| Brazil Rewards Its Best Writers |
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| 2004 - July 2004 |
| Thursday, 01 July 2004 08:54 |
![]() Mongólia,
a novel by Bernardo Carvalho, was one of the big
winners of the prestigious Jabuti Award. The prize is given
every year to Brazil's best literary works. The second place went
to Luiz Antônio de Assis Brasil, and Chico Buarque, better known
for his composing abilities, came in third, with Budapeste. Bernardo Carvalho The traditional award has some impressive numbers this year. A record 2374 books were in competition for the 17 categories that are awarded prizes, including fiction, non-fiction, translation, illustration, cover and children's books. Three finalists are chosen for each category. Mongólia (Cia de Letras) by Bernardo Carvalho was the winner in the novel category. The second place went to Luiz Antônio de Assis Brasil who wrote A Margem Imóvel do Rio (L&PM Editores). Chico Buarque, better known for his composing abilities, came in third, with Budapeste (Cia das Letras). Carvalho's Mongólia is the story of a diplomat who goes in search of a photographer who disappeared in the Altai mountains in Mongolia. During his journey, the envoy ends up finding a double of himself. The Apca (Associação Paulista de Críticos de ArteSão Paulo Association of Art Critics) had already chosen Mongólia as the 2003 best novel. In the category short stories and crônicas (light journalistic columns) the top place went to O Vôo da Madrugada (Cia das Letras) written by Sérgio Sant'Anna. Journalist Caco Barcelos won first place in the reporting or biography category with Abusado (Record), an inside scoop on Rio's drug lords. Poems were also recognized, and Poesia Reunida (Nova Fronteira) gave Alexei Bueno the first prize in the poetry category. Due to a tie between seven books in the children's books category only the winners of 16 categories were announced. Jurors are being called once again by the Jabuti Award organizer to break the tie in the coming days. The Jabuti will be awarded on September 9, at the Memorial da América Latina, in São Paulo. At that time, it will also be revealed who won the top two prizes: Book of the Year in Fiction and Non-Fiction. It's prestige and not money that counts here. The big winners of the Book of the Year award will get 15,000 reais (US$ 5,000). Winners in each one of the categories take home a mere 1,000 reais (US$ 330). Brazil has several other literary prizes which are much more rewarding financially. The Portugal Telecom, for example, will give 100,000 reais (US$ 33,000) to the winner and checks of 30,000 (US$ 10,000) and 20,000 reais (US$ 6,600) to the second and third places. The Portugal Telecom has announced this week its 30 finalists. They include some Jabuti winners, like Sérgio Sant'Anna, Bernardo Carvalho and Chico Buarque. The Zaffari & Bourbon Award given in Rio Grande do Sul during the Jornada Nacional de Literatura (National Literature Journey) also bestows 100,000 reais to the top winner. The Machado de Assis Award from the Academia Brasileira de Letras (Brazilian Academy of Letter), for life achievement, comes with a 75,000 reais (US$ 25,000) check. The same amount is won by those who win the José Ermírio de Moraes Award. Besides Jorge Amado, the Jabuti was already awarded to other renowned Brazilian writers, including: Lygia Fagundes Telles, Ruy Castro, Érico Veríssimo, Fernando Morais, Carlos Heitor Cony, Ignácio de Loyola Brandão, Moacyr Scliar, Alfredo Bosi, Rachel de Queiroz, Marina Colasanti, Chico Buarque, Ziraldo, Dalton Trevisan, Antonio Cândido, Caco Barcellos, Gilberto Dimenstein, Florestan Fernandes, Clarice Lispector and Cecília Meireles. THE LIST 46th Jabuti Award Winners Category: Translation 1st place Title: Finnegans Wake
/ Finnicius Revem 2nd place Title: Ungaretti _ Daquela
estrela a outra 3rd place Title: O Engenhoso fidalgo
Dom Quixote de La Mancha Category: Architecture and Urbanism, Communication and Arts 1st place Title: Ver é compreender:
Design como ferramenta estratégica de negócio 2nd place Title: O Patrimônio
construído 3rd place Title: Revisão
crítica do cinema brasileiro Category: Theory/Literary Critic 1st place Title: João Guimarães
Rosa: Correspondência com o seu tradutor alemão 2nd place Title: O Redemunho do
horror 3rd place Title: Antonio Candido 3rd place Title: De Anchieta aos
concretos 3rd place Title: Dicionário
Houaiss de sinônimos e antônimos Category: Project/ Editorial Production 1st place Title: Et eu tu 2nd place Title: Rosângela
Rennó: o arquivo universal e outros arquivos 3rd place Title: O Brasil na fotografia
oitocentista Category: Child or Juvenile Book Illustration 1st place Title: Com a pulga atrás
da orelha 2nd place Title: O circo da lua 3rd place Title: Brincando Advinhas Category: Economy, Administration, Business and Law 1st place Title: Ao encontro da
lei: o novo código civil ao alcance de todos 2nd place Title: Bem de família:
voluntário e legal 3rd place Title: A Defesa do consumidor
em quatro passos Category: Education, Psychology and Psychoanalysis 1st place Title: Letramento no Brasil 2nd place Title: Os dez amigos de
Freud 3rd place Title: Freud, a cultura
judaica e a modernidade Category: Reporting and Biography 1st place Title: Abusado 2nd place Title: Deus é inocente
_ A imprensa não 2nd place Title: Carnaval do Fogo 2nd place Title: O Beijo da morte 2nd place Title: Anos 70 _ Enquanto
corria a barca Category: Didactic or Paradidactic for Basic and Middle School 1st place Title: Coleção
a arte de olhar 2nd place Title: Coleção:
Língua Portuguesa rumo ao letramento de 5ª a 8º séries 3rd place Title: Coisas de Índio
_ Versão infantil 3rd place Title: São Paulo
450 anos Luz _ A redescoberta de uma cidade Category: Cover 1st place Title: Mínimos,
múltiplos, comuns 2nd place Title: Euclides da Cunha
_ Esboço Biográfico 3rd place Title: Harmada Category: Poetry 1st place Title: Poesia reunida 2nd place Title: Sphera 3rd place Title: Só a noite
é que amanhece 3rd place Title: Máquina
de escrever: poesia reunida Category: Human Sciences 1st place Title: Crítica
a razão dualista _ o ornitorrinco 2nd place Title: A Imprensa confiscada
pelo Deops 1924 - 1954 2nd place Title: O espiríto
de Porto Alegre 2nd place Title: Vingança
da história 2nd place Title: Brasil, Argentina
e Estados Unidos Category: Exact Sciences, Technology and IT 1st place Title: Conceitos de física
quântica 2nd place Title: Mecânica
quântica 3rd place Title: Análise
histórica de livros de matemática Category: Natural and Health Sciences 1st place Title: Endótelio
e doenças cardiovasculares 2nd place Title: Fisiologia clínica
do sistema digestório 3rd place Title: Ecologia e conservação
da caatinga Category: Short Stories and Crônicas 1st place Title: O voô da
madrugada 2nd place Title: Montanha-Russa 2nd place Title: Pequenos amores 2nd place Title: Mínimos,
múltiplos, comuns Category: Novel 1st place Title: Mongólia 2nd place Title: A margem imóvel
do Rio 3rd place Title: Budapeste An excerpt from Mongólia by Bernardo Carvalho As estradas da Mongólia na realidade são pistas que o motorista tem que decifrar entre dezenas de outras, são marcas de pneus em campos de pedras, desertos e estepes. Marcas deixadas por pneus que, de tanto incidirem sobre o mesmo caminho, acabam criando uma pista. Muitas vezes, no deserto, por exemplo, não há nenhum ponto de referência além das trilhas deixadas pelos pneus de outros carros. Os motoristas insistem em segui-las, como quem toma o caminho seguro, tradicional. O bom motorista é aquele que sabe achar a sua pista no deserto. A boa pista. A repetição é a condição de sobrevivência. É essa também a cultura dos nômades. Apesar da aparência de deslocamento e de uma vida em movimento, fazem sempre os mesmos percursos, voltam sempre aos mesmos lugares, repetem sempre os mesmos hábitos. O apego à tradição só pode ser explicado como forma de sobrevivência em condições extremas. A idéia de ruptura não passa pela cabeça de ninguém. As estradas só se tornam estradas pela força do hábito. O caminho só existe pela tradição. É isso na realidade o que detém o nomadismo mongol, uma cultura em que não há criação, só repetição. Decidir-se por um caminho novo ou por um desvio é o mesmo que se extraviar. E, no deserto ou na neve, esse é um risco mortal. Daí a imobilidade dos costumes. Os dois motivos (losangos ou círculos entrelaçados) que sempre se repetem na decoração das portas, portões, móveis, tapetes etc., por toda a Mongólia, representam o infinito e o casamento, o que só confirma a obsessão por estabilidade e pela tradição numa sociedade que em aparência é completamente móvel, a ponto de não haver espaço para nenhum outro movimento. Se àquela altura ele já tivesse decifrado outro trecho do diário do desaparecido, é possível que, sob influência da leitura, também passasse a ver as coisas sob outra ótica: Entre os nômades, o interessante não é o sistema e os costumes, que são sempre os mesmos, mas os indivíduos. A graça de visitar as iurtas é a surpresa do que se vai encontrar, a diversidade dos indivíduos que ali estão fazendo as mesmas coisas. O nomadismo em si não tem nenhuma graça. A mobilidade é só aparente, obedece a regras imutáveis e a um sistema e a uma estrutura fixos. São as pessoas. Talvez por causa da vida dura e isolada, sem surpresas ou novidades, as visitas em geral sejam tão bem-vindas. O nomadismo é uma estrutura regulada pela necessidade e pela sobrevivência nos seus fundamentos mais essenciais. Não há liberdade, pois não é possível escapar a essa regra (em última instância, poderia dizer isso de qualquer outra cultura). É uma vida regrada pelas necessidades básicas da natureza. Uma vida simples, reduzida ao essencial para a sobrevivência. O que conta são os indivíduos, quando não sobra mais nada. Mas o Ocidental não estava interessado nas pessoas. Não tinha tempo a perder. Estava em busca de uma pessoa. Com as horas que desperdiçaram consertando o jipe, não daria para chegar a Chandmani antes do cair da noite. Resolveram pernoitar a meio caminho, às margens de Dörgön Nuur, um grande lago de água salgada, povoado de gaivotas, que voavam e mergulhavam à procura de peixes, e cercado de praias de seixos e de dunas no meio da estepe. Pelo caminho, tinham visto muitas carcaças de animais mortos no inverno anterior. Dörgön Nuur costumava atrair turistas no verão. Como ainda estava frio no final de junho, não havia ninguém nas margens do lago. Chegaram tarde, com o pôr-do-sol. O céu estava rajado de nuvens rosadas. Escolheram um lugar mais afastado para acampar, depois de passarem por um imenso ovoo, que mais parecia um mausoléu, todo cagado por gaivotas e muito reputado entre os maiores campeões de luta da Mongólia. Em geral, os grandes lutadores iam a Dörgön Nuur fazer suas oferendas antes de um combate importante. Bauaa nos deixa armando nossas barracas e sai à procura de uma família de nômades com o pretexto de consertar o jipe de uma vez por todas. Diz que talvez só volte de manhãzinha. Não duvido de que no fundo Tenha saído atrás de um jantar. Não suporta as saladas de batata e as sopas de legumes em conserva de Purevbaatar. Nem toda a fome do mundo vai fazê-lo engolir legumes e verduras. Ficamos sós. Depois de comermos, quando conseguimos relaxar, um carro desponta lá longe, na margem leste, e vem na nossa direção. Pára a vinte metros das nossas barracas. São quatro sujeitos de Altai. Vêm nos ver. Contam uma história furada. Estão procurando outro carro. Perguntam a Purevbaatar se não vimos os amigos deles. Dizem que vieram prestar homenagem ao ovoo dos lutadores. E, por incrível que pareça, resolvem se banhar no lago bem na frente das nossas barracas. A água está gélida. São uns sujeitos estranhos. Purevbaatar diz que conhece um deles. É um lutador (ou ex-lutador) de Altai. Não era dos melhores. Se se conhecem, por que não se cumprimentaram? Como não entendo os códigos locais, começo a ficar apreensivo. Eles pulam, brincam, falam alto e arrotam na água bem diante de nós. Parrece provocação. Saem da água tiritando, se enrolam em toalhas, ligam o rádio do carro aos brados e começam a cantar e a beber. E eu, a me irritar. Estão bêbados. Por que tinham que ficar justamente aqui, quando podiam ter se instalado em qualquer outra parte do lago! Na alta estação, Dörgön Nuur costuma ser freqüentado por turistas, e parece que nos últimos anos os nômades da região se acostumaram a fazer pedidos aos estrangeiros sem a menor cerimônia. Com a abertura da Mongólia, é inevitável que a cultura nômade se contamine com o que há de pior na civilização sedentária e ocidental. Mas agora não há ninguém à vista, nem turistas nem nômades para nos assediar com seus pedidos. Estamos a sós com os lutadores. Purevbaatar diz que não preciso me inquietar, mas a situação é tensa. Talvez queiram apenas estabelecer algum tipo de contato, mas são muito intrusivos. Como sempre, estão curiosos em relação a mim. A Mongólia não é um país só de gente acolhedora e ingênua. Já tinha sentido isso com os criadores de camelos. Os sujeitos agora se aproximam e cospem no chão. Como se quisessem nos intimidar. E de fato estamos intimidados. Não dizemos nada. Noto que Purevbaatar calçou as botas. Tínhamos tirado as botas ao chegar. Pergunto a ele por que calçou as botas. E ele diz que está com frio. Como não confio nele, tudo fica pior. Acho que está se preparando para fugir. Resolvo calçar as minhas botas também, por via das dúvidas. Começo a tomar notas para disfarçar a apreensão. Ao me ver escrevendo, um dos trogloditas se aproxima e mete a mão no meu bloco de anotações. Me pergunta alguma coisa em mongol. Não posso dizer que seja simpático. Não sorri em momento nenhum. Sentado diante da sua barraca, Purevbaatar me diz que o troglodita quer saber o que estou escrevendo. Depois volta ao seu silêncio. Purevbaatar não se mexe. Não sei o que está pensando. Diz que não é nada, mas sinto que também não está gostando da situação. Tento me convencer de que o intruso é gentil, mas a diferença cultural cria uma tensão permanente. Na incompreensão, só me resta escolher entre o paternalismo e o medo. Começo a entrar em pânico. Continuo escrevendo para disfarçar. Escrevo qualquer coisa, só para ter o que fazer e me mostro ocupado. E mesmo que Purevbaatar não fuja, dificilmente poderemos enfrentar os quatro lutadores. São onze da noite, e eles não vão embora. Estou exausto, mas não entro na barraca enquanto eles não saírem daqui. Começo a achar que é um assalto. À meia-noite, entram no carro, batem as portas e desaparecem. Da mesma forma como apareceram. Durante a noite, acordo sempre que ouço o ronco de um motor ao longe. São os intrusos e seus amigos. Volta e meia, os faróis surgem e desaparecem ao longe, do lado nordeste do lago, perto das dunas. Devem estar apostando corrida. É uma noite tensa. Fico alerta, pronto para fugir se os faróis se aproximarem de novo. Mas para onde? Bauaa só volta de manhã. Com o nascer do sol, o lago, que na véspera era tão calmo quanto um espelho d'água, agora, em comparação, parece um mar revolto, com marolas insufladas pelo vento forte. É como acordar na praia, à beira-mar. Se me mostrassem uma foto, nunca me passaria pela cabeça que estava vendo um platô da Ásia Central, a milhares de quilômetros do oceano. O céu ficou cinza. Já não dá para ver nem a outra margem nem as dunas onde os intrusos apostavam corrida à noite. |