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Soul's Robber PDF Print E-mail
2001 - November 2001
Friday, 01 November 2002 08:54


Soul's Robber

Among the absurdities created about Kra Timão's origin it's always included the idea that he was a chosen, an elect.
By Júlio César Monteiro Martins

Olhei a cordilheira nevada diante de mim. A cordilheira tinha três picos. O primeiro era o seu nariz. O outro eram os pés. O do meio eram as mãos entrelaçadas sobre o peito.

O morto empacotado no lençol era o pai da minha secretária. Viviam juntos e ele há muito tempo era doente. Ela não tinha ninguém, a não ser a mim, para acompanhá-la e tomar as providências do sepultamento.

Ela era solteira e eu também. Trabalhávamos juntos há oito anos, todos os dias da semana, na minha pequena firma de importação. Nunca fomos íntimos, mas já nos tornávamos um.

Quando eu próprio morrer, provavelmente ela terá que tomar todas as providências. Era preciso mostrar como se faz. E ela estava ali para aprender. Foi por isso que ela me telefonou tão tarde da noite. Para aprender comigo.

Estávamos os três sozinhos naquela saleta do andar térreo da Clínica Tribobó. O meu carro era o único no estacionamento. A Clínica parecia vazia. Talvez todos dormissem. As portas estavam trancadas, com excessão de uma, a da saleta de paredes brancas e nuas onde os mortos esperam seus parentes. Abrimos e entramos. Encontramos o pacote branco sobre a mesa. Só havia um. Era o seu pai que nos recebia, solene. Não era preciso desembrulhá-lo.

Da saleta, que depois vim a saber que era chamada de "capela" ouvíamos os grilos e os ruídos dos caminhões na estrada distante. A Clínica Tribobó era um edifício retangular e escuro, no alto de uma colina e cercado por um barranco vermelho. Um caixote de cimento, para onde iam os velhos pobres. As visitas só eram permitidas quando os ex-pacientes já estavam deitados na tal saleta. Ali a porta ficava sempre aberta dia e noite. Creio que todos os velhos que entravam para a Clínica só reviam as suas famílias na saleta onde estávamos agora, e passavam com eles uma noite tranqüila, a noite mais tranqüila, em silêncio.

Ali ele era o grande anfitrião. E eu me sentia envergonhado por tê-lo visto pela primeira vez naquelas circunstâncias. Eu era um estranho, um nome que volta e meia ele escutava em casa, só um nome, e era recebido, era mesmo bem-vindo ali, num momento ao mesmo tempo íntimo e cerimonioso. Aprumei o corpo e procurei apresentar-me da melhor maneira possível. Foi então que vi a cordilheira.

Retornamos ao estacionamento sem nos falarmos. Sentamos no carro. Era a primeira vez em oito anos que nos víamos à noite. O cenário e os ruídos não nos assustavam. Não estávamos no planeta Terra, e portanto nada seria estranho. Estávamos calmos e fumávamos. Esperaríamos ali o amanhecer ou tocaríamos a campainha da Clínica, despertando reações imprevisíveis? Era melhor esperar. Não havia mais pressa. Éramos os donos das cercanias da Clínica e também daquela saleta onde seu pai nos aguardava. E além disso havia os grilos, uma noite estrelada que prometia ser longa, e uma paz isolada, como se estivéssemos acampando numa praia deserta ou visitando um monumento no horário errado.

Pela manhã, certamente as enfermeiras dariam as orientações, ou o próprio agente funerário faria a sua ronda habitual à procura de clientes. A minha secretária trazia consigo uma pequena sacola com roupas do pai. Ao amanhecer, ela as passaria a algum profissional, que o vestiria a contento e o colocaria numa caixa. E então a caixa seria fechada e enterrada em algum lugar. Será simples, e talvez não muito caro. Na verdade, não havia muito o que aprender ali.

Fiz um esforço de memória para despertar outras informações sobre o homem, além do fato dele ter sido velho e doente. O seu nome eu nunca perguntara, mas havia algo de especial no seu passado... Sim! Ele havia lutado na Força Expedicionária Brasileira na Itália, no fim da Segunda Grande Guerra, e havia matado e prendido alguns alemães, os nazistas, que por alguma razão eram nossos inimigos mortais naquela época já tão remota. O soldado brasileiro sobreviveu aos tanques e aos obuses e ajudou a tomar o Monte Castello. Mas não sobreviveu à Clínica Tribobó. E ao tempo, é claro. Nas batalhas européias ele fora condecorado por bravura, mas roubaram-lhe as medalhas no subúrbio onde morava, e da antiga guerra só restaram nele o pânico dos ruídos dos aviões e das bombinhas que as crianças soltam nas noites de São João.

"Meu pai foi um excelente pai", ela disse, com os olhos secos, num tom de voz ainda levemente profissional. "Todos os dias de madrugada, antes de sair para o trabalho, ele se sentava diante dos filhos em fila e com a mão firme torcia um por um os nossos dentes, para que não crescessem tortos..." "É, um excelente pai...", confirmei. Ela acendeu outro cigarro.

Saímos do carro e voltamos à saleta, para não deixá-lo sozinho por muito tempo. Perguntei a ela se ele não gostaria de ser sepultado na sua farda. Ela sorriu, lisonjeada de que eu ainda me lembrasse daquilo, e respondeu que ele não tinha mais farda. Há muito tempo ele era apenas um velho doente, e que foi mesmo difícil encontrar uma roupa qualquer para alguém que ultimamente só vestia pijamas. Para ela o pijama seria o traje mais correto para o dia seguinte, mas havia a minha presença, e a solenidade no trajar que em geral se exige para que o morto se apresente à terra. Como estávamos fora do mundo, eu não procurei sentido na sua explicação.

O soldado estava morto. Um óbito ou uma baixa? Ninguém mais veio despedir-se dele. Estávamos os três na "capela" sob a luz fria do neon. Eu não sabia lutar e já estava velho para guerras. Não tive filhos, e nem ela teve, para lutarem numa guerra futura. Haverá guerras futuras? Pois nossos filhos não estarão lá.

O soldado havia finalmente sucumbido às tropas inimigas, quase meio século depois de encerrado o conflito. E ele era todo o nosso exército. Os alemães, vivos e mortos, poderiam vestir agora os seus velhos uniformes, tirar dos armários os seus fuzis enferrujados, e avançar, avançar sem resistências, atravessar o oceano, invadir as nossas terras e cercar com seus estandartes a Clínica Tribobó. O soldado morto já fez a sua parte, e os seus herdeiros já perderam a memória da guerra, uma guerra de outros, a atrofiar-se nos livros de História.

Os inimigos já poderiam vir, se quisessem, mas não virão. Daquela guerra sobraram muitas cordilheiras brancas, evanescentes. Os aliados também não virão. O mundo sem guerras é diferente. É um mundo de grilos, de luar claro e de um caixão pesado demais para duas pessoas.

A Clínica Tribobó é sempre a última fortaleza. E pela manhã ela abrirá as suas portas. Pela manhã, nós já estaremos muito cansados. Nós somos a rendição incondicional. Ou o troféu.   Tropical Fever The tropics are a leper. Montezuma's Revenge exists.
The Eldorado of the Senses that you are looking for,
however, this doesn't exist. Only the big, hairy spider
awaits you in its web. All you are is a prey, can't you see it?
Júlio César Monteiro Martins

—Cuidado com os trópicos, Gérard. Cuidado!

—Que nada. Vocês fantasiam muito. Eu adoro essas frutas coloridas, essas árvores imensas, esses matos tão verdes, com tantas plantas diferentes... É tão lindo, tão sensual... Eu gosto de sentir o sol forte na pele e, de noite, aquela brisa morna... Gosto de brincar com os macacos. Eles são divertidos... Parece que estão em toda parte nos observando... Gosto de passar a mão no pêlo dos pequenos animais da floresta... Das pacas, das preguiças...

—Os macacos e os outros bichos trazem doenças que depois ninguém vai saber como curar... Encare a realidade, Gérard. O trópico está destruindo você. Olha só, você está sempre suado, sua camisa está sempre úmida, sua pele está macilenta, seu rosto está inchado...

—Eu não sinto muito isto que você está falando. Você se preocupa à toa...

—A paixão pelo trópico é uma velha conhecida minha. Eu conheço os seus efeitos. Ela está cegando você. Como um viciado, que na ânsia por mais droga, bloqueia na mente os danos físicos que está sofrendo. Trópico é vício, Gérard.

—Não sou viciado... Eu apenas me sinto mais feliz aqui...

—Então me diga: quando alguém que já não vê você há algum tempo, um ou dois anos, vem visitá_lo aqui nos trópicos, quando o vê, não dá um pulo para trás, leva as mãos ao rosto e grita apavorado: Gérard!? Não é assim?

—É, é assim mesmo... É engraçado...

—O que é que você acha que assusta tanto as pessoas?

—Já sei o que você vai dizer. A minha decadência física... Ou a degradação moral...

—O trópico é uma lepra. A "Maldição de Moctezuma" existe. Mas o "Eldorado dos Sentidos" que vocês procuram, esse não existe. Só a grande aranha peluda espera por você na sua teia. Entre as árvores. Você é apenas mais uma presa, será que não percebe? Você está em rápido declínio, em decomposição. Daqui a pouco você não será mais humano. A transformação já começou...

—Chega! Não quero mais ouvir as suas histórias... Está calor hoje, não está?

—Está quente e muito úmido. Deve cair uma tempestade mais tarde.

—Estou pensando em dar uma andada até a cachoeira. Mas eu deixei as botas em casa..

—Então é melhor deixar para outro dia...

—Não. Acho que vou assim mesmo.

—Vai pelo caminho de barro, pelo bananal... É menos perigoso...

—Não. A lama lá ainda está muito mole. Tem trechos que a perna entra no barro até o joelho. Por lá não vai dar. Vou pelo mato mesmo.

—Você não acha melhor a gente voltar agora? Você precisa consertar o teto da sua varanda que caiu. Antes que desabe o temporal.

—Não adianta. O madeirame está todo podre. O forro dentro da casa também está afundando. Vou ter que reformar tudo. Amanhã eu penso nisso. Agora eu vou à cachoeira.

—Eu sei que você não gosta que eu fale... Mas cuidado, Gérard. Cuida um pouco mais de você...

***

—Alô, Gérard?

—Alô, quem é?

—Gérard, é o Ivan. Lembra de mim? O Ivanzinho, Diretor das Faculdades Reunidas Geremário Couto...

—É muito cedo... Que horas são?

—Já passa da uma da tarde. Acorda, que eu preciso falar com você...

—Já estou acordado. Fala mais alto, que o telefone está uma merda.

—Olha, é o seguinte: Nós fechamos temporariamente a filial de Vassouras e a de Pedra Negra. Não vai ter mais o seu curso. Ouviu?

—Ouvi. Tudo bem... Escuta! Passei ontem perto do prédio lá de Itacuçu. Aquele troço está em ruínas. A parede de fora desabou. Como é que você ainda pensa em reunir o pessoal lá? Não dá nem pra chegar lá direito. Está um matagal danado...

—Itacuçu já está fechado também. Vou providenciar outro lugar para reunir o pessoal... Olha, o seu cheque já está comigo. Mas só vai poder ser liberado no início do mês que vem, tá legal?

—Tudo bem... Ivanzinho, vem até aqui. Vamos tomar umas pingas e conversar... Traz aquelas duas, lembra? Traz aquela morena baixinha pra mim...

—A baixinha?...

—É, aquela do Pará, que me ensinou a dançar lambada... Aquilo é galinha que dá bom caldo...

—O negócio é o seguinte. Os ônibus estão todos em greve e eu estou sem carro. É melhor esperar acabar a greve...

—Não, toma um táxi que eu pago... Acorda a baixinha e diz pra ela que... Alô! Alô! Caiu a ligação... Merda! Deixa pra lá... Tudo bem...

***

—Ah, como eu gosto de ficar aqui na varanda depois do almoço, me abanando, ouvindo os passarinhos... Dá uma moleza... Essas plantas estão enormes... Aquela trepadeira ali eu plantei na semana passada. Ela já subiu, se enroscou nos fios do varal e já está crescendo pelas vigas da casa. Repare só que quanto mais ela sobe, maiores ficam as folhas...

—É, é bonito de ver... Mas essas trepadeiras são uma praga. Elas crescem rápido demais e depois fica difícil de cortar. Daqui a uns dias ela vai envolver a casa e não vai mais entrar luz. A planta abafa tudo, tira o ar da casa...

—Mas é tão bonita... Tão forte...

—Você vai ver... Essas trepadeiras arrebentam tudo. Olha ali. Ela já está entrando pelo forro. Vai levantar as telhas e derrubá_las. Os galhos são fortes e avançam dois, até três palmos por noite. Se eu fosse você, pegava logo um facão e cortava essa planta fora...

—Quando ela crescer mais eu corto. Agora não...

—Quando crescer mais, você não vai conseguir cortar. Mas é problema seu...

—Quatro horas... Olha as minhas mãos... Já começou a danada da tremedeira. Toda tarde agora é isso. Por volta das quatro começa a crise, quatro e meia o corpo todo fica tremendo, suando frio, batendo os dentes... Lá pelas cinco e meia, passa tudo...

—Você tem que tratar disso com urgência, Gérard... Não pode deixar isso assim...

—Não, isso é normal. O corpo acostuma. Com o tempo, cura sozinha. Daqui a pouco, quando a tremedeira apertar, eu tomo uma cachacinha e dou um "chega pra lá" nela... À noite fica tudo uma beleza...

—Cachacinha, né?... Você vai dar o curso lá no Ivanzinho neste semestre?

—Que nada. Foi tudo cancelado. O Ivanzinho telefonou ontem. Eu já previa isso. Aquilo lá está caindo aos pedaços. Sabe, eu decidi que não vou mais lecionar por enquanto. Ando muito cansado pra ficar duas horas em pé, falando, nesse calor... O ventilador da sala de aula, além de fazer um barulho irritante, parece que só espalha o calor, joga ar quente no rosto da gente, resseca a boca, os olhos... Não vou mais dar aulas naquela espelunca, não. Chega...

—O que é que você vai fazer então?

—Não sei ainda. Um amigo meu, da Suíça, tinha me pedido que comprasse umas pedras semi-preciosas pra ele. Águas-marinhas, turmalinas e até safiras ou esmeraldas, se eu encontrasse por aqui. Acho que é isso que eu vou fazer... Me dá uma cigarrilha dessas? Essa febre está me deixando nervoso...

—Em Lavras do Espírito Santo você compra essas pedras quase de graça, aos punhados...

—Mas é muito difícil ir para aqueles lados agora. A estrada está horrível, já quase acabou... Soube que caiu uma barreira perto de Lombardina que deixou uma fila de mais de duzentos caminhões. Já tem duas semanas que eles estão empacados por lá...

—Bom, eu tenho umas pedras comigo. Se você quiser tentar vender para esse seu amigo...

—Ah, legal... Traz umas amanhã pra eu ver. Vou passar um telegrama pra ele, que os telefones agora enguiçaram de vez... Você já sabe quando eles vão consertar?

—É difícil saber... O pessoal da companhia entrou todo em greve, exigindo reposição salarial de duzentos por cento, aumentos nos níveis da inflação e demissão de toda a diretoria da empresa. A Companhia diz que está sem verba para cumprir as exigências dos grevistas porque a maioria dos usuários estão com as contas em atraso de mais de três meses. Essa greve vai demorar...

—Está todo mundo sem dinheiro para pagar as contas, também... E pagar por que, se os telefones não funcionam mesmo?...

—É... Não vale a pena esquentar a cabeça com isso não... Os ônibus continuam parados... Ninguém consegue ir trabalhar e os patrões não podem fazer nada, nem descontar os dias parados... Eu soube que a Bayer está mandando buscar os funcionários em casa nos carros da empresa... Mas, Gérard, se você quiser passar o telegrama amanhã, eu posso alugar um táxi...

—Não, amanhã não... Está muito em cima... Semana que vem eu dou uma passada no Correio e mando... Você traz as pedras amanhã... Eu quero ver as pedras primeiro... Amanhã não, domingo... Domingo é melhor... Amanhã vem um pessoal aqui... Sabe como é...

Soul's Robber Among the absurdities created about Kra Timão's
origin it's always included the idea that
he was a chosen, an elect.
Júlio César Monteiro Martins

Assim, no tempo das fábulas, após inundações e dilúvios, saíram da terra homens armados, que se exterminaram.
Montesquieu

Do muito que se tem escrito e polemizado sobre o papel de Kra Timão nas dramáticas transformações de nosso tempo, pouco se pode extrair de informações confiáveis ou mesmo verossímeis. Por vezes tem-se a impressão de que a presença esmagadora da personalidade de Kra Timão no inconsciente coletivo, impregnando-o de um terror reverencial, ainda conserva o poder de despertar as mais delirantes fantasias sobre as origens e a trajetória do fenômeno, toldando qualquer lucidez histórica e distorcendo os fatos no limite da fantasmagoria e da pura alucinação.

O interesse generalizado nas especulações sobre um homem que foi elevado pelas massas à categoria de semideus e que foi responsável pelo maior retrocesso dos valores humanistas de que se tem notícia na civilização moderna é, sem dúvida, plenamente justificável. Afinal, há apenas uma geração, cataclismas sociais como a escravidão, o genocídio racial, a tortura, as execuções sumárias e a ascendência de um líder carismático sobre todas as instituições eram consideradas expressões de um passado remoto, abolidas pela consciência ecológica e juridicamente equilibrada conquistada a partir dos fins do século XX, e que todos nós já considerávamos como consolidada e pacífica no espírito das nações. As práticas contemporâneas, pensávamos nós, não comportariam fenômenos arcaicos como Kra Timão, que nós associávamos, um tanto ingenuamente, à barbárie e ao irracionalismo medieval, sepultados pelo humanismo pré-renascentista. Nós nos esquecíamos, ou talvez não desejássemos recordar, que há pouco mais de um século o Nazismo incendiava os corações da Europa, o centro cultural da humanidade de então, e durante duas décadas fez vigorar práticas coletivas sinistras e abomináveis que por pouco não se estabeleceram de forma irreversível. O trauma do Nazismo e de seus discursos simbólicos foi tão brutal que parece ter bloqueado a nossa memória e obliterado a nossa razão para uma possibilidade histórica que jamais foi de todo descartada. O antigo Führer das massas germânicas, Adolf Hitler, pode ter servido como protótipo em menor escala para a composição de Kra Timão.

Na aparente e ilusória "Paz Ecológica" em que vivíamos até há poucas décadas, a tirania já estava em gestação silenciosa. Talvez ela tenha sido concebida por um difuso sentimento de orfandade das massas dispersas, talvez pela necessidade de rompimento de um idílio social que, infelizmente, não correspondia à natureza própria do ser humano. De um modo ou de outro, nós fechamos os olhos e preferimos ignorar qualquer uma dessas possibilidades, abdicando do direito de intervir no processo até que fosse tarde demais para impedir que Kra Timão lograsse um predomínio insuperável.

Mas de nada vale um tardio mea culpa, até porque não sabemos com certeza se havia algo a ser feito e se esse algo seria eficaz como antídoto contra a gigantesca "ola" popular que, como um animal raivoso que eriça os pelos, aclamou em praça pública a tirania emergente. Muitas décadas terão passado até que a neblina do fanatismo e do medo se dissipe e nós possamos investigar concretamente a verdade sobre Kra Timão e sua herança. Corremos o risco de encontrarmos, por trás do mito, apenas a nossa própria imagem no espelho, e nada mais que isto. Neste caso, uma velha ilusão sobre o destino humano de materializar utopias fraternas terá sido irremediavelmente desfeito. Mas precisamos encarar os fatos, mesmo que estejamos condenados a repetir eternamente os mesmos erros.

No conjunto de absurdos que se criou sobre a origem de Kra Timão, e que foram sutilmente incentivados por ele próprio até se transformarem num folclore mais ou menos consensual, está sempre embutida a idéia de que ele era um eleito, um predestinado, e de que era dotado de certos atributos carismáticos que dificilmente poderiam ser relacionados a um exemplar qualquer do gênero humano. O mito corrente de que os cromossomos do óvulo fecundado de sua mãe foram manipulados erroneamente por cientistas com o propósito de corrigir alguma falha genética previamente detectada, com conseqüências imprevisíveis, talvez seja o proto-pseudos de Kra Timão, a mentira fundadora e germinal de uma seqüência infindável de outras mentiras.

A lenda de que, ainda bebê, os pássaros e pequenos animais eram atraídos em sua direção, como se Kra Timão fosse dotado de um magnetismo animal superior, e de que, ao se acercarem dele, os bichos debatiam-se em extertores agonizantes, é uma decorrência do mito anterior, e nos remete a certos poderes de domínio instintivo ancestralmente atribuídos aos ofídios. Corrente também é a lenda de que sua mãe era constantemente flagrada fora de si, a sugar com avidez as partes de Kra Timão ainda menino, lasciva e desgrenhada, e que por isso o seu pai o afastou do convívio do lar, entregando-o a uma família de videntes negros, que cultivavam a magia e o jogo de búzios, para domá-lo e afastar dele os "espíritos obsessores" que em seu corpo se haviam incorporado. Todo este bestialógico sobre a infância de Kra Timão desembocou no mito maior, o do "ladrão de espíritos", segundo o qual o obsessor que o incorporava era tão maligno e poderoso que, ao invés de ter sido exorcisado pelos inúmeros ocultistas, pais-de-santo e babalaôs que foram convocados para a tarefa, ele invertia as posições e "sugava" para dentro de si os poderes místicos e o carisma de seus "exorcistas", engordando os seus próprios, de tal modo que os deixava apagados e enfraquecidos, definhando sobre um leito até que em alguns dias a vida os abandonasse. Ainda segundo o mito, o processo de "engorda" ou de "inchação" carismática de Kra Timão tornou-se incontrolável, e não cessaria enquanto não abarcasse a totalidade das massas humanas. Por fim, restaria sobre a Terra apenas um único espírito, grandioso e onipotente, o espírito de Kra Timão, que manteria os "súditos universais" vivos e fortalecidos por uma espécie de "empréstimo" ou transferência de energia espiritual. A massa, a "ola" histérica de que falei há pouco, transformara-se portanto no corpo vivo e plural do espírito do líder. Toda identidade e toda individualidade diluíra-se num único desejo e num único destino, o todo aquele que contrariasse o determinismo espiritual seria alijado da massa unânime através do esvaziamento, ou do "recolhimento", de sua energia vital. A partir disso ele não poderia mais ser considerado humano, e a sua existência fora do "circuito energético" era vista como uma atividade parasitária, mórbida, poluente e maléfica para o corpo social. Ele deveria ser eliminado o mais rápido possível, com a urgência com que se desprega morcegos ou sanguessugas do corpo de um animal antes que eles lhe suguem todo o sangue. A "profilaxia social" era executada com crescente eficiência e rapidez, à medida que recursos técnicos de extinção cada vez mais sofisticados eram colocados a serviço de Kra Timão e de suas hostes. O sistema vitimava um número cada vez mais expressivo de indivíduos posto que o mito, que àquela altura já atingira o status de ideologia oficial, assegurava que um número mais reduzido de "eleitos" poderia "pegar emprestada" uma porção maior da energia que emanava de Kra Timão, o que lhes propiciaria uma vida mais longa, mais intensa, maior fecundidade e um vigor físico e mental redobrado.

"Eu sou a vida!" era uma das sentenças solenes preferidas de Kra Timão ao dirigir-se às massas. É óbvio que para aqueles cada vez mais raros que resistiam ao carisma e à sedução ideológica do tirano, além de todas as outras formas monstruosas de pressão, a sentença soava com um sentido exatamente oposto. E porque ele também queria mostrar-se como uma encarnação da morte não surpreende o fato dele ter resgatado alguns esquecidos símbolos do Nazismo para figurarem nos uniformes e bandeiras de suas hostes opressoras, como a caveira sobre as tíbias cruzadas que ornamentava os quepes dos oficiais da SS do Führer: um símbolo clássico e inequívoco da morte implacável, há séculos utilizado em bandeiras de navios piratas ou em frascos de veneno. Na semiologia kratimoniana, a caveira sobre as tíbias representava o que restava de um indivíduo quando desprovido ou despojado da energia que abastecia a coletividade.

Kra Timão, assim como Hitler e o Dr. Goebbels no passado, tornara-se um mestre na inspiração do terror massificado e na materialização do bem supremo para os seus seguidores e do mal supremo para os que se situavam fora do seu círculo de veneração. Já segundo o mito, a ambigüidade mística do Bem e do Mal simultâneos lhe fora concedida diretamente por Exu, segundo alguns o seu espírito inaugural, a entidade polimorfa e aética dos ritos africanos, de fundas raízes no inconsciente das massas.

Ao contrário da atmosfera universal de esperança e de entusiasmo construtivo que se seguiu ao fim do perigo nazista, no século passado, o contexto psico-social de nosso tempo é bem diverso. A tirania de Kra Timão foi substituída por um clima geral de apatia, desesperança, incredulidade e caos social. A nossa cultura não logrou remeter-se de volta às suas bases éticas e políticas pré-kratimonianas e oferecer às massas novamente órfãs uma alternativa espiritual e uma estrutura administrativa que propiciasse uma reorganização positiva do quadro contemporâneo. O sentimento coletivo de orfandade que foi um dia terreno fértil para a tirania persiste perigosamente, e ainda mais acentuado que na época da "montagem mitológica" de Kra Timão.

Velhos fantasmas ainda rondam a nossa precária civilização. Penso que somente através de um criterioso e exaustivo exercício de auto-análise cultural e histórica, que talvez leve muitas décadas para ser concluído, e do qual este artigo pretende ser um dos detonadores, poderemos atravessar a espessa camada de pó das ruínas dos nossos valores e vislumbrar alguma imagem nítida sobre o sentido da existência do gênero humano. A ausência desse possível sentido, a perda de toda e qualquer fé no merecimento da vida, é a nova febre que nos consome a todos. Desmistificando Kra Timão e seu "espírito oceânico" talvez respondamos finalmente ao enigma da esfinge, e quem sabe a tempo de não sermos devorados por ela. Uma esfinge que sob a máscara da tirania de Kra Timão talvez esconda a nossa própria face.

Talvez. Por ora, tudo é talvez. Precisamos tentar algo. Ou talvez não precisemos.

The original titles of these short stories are respectively "Clínica Tribobó,"  "Bachianas Brasileiras" and "O Ladrão de Espíritos."

Júlio César Monteiro Martins, the author, was born in Niterói, in the Greater Rio, in 1955. He has published several short-story books: Torpalium, Sabe Quem Dançou?, A Oeste de Nada, As Forças Desarmadas, and Muamba. Monteiro Martins is also the author of three novels: Artérias e Becos, Bárbara, O Espaço Imaginário and a volume of essays: O Livro das Diretas. He is one of the founders of the Brazilian Green Party and from 1992 to 1994 worked as a lawyer for the Brazilian Center in Defense of Children's Rights. He taught literary creation at the Goddard College in the US and is now a professor in Italy, teaching literary creation and Brazilian literature in the University of Pisa. He also teaches Literary Creation in Narration in Florence, Lucca, and Pistoia. Martins is the founder of Sagarana School (http://www.sagarana.net). You can get in touch with him writing to jmontei@tin.it  

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