama Boris e atende pelo apelido de Vermelho.
Tipo perigoso".
Não foi o único motivo, somou-se a outros
talvez mais poderosos mas teve peso na inesperada decisão de Boris. O rapaz continuava
perturbado com a atitude de Siroca, era evidenteonde já se viu desfaçatez igual?
Além de não se dispor a novo encontro com o doutor Alceu, encontro ao qual faltaria
cordialidade. Boris era cordial por natureza.
Entre o xadrez e a caserna, preferiu a
farda, garantia, como se sabe, de impunidade para os bravos que a envergam. A guerra ainda
não foi declarada, mas devemos estar preparados para enfrentar o "solerte inimigo
estrangeiro que ameaça a segurança de nossas instituições", como repetem as
proclamações dos chefes militares. Enquanto o aguardamos com serenidade vamos treinando
as armas e a pontaria na população, a pobre, bem entendido. Para alguma coisa essa gente
há de servir.
A polícia em seu encalço, o comportamento
de Siroca ainda a confundi-lo, a dívida de honra contraída no antro do Profeta Maomé,
sem falar em ocorrências menores e anteriores, contribuíram para a surpreendente
resolução. Mas a razão definitiva e superior foi o elevado sentimento patriótico de
Boris, exaltado pela passagem do desfile militar que inaugurava festivamente a semana do
alistamento. A banda vibrando no dobrado, o rufar dos tambores, os clarins e as bandeiras:
visão física da Pátria, colorida e musical. Boris não vacilou, não era de vacilar.
Riu pensando na cara do juiz, bateu continência, tomou posição atrás do soldado,
marchou para o posto de recrutamento.
Se tudo começou com a fuga de Siroca, é
justo relembrá-la e à sua compacta carnação, tão dura que era impossível
beliscá-la.
Na escuridão do muro, sob a amendoeira,
Boris tomava entre os dedos os bicos dos seios, duas pequenas pedras negras.
Siroca emitia um ruído rouco, entreabria os
lábios para o beijo. Mais sensível o bico do peito esquerdo, quem saberá a razão?
Boris não buscava saber, apenas comprovava. Metia a mão pelo decote da blusa, fazia o
seio saltar, buscava com o lábio o bico túmido. Siroca contorcia-se, apertava-se contra
ele. Com a mão livre, Boris suspendia-lhe a saia. Ela não se opunha, entregue.
Entregue? Permitia tudo quanto ele ousasse,
tudo menos o principal. Quando Boris pensava que soara a hora exata, Siroca o afastava com
um empurrão:
Tire a mão daí.
O que é que tem?
Tire a mão, já disse. Isso tem dono.
Besteiras de donzela, surpreendentes, pois
hoje nenhuma se importa com cabaço, os tempos são outros. Boris repetia a tentativa, ela
o repelia, zangada:
Isso tem dono, já disse.
Não adiantava pedir, querer dobrá-la com
argumentos (não tem vergonha de ainda ser virgem?), com carícias, fazendo-a
perder a cabeça, esperando que ficasse fora de si, sem tino nem capacidade de
resistência. Tampouco ameaças de violência (é melhor dar logo antes que te
derrube e bote a pulso"). Por mais excitada e desejosa, não se abalava:
Tem dono!
Quando ele tentava agarrá-la à força,
Siroca separava-se num repelão:
Me larga ou nunca mais tu me vê...
Possuía uma força inusitada; seriam
necessários pelo menos três homens para dominá-la e possuí-la, mas curra era coisa que
Boris não topava, fato público e notório. Todos se recordavam da briga com Bastinho e
Dagoberto, muito comentada na ocasião.
Sendo Siroca de pouco falar, de riso raro,
Boris não chegara a saber praticamente nada a seu respeito durante o tempo de namoro.
Corpo de mulher feita, pronta para o que desse e viesse, para as últimas conseqüências.
Quem batesse os olhos em cima daquelas ancas, daquela peitaria rija, sentia um apelo
descendo do tutano para os ovos. Antes de Boris aparecer e assumir o posto, muitos a
rondaram e um gringoa maioria das casas do loteamento estava alugada a técnicos
estrangeiros que trabalhavam no Pólo Petroquímicolhe deu uma cédula de quinhentos
cruzeiros quando a encontrou na praia, de biquíni. Nunca se soube se com segundas
intenções ou simplesmente para agradecer tanta beleza exposta.
Corpo de mulher, mas bastava reparar mais
atentamente e via-se a pouca idade, quase menina. Viera de completar dezesseis anos e, por
coincidência, no dia do aniversário recebeu notícias de José Daniel em carta de
Rosenira, presente melhor não poderia ter desejado. A primaprima?contava que
José Daniel voltara e ficara uma fera ao saber que ela viajara para a Bahia com os
patrões. Dois dias depois outra carta, dessa vez dele próprio, a letra firme e o jeito
autoritário, apenas o endereço no envelope fora escrito por Rosenira para não chamar a
atenção. José Daniel explicava tudo tim-tim por tim-tim e exigia sua volta, marcava
data para a chegada, vinte dias de prazo: vou te esperar na rodoviária, durante três
dias, a partir de dezoito de abril, na parada do ônibus da Bahia. Não dizia qual deles,
mas só podia ser um dos ônibus sem leito, os de passagem mais barata. Precisava saber o
preço.
Baratinada com a carta, o pensamento em
José Daniel, no primeiro ímpeto resolveu acabar o namoro com Boris. Matutou, porém,
enquanto passeava o menino pelas ruas vazias, não costumava agir precipitadamente. Uma
turma da companhia de eletricidade estava substituindo a lâmpada do poste da esquina.
Boris apagara a outra com uma pedrada certeira no começo do namoro. Pensou no rapaz com
afeição: gostava dele, bonitão e muito educado, para um namoro passageiro não podia
haver melhor. José Daniel a fizera sofrer, merecia um castigo e ademais agrado não tira
pedaço, o que era dele o bicho não ia comer, isso não. Ainda tardaria mais uns dias a
embarcar, não tinha por que perder a folgança, os beijos, os apertos e, quem sabe,
poderia vir a precisar da ajuda de Boris. O que, de fato, aconteceu.
Quem a visse, a face parada, silenciosa,
carregando o menino, jamais a imaginaria capaz de planejar e decidir. Moleca boa, aquela,
diziam todos, devotada à criança, asseada, não incomoda ninguém, não é respondona,
sempre de boa paz. Por vezes com o olhar perdido, o ar ausente, até havia quem a achasse
um pouco débil mental.
Em que será que essa menina está
pensando?perguntou dona Nazaré, a patroa, ao marido Luiz Tê (Tetriadovsky, isso é
lá sobrenome que se use?), engenheiro, poeta nas horas vagas.Será no tal sujeito?
Aquele já era, minha filha. Arranjou
outro aqui, um grandalhão de cabelo vermelho, muito atencioso. Na outra noite, aquela em
que cheguei tarde e ainda por cima o pneu pifou no começo da rua, veio me ajudar; para
falar a verdade fez tudo sozinho. Quis gratificar, quase se ofendeu,
Espero que, tendo escapado de um, não
caia na boca de outro...
Na hora, pode ser, depende dele saber
se posicionar. De joelhos ou sentado, não tem problema. Não vejo jeito é para o resto.
Comer uma virgem de pé não é tarefa fácil. Falo com conhecimento de causa. Quando era
jovem, tentei sem resultado.
Cínico! Lá vem você com suas
patifarias... enroscou-se no marido, adorava ouvi-lo contar aventuras anteriores ao
casamento.
Virgindade comprovada. Caloca, doutor Carlos
Imbassay, ginecologista amigo da família, que acompanhara a gravidez e fizera o parto de
Nazaré, comentou, com sua língua suja, após o exame:
Mais pura do que a Virgem Maria antes
do Espírito Santo. Nunca vi babaca mais fechada, nem sei como passa a urina.
Siroca se sujeitara ao exame sem protestar,
carrancuda, respondendo com monossílabos às perguntas do médico, que não pôde conter
um leve assobio de admiração quando contemplou o corpo da moça esplendor para
destaque de Escola de Samba.
Nazaré decidira levar a afilhada ao
consultório médico após aquela infernal semana durante a qual Siroca saíra todas as
noites sem pedir licença, voltando cada vez mais tarde. A patroa, alarmada, ficava à
espera, de plantão. Quando Luiz Tê, cansado do dia extenuante no canteiro de obras,
protestava contra aquela vigília absurda, Nazaré, dramatizava sua responsabilidade:
A mãe entregou essa peste em
confiança, foi criada lá em casa, ainda por cima sou madrinha dela, imagine se aparece
de bucho grande, prenha!
Não adiantava sermão, conselhos, gritos,
ameaçasaté de pancada ameaçara, sem resultado:
Pode me bater se quiser, madrinha.
Não vou deixar de gostar dele... Nem morta...
Ouvia os sermões em silêncio e quando
Nazaré exigia resposta às perguntas precisas, contava com voz inexpressiva:
A gente tava aqui pertinho, sentado
num banco, na praia, conversando. Não tava fazendo nada de mais.
Sozinhos?
Rosenira tava junto, pergunte a ela se
quiser.
Nazaré tinha horror a José Daniel,
encanador de profissão, não que ele fosse pior que os outros vários candidatos à
estreita virgindade de Siroca, mas por sabê-lo casado, pai de filhos. Que futuro poderia
oferecer à rapariga, além de comê-la e largá-la na vida? Não ajudara a criar Siroca
para que ela terminasse fazendo a vida em Copacabana, pegando homem. De sua casa, devia
sair para casar com um bom rapaz, vestida de noiva, com véu e grinalda.
Luiz Tê acabava por perder a paciência:
Nazá, minha filha, isso não pode
continuar. Você não dorme, não me deixa dormir, fica nessa lenga-lenga com Siroca até
de madrugada. Você anda com olheiras, e alimenta mal e sabe há quantos dias a gente não
pitoca?
Sem vergonha, não sabe pensar noutra
coisa.. O que queres que eu faça? Siroca criada lá em casa, me deram ela de afilhada
quando eu completei nove anos, como se me dessem uma boneca... Não posso consentir que
ela se desgrace. Não tem juízo.
O melhor é você mandar ela de volta
para a casa dela, a mãe que tome conta.
E onde a gente vai arranjar outra? Uma
que cuide de Tinho com o desvelo que ela cuida, que seja limpa, um trem no trabalho,
obediente?
Obediente?
Antes, era. Foi esse José Daniel quem
virou a cabeça dela. Assim mesmo só desobedece quando se trata dele.
Manda ela passar uns tempos com a
mãe. Até esquecer...
Mandar para onde? Faz mais de dois
anos que a mãe dela se mudou para Botucatu nunca mais deu notícias.
Então deixa a moleca seguir o destino
dela. Larga de mão.
Ah! Isso não! Enquanto eu tiver
forças, esse canalha não vai abusar da pobre. Nem que eu tenha...sentindo a mão
do marido por debaixo da camisola, foi perdendo as forças, não terminou a frase.
Depois do desvario habitual, aquela
tempestade, fechou os olhos adormeceu. Acordou pela madrugada, aflita. Levantou-se, enfiou
a camisoladormira nua, a mão de Luiz Tê, mão viciosa, tocando-lhe os pêlos. Pé
ante pé, dirigiu-se ao quarto de empregadas, no fundo do apartamento. Na porta
semi-aberta, forçou a vista: no leito de baixo, descomposta, a combinação deixando ver
os peitos enormes, arfava Laura, a cozinheira, rosto suado. "Como conseguem dormir
nesse forno? No fim do mês, quando Luiz receber, compro um ventilador para elas."
Ergue a vista para a cama de cima, não tinha sido ocupada. "Que horas são?"
A sorte é que Siroca não tardou a chegar.
Nazaré apenas a mediu com os olhos e, apesar da indignação, constatou a formosura da
afilhada: as calças jeans apertadas, oprimindo-lhe as ancas, o volume dos seios, soltos
sob a blusa florada que herdara de Nazaré, a carapinha assentada e veludosa. "O
cabelo dessa negrinha é um veludo", dizia o velho Matias, freguês do almoço
dominical; baixava a mão do cabelo para assentar um tapa na vastidão da bunda, prazer de
velho é coisa à-toa. Tão linda e merecedora de melhor sorte; um rapaz direito que
tomasse o casamento.
Parada junto à porta de entrada, Siroca
esperava o esporro habitual ("bater sei que não vai me bater nunca, é xingo e nada
mais; preferia que batesse"), as palavras ásperas, as queixas amargas e, pior que
tudo, os conselhos. Terminou por romper o silêncio:
A gente ficou conversando, nem viu as
horas passar.
A gente, quem?
Eu e José Daniel, hoje Rosenira não
veio.
Amanhã, vou levar você ao médico.
Ao médico, madrinha? Mas se eu não
estou doente...
Não pedi sua opinião.
Siroca falou para dentro: "Isso que a
madrinha está pensando, quem me dera fosse verdade, era tudo o que eu queria".
Parecia um anjo, a face da inocência. Nazaré teve vontade de chorar.
Quando a situação parecia atingir um ponto
insuportável, tudo se resolveu de vez e pelo melhor. Primeiro aconteceu aquele verdadeiro
milagre que mudou por completo a situação do casal: a oferta feita a Luiz Tê, por
intermédio de um colega de renome, seu professor da universidade. Colocado à frente de
uma grande indústria nas proximidades da cidade da Bahia, necessitava de engenheiro
competente, que não se assustasse com trabalho, fosse responsável e de confiança, para
ser seu assessor imediato. Pensara no antigo aluno, cujo talento o impressionara e que
vegetava naquela construtora sem futuro. "Que lhe parece, caro Tê, ir para a
Bahia?"
Proposta feita, proposta aceita. Luiz Tê
embarcou em seguida, precisava assumir o posto imediatamente, Nazaré ficou com o encargo
de liquidar o apartamento, passar o contrato adiante, e embalar e despachar os pertences.
Da Bahia, o marido telefonava entusiasmado; a empresa fornecia casa mobiliada numa
"praia deslumbrante, nunca vi nada igual", a meio caminho entre a cidade e a
fábrica, e financiara em boas condições a compra de um automóvel, absolutamente
indispensável. "É o paraíso, Nazá!"
É o paraíso, Siroca, Luiz está
empolgado. Diz que para Tinho vai ser maravilhoso, tem onde passear à vontade, ar puro,
não vai ficar confinado num apartamento como aqui... E nós duas vamos aprender a fazer
pratos baianos, Luiz já conseguiu uma cozinheira especialista...
Não vou para a Bahia não, madrinha
Como não vai?
Não vou não
Tu vai, queira ou não queira. Tu não
tem querer. Te levo à força.
A senhora não é minha mãe nem
doutor Luiz meu pai
Enquanto fores menor tens de me
obedecer.
Não tenho não senhora. Vou ficar em
casa de Rosenira, arranjo emprego.
Tu vai é atrás desse miserável. Vai
se perder com ele
"É só ele querer",
concordou Siroca em pensamento, enquanto dizia:
Vou sentir falta de Tinho
Depois dessa conversa, afilhada e madrinha
deixaram quase de se falar. Mas Siroca cuidava do menino com desvelo, limpava e arrumava o
apartamento e assumiu a cozinha quando Laura, contratada por uma família do mesmo
edifício, foi embora sem esperar pela viagem da antiga patroa. Nazaré decidira consultar
um advogado para saber que meios legais podia usar para reduzir Siroca à obediência,
quando certa manhã, inesperadamente, a moleca comunicou-lhe:
Madrinha, vou ir com a senhora.
Está falando a verdade, Siró?
Tou, sim senhora.
E... e...José Daniel?
Se acabou..
Terminou com ele? Viu que ele não
prestava?
Não foi assim, não. Ele é que foi
embora. Se acabou.
Voltou as costas, recomeçou a trabalhar.
Nazaré saiu naquela mesma tarde à procura de Rosenira, arrumadeira num apartamento das
vizinhanças. Era dia de folga da moça, mas a dona de casa, simpatia de pessoa, conhecia
e forneceu o endereço da parenta de Sirocaparenta ou simples conterrânea?num
subúrbio distante. Nazaré não vacilou: enfrentou o trem, andou um bom pedaço a pé,
finalmente encontrou a casinhola numa rua de cantonunca vira tanto menino em sua
vida.
Chegou esperançosa; Rosenira e Siroca eram
amigas íntimas, saíam juntas, e se alguém estava a par do que se passara, esse alguém
era Rosenira.
Saber, sabia, mas não muito. Siroca não se
abria, menos ainda quando se tratava de José Daniel. Não fazia confidências nem ouvia
conselhos. Ela, Rosenira, se cansara de alertar a primase tratam de primas, é como
se realmente o fossem para o fato de José Daniel ser casado, viver com a mulher e
os filhos, duas meninas e um menino, e de já ter feito o benefício a várias que andavam
por aí de menino no braço, filho sem pai. Adiantou? Dona Nazaré bem que sabe que não.
Ela, Rosenira, fez o que pôde: saía com eles, até namorou o tal do Mundinho Cabeção,
amigo inseparável de José Daniel, para melhor cuidar de Siroca.
Pois fique sabendo de um coisa, dona
Nazaré: de pouco isso ia adiantar porque se ele quisesse fazer mal a ela, tinha feito,
quem estava doidinha por isso era ela. Ele é que nunca propôs.
Não venha me dizer que era
namoroia dizer platônico, não disse... namoro de caboclo...
Não vou mentir pra senhora: era de
tirar faísca, cada beijo, cada chupão de dar inveja. A senhora sabe que o apelido de
José Daniel é boca de mel? Fez com ela o que bem quis mas não comeu não senhora. Por
que teria sido, dona Nazaré?
Como posso saber? E agora, acabou
mesmo?
Pois é: tão apaixonado que estava,
vai e manda uma carta dizendo que tinha de fazer uma viagem para resolver um assunto, ia
sumir durante uns tempos, Siroca que fosse desculpando. Um dia, se desse jeito, voltaria
para casar com ela.
Casar com ela? Ele não é casado?
Pois é, veja a senhora.
O que foi que ela disse?
É de pouco falar, a senhora sabe.
"Me largou, não quis de mim", foi tudo que disse como se não fosse dez vezes
pior se tivesse querido e depois largadofez uma pausaEu só queria saber, dona
Nazaré, porque José Daniel não comeu ela. Tem cada coisa no mundo mais sem
explicação.
Quando Siroca acabou de falar e sorriu,
Boris olhou para ela, pasmo. A lâmpada nova, acesa no poste, iluminava um rosto calmo,
tranqüilo.
Tu está me pedindo para te ajudar a
fugir para o Rio, para se encontrar com outro, o que é o dono de teu cabaço... É isso
mesmo?
Siroca balançou a cabeça, concordando:
Tu vai fazer, não vai?
Quem lhe metera tal idéia na cabeça?
Pensava que ele era o quê?
Eu sei que tu vai fazer.
Deixara de sorrir, agora parecia inquieta,
os olhos súplices.
O riso se desatou, a incrível risada de
Boris, gaitada única e indefinível, alegre e irônica, depois dela tudo podia acontecer.
Aqueles que a escutaram jamais puderam esquecê-la. A maioria não conseguiu decifrar seu
significado, os que tentaram explicá-la não obtiveram sucesso. Boris ria, as mãos nas
cadeiras, esse mundo louco. Ah! Esse mundo inconseqüente!
"Que bom que ele não riu assim quando
estava querendo que eu desse", pensou Siroca. Nenhuma resistiria quanto mais quem
estivesse amolecida de agrados, o corpo úmido. Igual a ela, junto ao poste.
O que eu tenho que fazer?
Fez tudo que ela lhe ordenou, sem reclamar,
sem pedir explicações, sem querer saber os motivos. Inclusive, naquelas últimas noites
de namoro, não se aproveitou de Siroca estar toda agradecida, dengosa, acesa num fogo
nunca visto, para tentar colher os três vinténs que ela lhe negara por tê-los
prometidos a outro. Perdera o interesse e se apertou contra o peito, se beliscou-lhe os
seios e alisou-lhe o ventre, se buscou com os dedos os pêlos do xibiu e tocou a brasa
acesa, foi para não ofendê-la, pois o desejo passara; Boris se dedicara totalmente ao
plano de fuga.
Recolheu a mala que ela lhe passou de
madrugada, tinha onde escondê-la muito bem escondida. Compareceu à rodoviária para
comprar a passagem no ônibus sem leito que saía às 19 horas e como o dinheiro que lhe
dera fosse insuficienteas passagens agora sobem a cada quinze dias,teve de ir
tomar emprestada a quantia que faltava
Durante duas noites foi visto rondando os
muros da casa do engenheiro para receber os últimos pertences. A cozinheira sabia do
namoro mas, se desconfiava da fuga, calou o bico. Depois abriu a boca, quando a polícia
ameaçou.
Nessa altura, Siroca já ia longe, o ônibus
saíra no horário e só no dia seguinte foi dado o alarme e consignada a queixa. Siroca
deixara a casa pela porta da rua, vestida com o uniforme do trabalho, Boris a esperava no
ponto combinado. Na praia mudou de roupa. Antes que se pusesse nos trinques para a viagem,
ele a viu nua, inteirinha, quando a moça retirou o uniforme que usava em cima da pele. A
lua desceu para espiá-la e houve um fulgor de estrelas. Boris não se moveu se bem
tivesse sentido o coração pulsar mais forte. Tinha dito que ia fazer, não voltava mais.
Vambora
Nua como estava, Siroca se prendeu contra
ele num beijo derradeiro.
Se não tivesse dono, eu tinha de
dado. Tu foi bom demais.
Tomara emprestada a moto de Toquinho,
colocou a Siroca na garupa, a mala sobre as coxas; pôs máquina em marcha e lá se foram.
Com o escape aberto, um barulho dos demônios, passaram em frente à casa do engenheiro,
pela janela a cozinehira os viu. Uma glória!pensou Siroca na garupa da
motocicleta. Amanhã estaria nos braços de José Daniel, por fim ia ser dele.
Boris esperou que o ônibus partisse,
respondeu ao adeus. Depois voltou a rir, aquela gargalhada indescritível, gaitada
incomensurável, ria de quê? Passageiros olhavam-no assustados, sem entender. Maluco, com
certeza.
A Morte e a Morte de
Quincas Berro Dágua
Jorge Amado
Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas
por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas
diversas. Não há clareza sobre hora, local e frase derradeira. A família, apoiada por
vizinhos e conhecidos, mantém-se intransigente na versão da tranqüila morte matinal,
sem testemunhas, sem aparato, sem frase, acontecida quase vinte horas antes daquela outra
propalada e comentada morte na agonia da noite, quando a lua se desfez sobre o mar e
aconteceram mistérios na orla do cais da Bahia. Presenciada, no entanto, por testemunhas
idôneas, largamente falada nas ladeiras e becos escusos, a frase final repetida de boca
em boca representou, na opinião daquela gente, mais que uma simples despedida do mundo,
um testemunho profético, mensagem de profundo conteúdo (como escreveria um jovem autor
de nosso tempo).
Tantas testemunhas idôneas, entre as quais
Mestre Manuel e Quitéria do Olho Arregalado, mulher de uma só palavra, e, apesar disso,
há quem negue toda e qualquer autenticidade não só à admirada frase mas a todos os
acontecimentos daquela noite memorável, quando, em hora duvidosa e em condições
discutíveis, Quincas Berro Dágua mergulhou no mar da Bahia e viajou para sempre, para
nunca mais voltar. Assim é o mundo, povoado de céticos e negativistas, amarrados, como
bois na canga, à ordem e à lei, aos procedimentos habituais, ao papel selado. Exibem
eles, vitoriosamente, o atestado de óbito assinado pelo médico quase ao meio-dia e com
esse simples papelsó porque contém letras impressas e estampilhastentam
apagar as horas intensamente vividas por Quincas Berro Dágua até sua partida, por livre
e espontânea vontade, como declarou, em alto e bom som, aos amigos e outras pessoas
presentes.
A família do mortosua respeitável
filha e seu formalizado genro, funcionário público de promissora carreira; tia Marocas e
seu irmão mais moço, comerciante com modesto crédito num bancoafirma não passar
toda a história de grossa intrujice, invenção de bêbedos inveterados, patifes à
margem da lei e da sociedade, velhacos cuja paisagem devera ser as grades da cadeia e não
a liberdade das ruas, o porto da Bahia, as praias de areia branca, a noite imensa.
Cometendo uma injustiça, atribuem a esses amigos de Quincas toda a responsabilidade da
malfadada existência por ele vivida nos últimos anos, quando se tornara desgosto e
vergonha para a família. A ponto de seu nome não ser pronunciado e seus feitos não
serem comentados na presença inocente das crianças, para as quais o avô Joaquim, de
saudosa memória, morrera há muito, decentemente, cercado da estima e do respeito de
todos. O que nos leva a constatar ter havido uma primeira morte, senão física pelo menos
moral, datada de anos antes, somando um total de três, fazendo de Quincas um recordista
da morte, um campeão do falecimento, dando-nos o direito de pensar terem sido os
acontecimentos posterioresa partir do atestado de óbito até seu mergulho no
maruma farsa montada por ele com o intuito de mais uma vez atazanar a vida dos
parentes, desgostar-lhes a existência, mergulhando-os na vergonha e nas murmurações da
rua. Não era ele homem de respeito e de conveniência, apesar do respeito dedicado por
seus parceiros de jogo a jogador de tão invejada sorte e a bebedor de cachaça tão longa
e conversada.
Não sei se esse mistério da morte (ou das
sucessivas mortes) de Quincas Berro Dágua pode ser completamente decifrado. Mas eu o
tentarei, como ele próprio aconselhava, pois o importante é tentar, mesmo o impossível.
II
Os patifes que contavam, pelas ruas e
ladeiras, em frente ao Mercado e na feira de Água dos Meninos, os momentos finais de
Quincas (até um folheto com versos de pé-quebrado foi composto pelo repentista Cuíca de
Santo Amaro e vendido largamente) desrespeitavam assim a memória do morto, segundo a
família. E memória de morto, como se sabe, é coisa sagrada, não é para estar na boca
pouco limpa de cachaceiros, jogadores e contrabandistas de maconha. Nem para servir de
rima pobre a cantadores populares na entrada do Elevador Lacerda, por onde passa tanta
gente de bem, inclusive colegas de repartição de Leonardo Barreto, humilhado genro de
Quincas. Quando um homem morre, ele se reintegra em sua respeitabilidade a mais
autêntica, mesmo tendo cometido loucuras em sua vida. A morte apaga, com sua mão de
ausência, as manchas do passado e a memória do morto fulge como diamante. Essa a tese da
família, aplaudida por vizinhos e amigos. Segundo eles, Quincas Berro Dágua, ao morrer,
voltara a ser aquele antigo e respeitável Joaquim Soares da Cunha, de boa família,
exemplar funcionário da Mesa de Rendas Estadual, de passo medido, barba escanhoada,
paletó negro de alpaca, pasta sob o braço, ouvido com respeito pelos vizinhos, opinando
sobre o tempo e a política, jamais visto num botequim, de cachaça caseira e comedida. Em
realidade, num esforço digno de todos os aplausos, a família conseguira que assim
brilhasse, sem jaça, a memória de Quincas desde alguns anos, ao decretá-lo morto para a
sociedade. Dele falavam no passado quando, obrigados pelas circunstâncias, a ele se
referiam. Infelizmente, porém, de quando em vez algum vizinho, um colega qualquer de
Leonardo, amiga faladeira de Vanda (a filha envergonhada), encontrava Quincas ou dele
sabia por intermédio de terceiros. Era como se um morto se levantasse do túmulo para
macular a própria memória: estendido bêbedo, ao sol, em plena manhã alta, nas
imediações da rampa do Mercado ou sujo e maltrapilho, curvado sobre cartas sebentas no
átrio da igreja do Pilar ou ainda cantando com voz rouquenha na ladeira de São Miguel,
abraçado a negras e mulatas de má vida. Um horror!
Quando finalmente, naquela manhã, um
santeiro estabelecido na ladeira do Tabuão chegou aflito à pequena porém bem arrumada
casa da família Barreto e comunicou à filha Vanda e ao genro Leonardo estar Quincas
definitivamente espichado, morto em sua pocilga miserável, foi um suspiro de alívio que
se elevou uníssono dos peitos dos esposos. De agora em diante já não seria a memória
do aposentado funcionário da Mesa de Rendas Estadual perturbada e arrastada na lama pelos
atos inconseqüentes do vagabundo em que ele se transformara no fim da vida. Chegara o
tempo do merecido descanso. Já poderiam falar livremente de Joaquim Soares da Cunha,
louvar-lhe a conduta de funcionário, de esposo e pai, de cidadão, apontar suas virtudes
às crianças como exemplo, ensiná-las a amar a memória do avô, sem receio de qualquer
perturbação.
O santeiro, velho magro, de carapinha
branca, estendia-se em detalhes: uma negra, vendedora de mingau, acarajé, abará e outras
comilanças, tinha um importante assunto a tratar com Quincas naquela manhã. Ele
havia-lhe prometido arranjar certas ervas difíceis de encontrar, imprescindíveis para
obrigações de candomblé. A negra viera pelas ervas, urgia recebê-las, estavam na
época sagrada das festas de Xangô. Como sempre, a porta do quarto, no alto da íngreme
escada, encontrava-se aberta. De há muito perdera Quincas a grande chave centenária.
Aliás, constava que ele a vendera a uns turistas, em dia magro de má sorte no jogo,
ajuntando-lhe uma história com datas e detalhes, promovendo-a a chave benta de igreja. A
negra chamou, não obteve resposta, pensou-o ainda adormecido, empurrou a porta. Quincas
sorria deitado no catreo lençol negro de sujo, uma rasgada colcha sobre as pernas
, era seu habitual sorriso acolhedor, ela nem se deu conta de nada. Perguntou-lhe
pelas prometidas ervas, ele sorria sem responder. O dedão do pé direito saía por um
buraco da meia, os sapatos rotos estavam no chão. A negra, íntima e acostumada às
brincadeiras de Quincas, sentou-se na cama, disse-lhe estar com pressa. Admirou-se dele
não estender a mão libertina, viciada nos beliscões e apalpadelas. Fitou mais uma vez o
dedo grande do pé direito, achou esquisito. Tocou o corpo de Quincas. Levantou-se
alarmada, tomou da mão fria. Desceu as escadas correndo, espalhou a notícia.
Filha e genro ouviam sem prazer aqueles
detalhes com negra e ervas, apalpadelas e candomblé. Balançavam a cabeça, quase
apressavam o santeiro, homem calmo, amigo de narrar uma história com todos os detalhes.
Só ele sabia dos parentes de Quincas, revelados em noite de grande bebedeira, e por isso
viera. Adotava uma fisionomia compungida para apresentar seus sentidos pêsames.
Estava na hora de Leonardo ir para a
Repartição. Disse à esposa:
Vai na frente, eu passo na
Repartição e não demoro a chegar. Tenho de assinar o ponto. Falo com o chefe...
Mandaram o santeiro entrar, ofereceram-lhe
uma cadeira na sala. Vanda foi mudar a roupa. O santeiro contava de Quincas a Leonardo,
não havia quem não gostasse dele na ladeira do Tabuão. Por que se entregara
elehomem de boa família e de posses, como o santeiro podia constatar ao ter o
prazer de travar conhecimento com sua filha e seu genroàquela vida de vagabundo?
Algum desgosto? Devia ser, com certeza. Talvez a esposa o houvesse carregado de chifres,
muitas vezes sucedia. E o santeiro punha os indicadores na testa, numa interrogação
frascária: tinha adivinhado?
Dona Otacília, minha sogra, era uma
santa mulher!
O santeiro coçou o queixo: por que então?
Mas Leonardo não respondeu, foi atender Vanda, que o chamava do quarto.
É preciso avisar...
Avisar? A quem? Pra quê?
A tia Marocas e a tio Eduardo... Aos
vizinhos. Convidar para o enterro...
Para que avisar logo aos vizinhos?
Depois a gente conta. Senão vai ser um converseiro danado...
Mas tia Marocas...
Falo com ela e Eduardo... Depois de
passar na Repartição. Anda depressa senão esse tal que veio trazer a notícia sai por
aí espalhando...
Quem diria... Morrer assim, sem
ninguém...
De quem a culpa? Dele mesmo, maluco...
Na sala, o santeiro admirava um colorido
retrato de Quincas, antigo, de uns quinze anos, senhor bem-posto, colarinho alto, gravata
negra, bigodes de ponta, cabelo lustroso e faces róseas. Ao lado, em moldura idêntica, o
olhar acusador e a boca dura, dona Otacília, num vestido preto, de rendas. O santeiro
estudou a fisionomia azeda:
Não tem cara de quem engana marido...
Em compensação, devia ser um osso duro de roer... Santa mulher? Não acredito...
III
Umas poucas pessoas, gente da ladeira,
espiavam o cadáver quando Vanda chegou. O santeiro informava em voz baixa:
É a filha. Tinha filha, genro,
irmãos. Gente distinta. O genro é funcionário, mora em Itapagipe. Casa de primeira...
Afastavam-se para ela passar, curiosos de
vê-la lançar-se sobre o cadáver, abraçá-lo, envolver-se em lágrimas, soluçar
talvez. No catre, Quincas Berro Dágua, as calças velhas e remendadas, a camisa aos
pedaços, num seboso e enorme colete, sorria como se estivesse a divertir-se. Vanda ficou
imóvel, olhando o rosto de barba por fazer, as mãos sujas, o dedo grande do pé saindo
da meia furada. Não tinha mais lágrimas para chorar nem soluços com que encher o
quarto, desperdiçados umas e outros nos primeiros tempos da maluquice de Quincas, quando
ela fizera tentativas reiteradas de trazê-lo de volta à casa abandonada. Agora apenas
olhava, o rosto ruborizado de vergonha.
Era um morto pouco apresentável, cadáver
de vagabundo falecido ao azar, sem decência na morte, sem respeito, rindo-se cinicamente,
rindo-se dela, com certeza de Leonardo, do resto da família. Cadáver para necrotério,
para ir no rabecão da polícia servir depois aos alunos da Faculdade de Medicina nas
aulas práticas, ser finalmente enterrado em cova rasa, sem cruz e sem inscrição. Era o
cadáver de Quincas Berro Dágua, cachaceiro, debochado e jogador, sem família, sem lar,
sem flores e sem rezas. Não era Joaquim Soares da Cunha, correto funcionário da Mesa de
Rendas Estadual, aposentado após vinte e cinco anos de bons e leais serviços, esposo
modelar, a quem todos tiravam o chapéu e apertavam a mão. Como pode um homem, aos
cinqüenta anos, abandonar a família, a casa, os hábitos de toda uma vida, os conhecidos
antigos, para vagabundear pelas ruas, beber nos botequins baratos, freqüentar o
meretrício, viver sujo e barbado, morar em infame pocilga, dormir em um catre miserável?
Vanda não encontrava explicação válida. Muitas vezes, à noite, após a morte de
Otacílianem naquela ocasião solene Quincas aceitara voltar para a companhia dos
seusdiscutira o assunto com o marido. Loucura não era, pelo menos loucura de
hospício, os médicos tinham sido unânimes. Como explicar, então?
Agora, porém, tudo aquilo terminava, aquele
pesadelo de anos, aquela mancha na dignidade da família. Vanda herdara da mãe certo
senso prático, a capacidade de tomar rapidamente decisões e executá-las. Enquanto
olhava o morto, desagradável caricatura do que fora seu pai, ia resolvendo o que fazer.
Primeiro chamar o médico para o atestado de óbito. Depois vestir decentemente o
cadáver, transportá-lo para casa, enterrá-lo ao lado de Otacília, num enterro que não
fosse muito caro, pois os tempos andavam difíceis, mas que tampouco os deixasse mal ante
a vizinhança, os conhecidos, os colegas de Leonardo. Tia Marocas e tio Eduardo ajudariam.
E pensando nisso, os olhos fitos na face sorridente de Quincas, Vanda pensou no destino da
aposentadoria do pai. Eles a herdariam ou receberiam apenas o montepio? Talvez Leonardo
soubesse...
Voltou-se para os curiosos ainda a fitá-la,
era aquela gentinha do Tabuão, a ralé em cuja companhia Quincas se comprazia. Que faziam
ali? Não compreendiam que Quincas Berro Dágua terminara ao exalar o último suspiro? Que
ele fora apenas uma invenção do diabo? Um sonho mau, um pesadelo? Novamente Joaquim
Soares da Cunha voltaria e estaria um pouco entre os seus, no conforto de uma casa
honesta, reintegrado em sua respeitabilidade. Chegara a hora do retorno e desta vez
Quincas não poderia rir na cara da filha e do genro, mandá-los plantar batatas, dar-lhes
um adeusinho irônico e sair assoviando. Estava estendido no catre, sem movimentos.
Quincas Berro Dágua acabara.
Vanda levantou a cabeça, passeou um olhar
vitorioso pelos presentes, ordenou com aquela voz de Otacília:
Desejam alguma coisa? Senão, podem ir
saindo.
Dirigiu-se depois ao santeiro:
O senhor podia fazer o favor de chamar
um médico? Para o atestado de óbito.
O santeiro aquiesceu com a cabeça, estava
impressionado. Os outros retiravam-se devagar. Vanda ficou só com o cadáver. Quincas
Berro Dágua sorria e o dedo grande do pé direito parecia crescer no buraco da meia.
IV
Procurou onde sentar. Tudo que havia, além
do catre, era um caixão de querosene vazio. Vanda o pôs de pé, soprou a poeira,
sentou-se. Quanto tempo demoraria o médico a chegar? E Leonardo? Imaginou o marido cheio
de dedos na Repartição, explicando ao chefe a inesperada morte do sogro. O chefe de
Leonardo conhecera Joaquim nos bons tempos da Mesa de Rendas. E quem não o conhecera
então, quem não lhe tinha consideração, quem poderia imaginar o seu destino? Para
Leonardo seriam momentos difíceis, comentando com o chefe as loucuras do velho, buscando
explicação para elas. O pior seria se a notícia se espalhasse entre os colegas,
murmurada de mesa em mesa, enchendo as bocas de risinhos maledicentes, de piadas
grosseiras, de comentários de mau gosto. Era uma cruz aquele pai, transformara suas vidas
num calvário, estavam agora no cimo do morro, era ter um pouco mais de paciência. Com o
rabo do olho, Vanda espiou o morto. Lá estava ele sorrindo, achando tudo aquilo
infinitamente engraçado.
É pecado ter raiva de um morto, ainda mais
se esse morto é o pai da gente. Vanda conteve-se, era pessoa religiosa, freqüentava a
igreja do Bonfim, um pouco espírita também, acreditava na reencarnação. Além do mais,
agora pouco importava o sorriso de Quincas. Era ela finalmente quem mandava e dentro em
pouco ele voltaria a ser o pacato Joaquim Soares da Cunha, irrepreensível cidadão.
O santeiro entrou com o médico, rapaz
jovem, certamente recém-formado pois ainda se dava ao trabalho de representar o
profissional competente. O santeiro apontou o morto, o médico cumprimentou Vanda, abriu a
maleta de couro brilhante. Vanda levantou-se, afastando o caixão de querosene.
De que morreu?
Foi o santeiro quem explicou:
Foi encontrado morto, assim como está.
Sofria alguma enfermidade?
Não sei, não senhor. Conheço ele há uns dez anos e sempre sadio como um boi.
A não ser que o doutor...
O quê?
...chame cachaça de doença. Virava um bocado, era bom no trago.
Vanda tossiu, repreensiva. O doutor dirigiu-se a ela:
Era empregado da senhora?
Houve um silêncio breve e pesado. A voz veio de longe:
Era meu pai.
Doutor jovem, ainda sem experiência da vida. Mediu Vanda, seu vestido de dia de festa,
sua limpeza, os sapatos altos. Espiou o morto de pobreza sem medida, o quarto de desmedida
miséria.
E ele vivia aqui?
Fizemos tudo para que voltasse para casa. Era...
Maluco?
Vanda abriu os braços, estava com vontade de chorar. O médico não insistiu.
Sentou-se na beira da cama, começou o exame. Suspendeu a cabeça e disse:
Ele está rindo, hein! Cara de debochado.
Vanda fechou os olhos, apertou as mãos, o rosto vermelho de vergonha.
V
O conselho de família não durou muito tempo. Discutiam na mesa de um restaurante na
Baixa dos Sapateiros. Pela rua movimentada passava a multidão, álacre e apressada. Bem
em frente, um cinema. O cadáver ficara entregue aos cuidados de uma empresa funerária,
propriedade de um amigo do tio Eduardo. Vinte por cento de abatimento.
Tio Eduardo explicava:
Caro mesmo é o caixão. E os automóveis, se for acompanhamento grande. Uma
fortuna. Hoje não se pode nem morrer.
Ali por perto haviam comprado uma roupa nova, preta (a fazenda não era grande coisa,
mas, como dizia Eduardo, para ser comida pelos vermes estava até boa demais), um par de
sapatos também pretos, camisa branca, gravata, par de meias. Cuecas não eram
necessárias. Eduardo anotava num caderninho cada despesa feita. Mestre na economia, seu
armazém prosperava.
Nas mãos hábeis dos especialistas da agência funerária, Quincas Berro Dágua ia
voltando a ser Joaquim Soares da Cunha, enquanto os parentes comiam peixada no restaurante
e discutiam sobre o enterro. Discussão mesmo só houve em torno de um detalhe: de onde
sair o caixão.
Vanda pensara levar o cadáver para casa, realizar o velório na sala, oferecendo
café, licor e bolinhos aos presentes, durante a noite. Chamar padre Roque para a
encomendação do corpo. Realizar o enterro pela manhã cedo, de tal maneira que pudesse
vir muita gente, colegas de Repartição, velhos conhecidos, amigos da família. Leonardo
opusera-se. Para que levar o defunto para casa? Para que convidar vizinhos e amigos,
incomodar um bocado de gente? Só para que todos eles ficassem recordando as loucuras do
finado, sua vida inconfessável dos últimos anos, para expor a vergonha da família ante
todo mundo? Como sucedera naquela manhã na Repartição. Não se havia falado noutra
coisa. Cada um sabia uma história de Quincas e a contava entre gargalhadas. Ele próprio,
Leonardo, nunca imaginara que o sogro houvesse feito tantas e tais. Cada uma de
arrepiar... Sem levar em conta que muitas daquelas pessoas acreditavam Quincas morto e
enterrado ou bem vivendo no interior do Estado. E as crianças? Veneravam a memória de um
avô exemplar, descansando na santa paz de Deus, e, de repente, chegariam os pais com o
cadáver de um vagabundo debaixo do braço, atiravam com ele no nariz dos inocentes. Sem
falar na trabalheira que iam ter, na despesa a aumentar, como se já não bastasse a do
enterro, da roupa nova, do par de sapatos. Ele, Leonardo, estava necessitando de um par de
sapatos, no entanto mandara botar meia-sola nuns velhíssimos para economizar. Agora, com
aquele desparrame de dinheiro, quando poderia pensar em sapatos novos?
Tia Marocas, gordíssima, adorando a peixada do restaurante, era da mesma opinião:
O melhor é espalhar que ele morreu no interior, que chegou um telegrama. Depois
a gente convida para a missa de sétimo dia. Vai quem quiser, a gente não é obrigada a
dar condução.
Vanda suspendeu o garfo:
Apesar dos pesares, é meu pai. Não quero que seja enterrado como um vagabundo.
Se fosse seu pai, Leonardo, você gostava?
Tio Eduardo era pouco sentimental:
E o que ele era senão um vagabundo? E dos piores da Bahia. Nem por ser meu
irmão posso negar...
Tia Marocas arrotou, o bucho farto, o coração também:
Coitado do Joaquim... Tinha bom gênio. Não fazia nada por mal. Gostava dessa
vida, é o destino de cada um. Desde menino era assim. Uma vez, tu lembra, Eduardo?...
quis fugir com um circo. Levou uma surra de arrancar o pêlobateu na coxa de Vanda a
seu lado, como a desculpar-se.E tua mãe, minha querida, era um bocado mandona. Um
dia ele arribou. Me disse que queria ser livre como um passarinho. A verdade é que ele
tinha graça.
Ninguém achou graça. Vanda fechara o rosto, obstinava-se:
Não estou defendendo ele. Muito nos fez sofrer, a mim e a minha mãe, que era
mulher de bem. E a Leonardo. Mas nem por isso quero que seja enterrado como um cão sem
dono. O que é que iriam dizer quando soubessem? Antes de dar pra doido, era pessoa
considerada. Deve ser enterrado direito.
Leonardo olhou-a suplicante. Sabia não adiantar discutir com Vanda, ela acabava sempre
por impor suas opiniões e seus desejos. Também fora assim no tempo de Joaquim e
Otacília, apenas um dia Joaquim largou tudo e ganhou o mundo. Que jeito, senão arrastar
com o cadáver para casa, sair avisando conhecidos e amigos, convocar gente por telefone,
passar a noite acordado, ouvindo contar coisas de Quincas, os risos em surdina, as
piscadelas de olho, tudo isso durando até a saída do enterro? Aquele sogro
amargurara-lhe a vida, dera-lhe os maiores desgostos. Leonardo vivia no receio de mais uma
das dele, de abrir o jornal e deparar com a notícia de sua prisão por vagabundagem, como
sucedera uma vez. Nem queria se recordar daquele dia quando, a instâncias de Vanda, andou
pela polícia, mandado de um lado para outro, até encontrar Quincas no porão da Central,
de cuecas e descalço, a jogar tranqüilamente com ladrões e vigaristas. E depois de tudo
isso, quando pensava finalmente respirar, ainda tinha de suportar aquele cadáver todo um
dia e uma noite, e em sua casa...
Mas Eduardo tampouco estava de acordo e era uma opinião de peso, já que o comerciante
concordara em dividir as despesas do enterro:
Tudo isso está muito bem, Vanda. Que ele seja enterrado como um cristão. Com
padre, de roupa nova, coroa de flores. Não merecia nada disso, mas, afinal, é teu pai e
meu irmão. Tudo isso está bem. Mas por que meter o defunto em casa...
Por quê?repetiu Leonardo num eco.
...incomodar meio mundo, ter de alugar seis ou oito automóveis para o
acompanhamento? Sabe quanto custa cada um? E o transporte do cadáver do Tabuão para
Itapagipe? Uma fortuna. Por que o enterro não sai daqui mesmo? Vamos nós de
acompanhamento. Basta um carro. Depois, se vocês fizerem questão, a gente convida para a
missa de sétimo dia.
Comunica que ele morreu no interiortia Marocas não abandonava sua
proposta.
Pode ser. Por que não?
E quem vela o corpo?
A gente mesmo. Pra que mais?
Vanda terminou cedendo. Em verdadepensou , a idéia de levar o cadáver
para casa era um exagero. Só ia dar trabalho, despesa e aborrecimento. O melhor era
enterrar Quincas o mais discretamente possível, comunicar depois o fato aos amigos,
convidá-los para a missa de sétimo dia. Assim ficou acertado. Pediram a sobremesa. Um
alto-falante berrava próximo as excelências do plano de vendas de uma companhia
imobiliária.
VI
Tio eduardo tinha voltado para o armazém, não podia abandoná-lo só com os
empregados, uns calhordas. Tia Marocas prometera vir mais tarde para o velório, precisava
passar em casa, deixara tudo ao deus-dará na pressa de saber as novidades. Leonardo, a
conselho da própria Vanda, aproveitaria a tarde sem repartição para ir à companhia
imobiliária, ultimar o negócio de um terreno a prazo que estavam comprando. Um dia, se
Deus ajudasse, teriam sua casa própria.
Haviam estabelecido uma espécie de turnos de revezamento: Vanda e Marocas pela tarde,
Leonardo e tio Eduardo pela noite. A ladeira do Tabuão não era lugar onde uma senhora
pudesse ser vista à noite, ladeira de má fama, povoada de malandros e mulheres da vida.
Na manhã seguinte, toda a família se reuniria para o enterro.
Foi assim que Vanda, à tarde, encontrou-se a sós com o cadáver do pai. Os ruídos de
uma vida pobre e intensa, desenvolvendo-se pela ladeira, mal chegavam ao terceiro andar do
cortiço onde o morto repousava após a canseira da mudança de roupa.
Os homens da empresa funerária haviam feito bom trabalho, eram competentes e
treinados. Como disse o santeiro, ao passar um instante para ver como as coisas se
apresentavam, nem parecia o mesmo morto. Penteado, barbeado, vestido de negro, camisa alva
e gravata, sapatos lustrosos, era realmente Joaquim Soares da Cunha quem descansava no
caixão funerárioum caixão régio (constatou satisfeita Vanda), de alças
douradas, com uns babados nas bordas. Haviam improvisado com tábuas e tripés de madeira
uma espécie de mesa e nela elevava-se o esquife, nobre e severo. Duas velas
enormescírios de altar-mor, orgulhou-se Vandalançavam uma chama débil, pois
a luz da Bahia entrava pela janela e enchia o quarto de claridade. Tanta luz do sol, tanta
alegre claridade, pareceram a Vanda uma desconsideração para com a morte, faziam as
velas inúteis, tiravam-lhe o brilho augusto. Por um momento pensou em apagá-las, medida
de economia. Mas, como certamente a empresa cobraria a mesma coisa gastassem duas ou dez
velas, decidiu fechar a janela e a penumbra fez-se no quarto, saltaram as chamas bentas
como línguas de fogo. Vanda sentou-se numa cadeira (empréstimo do santeiro), sentia-se
satisfeita. Não a simples satisfação do dever filial cumprido, algo mais profundo.
Um suspiro de satisfação escapou-se-lhe do peito. Ajeitou os cabelos castanhos com as
mãos, era como se houvesse finalmente domado Quincas, como se lhe houvesse de novo posto
as rédeas, aquelas que ele arrancara um dia das mãos fortes de Otacília, rindo-lhe na
cara. A sombra de um sorriso aflorou nos lábios de Vanda, que seriam belos e desejáveis
não fosse certa rígida dureza a marcá-los. Sentia-se vingada de tudo quanto Quincas
fizera a família sofrer, sobretudo a ela própria e a Otacília. Aquela humilhação de
anos e anos. Dez anos levara Joaquim essa vida absurda. Rei dos vagabundos da Bahia,
escreviam sobre ele nas colunas policiais das gazetas, tipo de rua citado em crônicas de
literatos ávidos de fácil pitoresco, dez anos envergonhando a família, salpicando-a com
a lama daquela inconfessável celebridade. O cachaceiro-mor de Salvador, o filósofo
esfarrapado da rampa do Mercado, o senador das gafieiras, Quincas Berro Dágua, o
vagabundo por excelência, eis como o tratavam nos jornais, onde por vezes sua sórdida
fotografia era estampada. Meu Deus!, quanto pode uma filha sofrer no mundo quando o
destino lhe reserva a cruz de um pai sem consciência de seus deveres.
Mas agora sentia-se contente: olhando o cadáver no caixão quase luxuoso, de roupa
negra e mãos cruzadas no peito, numa atitude de devota compunção. As chamas das velas
elevavam-se, faziam brilhar os sapatos novos. Tudo decente, menos o quarto, é claro. Um
consolo para quem tanto se amofinara e sofrera. Vanda pensou que Otacília sentir-se-ia
feliz no distante círculo do universo onde se encontrasse. Porque se impunha finalmente
sua vontade, a filha devotada restaurara Joaquim Soares da Cunha, aquele bom, tímido e
obediente esposo e pai: bastava levantar a voz e fechar o rosto para tê-lo cordato e
conciliador. Ali estava, de mãos cruzadas sobre o peito. Para sempre desaparecera o
vagabundo, o rei da gafieira, o patriarca da zona do baixo meretrício.
Pena que ele estivesse morto e não pudesse ver-se ao espelho, não pudesse constatar a
vitória da filha, da digna família ultrajada.
Quisera Vanda nessa hora de íntima satisfação, de pura vitória, ser generosa e boa.
Esquecer os últimos dez anos, como se os homens competentes da funerária os houvessem
purificado com o mesmo trapo molhado em sabão com que retiraram a sujeira do corpo de
Quincas. Para recordar-se apenas da infância, da adolescência, o noivado, o casamento, e
a figura mansa de Joaquim Soares da Cunha meio escondido numa cadeira de lona a ler os
jornais, estremecendo quando a voz de Otacília o chamava, repreensiva:
Quincas!
Assim o apreciava, sentia ternura por ele, desse pai tinha saudades, com um pouco mais
de esforço seria capaz de comover-se, de sentir-se órfã infeliz e desolada.
O calor aumentava no quarto. Fechada a janela, não encontrava a brisa marinha por onde
entrar. Tampouco a queria Vanda: mar, porto e brisa, as ladeiras subindo pela montanha, os
ruídos da rua faziam parte daquela terminada existência de infame desvario. Ali deviam
estar somente ela, o pai morto, o saudoso Joaquim Soares da Cunha e as lembranças mais
queridas por ele deixadas. Arranca do fundo da memória cenas esquecidas. O pai a
acompanhá-la a um circo de cavalinhos, armado na Ribeira por ocasião de uma festa do
Bonfim. Talvez nunca o tivesse visto tão alegre, tamanho homem escarranchado em montaria
de criança, a rir às gargalhadas, ele que tão raramente sorria. Recordava também a
homenagem que amigos e colegas lhe prestaram, ao ser Joaquim promovido na Mesa de Rendas.
A casa cheia de gente. Vanda era mocinha, começava a namorar. Nesse dia quem estourava de
contentamento era Otacília, no meio do grupo formado na sala, com discursos, cerveja e
uma caneta-tinteiro oferecida ao funcionário. Parecia ela a homenageada. Joaquim ouvia os
discursos, apertava as mãos, recebia a caneta sem demonstrar entusiasmo. Como se aquilo o
enfastiasse e não lhe sobrasse coragem para dizê-lo.
Lembrava-se também da fisionomia do pai quando ela lhe comunicara a próxima visita de
Leonardo, afinal resolvido a solicitar-lhe a mão. Abanara a cabeça, murmurando:
Pobre coitado...
Vanda não admitia críticas ao noivo:
Pobre coitado, por quê? É de boa família, está bem empregado, não é de
bebedeiras e deboches...
Sei disso... sei disso... Estava pensando noutra coisa.
Era curioso: não se recordava de muitos pormenores ligados ao pai. Como se ele não
participasse ativamente da vida da casa. Poderia passar horas a lembrar-se de Otacília,
cenas, fatos, frases, acontecimentos onde a mãe estava presente. A verdade é que Joaquim
só começara a contar em suas vidas quando, naquele dia absurdo, depois de ter tachado
Leonardo de bestalhão, fitou a ela e a Otacília e soltou-lhes na cara, inesperadamente:
Jararacas!
E, com a maior tranqüilidade desse mundo, como se estivesse a realizar o menor e mais
banal dos atos, foi-se embora e não voltou.
Nisso, porém, não queria Vanda pensar. De novo regressou à infância, era ainda ali
que encontrava mais precisa a figura de Joaquim. Por exemplo, quando ela, menina de cinco
anos, de cabelos cacheados e choro fácil, tivera aquele febrão alarmante. Joaquim não
abandonara o quarto, sentado junto ao leito da pequena enferma, a tomar-lhe as mãos, a
dar-lhe os remédios. Era um bom pai e bom esposo. Com essa última lembrança, Vanda
sentiu-se suficientemente comovida ehouvesse mais pessoas no velóriocapaz de
chorar um pouco, como é a obrigação de uma boa filha.
Fisionomia melancólica, fitou o cadáver. Sapatos lustrosos, onde brilhava a luz das
velas, calça de vinco perfeito, paletó negro assentando, as mãos devotas cruzadas no
peito. Pousou os olhos no rosto barbeado. E levou um choque, o primeiro.
Viu o sorriso. Sorriso cínico, imoral, de quem se divertia. O sorriso não havia
mudado, contra ele nada tinham obtido os especialistas da funerária. Também ela, Vanda,
esquecera de recomendar-lhes, de pedir uma fisionomia mais a caráter, mais de acordo com
a solenidade da morte. Continuara aquele sorriso de Quincas Berro Dágua e, diante desse
sorriso de mofa e gozo, de que adiantavam sapatos novosnovos em folha, enquanto o
pobre Leonardo tinha de mandar botar, pela segunda vez, meia-sola nos seus , de que
adiantavam roupa negra, camisa alva, barba feita, cabelo engomado, mãos postas em
oração? Porque Quincas ria daquilo tudo, um riso que se ia ampliando, alargando, que aos
poucos ressoava na pocilga imunda. Ria com os lábios e com os olhos, olhos a fitarem o
monte de roupa suja e remendada, esquecida num canto pelos homens da funerária. O sorriso
de Quincas Berro Dágua.
E Vanda ouviu, as sílabas destacadas com nitidez insultante, no silêncio fúnebre:
Jararaca!
Assustou-se Vanda, seus olhos fuzilaram como os de Otacília mas seu rosto tornou-se
pálido. Era a palavra que ele usava, como uma cusparada, quando, no início dessa
loucura, buscavam, ela e Otacília, reconduzi-lo ao conforto da casa, aos hábitos
estabelecidos, à perdida decência. Nem agora, morto e estirado num caixão, com velas
aos pés, vestido de boas roupas, ele se entregava. Ria com a boca e com os olhos, não
era de admirar se começasse a assoviar. E, além do mais, um dos polegareso da mão
esquerdanão estava devidamente cruzado sobre o outro, elevava-se no ar, anárquico
e debochativo.
Jararaca!disse de novo, e assoviou gaiatamente.
Vanda estremeceu na cadeira, passou a mão no rostoserá que estou enlouquecendo?
, sentiu faltar-lhe o ar, o calor fazia-se insuportável, sua cabeça rodava. Uma
respiração ofegante na escada: tia Marocas, as banhas soltas, penetrava no quarto. Viu a
sobrinha descomposta na cadeira, lívida, os olhos pregados na boca do morto.
Você está abatida, menina. Também com o calor que faz nesse cubículo...
Ampliou-se o sorriso canalha de Quincas ao enxergar o vulto monumental da irmã. Vanda
quis tapar os ouvidos, sabia, por experiência anterior, com que palavras ele amava
definir Marocas, mas que adiantam mãos sobre as orelhas para conter voz de morto? Ouviu:
Saco de peidos!
Marocas, mais descansada da subida, sem olhar sequer o cadáver, escancarou a janela:
Botaram perfume nele? Está um cheiro de tontear.
Pela janela aberta, o ruído da rua entrou, múltiplo e alegre, a brisa do mar apagou
as velas e veio beijar a face de Quincas, a claridade estendeu-se sobre ele, azul e
festiva. Vitorioso sorriso nos lábios, Quincas ajeitou-se melhor no caixão.
VII
Já naquela hora a notícia da inesperada morte de Quincas Berro Dágua circulava pelas
ruas da Bahia. É bem verdade que os pequenos comerciantes do Mercado não fecharam suas
portas em sinal de luto. Em compensação, imediatamente aumentaram os preços dos
balangandãs, das bolsas de palha, das esculturas de barro que vendiam aos turistas, assim
homenageavam o morto. Houve nas imediações do Mercado ajuntamentos precipitados,
pareciam comícios relâmpagos, gente andando de um lado para outro, a notícia no ar,
subindo o Elevador Lacerda, viajando nos bondes para a Calçada, ia de ônibus para a
Feira de Santana. Debulhou-se em lágrimas a graciosa negra Paula, ante seu tabuleiro de
beijus de tapioca. Não viria Berro Dágua naquela tarde dizer-lhe galanteios torneados,
espiar-lhe os seios vastos, propor-lhe indecências, fazendo-a rir.
Nos saveiros de velas arriadas, os homens do reino de Iemanjá, os bronzeados
marinheiros, não escondiam sua decepcionada surpresa: como pudera acontecer essa morte
num quarto do Tabuão, como fora o velho marinheiro desencarnar numa cama? Não
proclamara, peremptório, e tantas vezes, Quincas Berro Dágua, com voz e jeito capazes de
convencer ao mais descrente, que jamais morreria em terra, que só um túmulo era digno de
sua picardia: o mar banhado de lua, as águas sem fim?
Quando se encontrava, convidado de honra, na popa de um saveiro, ante uma peixada
sensacional, as panelas de barro lançando olorosa fumaça, a garrafa de cachaça passando
de mão em mão, havia sempre um instante, quando os violões começavam a ser ponteados,
em que seus instintos marítimos despertavam. Punha-se de pé, o corpo gingando, dava-lhe
a cachaça aquele vacilante equilíbrio dos homens do mar, declarava sua condição de
velho marinheiro. Velho marinheiro sem barco e sem mar, desmoralizado em terra, mas não
por culpa sua. Porque para o mar nascera, para içar velas e dominar o leme de saveiros,
para domar as ondas em noite de temporal. Seu destino fora truncado, ele que poderia ter
chegado a capitão de navio, vestido de farda azul, cachimbo na boca. Nem mesmo assim
deixava de ser marinheiro, para isso nascera de sua mãe Madalena, neta de comandante de
barco, era marítimo desde seu bisavô, e se lhe entregassem aquele saveiro seria capaz de
conduzi-lo mar afora, não para Maragogipe ou Cachoeira, ali pertinho, e sim para as
distantes costas da África, apesar de jamais ter navegado. Estava no seu sangue, nada
precisava aprender sobre navegação, nascera sabendo. Se alguém, na seleta assistência,
tinha dúvidas que se apresentasse... Empinava a garrafa, bebia em grandes goles. Os
mestres de saveiro não duvidavam, bem podia ser verdade. No cais e nas praias os meninos
nasciam sabendo as coisas do mar, não vale a pena buscar explicações para tais
mistérios. Então Quincas Berro Dágua fazia seu solene juramento: reservara ao mar a
honra de sua hora derradeira, de seu momento final. Não haviam de prendê-lo em sete
palmos de terra, ah! isso não! Exigiria, quando a hora chegasse, a liberdade do mar, as
viagens que não fizera em vida, as travessias mais ousadas, os feitos sem exemplo. Mestre
Manuel, sem nervos e sem idade, o mais valente dos mestres de saveiro, sacudia a cabeça,
aprovando. Os demais, a quem a vida ensinara a não duvidar de nada, concordavam também,
tomavam mais um trago de pinga. Pinicavam os violões, cantavam a magia das noites no mar,
a sedução fatal de Janaína. O velho marinheiro cantava mais alto que todos.
Como fora então morrer de repente num quarto da ladeira do Tabuão? Era coisa de não
se acreditar, os mestres de saveiro escutavam a notícia sem conceder-lhe completo
crédito. Quincas Berro Dágua era dado a mistificações, mais de uma vez embrulhara meio
mundo.
Os jogadores de porrinha, de ronda, de sete-e-meio suspendiam as emocionantes partidas,
desinteressados dos lucros, apatetados. Não era Berro Dágua o seu indiscutido chefe?
Caía sobre eles a sombra da tarde como luto fechado. Nos bares, nos botequins, no balcão
das vendas e armazéns, onde quer que se bebesse cachaça, imperou a tristeza e a
consumação era por conta da perda irremediável. Quem sabia melhor beber do que ele,
jamais completamente alterado, tanto mais lúcido e brilhante quanto mais aguardente
emborcava? Capaz como ninguém de adivinhar a marca, a procedência das pingas mais
diversas, conhecendo-lhes todas as nuanças de cor, de gosto e de perfume. Há quantos
anos não tocava em água? Desde aquele dia em que passou a ser chamado Berro Dágua.
Não que seja fato memorável ou excitante história. Mas vale a pena contar o caso
pois foi a partir desse distante dia que a alcunha de berro dágua incorporou-se
definitivamente ao nome de Quincas. Entrara ele na venda de Lopez, simpático espanhol, na
parte externa do Mercado. Freguês habitual, conquistara o direito de servir-se sem
auxílio do empregado. Sobre o balcão viu uma garrafa, transbordando de límpida
cachaça, transparente, perfeita. Encheu um copo, cuspiu para limpar a boca, virou-o de
uma vez. E um berro inumano cortou a placidez da manhã no Mercado, abalando o próprio
Elevador Lacerda em seus profundos alicerces. O grito de um animal ferido de morte, de um
homem traído e desgraçado:
Águuuuua!
Imundo, asqueroso espanhol de má fama! Corria gente de todos os lados, alguém estava
sendo com certeza assassinado, os fregueses da venda riam às gargalhadas. O berro dágua
de Quincas logo se espalhou como anedota, do Mercado ao Pelourinho, do largo das Sete
Portas ao Dique, da Calçada a Itapoã. Quincas Berro Dágua ficou ele sendo desde então,
e Quitéria do Olho Arregalado, nos momentos de maior ternura, dizia-lhe Berrito por entre
os dentes mordedores.
Também naquelas casas pobres das mulheres mais baratas, onde vagabundos e malandros,
pequenos contrabandistas e marinheiros desembarcados encontravam um lar, família e o amor
nas horas perdidas da noite, após o mercado triste do sexo, quando as fatigadas mulheres
ansiavam por um pouco de ternura, a notícia da morte de Quincas Berro Dágua foi a
desolação e fez correr as lágrimas mais tristes. As mulheres choravam como se houvessem
perdido parente próximo e sentiam-se de súbito desamparadas em sua miséria. Algumas
somaram suas economias e resolveram comprar as mais belas flores da Bahia para o morto.
Quanto a Quitéria do Olho Arregalado, cercada pela lacrimosa dedicação das companheiras
de casa, seus gritos cruzavam a ladeira de São Miguel, morriam no largo do Pelourinho,
eram de cortar o coração. Só encontrou consolo na bebida, exaltando, entre goles e
soluços, a memória daquele inesquecível amante, o mais terno e louco, o mais alegre e
sábio.
Relembraram fatos, detalhes e frases capazes de dar a justa medida de Quincas. Fora ele
quem cuidara, durante mais de vinte dias, do filho de três meses de Benedita, quando esta
teve de internar-se no hospital. Só faltara dar à criança o seio a amamentar. O mais
fizera: trocava fraldas, limpava cocô, banhava o infante, dava-lhe mamadeira.
Não se atirara ele, ainda há poucos dias, velho e bêbedo, como um campeão sem medo,
em defesa de Clara Boa, quando dois jovens transviados, filhos da puta das melhores
famílias, quiseram surrá-la numa farra no castelo de Viviana? E que hóspede mais
agradável na grande mesa na sala de jantar na hora do meio-dia... Quem sabia histórias
mais engraçadas, quem melhor consolava das penas de amor, quem era como um pai ou como um
irmão mais velho? Pelo meio da tarde, Quitéria do Olho Arregalado rolou da cadeira, foi
conduzida ao leito, adormeceu com suas recordações. Várias mulheres decidiram não
buscar nem receber nenhum homem naquela noite, estavam de luto. Como se fosse quinta ou
sexta-feira santa.
VIII
No fim da tarde, quando as luzes se acendiam na cidade e os homens abandonavam o
trabalho, os quatro amigos mais íntimos de Quincas Berro DáguaCurió, Negro
Pastinha, cabo Martim e Pé-de-Ventodesciam a ladeira do Tabuão em caminho do
quarto do morto. Deve-se dizer, a bem da verdade, que não estavam eles ainda bêbedos.
Haviam tomado seus tragos, sem dúvida, na comoção da notícia, mas o vermelho dos olhos
era devido às lágrimas derramadas, à dor sem medidas, e o mesmo pode-se afirmar da voz
embargada e do passo vacilante. Como conservar-se completamente lúcido quando morre um
amigo de tantos anos, o melhor dos companheiros, o mais completo vagabundo da Bahia?
Quanto à garrafa que o cabo Martim teria escondido sob a camisa, nada ficou jamais
provado.
Naquela hora do crepúsculo, do misterioso começo da noite, o morto parecia um tanto
quanto cansado. Vanda dava-se conta. Não era para menos: passara ele a tarde a rir, a
murmurar nomes feios, a fazer-lhe caretas. Nem mesmo quando chegaram Leonardo e o tio
Eduardo, por volta das cinco horas, nem mesmo então Quincas repousou. Insultava Leonardo,
paspalhão!, ria de Eduardo. Mas, quando as sombras do crepúsculo desceram sobre a
cidade, Quincas tornou-se inquieto. Como se esperasse alguma coisa que tardava a vir.
Vanda, para esquecer e iludir-se, conversava animadamente com o marido e os tios, evitando
fitar o morto. Seu desejo era voltar para casa, descansar, tomar um comprimido que a
ajudasse a dormir. Por que seria que os olhos de Quincas ora se voltavam para a janela,
ora para a porta?
A notícia não alcançara os quatro amigos ao mesmo tempo. O primeiro a saber foi
Curió. Empregava ele seus múltiplos talentos na propaganda de lojas da Baixa dos
Sapateiros. Vestido com um velho fraque surrado, a cara pintada, postava-se na porta de
uma loja, contra mísero pagamento, a louvar-lhe a barateza e as virtudes, a parar os
passantes dizendo-lhes graçolas, convidando-os a entrar, quase arrastando-os à força.
De quando em vez, quando a sede apertavaemprego danado para secar a garganta e o
peito , dava um pulo num botequim próximo, tomava um trago para temperar a voz.
Numa dessas idas e vindas a notícia o alcançou, brutal como um soco no peito, deixou-o
mudo. Voltou cabisbaixo, entrou na loja, avisou o sírio que não contasse mais com ele
naquela tarde. Curió era ainda moço, alegrias e tristezas afetavam-no profundamente.
Não podia suportar sozinho o choque terrível. Precisava da companhia dos outros
íntimos, da turma habitual.
A roda, em frente à rampa dos saveiros, na feira noturna de Água dos Meninos aos
sábados, nas Sete Portas, nas exibições de capoeira na estrada da Liberdade, era quase
sempre numerosa: marítimos, pequenos comerciantes do Mercado, babalaôs, capoeiristas,
malandros participavam das longas conversas, das aventuras, das movimentadas partidas de
baralho, das pescarias sob a lua, das farras na zona. Numerosos admiradores e amigos
possuía Quincas Berro Dágua, mas aqueles quatro eram os inseparáveis. Durante anos e
anos haviam-se encontrado todos os dias, haviam estado juntos todas as noites, com ou sem
dinheiro, fartos de bem comer ou morrendo de fome, dividindo a bebida, juntos na alegria e
na tristeza. Curió somente agora percebia como eram ligados entre si, a morte de Quincas
parecia-lhe uma amputação, como se lhe houvessem roubado um braço, uma perna, como se
lhe tivessem arrancado um olho. Aquele olho do coração do qual falava a mãe-de-santo
Senhora, dona de toda a sabedoria. Juntos, pensou Curió, deviam chegar ante o corpo de
Quincas.
Saiu em busca do Negro Pastinha, àquela hora certamente no largo das Sete Portas,
ajudando bicheiros conhecidos, arranjando uns cobres para a cachaça da noite. Negro
Pastinha media quase dois metros, quando estufava o peito semelhava num monumento, tão
grande e forte era. Ninguém podia com o negro quando lhe dava a raiva. Felizmente coisa
difícil de acontecer, pois Negro Pastinha era de natural alegre e bonachão.
Encontrou-o no largo das Sete Portas, como calculara. Lá estava ele, sentado na
calçada do pequeno mercado, debulhado em lágrimas, segurando uma garrafa quase vazia. Ao
seu lado, solidários na dor e na cachaça, vagabundos diversos faziam coro às suas
lamentações e suspiros. Já tivera conhecimento da notícia, compreendeu Curió ao ver a
cena. Negro Pastinha virava um trago, enxugava uma lágrima, urrava em desespero:
Morreu o pai da gente...
...pai da gente...gemiam os outros.
Circulava a garrafa consoladora, cresciam lágrimas nos olhos do negro, crescia seu
agudo sofrer:
Morreu o homem bom...
...homem bom...
De quando em quando, um novo elemento incorporava-se à roda, por vezes sem saber do
que se tratava. Negro Pastinha estendia-lhe a garrafa, soltava seu grito de apunhalado:
Ele era bom...
...era bom...repetiam os demais, menos o novato, à espera de uma
explicação para os tristes lamentos e a cachaça grátis.
Fala também, desgraçado...Negro Pastinha, sem se levantar, espichava o
poderoso braço, sacudia o recém-chegado, um brilho mau nos olhos.Ou tu acha que
ele era ruim?
Alguém se apressava a explicar, antes que as coisas se tornassem malparadas.
Foi Quincas Berro Dágua que morreu.
Quincas?... era bom...dizia o novo membro do coro, convicto e aterrorizado.
Outra garrafa!reclamava, entre soluços, Negro Pastinha.
Um molecote levantava-se ágil, dirigia-se à venda vizinha:
Pastinha quer outra garrafa.
A morte de Quincas aumentava, onde ia chegando, a consumação de cachaça. De longe,
Curió observava a cena. A notícia andara mais depressa que ele. Também o negro o viu,
soltou um urro espantoso, estendeu os braços para o céu, levantou-se:
Curió, irmãozinho, morreu o pai da gente.
...o pai da gente...repetiu o coro.
Cala a boca, pestes. Deixa eu abraçar irmãozinho Curió.
Cumpriam-se os ritos de gentileza do povo da Bahia, o mais pobre e o mais civilizado.
Calaram-se as bocas. As abas do fraque de Curió elevavam-se ao vento, sobre sua cara
pintada começaram a correr as lágrimas. Três vezes abraçaram-se, ele e Negro Pastinha,
confundindo seus soluços. Curió tomou da nova garrafa, buscou nela a consolação. Negro
Pastinha não encontrava consolação:
Acabou a luz da noite...
...a luz da noite...
Curió propôs:
Vamos buscar os outros para ir visitar ele.
Cabo Martim podia estar em três ou quatro lugares. Ou dormindo em casa de Carmela,
cansado ainda da noite da véspera, ou conversando na rampa do Mercado, ou jogando na
feira de Água dos Meninos. Só a essas três ocupações dedicava-se Martim desde que
dera baixa do Exército, uns quinze anos antes: o amor, a conversação, o jogo. Jamais
tivera outro ofício conhecido, as mulheres e os tolos davam-lhe o suficiente com que
viver. Trabalhar depois de ter envergado a farda gloriosa parecia a cabo Martim uma
evidente humilhação. Sua altivez de mulato boa-pinta e a agilidade de suas mãos no
baralho faziam-no respeitado. Sem falar em sua capacidade ao violão.
Estava ele exercendo suas habilidades na feira de Água dos Meninos, ao baralho. Ao
fazê-lo com tanta simplicidade, concorria para a alegria espiritual de alguns choferes de
marinete e caminhão, colaborava na educação de dois molecotes que iniciavam seu
aprendizado prático da vida e ajudavam uns quantos feirantes a gastar os lucros obtidos
nas vendas do dia. Realizava assim obra das mais louváveis. Não se explica, por
conseqüência, que um dos feirantes não parecesse entusiasta de seu virtuosismo ao
bancar, rosnando entre dentes que tanta sorte fedia a bandalheira. Cabo Martim levantou
para o apressado crítico seus olhos de azul inocência, ofereceu-lhe o baralho para que
ele bancasse, se quisesse e para tanto possuísse a necessária competência. Quanto a
ele, cabo Martim, preferia apostar contra a banca, quebrá-la rapidamente, reduzir o
banqueiro à mais negra miséria. E não admitia insinuações sobre sua honestidade. Como
antigo militar, era particularmente sensível a qualquer murmúrio que envolvesse dúvidas
sobre sua honradez. Tão sensível que a uma nova provocação seria obrigado a quebrar a
cara de alguém. Cresceu o entusiasmo dos rapazolas, os choferes esfregaram as mãos,
excitados. Nada mais deleitável do que uma boa briga, assim gratuita e inesperada. Nesse
momento, quando tudo podia se passar, surgiram Curió e Negro Pastinha carregando a
notícia trágica e a garrafa de cachaça com um restinho no fundo. Ainda de longe
gritaram para o Cabo:
Morreu! Morreu!
Cabo Martim fitou-os com olho competente, demorando-se na garrafa em cálculos
precisos, comentou para a roda:
Aconteceu alguma coisa importante para eles já terem bebido uma garrafa. Ou bem
Negro Pastinha ganhou no bicho ou Curió ficou noivo.
Porque sendo Curió um incurável romântico, noivava freqüentemente, vítima de
paixões fulminantes. Cada noivado era devidamente comemorado, com alegria ao iniciar-se,
com tristeza e filosofia ao encerrar-se, pouco tempo depois.
Alguém morreu...disse um chofer.
Cabo Martim estende o ouvido.
Morreu! Morreu!
Vinham os dois curvados ao peso da notícia. Das Sete Portas à Água dos Meninos,
passando pela rampa dos saveiros e pela casa de Carmela, haviam dado a triste nova a muita
gente. Por que cada um, ao saber do passamento de Quincas, logo destampava uma garrafa?
Não era culpa deles, arautos da dor e do luto, se havia tanta gente pelo caminho, se
Quincas tinha tantos conhecidos e amigos. Naquele dia começou-se a beber na cidade da
Bahia muito antes da hora habitual. Não era para menos, não é todos os dias que morre
um Quincas Berro Dágua.
Cabo Martim, esquecido da briga, o baralho suspenso na mão, observava-os cada vez mais
curioso. Estavam chorando, já não tinha dúvidas. A voz do Negro Pastinha chegava
estrangulada:
Morreu o pai da gente...
Jesus Cristo ou o governador?perguntou um dos molecotes com vocação de
piadista. A mão do negro o suspendeu no ar, atirou-o no chão.
Todos compreenderam que o assunto era sério, Curió levantou a garrafa, disse:
Berro Dágua morreu!
Caiu o baralho da mão de Martim. O feirante malicioso viu confirmarem-se suas piores
suspeitas: ases e damas, cartas do banqueiro, espalharam-se em quantidade. Mas também
até ele chegara o nome de Quincas, resolveu não discutir. Cabo Martim requisitava a
garrafa de Curió, acabou de esvaziá-la, atirou-a fora com desprezo. Olhou longamente a
feira, os caminhões e marinetes na rua, as canoas no mar, a gente indo e vindo. Teve a
sensação de um vazio súbito, não ouvia sequer os pássaros nas gaiolas próximas, na
barraca de um feirante.
Não era homem de chorar, um militar não chora mesmo após ter deixado a farda. Mas
seus olhos ficaram miúdos, sua voz mudou, perdeu toda a fanfarronada. Era quase uma voz
de criança ao perguntar:
Como pôde acontecer?
Juntou-se aos outros, após recolher o baralho, faltava ainda encontrar Pé-de-Vento.
Esse não tinha pouso certo, a não ser às quintas e domingos à tarde, quando
invariavelmente brincava na roda de capoeira de Valdemar, na estrada da Liberdade. Fora
isso, sua profissão levava-o a distantes lugares. Caçava ratos e sapos para vendê-los
aos laboratórios de exames médicos e experiências científicaso que tornava
Pé-de-Vento figura admirada, opinião das mais acatadas. Não era ele um pouco cientista,
não conversava com doutores, não sabia palavras difíceis?
Só após muito caminho e vários tragos, deram com ele, embrulhado em seu vasto
paletó, como se sentisse frio, resmungando sozinho. Soubera da notícia por outras vias e
também ele buscava os amigos. Ao encontrá-los, meteu a mão num dos bolsos. Para retirar
um lenço com que enxugar as lágrimas, pensou Curió. Mas das profundezas do bolso
Pé-de-Vento extraiu pequena jia verde, polida esmeralda.
Tinha guardado para Quincas, nunca encontrei uma tão bonita.
IX
Quando surgiram na porta do quarto, Pé-de-Vento adiantou a mão em cuja palma
estendida estava pousada a jia de olhos saltados. Ficaram parados na porta, uns por
detrás dos outros, Negro Pastinha avançava a cabeçorra para ver. Pé-de-Vento,
envergonhado, guardou o animal no bolso.
A família suspendeu a animada conversa, quatro pares de olhos hostis fitaram o grupo
escabroso. Só faltava aquilo, pensou Vanda. Cabo Martim, que em matéria de educação
só perdia para o próprio Quincas, retirou da cabeça o surrado chapéu, cumprimentou os
presentes:
Boa tarde, damas e cavalheiros. A gente queria ver ele...
Deu um passo para dentro, os outros o acompanharam. A família afastou-se, eles
rodearam o caixão. Curió chegou a pensar num engano, aquele morto não era Quincas Berro
Dágua. Só o reconheceu pelo sorriso. Estavam surpreendidos os quatro, nunca poderiam
imaginar Quincas tão limpo e elegante, tão bem vestido. Perderam num instante a
segurança, diluiu-se como por encanto a bebedeira. A presença da famíliasobretudo
das mulheresdeixava-os amedrontados e tímidos, sem saber como agir, onde pousar as
mãos, como comportar-se ante o morto.
Curió fitou os outros três, ridículo com seu rosto pintado de vermelhão e seu
fraque roçado, a pedir que se fossem dali o mais depressa possível. Cabo Martim
vacilava, como um general em véspera de batalha, enxergando o poderio inimigo.
Pé-de-Vento chegou a dar um passo em direção à porta. Só Negro Pastinha, sempre por
detrás dos outros, a cabeçona estirada para ver, não vacilou sequer um segundo. Quincas
estava sorrindo para ele, o negro sorriu também. Não haveria força humana capaz de
arrancá-lo dali, de perto do paizinho Quincas. Segurou Pé-de-Vento pelo braço,
respondia com os olhos ao pedido de Curió. Cabo Martim compreendeu, um militar não foge
do campo de luta. Afastaram-se os quatro de perto do caixão, para o fundo do quarto.
Agora estavam ali em silêncio, de um lado a família de Joaquim Soares da Cunha,
filha, genro e irmãos, de outro lado os amigos de Quincas Berro Dágua. Pé-de-Vento
metia a mão no bolso, tocava na jia amedrontada, como gostaria de mostrá-la a Quincas!
Como se executassem um movimento de balé, ao afastarem-se do caixão os amigos,
aproximaram-se os parentes. Vanda lançava um olhar de desprezo e reproche ao pai. Mesmo
depois de morto, ele preferia a sociedade daqueles maltrapilhos.
Por eles estivera Quincas esperando, sua inquietação no fim da tarde devia-se apenas
à demora, ao atraso da chegada dos vagabundos. Quando Vanda começava a acreditar o pai
vencido, disposto finalmente a entregar-se, a silenciar os lábios de sujas palavras,
derrotado pela resistência silenciosa e cheia de dignidade por ela oposta a todas as suas
provocações, de novo resplandecia o sorriso na face morta, mais do que nunca era de
Quincas Berro Dágua o cadáver em sua frente. Não fosse a lembrança ultrajada de
Otacília e ela abandonaria a luta, largaria no Tabuão o corpo indigno, restituiria o
esquife de tão pouco uso à empresa funerária, venderia as roupas novas por metade do
preço a um mascate qualquer. O silêncio fazia-se insuportável.
Leonardo voltou-se para a esposa e a tia:
Acho que é hora de vocês irem indo. Daqui a pouco fica tarde.
Minutos antes, tudo quanto Vanda desejava era ir para casa, descansar. Apertou os
dentes, não era mulher para deixar-se vencer, respondeu:
Daqui a pouco.
Negro Pastinha sentou-se no chão, encostou a cabeça na parede. Pé-de-Vento
cutucava-o com o pé, não ficava bem acomodar-se assim diante da família do morto.
Curió queria retirar-se, cabo Martim fitava, repreensivo, o negro. Pastinha empurrou com
a mão o pé incômodo do amigo, sua voz soluçou:
Ele era o pai da gente! Paizinho Quincas...
Foi como um soco no peito de Vanda, uma bofetada em Leonardo, uma cusparada em Eduardo.
Só tia Marocas riu, sacudindo as banhas, sentada na cadeira única e disputada.
Que engraçado!
Negro Pastinha passou do choro ao riso, encantado com Marocas. Mais assustadora ainda
que os seus soluços era a gargalhada do negro. Foi uma trovoada no quarto e Vanda ouvia
um outro riso por detrás do riso de Pastinha: Quincas divertia-se uma enormidade.
Que falta de respeito é essa?sua voz seca desfez aquele princípio de
cordialidade.
Ante a reprimenda, tia Marocas levantou-se, deu uns passos pelo quarto, sempre
acompanhada pela simpatia do Negro Pastinha, a examiná-la dos pés à cabeça, achando-a
uma mulher a seu gosto, um tanto envelhecida, sem dúvida, porém grande e gorda como ele
apreciava. Não gostava dessas magricelas, cuja cintura a gente nem podia apertar. Se
Negro Pastinha encontrasse essa madama na praia, fariam misérias os dois, bastava olhar
para ela e logo se via sua qualidade. Tia Marocas começou a dizer de seu desejo de
retirar-se, sentia-se cansada e nervosa. Vanda, tendo ocupado seu lugar na cadeira ante o
caixão, não respondia, parecia um guarda cuidando de um tesouro.
Cansados estamos todosfalou Eduardo.
Era melhor mesmo elas irem embora...Leonardo temia a ladeira do Tabuão
mais tarde, quando houvesse cessado completamente o movimento do comércio e as
prostitutas e os malandros a ocupassem.
Educado como era, e querendo colaborar, cabo Martim propôs:
Se os distintos querem ir descansar, tirar uma pestana, a gente fica tomando
conta dele.
Eduardo sabia não estar direito: não podiam deixar o corpo sozinho com aquela gente,
sem nenhum membro da família. Mas que gostaria de aceitar a proposta, ah! como gostaria!
O dia inteiro no armazém, andando de um lado para outro, atendendo os fregueses, dando
ordem aos empregados, arrasava um homem. Eduardo dormia cedo e acordava com a madrugada,
horários rígidos. Ao voltar do armazém, após o banho e o jantar, sentava-se numa
espreguiçadeira, estirava as pernas, dormia em seguida. Esse seu irmão Quincas só sabia
lhe dar aborrecimentos. Há dez anos não fazia outra coisa. Obrigava-o naquela noite a
estar ainda de pé, tendo comido apenas uns sanduíches. Por que não deixá-lo com seus
amigos, aquela caterva de vagabundos, a gente com quem privara durante um decênio?... Que
faziam ali, naquela pocilga imunda, naquele ninho de ratos, ele e Marocas, Vanda e
Leonardo? Não tinha coragem de externar seus pensamentos: Vanda era malcriada, bem capaz
de recordar-lhe as várias ocasiões em que ele, Eduardo, começando a vida, recorrera à
bolsa de Quincas. Olhou o cabo Martim com certa benevolência.
Pé-de-Vento, derrotado em suas tentativas de fazer Negro Pastinha levantar-se,
sentou-se também. Tinha vontade de colocar a jia na palma da mão e brincar com ela.
Nunca tinha visto uma tão bonita. Curió, cuja infância em parte decorrera num asilo de
menores dirigido por padres, buscava na embotada memória uma oração completa. Sempre
ouvira dizer que os mortos necessitam de orações. E de padres... Já teria vindo o
sacerdote ou viria apenas no dia seguinte? A pergunta coçava-lhe a garganta, não
resistiu:
O padre já veio?
Amanhã de manhã...respondeu Marocas.
Vanda repreendeu-a com os olhos: por que conversava com aquele canalha? Mas, tendo
restabelecido o respeito, Vanda sentia-se melhor. Expulsara para um canto do quarto os
vagabundos, impusera-lhes silêncio. Afinal não lhe seria possível passar a noite ali.
Nem ela nem tia Marocas. Tivera uma vaga esperança, a começo: de que os indecentes
amigos de Quincas não demorassem, no velório não havia nem bebida nem comida. Não
sabia por que ainda estavam no quarto, não havia de ser por amizade ao morto, essa gente
não tem amizade a ninguém. De qualquer maneira, mesmo a incômoda presença de tais
amigos não tinha importância. Desde que eles não acompanhassem o enterro, no dia
seguinte. Pela manhã, ao voltar para os funerais, ela, Vanda, recuperaria a direção dos
acontecimentos, a família estaria outra vez a sós com o cadáver, enterrariam Joaquim
Soares da Cunha com modéstia e dignidade. Levantou-se da cadeira, chamou Marocas:
Vamos.
E para Leonardo:
Não fique até muito tarde, você não pode perder noite. Tio Eduardo já disse
que ficaria a noite toda.
Eduardo, apossando-se da cadeira, concordou. Leonardo foi acompanhá-las até o bonde.
Cabo Martim arriscou um boa noite, madamas, não obteve resposta. Só a luz das velas
iluminava o quarto. Negro Pastinha dormia, um ronco medonho.
X
Às dez horas da noite, Leonardo, levantando-se do caixão de querosene, aproximou-se
das velas, viu as horas. Acordou Eduardo a dormir de boca aberta, incômodo, na cadeira:
Vou embora. Às seis da manhã estarei de volta para você ter tempo de ir em
casa mudar a roupa.
Eduardo estirou as pernas, pensou em sua cama. Doía-lhe o pescoço. No canto do
quarto, Curió, Pé-de-Vento e cabo Martim conversavam em voz baixa, numa discussão
apaixonante: qual deles substituiria Quincas no coração e no leito de Quitéria do Olho
Arregalado? Cabo Martim, revelando um egoísmo revoltante, não aceitava ser riscado da
lista de herdeiros pelo fato de possuir o coração e o corpo esbelto da negrinha Carmela.
Eduardo, quando o eco dos passos de Leonardo perdeu-se na rua, fitou o grupo. A discussão
parou, cabo Martim sorriu para o comerciante. Este olhava, invejoso, Negro Pastinha no
melhor dos sonos. Acomodou-se novamente na cadeira, pôs os pés sobre o caixão de
querosene. Doía-lhe o pescoço. Pé-de-Vento não resistiu, retirou a jia do bolso,
colocou-a no chão. Ela saltou, era engraçada. Parecia uma assombração solta no quarto.
Eduardo não conseguia dormir. Olhou o morto no caixão, imóvel. Era o único a estar
comodamente deitado. Por que diabo estava ele ali, fazendo sentinela? Não era suficiente
vir ao enterro, não estava pagando parte das despesas? Cumpria seu dever de irmão até
bem demais em se tratando de um irmão como Quincas, um incômodo em sua vida.
Levantou-se, movimentou pernas e braços, abriu a boca num bocejo. Pé-de-Vento
escondia na mão a pequena jia verde. Curió pensava em Quitéria do Olho Arregalado.
Mulher e tanto... Eduardo parou ante eles:
Me digam uma coisa...
Cabo Martim, psicólogo por vocação e necessidade, perfilou-se:
Às suas ordens, meu comandante.
Quem sabe não iria o comerciante mandar comprar uma bebidinha para ajudar a travessia
da noite longa?
Vocês vão ficar a noite toda?
Com ele? Sim senhor. A gente era amigo.
Então vou em casa, descansar um poucometeu a mão no bolso, retirou uma
nota. Os olhos do Cabo, de Curió e Pé-de-Vento acompanhavam seus gestos.Tá aí
para vocês comprarem uns sanduíches. Mas não deixem ele sozinho. Nem um minuto, hein!
Pode ir descansado, a gente faz companhia a ele.
Negro Pastinha acordou quando sentiu o cheiro de cachaça. Antes de começar a beber,
Curió e Pé-de-Vento acenderam cigarros; cabo Martim, um daqueles charutos de cinqüenta
centavos, negros e fortes, que só os verdadeiros fumantes sabem apreciar. Passara a
fumaça poderosa sob o nariz do negro, nem assim ele acordara. Mas apenas destamparam a
garrafa (a discutida primeira garrafa que, segundo a família, o Cabo levara escondida sob
a camisa) o negro abriu os olhos e reclamou um trago.
Os primeiros tragos despertaram nos quatro amigos um acentuado espírito crítico.
Aquela família de Quincas, tão metida a sebo, revelara-se mesquinha e avarenta. Fizera
tudo pela metade. Onde as cadeiras para as visitas sentarem? Onde as bebidas e comidas
habituais, mesmo em velórios pobres? Cabo Martim comparecera a muita sentinela de
defunto, nunca vira uma tão vazia de animação. Mesmo nas mais pobres serviam pelo menos
um cafezinho e um gole de cachaça. Quincas não merecia tal tratamento. De que adiantava
arrotar importância e deixar o morto naquela humilhação, sem nada para oferecer aos
amigos? Curió e Pé-de-Vento saíram em busca de assentos e mantimentos. Cabo Martim
achava necessário organizar o velório com um mínimo de decência, pelo menos. Sentado
na cadeira, dava ordens: caixões e garrafas. Negro Pastinha ocupara o caixão de
querosene, aprovava com a cabeça.
Devia-se confessar que, em relação ao cadáver propriamente dito, a família
comportara-se bem. Roupa nova, sapatos novos, uma elegância. E velas bonitas, das de
igreja. Ainda assim haviam esquecido as flores, onde já se viu cadáver sem flores?
Está um senhorgabou Negro Pastinha.Um defunto porreta!
Quincas sorriu com o elogio, o negro retribuiu-lhe o sorriso:
Paizinho...disse comovido e cutucou-lhe as costelas com o dedo, como
costumava fazer ao ouvir uma boa piada de Quincas.
Curió e Pé-de-Vento voltaram com caixões, um pedaço de salame e algumas garrafas
cheias. Fizeram um semicírculo em torno ao morto e então Curió propôs rezarem em
conjunto o Padre-Nosso. Conseguira, num surpreendente esforço de memória, recordar-se da
oração quase completa. Os demais concordaram, sem convicção. Não lhes parecia fácil.
Negro Pastinha conhecia variados toques de Oxum e Oxalá, mais longe não ia sua cultura
religiosa. Pé-de-Vento não rezava há uns trinta anos. Cabo Martim considerava preces e
igrejas como fraquezas pouco condizentes com a vida militar. Ainda assim tentaram, Curió
puxando a reza, os outros respondendo como melhor podiam. Finalmente Curió (que se havia
posto de joelhos e baixara a cabeça contrita) irritou-se:
Cambada de burros...
Falta de treino...disse o Cabo.Mas já foi alguma coisa. O resto o
padre faz amanhã.
Quincas parecia indiferente à reza, devia estar com calor, metido naquelas roupas
quentes. Negro Pastinha examinou o amigo, precisavam fazer alguma coisa por ele já que a
oração não dera certo. Talvez cantar um ponto de candomblé? Alguma coisa deviam fazer.
Disse a Pé-de-Vento:
Cadê o sapo? Dá pra ele...
Sapo, não. Jia. Agora, pra que lhe serve?
Talvez ele goste.
Pé-de-Vento tomou delicadamente a jia, colocou-a nas mãos cruzadas de Quincas. O
animal saltou, escondeu-se no fundo do caixão. Quando a luz oscilante das velas batia no
seu corpo, fulgurações verdes percorriam o cadáver.
Entre cabo Martim e Curió recomeçou a discussão sobre Quitéria do Olho Arregalado.
Com a bebida, Curió ficava mais combativo, elevava a voz em defesa dos seus interesses.
Negro Pastinha reclamou:
Vocês não têm vergonha de disputar a mulher dele na vista dele? Ele ainda
quente e vocês que nem urubu em carniça?
Ele é que pode decidir...disse Pé-de-Vento. Tinha esperanças de ser
escolhido por Quincas para herdar Quitéria, seu único bem. Não lhe trouxera uma jia
verde, a mais bela de quantas já caçara?
Hum!fez o defunto.
Tá vendo? Ele não está gostando dessa conversazangou-se o negro.
Vamos dar um gole a ele também...propôs o Cabo, desejoso das boas graças
do morto.
Abriram-lhe a boca, derramaram a cachaça. Espalhou-se um pouco pela gola do paletó e
o peito da camisa.
Também nunca vi ninguém beber deitado...
É melhor sentar ele. Assim pode ver a gente direito.
Sentaram Quincas no caixão, a cabeça movia-se para um e outro lado. Com o gole de
cachaça ampliara-se seu sorriso.
Bom paletó...cabo Martim examinou a fazenda.Besteira botar roupa
nova em defunto. Morreu, acabou, vai pra baixo da terra. Roupa nova pra verme comer, e
tanta gente por aí precisando...
Palavras cheias de verdade, pensaram. Deram mais um gole a Quincas, o morto balançou a
cabeça, era homem capaz de dar razão a quem a possuía, estava evidentemente de acordo
com as considerações de Martim.
Ele está é estragando a roupa.
É melhor tirar o paletó pra não esculhambar.
Quincas pareceu aliviado quando lhe retiraram o paletó negro e pesado, quentíssimo.
Mas, como continuava a cuspir a cachaça, tiraram-lhe também a camisa. Curió namorava os
sapatos lustrosos, os seus estavam em pandarecos. Pra que morto quer sapato novo, não é,
Quincas?
Dão direitinho nos meus pés.
Negro Pastinha recolheu no canto do quarto as velhas roupas do amigo, vestiram-no e
reconheceram-no então:
Agora, sim, é o velho Quincas.
Sentiam-se alegres. Quincas parecia também mais contente, desembaraçado daquelas
vestimentas incômodas. Particularmente grato a Curió, pois os sapatos apertavam-lhe os
pés. O camelô aproveitou para aproximar sua boca do ouvido de Quincas e sussurrar-lhe
algo sobre Quitéria. Pra que o fez? Bem dizia Negro Pastinha que aquela conversa sobre a
rapariga irritava Quincas. Ficou violento, cuspiu uma golfada de cachaça no olho de
Curió. Os outros estremeceram, amedrontados.
Ele se danou.
Eu não disse?
Pé-de-Vento terminava de vestir as calças novas, cabo Martim ficara com o paletó. A
camisa Negro Pastinha trocaria, num botequim conhecido, por uma garrafa de cachaça.
Lastimavam a falta de cuecas. Com muito jeito, cabo Martim disse a Quincas:
Não é para falar mal, mas essa sua família é um tanto quanto econômica. Acho
que o genro abafou as cuecas...
Unhas-de-fome...precisou Quincas.
Já que você mesmo diz, é verdade. A gente não queria ofender eles, afinal
são seus parentes. Mas que pão-durismo, que sumiticaria... Bebida por conta da gente,
onde já se viu sentinela desse jeito?
Nem uma flor...concordou Pastinha.Parentes dessa espécie eu prefiro
não ter.
Os homens, uns bestalhões. As mulheres, umas jararacasdefiniu Quincas,
preciso.
Olha, paizinho, a gorducha até que vale uns trancos... Tem uma padaria que dá
gosto.
Um saco de peidos.
Não diga isso, paizinho. Ela tá um pouco amassada mas não é pra tanto
desprezo. Já vi coisa pior.
Negro burro. Nem sabe o que é mulher bonita.
Pé-de-Vento, sem nenhum senso de oportunidade, falou:
Bonita é Quitéria, hein, velhinho? O que é que ela vai fazer agora? Eu até...
Cala a boca, desgraçado! Não vê que ele se zanga?
Quincas, porém, nem ouvia. Atirava a cabeça para o lado do cabo Martim, que
pretendera subtrair-lhe, naquela horinha mesmo, um trago na distribuição da bebida.
Quase derruba a garrafa com a cabeçada.
Dá a cachaça do paizinho...exigia Negro Pastinha.
Ele estava esperdiçandoexplicava o Cabo.
Ele bebe como quiser. É um direito dele.
Cabo Martim enfiava a garrafa pela boca aberta de Quincas:
Calma, companheiro. Não tava querendo lhe lesar. Tá aí, beba a sua vontade. A
festa é mesmo sua...
Tinham abandonado a discussão sobre Quitéria. Pelo jeito, Quincas não admitia nem
que se tocasse no assunto.
Boa pinga!elogiou Curió.
Vagabunda!retificou Quincas, conhecedor.
Também pelo preço...
A jia saltara para o peito de Quincas. Ele a admirava, não tardou a guardá-la no
bolso do velho paletó sebento.
A lua cresceu sobre a cidade e as águas, a lua da Bahia em seu desparrame de prata
entrou pela janela. Veio com ela o vento do mar, apagou as velas, já não se via o
caixão. Melodia de violões andava pela ladeira, voz de mulher cantando penas de amor.
Cabo Martim começou também a cantar.
Ele adora ouvir uma cantiga...
Cantavam os quatro, a voz de baixo do Negro Pastinha ia perder-se mais além da
ladeira, no rumo dos saveiros. Bebiam e cantavam. Quincas não perdia nem um gole, nem um
som, gostava de cantigas.
Quando já estavam fartos de tanto cantar, Curió perguntou:
Não era hoje de noite a moqueca de Mestre Manuel?
Hoje mesmo. Moqueca de arraiaacentuou Pé-de-Vento.
Ninguém faz moqueca igual a Maria Claraafirmou o Cabo.
Quincas estalou a língua. Negro Pastinha riu:
Tá doidinho pela moqueca.
E por que a gente não vai? Mestre Manuel é até capaz de ficar ofendido.
Entreolharam-se. Já estavam um pouco atrasados pois ainda tinham de ir buscar as
mulheres. Curió expôs sua dúvidas:
A gente prometeu não deixar ele sozinho.
Sozinho? Por quê? Ele vai com a gente.
Tou com fomedisse Negro Pastinha.
Consultaram Quincas:
Tu quer ir?
Tou por acaso aleijado, pra ficar aqui?
Um trago para esvaziar a garrafa. Puseram Quincas de pé. Negro Pastinha comentou:
Tá tão bêbedo que não se agüenta. Com a idade tá perdendo a força pra
cachaça. Vambora, paizinho.
Curió e Pé-de-Vento saíram na frente. Quincas, satisfeito da vida, num passo de
dança ia entre Negro Pastinha e cabo Martim de braço dado.
XI
Pelo jeito, aquela ia ser noite memorável, inesquecível. Quincas Berro Dágua estava
num dos seus melhores dias. Um entusiasmo incomum apossara-se da turma, sentiam-se donos
daquela noite fantástica, quando a lua cheia envolvia o mistério da cidade da Bahia. Na
ladeira do Pelourinho casais escondiam-se nos portais centenários, gatos miavam nos
telhados, violões gemiam serenatas. Era uma noite de encantamento, toques de atabaques
ressoavam ao longe, o Pelourinho parecia um cenário fantasmagórico.
Quincas Berro Dágua, divertidíssimo, tentava passar rasteiras no Cabo e no Negro,
estendia a língua para os transeuntes, enfiou a cabeça por uma porta para espiar,
malicioso, um casal de namorados, pretendia, a cada passo, estirar-se na rua. A pressa
abandonara os cinco amigos, era como se o tempo lhes pertencesse por inteiro, como se
estivessem mais além do calendário, e aquela noite mágica da Bahia devesse prolongar-se
pelo menos por uma semana. Porque, segundo afirmava Negro Pastinha, aniversário de
Quincas Berro Dágua não podia ser comemorado no curto prazo de algumas horas. Não negou
Quincas fosse seu aniversário, apesar de não recordarem os outros havê-lo comemorado em
anos anteriores. Comemoravam, isso sim, os múltiplos noivados de Curió, os aniversários
de Maria Clara, de Quitéria e, certa vez, a descoberta científica realizada por um dos
fregueses de Pé-de-Vento. Na alegria da façanha, o cientista soltara na mão do seu
humilde colaborador uma pelega de quinhentos. Aniversário de Quincas, era a primeira vez
que o festejavam, deviam fazê-lo convenientemente. Iam pela ladeira do Pelourinho, em
busca da casa de Quitéria.
Estranho: não havia a habitual barulheira dos botequins e casas de mulheres de São
Miguel. Tudo naquela noite era diferente. Teria havido uma batida inesperada da polícia,
fechando os castelos, clausurando os bares? Teriam os investigadores levado Quitéria,
Carmela, Doralice, Ernestina, a gorda Margarida? Não iriam eles cair numa cilada? Cabo
Martim assumiu o comando das operações, Curió foi dar uma espiada.
Vai de batedoresclareceu o Cabo.
Sentaram-se nos degraus da igreja do Largo, enquanto esperavam. Havia uma garrafa por
acabar. Quincas deitou-se, olhava o céu, sorria sob o luar.
Curió voltou acompanhado por um grupo ruidoso, a dar vivas e hurras. Reconhecia-se
facilmente, à frente do grupo, a figura majestosa de Quitéria do Olho Arregalado, toda
de negro, mantilha na cabeça, inconsolável viúva, sustentada por duas mulheres.
Cadê ele? Cadê ele?gritava, exaltada.
Curió apressou-se, trepou nos degraus da escadaria, parecia um orador de comício com
seu fraque roçado, explicando:
Tinha corrido a notícia de que Berro Dágua bateu as botas, tava tudo de luto.
Quincas e os amigos riram.
Ele tá aqui, minha gente, é dia do aniversário dele, tamos festejando, vai ter
peixada no saveiro de Mestre Manuel.
Quitéria do Olho Arregalado libertou-se dos braços solidários de Doralice e da gorda
Margô, tentava precipitar-se em direção a Quincas, agora sentado junto ao Negro
Pastinha num degrau da igreja. Mas, devido, sem dúvida, à emoção daquele momento
supremo, Quitéria desequilibrou-se e caiu de bunda nas pedras. Logo a levantaram e
ajudaram-na a aproximar-se:
Bandido! Cachorro! Desgraçado! Que é que tu fez pra espalhar que tava morto,
dando susto na gente?
Sentava-se ao lado de Quincas sorridente, tomava-lhe a mão, colocando-a sobre o seio
pujante para que ele sentisse o palpitar do seu coração aflito:
Quase morri com a notícia e tu na farra, desgraçado. Quem pode com tu, Berrito,
diabo de homem cheio de invenção? Tu não tem jeito, Berrito, tu ia me matando...
O grupo comentava entre risos; nos botequins a barulheira recomeçava, a vida voltara
à ladeira de São Miguel. Foram andando para a casa de Quitéria. Ela estava formosa,
assim de negro vestida, jamais tanto a haviam desejado.
Enquanto atravessavam a ladeira de São Miguel, a caminho do castelo, iam sendo alvo de
manifestações variadas. No Flor de São Miguel, o alemão Hansen lhes ofereceu uma
rodada de pinga. Mais adiante, o francês Verger distribuiu amuletos africanos às
mulheres. Não podia ficar com eles porque tinha ainda uma obrigação de santo a cumprir
naquela noite. As portas dos castelos voltavam a abrir-se, as mulheres surgiam nas janelas
e nas calçadas. Por onde passavam, ouviam-se gritos chamando Quincas, vivando-lhe o nome.
Ele agradecia com a cabeça, como um rei de volta a seu reino. Em casa de Quitéria, tudo
era luto e tristeza. Em seu quarto de dormir, sobre a cômoda, ao lado de uma estampa de
Senhor do Bonfim e da figura em barro do Caboclo Aroeira, seu guia, resplandecia um
retrato de Quincas recortado de um jornalde uma série de reportagens de Giovanni
Guimarães sobre os subterrâneos da vida baiana , entre duas velas acesas, com uma
rosa vermelha embaixo. Já Doralice, companheira de casa, abrira uma garrafa e servia em
cálices azuis. Quitéria apagou as velas, Quincas reclinou-se na cama, os demais saíram
para a sala de jantar. Não tardou e Quitéria estava com eles:
O desgraçado dormiu...
Tá num porre mãe...esclareceu Pé-de-Vento.
Deixa ele dormir um pouquinhoaconselhou Negro Pastinha.Hoje ele tá
impossível. Também, tem direito...
Mas já estavam atrasados para a peixada de Mestre Manuel e o jeito, daí a pouco, foi
despertar Quincas. Quitéria, a negra Carmela e a gorda Margarida iriam com eles. Doralice
não aceitou o convite, acabara de receber um recado do doutor Carmino, viria naquela
noite. E o doutor Carmino, eles compreendiam, pagava por mês, era uma garantia. Não
podia ofendê-lo.
Desceram a ladeira, agora iam apressados, Quincas quase corria, tropeçava nas pedras,
arrastando Quitéria e Negro Pastinha, com os quais se abraçara. Esperavam chegar ainda a
tempo de encontrar o saveiro na rampa.
Pararam, no entanto, no meio do caminho, no bar de Cazuza, um velho amigo. Bar mal
freqüentado aquele, não havia noite em que não saísse alteração. Uma turma de
fumadores de maconha ancorava ali todos os dias. Cazuza, porém, era gentil, fiava uns
tragos, por vezes mesmo uma garrafa. E, como eles não podiam chegar ao saveiro com as
mãos abanando, resolveram passar a conversa em Cazuza, obter uns três litros de cana.
Enquanto o cabo Martim, diplomata irresistível, cochichava no balcão com o proprietário
estupefato ao ver Quincas Berro Dágua no melhor de sua forma, os demais sentaram-se para
uma abrideira de apetite por conta da casa, em homenagem ao aniversariante. O bar estava
cheio: uma rapaziada sorumbática, marinheiros alegres, mulheres na última lona, choferes
de caminhão de viagem marcada para Feira de Santana naquela noite.
A peleja foi inesperada e bela. Parece realmente verdade ter sido Quincas o
responsável. Sentara-se ele com a cabeça reclinada no peito de Quitéria, as pernas
estiradas. Segundo consta, um dos rapazolas, ao passar, tropeçou nas pernas de Quincas,
quase caiu, reclamou com maus modos. Negro Pastinha não gostou do jeito do fumador de
maconha. Naquela noite, Quincas tinha todos os direitos, inclusive o de estirar as pernas
como bem quisesse e entendesse. E o disse. Não tendo o rapaz reagido, nada aconteceu
então. Minutos depois, porém, um outro, do mesmo grupo de maconheiros, quis também
passar. Solicitou a Quincas afastar as pernas. Quincas fez que não ouviu. Empurrou-o
então o magricela, violento, dizendo nomes. Deu-lhe Quincas uma cabeçada, a inana
começou. Negro Pastinha segurou o rapaz, como era seu costume, e o atirou em cima de
outra mesa. Os companheiros da maconha viraram feras, avançaram. Daí em diante,
impossível contar. Via-se apenas, em cima de uma cadeira, Quitéria, a formosa, de
garrafa em punho, rodando o braço. Cabo Martim assumiu o comando.
Quando a refrega terminou com a total vitória dos amigos de Quincas, a quem se aliaram
os choferes, Pé-de-Vento estava com um olho negro, uma aba do fraque de Curió fora
rasgada, prejuízo importante. E Quincas encontrava-se estendido no chão, levara uns
socos violentos, batera com a cabeça numa laje do passeio. Os maconheiros tinham fugido.
Quitéria debruçava-se sobre Quincas, tentando reanimá-lo. Cazuza considerava
filosoficamente o bar de pernas para o ar, mesas viradas, copos quebrados. Estava
acostumado, a notícia aumentaria a fama e os fregueses da casa. Ele próprio não
desgostava de apreciar uma briga.
Quincas reanimou-se mesmo foi com um bom trago. Continuava a beber daquela maneira
esquisita: cuspindo parte da cachaça, num esperdício. Não fosse dia de seu aniversário
e cabo Martim chamar-lhe-ia a atenção delicadamente. Dirigiram-se ao cais.
Mestre Manuel já não os esperava àquela hora. Estava no fim da peixada, comida ali
mesmo na rampa, não iria sair barra fora quando apenas marítimos rodeavam o caldeirão
de barro. No fundo, ele não chegara em nenhum momento a acreditar na notícia da morte de
Quincas e, assim, não se surpreendeu ao vê-lo de braço com Quitéria. O velho
marinheiro não podia falecer em terra, num leito qualquer.
Ainda tem arraia pra todo mundo...
Suspenderam as velas do saveiro, puxaram a grande pedra que servia de âncora. A lua
fizera do mar um caminho de prata, ao fundo recortava-se na montanha a cidade negra da
Bahia. O saveiro foi-se afastando devagar. A voz de Maria Clara elevou-se num canto
marinheiro:
No fundo do mar te achei
toda vestida de conchas...
Rodeavam o caldeirão fumegante. Os pratos de barro se enchiam. Arraia mais perfumada,
moqueca de dendê e pimenta. A garrafa de cachaça circulava. Cabo Martim não perdia
jamais a perspectiva e a clara visão das necessidades prementes. Mesmo comandando a
briga, conseguira surrupiar umas garrafas, escondê-las sob os vestidos das mulheres.
Apenas Quincas e Quitéria não comiam: na popa do saveiro, deitados, ouviam a canção de
Maria Clara, a formosa do Olho Arregalado dizia palavras de amor ao velho marinheiro.
Por que pregar susto na gente, Berrito desgraçado? Tu bem sabe que tenho o
coração fraco, o médico recomendou que eu não me aborrecesse. Cada idéia tu tem, como
posso viver sem tu, homem com parte com o tinhoso? Tou acostumada com tu, com as coisas
malucas que tu diz, tua velhice sabida, teu jeito tão sem jeito, teu gosto de bondade.
Por que tu me fez isso hoje?e tomava da cabeça ferida na peleja, beijava-lhe os
olhos de malícia.
Quincas não respondia: aspirava o ar marítimo, uma de suas mãos tocava a água,
abrindo um risco nas ondas. Tudo foi tranqüilidade no início da festa: a voz de Maria
Clara, a beleza da peixada, a brisa virando vento, a lua no céu, o murmurar de Quitéria.
Mas inesperadas nuvens vieram do Sul, engoliram a lua cheia. As estrelas começaram a
apagar-se e o vento a fazer-se frio e perigoso. Mestre Manuel avisou:
Vai ser noite de temporal, é melhor voltar.
Pensava ele trazer o saveiro para o cais antes que caísse a tempestade. Era, porém,
amável a cachaça, gostosa a conversa, havia ainda muita arraia no caldeirão, boiando no
amarelo do azeite-de-dendê, e a voz de Maria Clara dava uma dolência, um desejo de
demorar nas águas. Ao demais, como interromper o idílio de Quincas e Quitéria naquela
noite de festa?
Foi assim que o temporal, o vento uivando, as águas encrespadas, os alcançou em
viagem. As luzes da Bahia brilhavam na distância, um raio rasgou a escuridão. A chuva
começou a cair. Pitando seu cachimbo, Mestre Manuel ia ao leme.
Ninguém sabe como Quincas se pôs de pé, encostado à vela menor. Quitéria não
tirava os olhos apaixonados da figura do velho marinheiro, sorridente para as ondas a
lavar o saveiro, para os raios a iluminar o negrume. Mulheres e homens se seguravam às
cordas, agarravam-se às bordas do saveiro, o vento zunia, a pequena embarcação
ameaçava soçobrar a cada momento. Silenciara a voz de Maria Clara, ela estava junto do
seu homem na barra do leme.
Pedaços de mar lavavam o barco, o vento tentava romper as velas. Só a luz do cachimbo
de Mestre Manuel persistia, e a figura de Quincas, de pé, cercado pela tempestade,
impassível e majestoso, o velho marinheiro. Aproximava-se o saveiro lenta e dificilmente
das águas mansas do quebra-mar. Mais um pouco e a festa recomeçaria.
Foi quando cinco raios sucederam-se no céu, a trovoada reboou num barulho de fim do
mundo, uma onda sem tamanho levantou o saveiro. Gritos escaparam das mulheres e dos
homens, a gorda Margô exclamou:
Valha-me Nossa Senhora!
No meio do ruído, do mar em fúria, do saveiro em perigo, à luz dos raios, viram
Quincas atirar-se e ouviram sua frase derradeira.
Penetrava o saveiro nas águas calmas do quebra-mar, mas Quincas ficara na tempestade,
envolto num lençol de ondas e espuma, por sua própria vontade.
XII
Não houve jeito da agência funerária receber o esquife de volta, nem pela metade do
preço. Tiveram de pagar, mas Vanda aproveitou as velas que sobraram. O caixão está até
hoje no armazém de Eduardo, esperançoso ainda de vendê-lo a um morto de segunda mão.
Quanto à frase derradeira há versões variadas. Mas quem poderia ouvir direito no meio
daquele temporal? Segundo um trovador do Mercado, passou-se assim:
No meio da confusão
Ouviu-se Quincas dizer:
"Me enterro como entender
Na hora que resolver.
Podem guardar seu caixão
Pra melhor ocasião.
Não vou deixar me prender
Em cova rasa no chão."
E foi impossível saber
O resto de sua oração.
FIM
Rio, abril de 1959
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