Sim, querido leitor, faço isso à moda antiga, à moda de Machado de Assis que vivia dialogando com suas "leitoras"
em seus romances. Digo leitoras, porque homem que era homem não lia romance no século XIX. As
belle lettres eram coisas do sexo frágil. Agora, não pense você que quem vos fala nesse instante seja verdadeiramente o autor dessa farsa,
dessa pantomimice porque não é. Esse aí é um sonhador que vive no mundo do Kenzaburo Oe, do Noam Chomsky e outros da
sua espécie. Mas para que ele pudesse se comunicar com esse mundo relativamente irreal, ele inventou a mimUlissesum
simples antigo rebobinador de fitas de vídeo que teve coragem um dia de dizer adeus ao seu anagnosta eletrônico. Talvez fosse
melhor se eu lhe contasse antes um pouco da minha história para que você entenda de onde é que eu estou vindo.
Houve uma época que eu não sabia que já sabia ler. Me davam por mentecapto e me deixavam vegetando em casa o
dia todo na companhia de uma empregada que também pouco se importava com o que se passava no meu mundo. Talvez,
não fosse tanto negligência como incapacidade de compreender que um alienado não é necessariamente um idiota. Mas o
que eu podia fazer? Eu tinha sido criado assim, acreditando que fosse um imprestável. E isso, desde que me dei por gente.
Quando menino, creio que assisti centenas de vezes a cada uma daquelas fitas de desenho animado que aparecia lá em casa.
Fantasia, A Pequena Sereia, A Bela e a Fera
e tantas e tantas outras. Era só eu começar a ficar um pouco motivado dentro do
nosso tedioso apartamento, que logo me colocavam diante do televisor para eu acalmar os ânimos e perder toda e qualquer
ambição da vida. Não existe nada melhor no mundo para lhe roubar a ambição do que um daqueles televisores de telas enormes,
que tornam as cenas maiores que a própria vida. Eu sei muito bem disso porque cresci com um desses anagnostas
particulares. Hoje eu sei o quanto ele me roubou completamente de qualquer desejo de auto realização.
Já na adolescência me apareceu um substituto a alturao computador. Já então, eu passava metade do meu tempo
em frente ao televisor e a outra metade em frente ao computador jogando algum
videogame que supostamente um dia iria desenvolver a minha coordenação psicomotora. Pelo menos era assim que meus pais racionalizavam a substituição do
tempo que eles deviam estar passando comigo pelo tempo que eu passava diante dos aparelhos de comunicação. Meus pais
trabalhavam fora e só chegavam bem tarde da noite. Ambos profissionais muito ocupados com suas carreiras, o bônus do fim-de-ano,
a promoção, o carro importado e essas coisas tão importantes no mundo de hoje. Está se identificando comigo? Então
conte pra mim... quantas vezes você~ï chegou a assistir
A Bela e a Fera? Só isso? Pois eu devo ter asssistido umas
quinhentas vezes, pelo menos. Eu assistia e rebobinava, assisitia e rebobinava, assistia e rebobinava. Assim era o meu dia, minha
semana, minha vida toda. Eu não deixava de me hipnotizar nem mesmo quando ia comer. Havia um vídeo cassete e um televisor
em cada cômodo do apartamento. Era café da manhã, almoço e jantar com sabor de
Bela e a Fera. Eu sabia todas as falas de
cor e salteado. Ainda sei. E não é pra menos, não é? Linguagem insidiosa aquela. Você se lembra?
Aguns anos mais tarde me apareceram aqueles filmes com tantos efeitos especiais que a vida real perdia todo e
qualquer sentido. Já era impossível discernir o real da fantasia. George Lucas era o meu deus. Seus filmes eram inebriativos e
passei a precisar de uma dose cada vez mais forte para poder agüentar as idiossincrasias da minha realidade tão mundana e tão
distante daquelas galáxias infinitas. E foi essa minha passividade diante do televisor que gerou em mim uma anacroasia aguda,
mas que era vista pelos meus pais como uma coisa perfeitamente normal. Eles achavam que um dia eu desenvolveria a
minha inteligência emocional, o que para eles era muito mais importante. Já ouviu falar dessa teoria, não é? Pois então...
Mas como eu estava dizendo, com o advento do computador e da Internet, apesar da comunicação entre as pessoas
ter ficado muito mais rápida, você alguma vez já parou para pensar que os e-mails chegam cada vez mais resumidos? Parece
que as pessoas têm uma certa aversão à palavra escrita. Todos se dizem sempre muito ocupados e mandam recados curtos
sem muito conteúdo. Isso para não se falar daqueles que preferem enviar somente mensagens de correntes com citações de
algum Pablo Neruda. Sim, porque aqueles que não têm nada a dizer, sempre citam os grandes pensadores. As palavras dos
grandes do passado se tornam as palavras do medíocre do presente. Uma grande ironia, você não acha?
Ora, mas me perdoe se fico fugindo da minha história. Péssima mania essa minha de ficar filosofando. Mas então,
como eu dizia, foi só depois que se desenvolveu em mim a tal anacroasia que eu resolvi dar um basta àquela minha existência
videota. Um dia, depois de ter assistido O Império Contra
Ataca pela terceira vez consecutiva, tive o ímpeto de fazer algo que eu
jamais havia tido coragem antesabrir a persiana do meu quarto e atirar o vídeo cassete pela janela. E foi para o meu grande
espanto que me dei conta que havia uma realidade multi-demensional me esperando lá fora. Era algo que eu jamais tinha
imaginado. Foi uma grande emoção poder sentir os raios de sol sobre a minha pele de Nosferato; sentir o cheiro da cidade ao
entardecer; ver os helicópteros sobrevoando aquele universo todo a ser explorado. Como por milagre, uma luz de esperança me
acalentou por dentro e fez com que eu me dirigisse imediatamente até à sala-de-estar onde encontrei a chave da porta de entrada
do apartamento esquecida na fechadura pela empregada distraída. Girei a chave vagarosamente para que a empregada não
se desse conta do que eu estava prestes a fazer. Saí nas pontas dos pés e só então dei-me conta de que havia ali uma outra
portaa do elevador. Ele encontrava-se parado no nosso andar. Entrei e apertei o botão do elevador como tinha aprendido nos
filmes. Desci e fugi. Nunca mais voltei. Isso mesmo... NUNCA MAIS voltei para aquela masmorra onde fiquei preso durante
toda a minha infância e adolescência. Mal podia me conter de tanta alegria. Agora eu era um ser livre a descobrir o significado
da existência.
Dormi embaixo dos elevados em caixas de papelão. Foi lá que descobri o sexo e gostei. Passei frio e fome. Comi dos
restos das feiras livres. Banhava-me na praia. Sempre que me permitiam, ajudava os feirantes a montar as barracas. Com isso
ganhava um troco que me ajudava a sobreviver de forma mais digna. Fiquei feliz quando pude comprar escova e pasta de dentes,
lâmina e creme de barbear. Não precisava de muito mais do que aquilo para ser feliz. Mais tarde, aprendi que já sabia ler e
escrever com Dona Nely, uma professora aposentada que se encantou comigo e me levou um dia para sua casa. Ela dizia que eu
era super-dotado. Aprendia tudo muito rápido e lia numa velocidade incrível. Um belo dia ela me levou à biblioteca
municipal onde permaneci por alguns meses. Só saí depois que já tinha lido praticamente tudo que encontrei por lá. De psiquiatria
à física quântica. De Anaxágoras a Borges.
Em outra ocasião, encontrei um saxofone abandonado num ferro velho. Consegui dar-lhe vida. Para isso, tive que
aprender sozinho a tocar jazz e passei então a improvisar nas saídas do metrô. As pessoas paravam e ficavam ouvindo eu tocar
Mingus, Deodato e as minhas próprias composições. Eu e ele gostávamos da atenção e ficávamos lá, sempre juntos, tocando por
horas e horas a fio até a calada da noite.Tinha encontrado minha verdadeira vocação na vida. Deu até para juntar uma pequena
fortuna com as gorjetas dos transeuntes que apliquei e multipliquei com os trâmites na Bolsa. Fiquei milionário. Essa foi a parte
mais fácil. Com o dinheiro pude estudar alopatia e, no momento, estou me dedicando ao desenvolvimento de uma droga que
deverá ajudar na imunização contra o vírus da Aids. Projeto deveras ambicioso. Nas horas livres componho jazz, leio ou escrevo
livros de ornitologia. Ah, sim, casei-me com Penélope. Ela teve uma infância semelhante à minha.Temos muito em comum,
inclusive uma filha de seis anos chamada Mariana. E outra chamada Giovana que está a caminho. Vez por outra, passo por uma
locadora e apanho O Império Contra
Ataca só para me recordar daquele dia glorioso em que assassinei o meu anagnosta
atirando-o pela janela do meu quarto e fugi para buscar minha liberdade e felicidade. Confesso que foi um crime perfeito. Você
não acha?
(para os meus sobrinhos Kako e Dudu)
Vivíamos num clima de euforia no Brasil de 72. Não sei bem dizer o porquê, já que vivíamos no apogeu de uma
ditadura militar que já tinha decepado a cabeça de toda uma geração de futuros agnósticos. Talvez toda aquela euforia fosse
fruto da conquista do Tri no México em 70, o que nos fazia supor que o país estava no caminho certo. Achávamos ainda que
vivíamos num período de prosperidade econômica para o país. Uma ilusão que amenizava a dor lancinante da cabeça que já tinha
sido decepada. Meu pai dizia que com os militares no poder, minha geração perderia somente a consciência política, mas já
com os comunistas, além da consciência, perderíamos ainda os testículos. E apesar dos meus poucos 13 anos, eu já gostava
dos meus testículos e não me simpatizei muito com a causa comunista. Basta dizer que ideologicamente nos encontrávamos
num cul-de-sac. Mas a grande verdade é que quando se tem 13 anos, com ditadura ou não, cul-de-sac ou não, tudo é euforia
e confesso que estava curtindo muito tudo aquilo. Sobretudo porque, eu ainda tinha os meus testículos.
Minha família acabava de mudar-se para Ribeirão Preto, no interior de São Paulocidade de bom nível econômico
que se enriqueceu durante a era áurea do café. Isso deu assim um ar de
belle époque à então Avenida 9 de Julho, decorada
com mansões suntuosas construídas bem antes da quebra da bolsa de Nova Iorque. Depois da quebra, alguns moradores a
apelidaram de "Avenida dos Falidos de 29," o que não era era muito justo pois além do café, fez-se ainda muito dinheiro com a
cana-de-açúcar e a laranja. Os latifundiários locais oravam fervorasamente para que houvesse geada na Flórida todos os anos.
Disso me lembro bem. De qualquer forma, Ribeirão Preto se mantém ainda viva em minha memória porque foi aí e então que
aconteceu o maior milagre do mundo. Um milagre muito pessoal que vou contar sem muita economia de detalhes.
Matriculei-me no Colégio Santos Dumont, conhecido na época como um dos melhores colégios de pequena
burguesia da cidade. Contava com um bom currículo escolar, bons professores e boas equipes de esporte. Naquela época,
minhas prioridades eram bem outras. Queria só ver o Brasil ganhar novamente a Copa do Mundo, estudar num bom colégio e
fazer parte da equipe de basquete. Minha consciência política tinha ido para o beleléu. Rolou junto com a cabeça decepada da
minha geração. Felizmente ainda podia contar com meus testículos que seriam peças muito importantes para o realização do
milagre prestes a acontecer.
Recordo distintamente do meu primeiro dia de aula quando, ao subir as escadas do colégio, me deparei com a
fotografia de Santos Dumont, cujos feitos me enchiam de orgulho e até me davam um senso maior de brasilidade. Para ser franco,
ainda hoje tenho muito argulho desse grande homem. Houve inclusive um semestre em que construí uma réplica (não muito
bem feita) do 14 Bis para uma feira do colégio. Coisas da adolescência. Usei somente isopor e cola, barbantes e varas de
bambu mas até que saiu razoável. Sempre portador de uma imaginação muito fértil, transportava-me facilmente para os tempos
em que o jovem e rico Dumont já contornava a Torre Eiffel com as suas máquinas voadoras. Um Jules Vernes tupiniquim.
Que orgulho eu sentia de ser brasileiro! E que ignorante eu era da minha própria realidade. Pouco eu sabia das torturas de
presos políticos que aconteciam no DOPS. Mas também, eu só tinha 13 anos, sem consciência e com dois testículos intactos.
Como podia saber daquelas coisas? Se soubesse, talvez eu sentisse menos orgulho. Mas não sabia. Os estudantes mais
velhos do colegial viviam falando baixo pelos corredores e olhando de soslaio como que com medo da própria sombra. Não
podia entender muito o porquê de tudo aquilo. Talvez porque tivesse somente 13 anos. Talvez fosse melhor assim. Um dia
ouvi um deles contando que um estudante havia se suicidado numa cela de uma prisão lá em São Paulo. Dumont também veio
a se suicidar num banheiro de quarto-de-hotel no Guarujá. Isso aconteceu em 32, durante a ditadura Vargas, exatamente
quarenta anos antes da morte daquele estudante. Desde então eu sempre me perguntei porque é que os sonhadores sempre
preferem a morte à ditadura. Hoje acho que compreendo, mas naqueles tempos eu não gostava de me distrair com aqueles fatos.
Eu preferia me enveredar pelas histórias de Dumont, sempre acompanhado da sua grande paixão da juventude, "la
cubanita"èela que entrou para a história por ser a primeira mulher a voar num objeto mais pesado do que o ar. Isso sim era gostoso
de ler. As paixões, as aventuras. Quando só se tem 13 anos, o mais importante é sonhar com as aventuras e não com os suicídios.
Já antes do término do primeiro semestre, passei a fazer parte da equipe de basquete e do coral da escola. Não tinha
tempo para papo chinfrim de política. Cabeça decepada, já viu, né? O canto e o basquete eram as minhas maiores paixões até
então. Ah, mas foi aí que tudo mudou. E não foi que de repente, não mais que de repente, como diria o poetinha, me aparece
uma aluna nova na aula, transferida de uma outra cidade? Juliana era o seu nome, e basta dizer que desde o primeiro instante
que nos conhecemos ela já me provocava uma sensação muito estranha. Era de família italiana como a minha. Tinha uns
olhos misteriosos que se iluminavam com a minha presença. Seus traços eram finos e seus lábios... ah, seus lábios eram um
verdadeiro convite ao beijo. Carnudos, assim de dar gosto. Seu corpo era ainda meio desengonçado, bem adolescente assim com as
pernas finas mas bem torneadas, o que eu admirava sem disfarçar muito durante as aulas de educação física. Os seios retráteis.
Era só eu olhar para ela para sentir aquele torpor muito estranho que tomava conta de mim. Era um
high muito natural que durava horas, dias, meses, anos, uma vida inteira parecia.
Já na sala-de-aula, sentava-me sempre ao seu lado para copiar a matéria do dia anterior que eu já tinha toda copiada.
Nossos braços se tocavam, nossos olhos se encontravam e se incendiavam. As labaredas eram enormes. Disfarçávamos e
olhávamos para o quadro ou perguntávamos algo para o colega ao lado. No entanto, nossos corpos continuavam a se comunicar
muito mais radicalmente. Os corpos não mentem como a gente. Ao mesmo tempo que falávamos com os colegas, nossas
pernas se roçavam como que sem querer. Nossas mãos também se tocavam de propósito quando os dois iam em busca da
mesma caneta que vivia caindo no chão. Eu jurava que podia ficar eternamete sentado ali ao seu lado, respirando aquele
perfume do frescor dos anos. Era simplesmente adorável poder sentir aquela nova sensação. Eu já estava totalmente apaixonado
e não sabia.
Quando se tem 13 anos, não se sabe bem o que é a paixão. Só sei que eu já não conseguia ouvir mais ninguém.
As recomendações feitas por minha mãe eram simplesmente ignoradas e as aulas se restringiam aos leves toques do nosso
corpo e mais nada. A geografia agora era bem outra. Só hoje eu posso avaliar como a natureza é realmente sábia. Ela realça a
beleza feminina que por sua vez embevece (e as vezes enlouquece) os homens e tudo isso, simplesmente, para conseguir a
preservação da espécie. Muito sábia. E foi depois de um dia de muitos leves toques, que eu tive o melhor sonho de toda a minha vida. E não foi um sonho
de uma grande aventura sexual, como pode supor o leitor, mas simplesmente o de um beijo...um beijo tão puro, que assim
que os nossos lábios se tocaram, senti pela primeira vez jorrar das minhas entranhas algo arrebatador que me levou àquele
estado de total êxtase. Fôra como uma tempestade com muitos raios e relâmpagos e chuva forte a molhar o meu corpo, e ventos
fortes a secá-lo calmamente até o chegar do amanhecer quando por fim, ao olhar por debaixo das cobertas, me descobri homem.
E essa foi a melhor sensação do mundo da qual jamais me esquecerei. Eu, um homem capaz de criar outros seres
semelhantes a mim. Que maravilha! Na realidade, aquilo me fazia sentir-me mais que um mero mortal. Agora sentia-me como um
verdadeiro deus capaz de criar outros à minha própria imagem e semelhança. Aquilo era o máximo. O milagre dos milagres. E aquilo
foi acontecer justamente comigo que tive a cabeça decepada. Que jovem de sorte eu era. Enquanto alguns se suicidavam ou
eram suicidados, eu vivia um milagre de pura felicidade.
Voltei a sonhar muitas vezes com Juliana. Era sempre um grande prazer sonhar com a minha querida Juliana. Certa
vez, me lembro bem, voávamos no 14 Bis bem acima da Torre Eiffel. Ela estava toda linda, em trajes da
belle époque da Avenida 9 de Julho, fazendo-me juras de amor em castelhano. Ainda posso ouvir a sua voz me dizendo:
Ay, mi amor, más... más arriba!
Voávamos entre as nuvens prateadas com nossos corpos sempre se tocando quando ela se aproximava para me
sussurrar coisas ao ouvido. Infelizmente até hoje não sei o que eram essas coisas que ela me dizia. Talvez seja melhor assim. A
natureza é sábia. Preserva a espécie. E a cada beijo, eu podia sentir o meu lençol molhar-se com o líquido que se arrefeceria por
baixo do meu cobertor tão quentinho. E em meio a tantas novas e excitantes sensações ainda me recordo dos rumores que
circulavam pelas paredes do colégio sobre as torturas que se passavam no DOPS. O torpor provocado pelo gozo noturno me era
interrompido com as notícias sobre a ação armada dos Tupamaros que os alunos de esquerda diziam que era covardemente
acobertada pela propaganda política da direita que nos enganava a todos fazendo-nos crer na quimera do "milagre" brasileiro. Mas
apesar de tanta fabricação de ambos os lados da guerra ideológica, nada daquilo me dizia absolutamente nada. O único milagre
brasileiro que realmente me interessava era aquele que eu experimentava sempre que sonhava com Juliana. Aquilo sim é que era milagre.
Agora imagine você. Depois de tantos beijos sonhados e tantos lençóis manchados, já julgava-me íntimo dela, mas
ainda, logicamente, muito longe de ser. Caminhávamos sempre juntos para casa fazendo todos os dias um caminho cada vez
mais longo. Conversávamos sobre muitos assuntos interessantes, inclusive poesia. Declamei-lhe todos os sonetos de
Vinícius que eu aprendi só para ela. Ela gostava de poesia e me encorajava a aprender outros poemas. Ela dizia que a poesia era
algo muito masculino. Logo o meu repertório cresceu muito e cheguei até a escrever uns poeminhas de amor, mas os do
Vinícius eram tão melhores que eu sempre voltava a eles. Um dia convidei-a para assistir
Dona Flor e Seus Dois Maridos que acabava de estrear no circuito. Ela agradeceu mas não foi. Achava os romances de Jorge Amado por demais sensuais.
Perguntei-lhe se ela gostava das canções de Chico Buarque. Pareciam-lhe muito da esquerda. Seu pai era oficial do exército e ela
apoiava a entrada do Geisel. Eu, por outro lado, achava que os militares deviam restaurar a democracia no país, assistia
Dona Flor sempre que podia, adorava Chico e tinha a certeza de que amanhã seria outro dia. Logo percebemos que algo começava
a nos separar. Já não íamos mais para casa juntos. Os sonetos de Vinícius perdiam o efeito, mesmo porque já não eram
mais recitados com paixão. E com isso, os beijos de verdade nunca vieram, e jamais chegamos a sobrevoar a Torre Eiffel
juntos num 14 Bis reconstruído, mas apesar disso tudo, hoje guardo a certeza de que foram aqueles leves toques por baixo da
carteira escolar que despertaram o homem em mim. E sempre que penso nisso me pergunto, se a minha querida Juliana também
não se fez mulher durante um daqueles nossos vôos noturnos no 14 Bis.
These short stories, whose names in the original were "O Assassinato do Anagnosta" and "O Despertar Que Pediu
14 Bis," were unpublished until now.
Glauco Ortolano is a poet, novelist, short fiction writer, translator, essayist and scholar. He is presently teaching
Brazilian language, literature and culture at the University of Oklahoma where he also serves as contributing editor for the literary
journal World Literature Today. He is the author of Domingos Vera Cruz
(novel), Sonhalidade (short stories), and Divinosou (poetry). He's been a member of the Asociación Iberoamericana de Escritores since 1996. He can be contacted at
ortolanos@hotmail.com
Literature
August 2002
Petty Crime
One day she took me to the public library where
I stayed for a few months. I only left after
reading practically
everything I found. From psychiatry to quantum
physics. From Anaxagoras to Borges.
Glauco Ortolano
Wonder Days
She was from an Italian family like mine. She had mysterious
eyes that would light up in my
presence. Her traits were
fine and her lips...ah, they were an invitation to kiss.
Glauco Ortolano