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Carmem PDF Print E-mail
2000 - November 2000
Friday, 01 November 2002 08:54

Carmem

He opens the door and makes a face in disgust, as if someone else and not he was responsible for that malodorous apartment. He starts by the trash, by the dishes and only the next day in the afternoon he finds a plunger and cleans the sink… He doesn't even notice he is humming "Just One of Those Things".
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Eles se encontraram mais uma vez debaixo do viaduto da Praça da Bandeira. Anoitecia, e o vento trazia junto com a friagem a fumaça negra das descargas dos ônibus. O professor de filosofia conseguira alguns jornais e uma caixa de papelão. Os três homens rasgaram a caixa e protegeram com os corpos a pequena fogueira. O escultor puxou por sobre as orelhas o gorro de pano e esfregou as mãos enregeladas, dizendo: "Não consegui encontrar madeira. Com esses jornais o fogo não vai durar nem meia hora..." Os outros ficaram em silêncio, sem ousarem encarar-se.

O diretor de teatro trouxe para perto do fogo um saco plástico e distribuiu entre os amigos alguns tomates meio podres que conseguira recolher entre os restos da feira livre. O professor de filosofia, o mais velho do trio, agradeceu, cabisbaixo, e fez um pedido ao amigo: "Amanhã eu vou tentar conseguir um limão. Se você achar um, traga para mim, por favor. A minha gengiva está sangrando e os meus dentes estão moles. Pode ser escorbuto..." O diretor de teatro assentiu com a cabeça e pôs-se a devorar um tomate, enquanto o escultor amassava outra folha de jornal e colocava sobre o fogo.

"Queria tomar um banho", resmungou o diretor. Os outros o olharam com simpatia e um deles sugeriu: "Tem o chafariz do Aterro. Você pode ir até lá cedinho de manhã..." "Eu tenho vergonha", respondeu o diretor, "e além disso eu não quero ser preso de novo..." "Nós não podemos mais ter vergonha de nada", comentou o professor, "vergonha já virou um luxo". O fogo subia e baixava rapidamente a cada folha de jornal que o escultor atirava à fogueira. O professor estava preocupado com o cerco do frio, e ponderou que seria melhor guardar o resto dos jornais para se cobrirem depois. "Ainda tem bastante jornal aqui", disse o escultor, "podemos alimentar o fogo por mais uns dez minutos, e então nos cobrimos..."

Do outro lado da rua, eles avistaram a figura franzina do poeta, esperando uma brecha no trânsito para atravessar. "Ele vai pensar que nós somos as feiticeiras do Macbeth", brincou o diretor de teatro. "E qual será o nosso vaticínio?", perguntou o escultor. "Não é difícil adivinhar...", respondeu o amigo, com um meio sorriso.

O poeta atravessou a avenida, correndo com passos miúdos, os braços cruzados sobre o peito, e desabou ofegante junto aos demais. "Aproveite o foguinho, antes que acabe...", falou o escultor, chamando-o para perto de si. O poeta continuou a resfolegar, e ao tentar responder, teve um acesso de tosse, uma tosse seca, profunda, que lhe deixava o rosto em brasa e os olhos lacrimejantes. Os amigos abaixaram as cabeças, compungidos, e realimentaram o fogo. Minutos depois a tosse transformara-se numa espécie de gemido, e o poeta, exaurido pelo esforço de tossir, enrodilhou-se em seus andrajos como um feto. O escultor tirou o seu gorro e colocou-o na cabeça do amigo doente. O professor enrolou alguns jornais em torno de seus pés descalços, para tentar aquecê-los.

A viatura da polícia passou lotada, e os policiais, embora tivessem percebido o grupo sob o viaduto, preferiram não parar. Estavam em busca de presas mais graúdas. Os amigos relaxaram. O diretor ofereceu ao doente o último tomate, mas ele estava fraco demais para comer qualquer coisa, e ainda sem poder articular palavra, acenou para o amigo com a mão trêmula e retirou do bolso da camisa uma folha de um bloco comercial com um texto manuscrito. O diretor passou a folha para o professor, que colocou os óculos de aros finos e pediu ao outro que avivasse o fogo. Antes que o professor pudesse ler em voz alta o título, "Carta ao Brasil", já o poeta se encolhia novamente, de olhos fechados e com as mãos sob as axilas, e procurava com a sua imobilidade evitar que a tosse dolorida recomeçasse. Os outros dois aproximaram-se ainda mais do professor, para que o ruído dos ônibus e automóveis não abafasse a sua voz durante a leitura:

Brasil,

Saibas desde logo que o desprezo que tu tens por nós não é maior que a vergonha que temos de ti. Terra boçal, antro indigno, covil que se jacta da própria sordidez. Sim, é aqui mesmo onde só as nulidades prosperam, e todas se riem obscenas da desgraça, da miséria, da doença e da morte daqueles raros que preservam qualidades humanas.

Brasil, o buraco negro da ética, a fossa do deboche. Que vergonhas indizíveis cometes a todo instante à luz do dia. Grande valhacouto de bandidos, onde os marginais de terno e gravata dão as cartas marcadas. Tuas instituições mais cultivadas são a calúnia, o pistolão, o jeitinho mediante suborno, o jabaculê, a extorsão, a cumplicidade generalizada, a vantagem desonesta, o elogio da traição, a punhalada nas costas dos que tentaram te amar, ignorantes de que amavam um monstro.

Brasil, assassino dos virtuosos, pátria da injustiça, inculta e bárbara. Odeias o detentor de méritos, e a competência é para ti, Brasil, nada mais que uma ofensa pessoal. Elevas os néscios e os falastrões aos mais altos postos, condecoras os bajuladores oficiais e todas as "raposas felpudas" de que tanto te orgulhas. Ostentas cinicamente na tua bandeira o lema "Ordem e Progresso" e cada vez mais promoves a desordem e a decadência.

Brasil, paraíso dos canalhas, por que punes todo verdadeiro caráter com a indigência e todo verdadeiro talento com o ostracismo? Por que tu és a podridão da América, pululando de vermes federais, à espera de que a boa vontade da História jogue sobre ti a última pá de cal.

Brasil, terra de ninguém, palco de horrores. Tu és ao mesmo tempo sádico e masoquista, pois não te contentas com uma só perversão, posto que em teu seio é onde toda perversão viceja.

Pátria podre, em breve me engolirás de volta para o teu solo. Não posso impedir que o meu corpo te sirva de adubo. Mas é a última coisa que roubarás de mim. Só te peço que apagues para sempre meu nome de tua memória. Não quero lápide sobre teus terrenos. Pois de ti, Brasil, apenas tive nojo e vergonha, e se algum dia surgir em ti algum imprevisto sinal de dignidade, saberás que, para não me conspurcar, não deves jamais ligar o teu desonroso nome ao meu.

Brasil (e por que não Covil?), terra de vilões e de escravos, para ti nunca é demais repetir o apelo: Andrada, arranca logo esse pendão dos ares!

As últimas folhas de jornal haviam sido consumidas durante a leitura, e com a redução do tráfego o vento frio soprava com mais intensidade sobre o grupo. O poeta já mergulhara num sono febril, com a cabeça sobre a coxa do escultor. Os amigos espalharam as cinzas com os chinelos e se aconchegaram bem próximos uns dos outros, para não desperdiçarem o calor dos corpos. Antes de tirar seus óculos e ocultá-los num vão do concreto para que não quebrassem durante o sono, o professor de filosofia dobrou cuidadosamente a folha de papel e colocou-a de volta no bolso do poeta adormecido.

Esperou alguns minutos em silêncio até que os outros também adormecessem e retirou do bolso do paletó um ovo cozido, que descascou pelo tato, lentamente, enquanto observava a vertigem dos faróis iluminando o gramado e o mastro no centro da praça. No alto do mastro uma bandeira tremulava às escuras, semi-oculta pelo labirinto de concreto e longe do alcance das luzes baixas.

Niterói, 6 de maio de 1990

Courage I would face her. Now with joy. Despite my allies' silence,
the traitors' disguise, the yellow truck, Magda's teeth,
and Vânia's blindfold. In spite of. Because of.
It doesn't matter to kill or to die, either one strengthens me.

O rapaz procurava acompanhar o ritmo dos meus passos e ao mesmo tempo sussurrar-me as suas justificativas, enquanto eu me afastava rapidamente do prédio da universidade por uma das ruas laterais que daria na estação do metrô. Ele havia se oferecido para carregar os meus livros e as minhas pastas enquanto me acompanhava, mas eu não aceitei porque não queria dar-lhe um pretexto a mais para seguir-me até o meu destino final. Embora tivesse deixado transparecer sutilmente que era o líder entre os seus colegas, ele se apresentava agora de modo bastante modesto, quase submisso, e expunha seus argumentos numa voz soprada, constrangida e abafada pela postura cabisbaixa que as circunstâncias lhe impuseram:

—O senhor deve ter ficado chateado com o nosso silêncio. E eu não tiro a sua razão. Mas é que a gente ainda tem muito medo dela...

—Em primeiro lugar, você sabe que não gosto que me tratem por "senhor"— respondia também em voz baixa, tentando conter a minha irritação.—Em segundo lugar, você vai voltar agora mesmo para a universidade e dizer aos seus colegas que eu vou precisar de uma manifestação explícita de apoio. Explícita, clara, em voz alta, e se possível muito alta, entendeu? Ou então eu vou largar mão dessa briga, que está roubando toda a minha enegia e colocando o meu emprego em risco. Compreendeu bem, ou quer que eu repita?

—Compreendi. Mas o diabo é o medo que o pessoal sente. Principalmente os mais novos...

—Bom, você já sabe, se vocês continuarem acovardados eu não vou poder fazer mais nada. E vocês nunca mais vão encontrar alguém influente na instituição disposto a enfrentá-la abertamente. Portanto, aproveitem a oportunidade. Pode ser a última. Agora, se você não se importa, eu gostaria de seguir sozinho daqui para frente. Tenho outras coisas com que me preocupar.

—Tá legal... eu já vou indo então... até amanhã, mestre...

—Até amanhã às dez e meia em ponto. É tudo ou nada. Será que eu posso contar com vocês?

—Vamos ver, professor... Vamos torcer...

Às oito e meia da manhã eu despertei com um telefonema da Magda, minha colega, a decana do Departamento. Custei um pouco a entender o que ela me dizia, com sua voz rouca pela idade avançada e entrecortada pela respiração ofegante que a tensão e a ansiedade provocavam. Por que a Magda estava tão nervosa? E o que ela queria de mim? Levantei-me da cama num salto com o coração disparando após decifrar a razão da sua chamada: a Magda, tendo sido informada com detalhes do que estava acontecendo na universidade, e tomada por uma indignação e uma coragem que faltava aos seus colegas mais jovens, oferecia-se para acompanhar-me e protestar ao meu lado naquela manhã decisiva. Com a presença respeitável da professora Magda seria possível que as coisas mudassem de figura. Pelo menos os seus alunos, que sabidamente a admiravam, sentir-se-iam mais encorajados. Aceitei, é claro, prontamente o seu apoio e ofereci-me para buscá-la em casa. Ela preferiu encontrar-me uma hora depois na estação de metrô próxima da universidade. Desliguei o telefone e entrei no banho, com o ânimo renovado, confiante, beirando à euforia.

Passava um pouco das nove e trinta quando eu avistei o vulto franzino de Magda, ornado por sua cabeleira branca como uma auréola, que lhe conferia um aspecto de sábia santidade. Mas logo ao aproximar-me pude perceber o estado agudo de tensão em que se encontrava naquela manhã e que já havia transparecido no seu telefonema. Ela gaguejava cada vez que tentava iniciar uma fala, e suas mãos tremiam tão intensamente que seria inútil tentar disfarçar esfregando-as uma contra a outra ou escondendo-as no bolso do paletó do seu tailleur de linho branco.

Como costuma acontecer nesses casos, o fato de Magda gaguejar por nervosismo deixava-a ainda mais nervosa, e para romper este ciclo comecei a reproduzir em detalhes a conversa que tivera com o estudante na tarde anterior. Magda então calou-se para ouvir-me e parecia reencontrar o seu eixo quando, ao cruzarmos a avenida que separa o parque do campus universitário, um enorme caminhão amarelo atravessou o sinal fechado em alta velocidade e avançou desgovernado em nossa direção. Magda ao vê-lo tentou correr em pânico mas eu a puxei num golpe violento e atirei-a de volta sobre a calçada. O caminhão passou a menos de um metro de nossos corpos estirados e Magda certamente teria morrido não fosse o vigor do meu reflexo.

Ficamos os dois chocados, com a respiração suspensa, sentados na calçada, cercados por alguns curiosos que nos olhavam surpresos, entre eles alguns estudantes que nos reconheceram. O tailleur branco de Magda estava agora todo manchado, com largas listas escuras de asfalto e esgoto, e rasgado na altura do cotovelo. Fiquei apavorado com a possibilidade de seus ossos frágeis terem se rompido e tentei colocá-la de pé, o que foi impossível, aparentemente apenas por causa do seu estado-de-choque, e não por algum caso de fratura. Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ou pedir socorro, a senhora já puxava a minha cabeça em direção à sua, com os dedos magros e fortes cravados em minha nuca, e olhando dentro dos meus olhos com os olhos injetados de sangue e afogados no pânico e na visão do inferno falou-me numa voz irreconhecível, ao mesmo tempo esganiçada e gutural:

—Eu não vou lá! Eu não vou lá! Vai você, meu filho. Me deixe aqui. Eu tenho muito medo dela... Eu já estou velha... Ela vai acabar comigo de vez...

Seu rosto lívido e reduzido a um cinzento emaranhado de rugas era a mais pura encarnação do horror que eu havia visto até então. De seus olhos escorriam lágrimas em profusão, e em sua boca murcha e crispada dançavam os pedaços da dentadura que havia se quebrado no acidente, o que tornava suas palavras ainda menos compreensíveis. Passei os dedos sobre sua cabeleira branca, agora transformada num tufo desgrenhado e sujo de uma cor indefinível, procurando com isso acalmá-la e confortá-la em seu desespero. Mas meu esforço era inútil. A velhinha havia como que incorporado o mais sofrido e maltratado dos espíritos, e tentava proteger-se da única forma disponível no momento: enroscando seu corpo numa posição fetal sobre a calçada.

Verifiquei então o meu próprio estado. Exceto um ou outro arranhão, eu não havia me ferido. Fiquei na dúvida se deveria socorrer minha velha colega ou se deveria atender ao seu apelo e enfrentar a situação crítica que me aguardava do outro lado da avenida, no prédio da universidade.

Decidi pelo enfrentamento da situação, até porque não havia mais muito o que fazer por Magda, que àquela altura já estava sendo acudida pelos acadêmicos de Medicina. Recolhi assim os meus papéis espalhados pela rua, recompuz minha roupa como pude, embora não conseguisse livrar-me de uma aparência deteriorada, e cruzei a avenida, menos seguro então de minhas possibilidades e incerto sobre a minha força interior. Mas faria o necessário.

Há o medo e o não-ser por toda parte. Como poderíamos não percebê-los dentro de nós? O medo grita em nosso íntimo, arrepia a nossa pele e muda a nossa temperatura corporal: Por vezes nos congela, por vezes nos abrasa. Como negá-lo, se nossas pernas não obedecem às nossas ordens? Se nossas ordens são as ordens de um estranho, que há apenas alguns minutos reconhecíamos como nós mesmos?

O silêncio unânime dos estudantes na primeira vez que eu a desafiei, um silêncio líquido e pesado, encheu-me de medo. Senti que me entregavam à fera como algumas tribos sacrificam virgens atirando-as na cratera do vulcão para tentar aplacar a ira de seus deuses. E por alguns instantes odiei-os por idolatrarem o deus errado. Mas não. Eles não estavam me abandonando ou me usando como um bode-expiatório. Eles estavam apenas apavorados, imobilizados diante dela.

Cada vez que eu ia ao banheiro, não queria mais sair do conforto e da segurança do seu isolamento. Aquilo era medo. E quando caminhava depressa pelas ruas, afastando-me do prédio da universidade, ou puxava a coberta da cama sobre a cabeça, ou esfolava-me ao fazer a barba de manhã, aquilo tudo também era medo. E o que eu senti ao ver as grades do caminhão amarelo, os olhos rubros de Magda e a sua boca horrenda cheia de pedaços e bagulhos soltos foi um terror que eu não mais esquecerei, e que voltará nos sonhos, nas campainhas, nos dentes e no amarelo. Voltará sempre.

Mas em nenhum momento eu demonstrei o meu medo, e nem mesmo quis tornar-me demasiadamente consciente dele. Consegui mantê-lo como um sentimento confidencial, como um segredo de guerra, e assim transmiti confiança aos que me cercavam, que acreditavam na minha força e admiravam a minha coragem, a coragem que os fortalecia. Foi assim, ocultando bem o meu caroço de medo e deixando transparecer calma e segurança em cada movimento, que eu atravessei aquela avenida, passei pelos portões e subi as escadas do prédio, às dez e meia daquela manhã, em direção ao salão repleto de estudantes onde ela estaria exercendo o seu império incontestado.

Mas antes de terminar de subir o primeiro lance de escadas, uma jovem que vinha descendo apressadamente esbarrou em mim e, deixando cair os seus livros e cadernos, confundiu-me por instantes. Abaixei-me para ajudá-la e percebi que era a Vânia, a minha filha adolescente, a moça estabanada. Fiquei ainda mais confuso: Vânia morava sozinha com a mãe desde que eu saí de casa e a deixei com três anos de idade, e nós raramente nos víamos. A última vez foi há cerca de seis meses. Além disso, Vânia não estudava naquela universidade, nem em qualquer outra. Ela só tinha quinze anos, e mal começara o Segundo Grau. O que estaria ela fazendo ali, naquele exato momento?

—Oi, papai. Atrapalhei o senhor, não foi?

—O que você está fazendo aqui?

—Meu namorado estuda aqui. Aliás, ele é seu aluno. Vim dar uma força pra ele.

—Uma força?

—É. E eu preciso conversar com o senhor sobre isso agora. Venha. Vamos até a cantina. Me pague uma coca-cola...

—Vânia!...

Ela segurou-me pelo braço com sua mão livre e puxou-me escada abaixo em direção à cantina do outro lado do pátio. A aura em torno do seu olhar, tão firme e tão parecido com o meu próprio, envolveu-me e tirou-me as forças. Eu a seguia, enfraquecido e tonto como um zumbi que retornara do além e não encontrara mais qualquer sinal do mundo dos vivos. Um zumbi duas vezes logrado: pela morte e pela ressurreição.

Que poder tinha aquela menina, a minha filha, a Vânia? Um poder que me deixava inerte, apatetado, no momento mais crucial. Seria o poder do sangue próximo? Ou o poder próprio de todas as vítimas de abandono? Apesar do sentimento de intensa urgência, dos minutos escapando de mim, os meus músculos estavam relaxados. Pedimos duas cocas à mulher do bar e Vânia passou os dedos entre os meus cabelos, num inédito carinho de filha, enquanto fixava em mim o seu olhar adulto e anestésico.

—Papai, eu vim aqui porque eu não quero que o senhor brigue com ela. O meu namorado é o Valter, um alto, que tem um bigode louro.

—Eu sei quem é.

—O Valter está trabalhando pra ela. Se o senhor entrar nessa briga, vai atrapalhar a carreira do Valter, e por tabela a minha vida. Então, papaizinho, fica aqui comigo e deixa essa confusão toda pra lá...

—Eu não posso, Vânia.

—Claro que pode.

—Não. É tarde demais.

—Que tarde nada, papai!

—Quem te mandou aqui?

—Como? Ninguém me mandou aqui... Eu vim pra dar uma força pro Valter...

—Dá licença...—desvencilhei-me de suas mãos de pluma e saí andando em passos largos para a escada.

—Papai! Pára, papai!—e as plumas viraram garras fortes que puxavam meu corpo para trás. Concentrei-me e joguei o peso do corpo para frente, livrando-me daquelas algemas de músculos e sangue, e corri, corri sem olhar para trás, ouvindo os gritos de Vânia acusando-me novamente de abandono, corri suando, com os movimentos presos, enferrujados pelas minhas culpas, emperrados pelo medo, e mais eu corria e subia os degraus, mais sentia a coragem a voltar e a subir pelo corpo como um arrepio quente, uma azia doce, um balão de gás.

A possibilidade (o desejo) de morrer heroicamente, de ser morto pelo mais forte e com isso drenar-lhe a força, de ser coberto pelo negro manto de uma noite infinita, de uma curva perfeita, tudo isso é profundamente excitante. A Boa Morte talvez seja a última fonte de sentido num mundo onde o que não quer mais ser sólido não encontra um ar decente onde desmanchar-se.

E eu iria enfrentá-la. Agora com alegria. Apesar do silêncio dos meus aliados, dos disfarces dos traidores, do caminhão amarelo, dos dentes de Magda e da venda de Vânia. Apesar. Por causa. Abri a porta do salão com os ombros erguidos e a cabeça alta. Tanto faz matar ou morrer, qualquer um dos dois me fortalece.

Mas ela não estava mais lá. Eu deveria ter adivinhado. Ela havia fugido, sumido, evaporado no éter, após tentar tudo para me deter inutilmente. E ao pressentir a aproximação da minha coragem gritante, evitou covardemente o confronto. Não havia mais qualquer sinal dela na universidade, e os estudantes me aplaudiam de pé no auditório sem que eu tivesse precisado dizer uma só palavra. Eles sorriam todos, aliviados, alegres, confiantes e prontos para comemorar. Eles me cercavam por toda parte, uma multidão de filhos pródigos. Eu havia vencido em vida, até porque não tive medo da fina linha divisória que me poupou de vencer na morte. E porque venceria de qualquer maneira, eu venci. Porque não há outra forma de vencer. Porque não se vence com uma chance, mesmo que remota, de fracasso. Porque o fracasso ocorrerá, se por alguma fresta pude apresentar-se. Porque o fracasso não teve por onde apresentar-se, eu venci.

O caminhão amarelo levou o que havia de belo em Magda. Desconfio de que o bigode louro de Valter tenha levado o que havia de puro em Vânia. Tudo por causa de um poder difuso e maligno que eu não pude evitar, mas soube como combater, renovando em mim a bravura e preservando em meus alunos a fé.

Niterói, 6 a 21 de julho de 1993

Carmem He opens the door and makes a face in disgust, as if someone else
and not he was responsible for that malodorous apartment.
He starts by the trash, by the dishes and only the next day
in the afternoon he finds a plunger and cleans the sink…
He doesn't even notice he is humming "Just One of Those Things".

Ele viu os seus amigos crescerem, terem filhos que já cresceram, que já tiveram seus próprios filhos, que hoje já estão crescidos... Mas para ele, os seus velhos amigos ainda estão crescendo. E ele mesmo ainda não havia crescido o suficiente.

Ele pressiona as teclas do piano aleatoriamente. As notas saem isoladas, sem nexo. Ele quer apenas ouvir o som do piano, qualquer som que venha dele, como quem precisa vez por outra ouvir a voz de um filho ausente. Mas ele não quer música. Nem fazê-la, nem ouví-la. A música ainda o habitava, como sempre, mas o desejo de comunicar-se com o mundo e com ele mesmo através da música havia desaparecido em algum momento, submergido para regiões escuras e impenetráveis, para as trevas de um mar de sargaços. Ele sabe que não pode mergulhar naquele labirinto líquido para procurar composições naufragadas. Tudo o que deve fazer é manter-se à tona, respirando um ar cotidiano, desatando os nós das horas.

O pequeno apartamento está um caos: copos sujos de vinho endurecido no fundo há vários dias, filtros de café na lixeirinha transbordante, fronhas suadas, pia entupida, roupas para lavar debaixo da cama. As janelas dão para um outro prédio, onde as empregadas penduram-se para limpar os vidros das janelas. Ele precisa sair. Não, "sair" não é o termo. Ele precisa partir. Partir para longe. Mas ele não tem dinheiro, não tem para onde ir e não está disposto a forjar desculpas para partir. É apenas um desejo difuso. Mas é o seu único desejo.

Ele calça os sapatos, veste um casaco de couro e desce para a garagem. Tira da vaga o velho fusca e toma a direção do aeroporto. O rádio do carro não funciona. Melhor. Ele estaciona o carro, toma o elevador para o terceiro andar, onde há um bar com uma grande vista panorâmica, de onde se pode ver os aviões decolando para todas as partes, mas não se ouve ruído algum. Ele pede uma cerveja e fica em silêncio, atento, fazendo algo impensável, caricato, idiota: assistindo a aviões. E sente-se bem. A cada decolagem surge uma nova palavra, que ele pronuncia apenas movendo os lábios: Finlândia, Madagascar, Tegucigalpa, Ohio, Atacama, Tobruk. Onde fica mesmo Tobruk?

Ele está em Trieste ou em Nairóbi, quando vem sentar-se na mesa ao lado uma mulher de uma beleza estranha, cabelos negros e curtos, pele clara, olhos negros, profundos. Ela finge observar a paisagem, mas observa com curiosidade aquele momento especial de sua vida.

Ele se assusta com aquela presença inusitada e tão próxima , e põe-se a estudá-la. Deduz corretamente que a mulher está muito mais familiarizada com o interior dos aviões do que com aquela ridícula paisagem. Deduz apressadamente, porém, que ela está esperando por alguém naquele bar. A incerteza o incomoda. Decide perguntar-lhe, com naturalidade:

—Você está esperando por alguém?

Para sua surpresa, ela responde com igual naturalidade, como se já estivesse esperando a pergunta:

—Não, ninguém. Daqui a uma hora parte o meu vôo para o México. Estou passando o tempo.

Após alguns segundos de silêncio, ele fala:

—Eu a estou incomodando com estas perguntas?

—Não. Se estivesse, eu não responderia. Você também vai viajar?

—Não... Talvez eu devesse dizer que estou esperando por alguém. Mas não seria verdade, e eu estou sem ânimo para mentir. Eu vim aqui para ver os aviões partirem. Não é engraçado? Há sujeitos curiosos que observam pássaros, ou conchas... Eu observo aviões. Sou Membro Honorário da Associação Internacional dos Observadores de Aviões. Uma sólida irmandade, sabe...

Ela não sorri. Apenas fixa os olhos no rosto do estranho, tira calmamente da bolsa um maço de cigarros e um isqueiro de ouro, puxa um longo trago, expele a fumaça para o alto e pergunta:

—O que é que você faz, além de observar aviões?

—Eu sou músico de jazz. Pianista. Compositor. Essas coisas.

—Bonito...—olhou fixo em seus olhos novamente.—E você é bom nisso ou é só mais um?

Ele suportou o olhar com firmeza e respondeu sério:

—Eu sou bom nisso. Muito bom. Só que eu perdi o desejo de compor, de uns tempos pra cá... Uma espécie de anorexia artística, entende?

—Entendo. Mas isso passa... meu ex-marido é assim, com os negócios. Eu sou assim com o sexo...—e sorriu pela primeira vez.

—Seu ex-marido está no Mexico?

—Não. Ele é alemão. Nós nos separamos e há duas semanas ele voltou de vez para o país dele. Eu vou ao México visitar o meu irmão, que dá aulas lá, conhecer o meu sobrinho mais novo, e de lá eu vou para Frankfurt, resolver com o ex alguns assuntos que ficaram pendentes. E você? Ainda é casado?

—Não. Acho que nunca fui.

—Acha?

—Essas coisas são meio complicadas, você sabe...

—É, eu sei... Bem, eu preciso ir agora, checar a minha bagagem...

—Quer que eu te acompanhe?

—Não, não é necessário. Me dê o seu telefone. Eu volto ao Brasil dentro de três semanas. Logo que chegar vou lhe fazer uma visita, para ouvir as suas composições novas.

—Três semanas?...

—É... Eu me chamo Carmem.

Ele rabisca o seu nome e telefone num guardanapo e lhe entrega, enquanto ela coloca uma nota sob o cinzeiro, por um suco de laranja que deixa intacto, e se levanta:

—Espero que você encontre algum avião raro por aqui...

—Se eu encontrar, vou procurar registrar o seu canto melodioso e levar para os meus colegas da Associação.

—E que tal compor um tema de jazz com ele?

—Vai se chamar "O Gorjeio das Turbinas".

—Bom nome. Até a próxima.

—Até a próxima, Carmem.

Por mais uma hora ele fica a observar os aviões, procurando adivinhar qual deles transporta a sua Carmem. Ele sente que há um movimento estranho em seu interior, como se as suas vísceras saíssem da apatia habitual e se reunissem para conspirar. Uma conspiração de pâncreas, fígado, vesícula, coração... Será possível? Ele fica inquieto. Paga a sua conta e decide voltar para o apartamento. Quer chegar logo, mas não sabe por quê. O que o espera lá, que provoca tal urgência? Carmem. Mas ela não está voando sobre as nuvens agora? Ele não tem dúvidas: Carmem o espera lá.

Ele abre a porta e faz uma careta de nojo, como se alguém, não ele, tivesse deixado o apartamento naquela bagunça mal-cheirosa. Ele começa pelo lixo, pelas louças, e só na tarde do dia seguinte ele consegue um desentupidor e coloca a pia em ordem. Na noite do segundo dia, ele retira todas as fotos e papéis amontoados com tachinhas no painel de cortiça ao lado do piano, escreve numa folha em branco com letras enormes o nome "Carmem" e a prega no centro do painel. Toma então um longo banho quente, e com os olhos fechados, enquanto enxágua o shampoo, nem se apercebe que está cantarolando "Just One of Those Things".

Três semanas se passaram. Três longas semanas, tardes febris. O negro mar de sargaços havia se transformado num recife de corais de muitas cores e formas, e ele mergulha naquele mar transparente com prazer, e se delicia com as estrelas-do-mar, os ouriços, os cardumes, a grande arraia azul. Ele as traz à tona pelas teclas do piano, e elas enchem o apartamento, que parece ter crescido, como um cenário móvel. Seus tesouros, seus amigos, foram por ele alegremente batizados de "Carmem", "Jumbo's Theme", "Flying Away", "Passenger's Song", "Appetite", "Iron Bird", "Golden Lighter", "Orange Juice" e "Tobruk".

Ele não resiste e telefona para o seu produtor, que promete dar uma passada pelo apartamento na noite seguinte, levar um bom vinho francês e ouvir as novidades. Bom sinal. Quem sabe o CD sai ainda este ano? Quem eles convidarão para acompanhá-lo? É melhor conversar sobre isso durante o vinho... É preciso ouvir as sugestões do produtor... Ele se lembra daquela tarde no aeroporto, e ri. Quanto tempo faz? Três semanas? Quatro? Que importa?... O apartamento está uma bagunça novamente. Ele junta as roupas sujas e as esconde debaixo da cama. Recolhe as partituras e esvazia uma gaveta da cômoda especialmente para elas. Entre os entulhos, encontra os folhetos dos seus antigos shows: Buenos Aires, Montreux, Free Jazz, Newport, Pistóia, Barcelona... Arranca do painel de cortiça uma folha onde estava escrito um nome de mulher, e com os folhetos compõe um mosaico de si mesmo. Afasta-se e olha-o com prazer e orgulho. Seu interior agora está vazio de música. Mas e daí? As partituras estão a salvo, na gaveta, e os temas estão frescos em sua mente. A pescaria já havia terminado e agora ele puxa o barco por sobre a areia, para separar e contar os peixes... E além do mais, o seu interior está agora preenchido por uma outra entidade, não mais pela música submersa e embaraçada, não mais por um fantasma de mulher, mas por um compositor de gênio, um criador, um tótem.

In the original these short stories are called "Heróis do Novo Mundo", "Coragem", and "Carmem."

Júlio César Monteiro Martins, the author, was born in Niterói, in the Greater Rio, in 1955. He has published several short-story books: Torpalium, Sabe Quem Dançou?, A Oeste de Nada, As Forças Desarmadas, and Muamba. Monteiro Martins is also the author of three novels: Artérias e Becos, Bárbara, O Espaço Imaginário and a volume of essays: O Livro das Diretas. He is one of the founders of the Brazilian Green Party and from 1992 to 1994 worked as a lawyer for the Brazilian Center in Defense of Children's Rights. He taught literary creation at the Goddard College in the US and is now a professor in Italy, teaching literary creation and Brazilian literature in the University of Pisa. He also teaches Literary Creation in Narration in Florence, Lucca, and Pistoia. Martins is the founder of Sagarana School (http://www.sagarana.net). You can get in touch with him writing to jmontei@tin.it  

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