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Elections in Quibocó PDF Print E-mail
2000 - February 2000
Friday, 01 February 2002 08:54

Elections in
Quibocó

Together with two other policemen, Ofrênio went to the place and confirmed the fact: three chickens presented signs that they had been sexually abused. A blackie, that Mrs. Marciana called Laura; a white one named Maria Lúcia and still another one with a naked neck, known as Maria Helena.
By Dioclécio Luz

ELEIÇÕES EM QUIBOCÓ

1, O PREFEITO

Olhou para o seu pé esquerdo e disse:

—Se não fosse o fedor você ganhava o prêmio Nobel de beleza.

Falou assim, sorrindo, com a boca cheia de mau-hálito, cu de gato, usando todos os seus dentes, como se fosse o homem mais feliz do mundo, sentado na cama, esperando que os sapatos se achegassem aos seus pés.

Seu nome? Eleubório. Homenagem ao pai, Eleusio e à mãe, Da. Esbórnia, que Deus os tenha em seus condomínios.

Agora Eleubório está ali, amanhecendo na casa de uma puta, moça de muitos dotes camarísticos, pouco se importando com a conversa alheia, a igrejística e a familiar, e mesmo a da rua. No fundo, no buraco de cisterna onde se esconde sua alma de bagre, dentro de sua cabeça de homem-macho, cabia-lhe bem esta fama, de sujeito ocupado em se ocupar da mulher de casa, esposa casada conforme as leis da sociedade local, estadual e nacional, e cuidar da outra, a amante, mulher de volume e muito peso, como convém a sujeito de poder, e ainda, vez ou outra, outra e outra, uma rapariga como aquela, de dotes razoáveis, de boceta quase fechada, recém-chegada que era ao ofício da putaria.

O prefeito era ele. Ele merecia. A ele cabia o poder e a fama. Todo mundo sabia:

—Em Quibocó só há uma lei, a minha—repetia Eleubório aos moucos, aos amigos e, principalmente, aos inimigos.

Ajeitou o bigodinho. Diante do espelho estufou o peito. Estava alegre por causa dos pêlos cobrindo a boca, firmes e negros, muçum brilhoso. Era a sua epifania. Mas, nem tudo no mundo era perfeito, ele tristecia diariamente por lhe ser faltosa a gordura que faz ser o que são os homens de poder. Enchia o peito de ar, o batráquio, para esconder sua indignação diante da natureza, ela, imune aos churrascos, às macarronadas, aos banquetes, às comilanças, às cervejas, fazia-o ser magro, vergonhosamente despojado de densidade, ter peso específico tão irrisório. Eleubório era revoltado consigo, por ter um estômago perfeito, traidor, capaz de liberar rapidinho a comida, tornando-o cagador profissional, quanto mais botava por riba mais descia por baixo, nem demorando nas tripas para sua desgraça, que queria ter uma prisãozinha de ventrizinha, um enchimento, na falta de gordura que fosse de bosta, desde que não o fizesse ser o que era, magro, e, portanto, dito e sabido na cidade, fraco.

—Eh mundo de bosta... Pra que a gente tem que trabalhar, caralho?

Disse e jogou o dinheiro na cama onde dormia Shirley, agarrada nos seus sonhos de mulher-dama, pensando no dia em que ia ter dinheiro suficiente para pagar a um homem para trepar do jeitinho que ela queria. Dormia moça: a boca entreaberta, o corpo recolhido num desenho de feto, os cachos alourados cobrindo sua cara cor de bronze.

Eleubório abriu a porta e foi pro mundo.

Sentiu na cabeça o sol quente das dez horas e trinta e cinco minutos de Quibocó. "Vamos passar mais dois anos sem chuva neste deserto", pensou agourento. "Não vai sobrar nem tripa de calango pra esse povo comer com areia e pau seco".

Atravessou a principal avenida e parou na barbearia. Seu primo, Vegélio, passava a navalha na madeira leve, amaciando o fio.

—Você é o único homem que conheço que alisa cara de macho e ninguém diz que é perobo—disse para o outro.

Vegélio não respondeu. Pegou o pincel e espalhou a espuma amarela na cara marrom do primo. Olhou bem nos olhos de Eleubório. O prefeito disse, sorrindo:

—Você não tá pensando em me matar, tá?

—Eu? Que nada? Só ia dar um talhinho na goela, o bastante para ficar vazando até que morresse sozinho por aí. Por conta sua, compadre. Ou de Deus.

—Você até parece o primo Ermenildo, pistoleiro de agenda cheia—disse Eleubório.—Ele vive dizendo que não mata ninguém, só faz os furo, quem mata é Deus.

Quando o prefeito saiu da barbearia o sol estava mais quente ainda. Até as pedras rolavam de fininho, inclusive as mais graúdas, buscando a sombra das algarobas para fugir do inferno.

Sua natureza estranha, porém, fazia-o imune à fome solar. Mesmo empalitozado chegou seco e fresco ao trabalho.

2, A PREFEITURA

Ele gostava daquilo. Todos os dias lembra a primeira vez que cruzou aquela porta. Um primo lhe entregando o gabinete do prefeito, o rebanho lhe acompanhando, os puxa-sacos lustrando seu ego monárquico. Estava feliz com aquela folia. Só não lhe agradou saber que a oposição, sabedora do modo, digamos, indecente, como levara aquelas eleições, riscou nas paredes do prédio um poema do maldito Rilke:

Já justiça no mundo não há

Quem a justiça achar poderá?

Porque às leis da injustiça

Toda justiça é submissa.

Diabo de tinta subversiva. Ficou lá o poema, radiativo, brilhando no escuro, duro, imune aos querosenes, thinners, águas e sabões existentes.

Até que desistiram. Mas Eleubório, não. O primeiro ato do novo administrador foi aprovar recursos para pintura completa da prefeitura. Oficialmente, na empreitada foram derramados 490 mil galões de tinta, 580 latões de querosene, 2 mil pincéis. Foram contratados 850 homens para o serviço. A oposição mostrou que com esse material dava para pintar metade do planeta terra. A oposição também estranhou que as sobras de tinta, querosene e pincel tenham ido para as obras assistenciais da mulher de Eleubório, Orélia. Ainda questionou sobre a legalidade desses homens contratados pela prefeitura trabalharem na construção de um novo armazém para o prefeito. E só na semana seguinte descobriram que a loja de material de construção que venceu a concorrência para venda dessa tralha pinturista era dele, Eleubório.

Foi o seu primeiro processo. Mas, feito da couraça que reveste os deuses, e trazendo no sangue o DNA que sua família desenvolveu na região, tão firme e imune ao tempo quanto a serra que protege Quibocó dos furacões, Eleubório não levou aquele processo a sério. E nem os outros muitos que se sucederam. Afinal, desde o início dos tempos, desde quando o primeiro lagarto abestalhado trocou o mar pela terra, a justiça sempre esteve do lado de sua família. Crente na tradição, manteve o método que herdou de sua gente boa, especial.

Em quatro anos de mandato seu patrimônio aumentou duzentas vezes.

Eleubório gostava de saborear estas lembranças. Ao entrar na prefeitura neste final de mandato, sentiu que aquilo tudo era seu e dos seus: dos muitos parentes empregados—tantos que se metade deles trabalhasse, seria bastante para fazer a prefeitura funcionar.

Sorriu ao entrar na sua casa, a prefeitura.

Viu a nova secretária, novinha, carne tenra, e ficou tentado, na dúvida se era pra comer hoje ou depois de amanhã. Não admitia frescura. Se não presta para comer de que serventia tem uma secretária, então? Ia para rua se se mostrasse moderna, arredia. Exonerada—que não queria mulher incompetente lhe servindo. Mas hoje não ia ser possível:

—Caralho!—disse baixinho, ao espalhar sua bunda na cadeira—Hoje tem a bosta do comício.

Só faltavam cinco dias para as eleições em Quibocó. Sua intenção era eleger o secretário de Finanças, Abalvino, conhecido na cidade por ter um cérebro menor que o da pulga mais burra encontrada no planeta. O professor de biologia do colégio, inimigo escarrado do prefeito, afirmou certa vez que Abalvino era um fenômeno da natureza, talvez o elo perdido entre o homem e o fungo. "Se fosse levantada sua árvore genealógica se comprovaria que ele é de fato bisneto de um angico; ele está mais para abacate que para gente", disse o cachorro do professor. "Chamá-lo de ameba já é um grande elogio".

Mas, e para que Eleubório e sua alcatéia precisaria de gente com cérebro controlando as finanças do município?

Entrou seu chefe de gabinete, Galdino. Não tinha passado dos trinta mas se o cristão disser que tem cinqüenta anos não é mentiroso não.

—E então?—perguntou Eleubório, espiando no seu jeito de caminhar, arrastando os pés, curvado, com os olhos esticados, apalpando cada coisa, pegando sem pegar, grudando. Eleubório achava que qualquer dia desses ele sairia dali comendo as folhas da samambaia, assumindo seus dotes de lagarta. E uma lagarta parnasiana-burocrata:

—O juiz meretíssimo está aí fora. Quer falar com vosmissê—disse Galdino.—Desde cedíssimo.

—Tá bem, manda entrar esse bosta.

Quando o vento soprava mais forte em Quibocó dava para ver o juiz cercado de nuvens lá em cima. Tão magro, o coitado, que era inútil andar com os bolsos cheios de pedra: o vento jogava ele para cima de todo jeito. Subia num vupt!, e descia suave, com a cara cheirando a céu e maresia, a roupa suja de areia e um cardume de caranguejos que faziam morada em seus cabelos compridos. Daí muita gente achar que o céu era um mar e lá existia tudo isso que, contam, existe nos oceanos.

—Doutor Ermírio Roberto, seja bem vindo a essa bodega, onde mijo de lagartixa se mistura com processos, projetos de pontes e iluminárias alimentam os ratos da nossa cidade, onde as reinvindicações da população são zelosamente guardadas com as sobras da nossa cantina no albergue mais confortável das nossas mais amadas baratas.

—Você anda muito sincero, Eleubório, isso não é bom. Espero que esse hábito não ultrapasse as fronteiras deste nosso recinto. E que nossos inimigos na casa legisferante não venham a saber de discurso similar.

Eleubório apontou a cadeira à sua frente. Olhou para magreza do outro e se sentiu ótimamente bem. Havia ali alguém mais frágil que ele. Talvez Quibocó fosse o único lugar do mundo em que o poder não era adiposo. A taxa de colesterol era baixa. E o juiz, com seu aspecto de gafanhoto domesticado, dava-lhe este prazer.

—Apareça mais vezes aqui, meretíssimo. É sempre bom lhe ver—deixou escapar Eleubório.

—Venho a trabalho. À labuta, senhor prefeito. À labuta!

—E vivam as putas!—acrescentou Eleubório.—O que temos, porra?

Enquanto o juiz abria sua pasta, o prefeito lembrou a conversa tida e havida ali há quase um ano. Na época, as disputas entre as duas facções políticas tinham se tornado guerra onde valia bala e facão. Os mortos, encaminhados sem pompa, matados por dentro e por fora, a maioria com as tripas largadas nas ruas, já contavam mais de 30 em menos de dois meses de disputa eleitoral.

—Precisamos fazer alguma coisa ou não vai ter quem vote nas eleições—disse ao juiz na época.—Pelas minhas contas, até chegar o dia, nessa porra dessa cidade, a gente mata 300 cornos, e eles matam 150 da nossa tropa. Ou seja, vai faltar quorum. Você que é juiz, pago para juizar, encontre uma solução que resolva o problema, porra!

Dois dias depois, e dois mortos e dez feridos, Ermírio voltou. Abriu a pasta e mostrou o mapa da cidade: a avenida principal, os dois mercados atulhados de tralhas e vozes, o matadouro de onde o sangue escorre numa hemorragia que não se acaba, o campo de futebol onde o Palmeiras e o Corinthias local costumam se digladiar na busca de uma bola aparentemente metafísica. A igreja, dominando a praça; o carro do prefeito, importado, humilhando as gentes comuns e as autoridades outras... Um carro no mapa da cidade? Sim, seu opala, vermelho, brilhoso, sem uma ruga sequer, um arranhãozinho besta, onde nenhum passarinho jamais cagou para não correr o risco de morrer baleado pelo capanga de Eleubório, pago pela Prefeitura para cuidar do bicho, é o único carro no mundo que faz parte de um mapa, conforme decreto de autoria de sua excelência, o prefeito, Eleubório.

O juiz retornou com a solução:

—Habemus pacem! Eis a escapatória: dividir a cidade em espaços de atividade política. Cada qual atua em seu campo. E assim as refregas não acontecem mais.

—Que porra é refrega, caralho?—indagou Eleubório.

—Do lado de cá, a praça e a avenida, ficam com nossa gente. Também o espaço atrás da cadeia e a área em frente ao futebol.

—E esses picados marcados de vermelho...—interrompeu Eleubório.

—Aí está liberado para os adversários políticos.

Eleubório sorriu. Cumprimentou o juiz pela nobre decisão. Só osso, só quitina—não o imaginava capaz de pensar. Acredita Eleubório que a inteligência brota da gordura. Está bem que ele, com seu bigode e seus antecendentes ilustres, seja uma exceção, mas duas assim, na mesma cidade, é um desaforo ecológico, ou fisiológico, como queiram.

Aquele era um problema resolvido. Acabaram as brigas.

Isto aconteceu no ano passado. Agora o juiz vinha com outro problema. Os adversários querem acabar com as sacanagens políticas que, todo mundo sabe, representam uma tradição para o partido e para aquela região em especial.

Explicava Ermírio Roberto:

—Eles não querem que os Pereira votem. O mesmo igualmente Dona Zefilda e seus filhos, todos eles, nenhum deles. Ainda os Maciel que moravam na subida da ladeira de Santo Antônio. E nem mesmo a curriola de avôs e bisavôs de Elfídio Barreto.

—Isso é uma galinhada!—esbravejou Eleubório.

—E baseado em que esses pebas querem proibir esse povo de votar! Por acaso eles são Deus?—pergunta, também indignado, o amebíase, candidato a prefeito.

—Porque é defunto, seu Abalvino. Porque essa gente tudo já morreu, virou comida de minhoca, pó que alimenta a jaqueira do cemitério—cospe Eleubório.

—Sim, mas mesmo morto eles sempre votaram. Parente pode votar pelo ausente, é o que sempre digo. O fato de não existir jurisprudência não caracteriza o dolo—justifica o juiz.

Todos olham para ele. No fundo ninguém acredita naquela conversa. Mas foi o que sobrou.

O juiz, doutor Ermírio Roberto, todavia, tem problema maior que esse: querem impedir a Prefeitura de colaborar com o candidato da situação.

—A questão é que a lei não permite que a Prefeitura produza nem guarde chapa de candidato em suas instalações—disse o juiz.—Alguém vazou estas informações para os nosso inimigos e eles, estou sabendo, vêm me procurar para que eu faça cumprir a lei.

Eleubório não era sujeito de meias palavras, meias verdades, meia conversa. Era inteiro: um homem de mentira. Sabidamente um canalha, um patife, um crápula. Mas, inteiro. Nele não existiam duas partes. Era só uma. Na cidade não existiam duas versões, era só a dele que valia. Por isso, tudo aquilo que o juiz falava soava-lhe como estrombótico, estropótico, estapúrdio, onomomástico, escroto.

—Só tem uma solução—acrescentou o homenzinho de preto, magro, com a roupa fedendo a naftalina importada—primeiro, criar notas frias que justifiquem o gasto com a gráfica, segundo, quanto ao material impresso, tirar daqui o mais rapidamente possível.

Os reformistas queriam mudar o mundo. Era uma coisa que Eleubório não admitia. Ele não aceitava que mexessem uma pedra da configuração cósmica-política-social legada por seus avós. Tava lá no colégio, o nome de seu avô paterno, Osmualdo Libério; o mercado público foi batizado para homenagear seu avô materno; sua extinta avó Clotilde Amarélia era conhecida como rua principal da cidade; cada inseto, passarinho, porco e bode que comia na praça rendia homenagens ao seu finado tio-avô, Anfíbio Eleutério. O mundo era muito bom assim. Para que esse vexame em alterar? Por que essa vingança contra Deus?

Irado cuspiu na cara do amigo juiz:

—Solução de merda está me trazendo vossa meretríssima.

—Não é meretrísssima, é meretíssima...

—O caralho!—rosnou o prefeito.—Não vou fazer nada disso. No máximo vou juntar tudo numa sala do almoxarifado, onde guardo as traças e percevejos de nossa augusta casa Executiva. E pode ir que já basta de trabalhar por hoje.

Eleubório deu as costas para o juiz. Abriu a revista onde fartos seios e ancas tão grandes quanto jacas, estavam ali, com seus perfumes e seus sabores: doces sorvetes, doces mangas rosa. E mais não falou até que a porta se fechasse e a autoridade judiciária, com seu odor cretáceo, e depois seu pensar quinhentista, estivesse bem longe dali, ruminando desgraças, azares, dificuldades, trambolhos, a puta que o pariu.

3, O DELEGADO

Ofrênio, o delegado, sujeito de muita galhosidade, só viu Ariosmar e depois seus irmãos quando ele mesmo bateu na porta da delegacia e, fumando seu cigarrinho de fumo fulero, com a cara amarela que carregava em riba do pescoço há mais de 30 anos onde brilhavam dois olhos no meio da noite, ele mesmo, anunciou:

—Você tem um minuto marcado no seu relógio para soltar meu primo que taí, cozinhando no meio dos seus vagabundos.

Disse e continuou lá. Parado. Olhando pro delegado.

Ofrênio não era homem de ter medo. Gostava de fazer luto nos outros. Era fortaleza segura, garantida por uma carabina boa e meia dúzia de capangas, assassinos de pouco valor, gente que fazia serviço barato, mas ali eram respeitados como soldados, com direito a puta e salário.

Os irmãos apareceram lá trás. Distância de um peido. Os cinco tais. Todos pareciam tão pacatos, tão evangélicos. Quietos ali. Até Ofrênio chegou a pensar em brincadeirinha deles. Essa gente não era tão braba assim, ora, porra. Um berro e disparavam pelo meio da cidade, regurgitando suas poucas arengas.

Mas tinha lá o menor deles. O mais novinho. Ponta de rama. levantou mão e mostrou um galão. Que porra era aquilo? O menino-rapaz mostrou para o delegado que o galão estava vazio.

—Gasolina, caralho!—berrou Ofrênio, arrebitando o nariz, diante da mesma cara de anjo de Ariosmar.

Mas chovia. Chovia? Não era tempo de chuva. Então?... E aquele gotejar cardíaco, caindo de cima das telhas, ali, pingando ao seu ladinho, e ele com os pés metido na tal água da chuva. Chuva?

—Gasolina, caralho!—repetiu, tentando sair da poça onde se amontoava o inflamável.

Viu os outros galões amontoados junto dos irmãos de Ariosmar. E o reflexo dos vagalumes, e das luzes, e dos faróis na rua, e do campo de futebol aceso lá no fim da avenida, mostrando que tudo em volta estava coberto pela gasolina. Até o teto da delegacia.

E na sua frente Ariosmar, com o cigarro no bico.

Jogou o cigarro no seco. Pegou outro no bolso. E perguntou, ciente, angelical:

—Tem fogo, seu filho de rapariga?

Ofrênio não era homem de ouvir desaforo. Seu lugar tava reservado no inferno há muito tempo, com direito a cargo público e posição. O Cão que se cuidasse para não perder o mando. Ofrênio tinha talento. A cadeia lá atrás era ocupada por pulgas e carrapatos. Era seu jeito de trabalhar. Na sua opinião de educador, ladrão bom é ladrão morto. Não gostava de sustentar bandido atrás das grades. Ou dava um sumidouro no sujeito ou rebentava de porrada o bastante para que ele morresse sozinho.

O rio Tietê, que passava fundo e largo naquelas bandas conhecia seu método de ação. Vinha Ofrênio com o ladrão e ocupava a ponte. O sujeito, trazia uma pedra amarrada no pescoço. O delegado ainda falava:

—Vou lhe dar uma chance, seu filho da puta. Sabe rezar?

—Sei.

—Pois, reze a melhor reza que conhece. Se ela for boa a gente joga você no rio e a reza faz a pedra boiar. Se ela não for boa você desce pra fazer companhia aos outros que estão lá embaixo, contando os peixes e falando da vida alheia.

Então jogava o sujeito da ponte com a pedra amarrada no pescoço.

Nem esperava o resultado.

—Vamos embora, cambada de corno. Vi pela cara dele que esse não era homem conhecedor de reza forte. Essa pedra não vai boiar. Perda de tempo a gente ficar aqui.

E saíam todos rindo, mangando do acontecido.

Agora aquele ali, metido a besta, a boca mordendo o cigarrinho de cheiro de bode, tranquilinho como se estivesse deitado numa varanda, na beira da praia, privilegiando-se do vento e da maresia aliadora, os olhinhos dizendo vem cá minha nega... Na mão o isqueiro de metal, não quer acender.

Ofrênio é macho mas não é radical.

Amofinou:

—Espere. Calma. Não acende essa porra. A gente solta o homem.

Grita para o outro lá dentro:

—Elpídio! Abre a porteira do tal que foi preso hoje. Deixa o homem sair.

O outro, Elpídio, ele mesmo, inocente do sucedido cá fora, metido na televisão, matador de uns vinte naquelas bandas, duvidou da ordem.

—Mais assim, seu chefe, no mole, não vamo nem dar uns tabefe nele, quebrar umas costelinha, chutar os ovos do corno?... Seu chefe, vão acabar dizendo aí fora que a gente é mole.

Ariosmar só ouvindo. Ficando sério. O sorriso escorreu da boca e caiu no chão molhado. O isqueiro resolveu acender. Justo agora.

—Porra!—berrou o delegado.—Eu disse agora, caralho! Abra essa porta e manda o homem para cá, porra! Já!

Ouviu-se uns passos lá dentro. Um barulho de chaves, um murmúrio de ratos correndo—coitados, espantados do sono—a porta se abrindo.

E loguinho o outro estava lá. Inteirinho. Nem uma dobra na cara, nem braço quebrado, nem sangue escorrendo. Aquilo era milagre genuíno. Daquela cadeia, todo mundo sabia, não se saía inteiro.

—Voces demoraram—falou o ex-prisioneiro, espiando a cara branca do delegado.

—É a chuva, primo—disse Ariosmar.

—Oi, choveu?...

—Num tá vendo?... Hoje deu pra chover gasolina... Melhor a gente ir pra casa logo antes que essa bosta pegue fogo.

Saíram caminhando, devagar, conversando...

—Primo, já lhe disse, fumar faz mal a saúde.

—É, eu vou parar com essa bosta—disse Ariosmar. Depois, displicente, como se ainda estivesse estirado na rede, na beira-mar, contando os vagalumes, ouvindo o cantar do grilo, assim, baiano, jogou o cigarro no chão. Mas ele só caiu na poça e se apagou.

O delegado entrou zangado. Zangado? Zangado uma porra. Entrou brabo na delegacia, mordido do Cão. Chutou a mesa onde juntava papéis, rosnou feito onça, e foi atender o telefone, que berrava lá do seu canto, nervosinho, todo histérico.

—Que é, porra?—disse Ofrênio, brabo, espumando pelas ventas, cheirando a enxofre, hidrófobo.

Do outro lado era o prefeito.

—É assim que atende telefone, seu merda? Venha logo na prefeitura. Tem assunto para você.

Chamou o ajudante e saiu disparado no rumo da Prefeitura.

4, O PADRE

O delegado, ele cá fora tão leonino, tão bubalino, tão canino, entrou pisando leve, mais parecia candidato a miss. Topou, do lado de fora do gabinete do prefeito, com os adversários políticos. A secretária mandou que entrasse.

O magricela do prefeito discutia com Abalvino, o candidato.

—Mas é preciso fazer alguma coisa. Não podemos deixar que esses filhos das putas façam cumprir a lei só porque a lei existe, ora. E daí?... Você é o candidato Abalvino, pensa numa solução.

Não era o seu forte:

—Eu não gosto de pensar. Acho que é falta de prática. E estou velho para aprender—disse.

Depois acrescentou, achando-se um sábio:

—Eu sou homem de ação. E não de filosofia.

—Ação? Muito bem, então aja, porra!—disse Eleubório.

O juiz, Ermírio Roberto, estava ali. Ouvindo tudo aquilo, na sua leveza de homem nascido sem ossos e muito pouca carne. O coração, no entanto, estava apertado. Só não tinha um enfarte, uma enfisema pulmonar, um miasma, sei lá porra, porque era muito magro para essas coisas. Tinha alertado ao prefeito e seus cúmplices para que não fizessem da prefeitura depósito de material de propaganda do candidato. Fizeram jeito de muro. Os adversários souberam e agora estavam ali, na porta, com uma ordem judicial para vasculhar a prefeitura.

O chefe de gabinete entrou esbaforido.

—Doutor Eleubório, se me permites Vossa Excelência, mas os outros lá fora estão dizendo que se o juiz não acatar a ordem que veio da capital eles interfonam com a imprensa. Não quero me vanglorizar não mas o índice meteorológico prevê terremoto caso não adotemos uma solucionativa com urgência.

—O que você acha disso, padre Leonardo?

O representante de Deus na terra tomou um susto. Queria ficar lá no seu cantinho, quietinho, encolhido, cuidando das suas unhas e de sua alma pecadora. Por que o chamaram ali? Só por ser cúmplice do prefeito? Mas outros também são. Cadê o dono do supermercado, os outros fazendeiros, o delegado? Não, o delegado estava ali... Mas... Seu negócio era cuidar de ovelhas, e não desse gado ruim, brabo, que se espalhava por tudo quanto é canto, não respeitando cercado nem comando.

Padre Leonardo tinha fama de homem de opinião: estava sempre do lado do poder. Quanto ao sexo, fazia um esforço para não se tornar veado. Por isso vivia pecando do outro lado—era quase um tarado. Na falta de mulher atacava os bichos: cabra, mula, égua, vaca. Numa certa época teve predileção pelos galináceos.

O delegado se lembra. Não foi um caso difícil de resolver.

A mulher denunciou: suas galinhas vinham sendo estupradas. "Há um tarado de galinhas nesta cidade", disse Dona Marciana, que tem 53 anos, é viúva, mãe de cinco filhos, dona-de-casa, residente na rua General Severiano Augusto, número 35.

Acompanhado de mais dois policiais, Ofrênio esteve no local e confirmou o fato: três galinhas apresentavam sinais de que haviam sido submetidas à violência sexual. Uma pretinha, que Dona Marciana chama de Laura; uma branquinha, batizada por Maria Lúcia; e outra do pescoço pelado, conhecida por Maria Helena. Tinham nome de gente as tais, coitadinhas.

—Temos que mandá-las para exame no IML—disse um dos policiais, acostumado a assistir os jornais na televisão.

—O principal suspeito é o galo—foi logo avisando o outro policial.—Onde se encontra o elemento?

—Marcos Augusto é inocente, eu garanto—disse Dona Marciana.—Ele sempre foi carinhoso com as meninas. Jamais faria uma coisas dessas. Nem teria motivo.

—Tem razão, minha senhora—observou o delegado.—O suspeito é um homem sim. Percebe-se pelo, digamos, pelo exagerado diâmetro do orifício na vítima. E também pela peça usada para cometer o crime. Eis a pedra em que ele se sentava para abusar sexualmente das penosas.

Ao lado encontrou as marcas dos sapatos de um homem.

Presumiu: à noite ele tirava as galinhas do sono para forçá-las ao ato. O delegado, mesmo com o pouco cérebro de que dispunha, descobriu rapidinho a verdade. Por que? Porque no passado também ele tinha essa prática, digamos, cultural. Sempre há riscos de acidentes, quando se namora uma égua por exemplo, ou uma vaca, uma jega, mas fora isso, é até aconselhado, dizem, pela Organização Mundial de Saúde. O delegado não via problemática na cultura—ele, que também seguiu a tradição, namorando com as cabras que criavam, a vaca jersey do vizinho, a égua do finado Osmervino. Ah, porra, aí foi paixão porque a danada da égua já lhe procurava na rua, conhecendo seu cheiro, se oferecendo-se, eqüina, escandalosa. Depois de velho no entanto, o delegado, feito quase todo mundo, foi apreciar as peles, bocetas e peitos de mulher de verdade, que são bem mais gostosas que as tetas bovinas ou a pele das caprinas.

Sentou-se na pedra. Vasculhou na sua memória quem ainda mantinha o costume depois de maduro. Apareceram três nomes. Só três. Pensou quem seria capaz de forçar uma galinha à fornicar. Olhou por cima do cercado baixinho e viu a igreja, branquinha, brilhando naquela manhã tão bonita.

No dia seguinte, no confessionário, onde baratas e ratazanas passavam o dia discutindo novela e futebol, o delegado se sentou, ocultista, aguardando o padre Leonardo. Não demorou muito, só o tempo de um boi caminhar três metros, ouviu pelo ranger da madeira que o outro estava lá, na escuta.

—Padre eu estou para pecar—disse, sonso, angélico.

—Como assim, filho?

—Descobri um criminoso e penso em divulgar seu nome. É bom que a cidade saiba com que está convivendo, não acha padre?

—É justo, meu filho. Para que possamos separar o joio do trigo. Mas, é algum crime terrível? Caso de assassinato?

—Não, padre, trata-se de abuso sexual. Algum pervertido anda comendo as galinhas de Dona Marciana.

—Ah... É um ladrão de galinhas?...—gaguejou o padre, eclesiasticamente.

—Não. Ele não rouba, come lá mesmo.

—Mas...—gaguejou quem não era gago—Mas... Comer galinha é... É... proibido?...

—Pelo cu é, seu padre. Ainda mais sendo dos outros. Cu dos outros, ou das outras, tem dono.

—E... Quem é o criminoso?...

—Você!

—...

—Mas, claro... Posso arranjar outro bandido como culpado... Talvez Zé de Preta, que é um vagabundo, além do mais é negro. O senhor sabe, negro gosta de fazer isso...

—É verdade.

—O problema não sou eu. Trabalho pela pátria, padre. Sou um nacionalista, um humilde servidor público. Já os outros meganhas, não. Vivem do dinheiro... Só trabalham se tiver dinheiro. São uns mercenários. Precisam de dinheiro para falar; querem dinheiro para se calar...

—Quanto?

Isso aconteceu no ano passado. Fizeram o acordo sem brigas. Nas pazes divinas.

Era sabido que esse padre estava do lado certo. O lado do poder. Dizia para todos que era um homem apolítico. Ninguém acreditava. Cada vez que a família do prefeito ia à igreja pagar seus muitos pecados, aproximar-se de Deus, padre Leonardo citava o trecho bíblico que os donos de Quibocó gostavam tanto, Romanos 13:

"Todo homem se submeta às autoridades constituídas, pois não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus. De modo que aquele que se revolta contra autoridade opõe-se à ordem estabelecida por Deus".

Não existiam brigas entre ele e o prefeito, o delegado, e satanás—se é que o diabo existe... No máximo algumas discórdias. Mas era sempre possível um acordo. "Quando a gente quer ganhar deve tratar bem o adversário", era sua sapiência matinal, repetida após cada rezume.

Agora, ali, um olhando para outro, prefeito, candidato a prefeito, o delegado, toda essa gente, sabia, eram amigos. De certo modo foram eles que inventaram o veneno da cobra. Havia uma solidariedade entre os da espécie.

Eleubório insistiu:

—E então, como vamos sair dessa?

Padre Leonardo olhou para Eleubório e escamoteou:

—Não sei não.

O outro cuspiu no chão. Olhou zangado pela janela aberta. Seu ódio era tão grande que afastou as nuvens que se amontoavam sobre a praça, aprontando as chuvas esperadas ali há mais de meses.

—Isso aqui é um laboratório de análise de fezes. Tô cercado de merdas.

Cuspiu mais uma vez.

—Tá bem—disse o prefeito, olhando para o delegado—manda esses merdas entrarem.

To be continued…

The original title of the this short story is "Eleições em Quibocó". From the book Gente Sobrenatural, published by the author, November 1997, Brasília.

Dioclécio Luz, 47, is from Serra Talhada in Pernambuco's backlands. He is a journalist and a writer. Among his books there are Gente Sobrenatural and O Diabo Modernista. These short story books can only be bought directly from the author. Luz has contributed to weekly newsmagazine Veja and daily Correio Braziliense. You can contact the author at dioclecioluz@bol.com.br

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Comments (1)Add Comment
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written by jerry williamson, December 03, 2008
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