Brazzil
December 1998
Short Story

Stampede

As good as a woman might be she is always a woman. Happiness, everybody knows, can never be complete. Women bleed every month, according to some to compensate for the worry they cause their parents and husbands, or for Eve's sin, according to others, or to pay a little for the easy life they lead having all their expenses paid by the man, according to some others.

João Ubaldo Ribeiro

A mulher é fraca, porém é forte. Esta é uma verdade conhecida desde o começo do tempo, mas muita gente se engana e facilita com a mulher. A mulher, ninguém entende. Quem diz que entende é mentiroso ou burro, porque os inteligentes e sinceros, quando perguntados se entendem a mulher, penduram o beiço, dão uma risadinha, mudam de assunto e cravam os olhos na distância, lembrando todas as vezes em que na juventude estavam achando que entendiam a mulher e todo esse tempo era a mulher que estava entendendo eles. A sabedoria do homem é reconhecer que não entende a mulher, esta é a grande sabedoria, segredo dos milionários, dos bem-casados, dos grandes donos de cassinos e casas de puta, dos artistas de cinema, dos funcionários graduados do Banco do Brasil e outros, entre os poucos que na vida se dão bem. A fraqueza da mulher é na musculatura e, assim mesmo, isso diz quem nunca pelejou para abrir as pernas de uma a pulso, ou aqueles que nunca contrariaram, por covardia ou esperteza, a gordinha a quem na igreja prometeram a mais completa fidelidade. O homem padece com ciúmes e por isso se enfraquece, bebe cachaça, sofre alucinações, se desmoraliza perante a coletividade e se joga de cabeça para baixo do topo dos grandes edifícios. A mulher, já de feitio, não tem o verdadeiro ciúme, mas faz questão de obrar como se tivesse, ligando e desligando o ciúme à sua vontade, nadando nele como numa poça em maré vaza, enquanto o homem se vê coberto de altos vagalhões, ignorando até mesmo para que lado fica a terra firme, se é que para ele existe terra firme, terra esta de onde a mulher nunca sai nem amarrada. O homem tem que fazer discursos mesmo quando necessita ficar calado, a mulher faz discursos somente quando quer e pode perfeitamente permanecer empedrada e muda quantos anos a fio assim tencionar, até o mundo se alterar na forma por ela desejada e, se não se alterar, ela também não se altera, ela tem certeza, o homem nunca tem certeza. A incerteza do homem vem de que a pessoa pode dizer que não sabe quem é o pai, mas não pode dizer que não sabe quem é a mãe, a mãe é certa, o pai é incerto, já diziam os antigos. E temos o problema da barriga da mulher, que produz a criação, envergonhando a do homem, que de peidos e merda é o mais de que pode se gabar. O grande mistério da vida é o mistério da mulher.

Isto mesmo vai pensando João Grande, descendo o Alto de Santo Antônio debaixo do maior toró que já caiu na ilha num mês de março, segundo a memória de todos. A chuva e as nuvens, que agora estão pintando e bordando sem ninguém poder fazer oposição, são fêmeas, o que é macho é o relâmpago, essa besteira exibida que não dura mais que uma piscada e não leva a nada, como esses que agora ele vislumbra por trás das casas defronte ao cais, em cima da água enlouquecida do canal. Vento sul desgraçado, atiçando galhos de árvores pelas ruas e transformando em cachoeiras as ladeiras, e ele saindo de casa dizendo que ia pescar, que até podia achar umas chumbergas nesse mar afogado em água doce, tinha de ir pescar, o dinheiro estava curto e mais curta a comida. Mentira, não ia pescar coisa nenhuma, ainda mais com os canos precisando calafetar para não virar peneira e sem nem uma escama de isca para remédio. Ia, sim, para o Mercado, desaparecer um pouco atrás do balcão de Inocêncio, pegar uma talagadazinha fiada, conversar sobre a chuva, disputar uma rebarba de mocotó e talvez entrar na roda de dominó, até que ficasse suficientemente bêbedo para voltar para casa e poder sentar junto à janela e conseguir ouvir em silêncio o que Astéria, de olhos arregalados, ventas abanando e voz como as trombetas do profeta, lhe repetiria até que ele caísse no sono, Deus ajudando.

Boa mulher, Astéria, se não fosse ela, ah, se não fosse ela. Se não fosse ela que lavasse e passasse para fora, que escamasse para ganho dúzias de bacias dos peixes miúdos mais temidos pelas tratadoras, que saísse catando frutas nos quintais dos outros para mandar vender, que montasse tabuleiros de cocadas e pamonhas para mercadejar fantasiada de filha de santo, que, no dia em que ele tinha febre ou sofria qualquer perturbação, ficasse o dia inteiro ali ao pé tudo atendendo, se não fosse ela que tantas vezes enganasse a fome das filhas com mingau de farinha e caldo de marisco, ah, se não fosse Astéria, sua perfeita negrona que ainda por cima era a melhor cama de todas as camas, fosse essa cama na esteira, no capim, na areia ou no colchão de palha mesmo, se não fosse Astéria, que seria dele?

Nada, nem sequer o pai das sete filhas que vira nascer encarreiradas, sempre esperando que desta feita viesse um homem, que nunca veio. Talvez a culpa tivesse sido dele mesmo, porque a primeira nasceu num domingo e ele a batizou como Domingas, não se brinca com essas coisas de dar nome aos filhos. Aí a segunda nasceu numa segunda-feira, ele tomou umas e outras e batizou como Secundina. E, acredite quem quiser, Tercina nasceu numa terça, Quartina numa quarta, Quintina numa quinta, Sextina numa sexta e Sabatina num sábado—são coisas que a pessoa não pode deixar de admitir que são feitas, coisas traçadas no Céu e no Destino, não adianta a mão do homem querer mexer. Tudo filha fêmea, tudo graças a Deus forte e sadia, mas ele sozinho numa casa de mulheres, aquelas falas finas às vezes parecendo uma reunião de araras, mais calçolas penduradas no varal que bandeirolas numa festa de São João, mais cabra safado rondando e arrastando a asa do que galo numa rinha, e tudo isso para não falar nas bocas, cada uma comendo mais do que a outra, vida difícil, talvez impossível, se não fosse por Astéria, que o que tinha de parideira tinha de trabalhadeira. Então, até todas casarem e irem morar na Bahia, ninguém passou fome, ninguém passou grande necessidade, ninguém passou vergonha, grande mulher Astéria, mulher de todas as bondades. A bondade de, apesar de não saber nada de futebol, se lordar toda nos domingos para ir ao campo de bola com as meninas e torcer para o São Lourenço, time em que ele era centerralfe e às vezes jogava pouco mais que pedra em santo, mas ela sempre defendendo que ele era o melhor jogador no gramado; a bondade de, quando ele, como é natural no homem, escorregava aqui e ali e arranjava uma namorada passageira, em vez de o aporrinhar, não falar nada e ir lá encher a descarada de porrada, assim resolvendo todos os problemas sem que ele tivesse de se meter; a bondade de, quando ele ficava mentindo para os amigos sobre seus feitos e qualidades, não só concordar como dar testemunho e desafiar quem não acreditasse; e diversas outras bondades, praticamente todas as bondades possíveis numa mulher, grande mulher Astéria, prêmio de loteria, bênção de Nosso Senhor, Ele no Céu, ela na Terra.

Mas, por mais boa que a mulher seja, é sempre mulher, a felicidade, todo mundo sabe, nunca pode ser completa. A mulher todo mês sangra, segundo uns para compensar as preocupações que dá a pais e maridos, segundo outros pelo pecado de Eva, segundo ainda outros para pagar um pouco a vida mole que leva, sustentada pelo homem. Seja porque lá seja, ela sangra todo mês, o que se chama de regras e também de incômodo e diversos outros nomes, porém o mais comum é se chamar de boi. O sangue vem e a mulher diz "estou de boi, o meu boi chegou". De once tiraram esse nome ninguém sabe, como não se sabe de tantos outros nomes que as coisas levam. Mas o marido de uma mulher grande, e pai de sete ainda maiores do que ela, imagine que talvez o nome venha do touro brabo em que a mulher se transfigura nos dias do boi e, pior ainda, logo nos dias antes do boi. Ele mesmo nunca lembrava, embora quisesse para se prevenir, qual era o dia em que o boi chegava, não tinha dia muito certo.

Mas, quando Astéria, em vez das cinco, acordava às sete e, em vez de ir fazer o café, perguntava se o café estava pronto e, se não estava pronto, sentava de braços cruzados resmungando, cuspia e ia dar porrada nas galinhas, nos cachorros e no que mais aparecesse, dizendo os piores nomes e fazendo as piores caras, salgando demais o feijão e afirmando que ia se afogar na maré ou senão fugir com o circo, ele sabia que era o anúncio do boi. E, se a coisa já era feia nos dias do anúncio, mais feia ainda ficava depois da chegada, principalmente quando ela era mais moça, porque ela amarelava tanto que de preta virava cabocla e caía na cama se torcendo e urrando de cólicas que nenhum chá resolvia, nem saco de água quente, nem comprimido, nem injeção de vitamina, nem reza, nem nada nesse mundo, e quem chegava perto para puxar conversa ela só faltava estraçaIhar. Levaram no médico do posto e ele deu o nome da doença: problema sicológico. Bonito nome etc., mas não resolveu nada, não adiantou nada explicar a ela o sicológico, só adiantou um pouco em matéria de importância, porque, quando ela estava gemendo tão alto que os vizinhos vinham ver, ele explicava que ela estava tendo a cólica sicológica e todo mundo achava muito importante, era a única coisa sicológica ali já testemunhada. Até grandes despesas ele fez, com umas almofadinhas de algodão de nomes americanos, umas até perfumadas, que ele soube que as brancas usavam e com grande sacrifício adquiriu na farmácia—foi caresse, foi médici, foi modesse, foi carefré, teve ali um especial, pelo nome tampache, que era para socar lá dentro deixando um cordãozinho pendurado, mas só deve funcionar com branca porque de novo não adiantou nada, e inclusive ela se agoniou tanto com esse tampache que, na aflição da cólica sicológica, puxou o chumaço e jogou na cara dele, só que graças a Deus não pegou.

Não é que ele tenha medo de mulher, pois o verdadeiro homem não tem medo de mulher, mas medo do boi qualquer homem de juízo tem, inclusive porque o bicho vai mudando com a idade. Ultimamente, tinha meses em que ele não vinha e isso seria razão para grandes alívios e comemorações, se não fosse que, quando ele não vinha, era como se o corpo dela sentisse falta da visita e aí ela ficava se abanando com enormes calores até na fresca e tendo umas brotoejas e se assoprando toda e abrindo num chororô desatado o dia inteiro e só acertando a dormir nua em pêlo e se coçando que nem um sagüi e de vez em quando se retando de tal maneira que ele reservou um balde velho para ela chutar. Era ele ver que ela estava com vontade de chutar, era buscar correndo o balde, botar na frente dela e sair de baixo, porque ela chuta mais forte do que muitos artilheiros do campeonato carioca, havendo quase matado a porca de duzentos quilos de Caetanão, a qual botou o focinho na porta para espiar, bem na hora em que ela acertou uma bicuda poderosa no balde. Não matou, mas cegou um olho da porca e abestalhou a porca um pouco e Caetaninho saiu de revólver para tomar satisfação, queria pagamento pelo olho da porca, criou caso vários dias e só desistiu quando falaram que era um assunto sicológico e ele não entendeu mas respeitou, pelo menos para isso o médico serve, o estudo vale muito. Problemas, problemas, muitos problemas por causa de uma mulher de boi brabo, ai vida.

Sim, mas tudo podia estar melhor, porque de fato o boi de Astéria, com quenturas e tudo, cada vez aparecia mais mofino e nem chifrava mais a barriga dele como no tempo das grandes cólicas sicológicas. A vida do homem, contudo, oferece uma armadilha atrás da outra, o Cão não cessa de atentar e, quando o homem pensa que vai sossegar a cabeça, lá vem o Inimigo. Verdade que Astéria, apesar de ainda chutar bastante o balde, estava mais calma e, com a certeza que só mulher tem, afirmou que este era o último boi, a mãe dela teve o último boi nos cinqüenta anos, a avó dela também, a tia Tarse também, a prima carnal Guncha também. Mas, e as dívidas com Diderô Calça Pintada, que, por mais que ele pagasse com juros de cinco por cento ao dia, sempre tinham a correção do governo, o betenê, o dola paralé e outras palavras que ele tirava do jornal para explicar como a dívida, em vez de diminuir com os pagamentos, havia aumentado e amanhã ia aumentar mais? E a canoa, que Passo Preto tinha tomado emprestada por mais de quatro meses, prometendo metade do peixe e todo o cuidado e agora havia devolvido escangalhada, dizendo que nunca tinha conseguido pegar peixe nenhum com ela e que amanhã ia consertar os estragos, nunca chegando esse amanhã? E a casa velha caindo aos pedaços e a nova só com as paredes, porque, depois de ele ajudar a construção das casas dos outros nos mutirões, ninguém queria ajudá-lo no seu mutirão, dizendo que apareceriam no próximo domingo, só que esse domingo era sempre depois do sábado da outra semana? E o peixe, que, nos poucos dias de chuva leve, parecia que tinha ido passear na América do Norte e nunca mais daria a ousadia de morder a isca de um homem da terra, preferindo os anzóis dos veranistas, em suas lanchas de milhões de contos de réis? E as sete meninas, todas garantindo que viriam amanhã da Bahia para comemorar os cinqüenta anos de Astéria, ele sem dinheiro, a casa com mais goteiras do que um cuscuzeiro, a vida derrotada, derrotada, veja como são as mulheres, por melhores que sejam, veja que hora ela foi escolher para fazer cinqüenta anos!

Sabendo-se que, quando o urubu está de azar, o de baixo caga no de cima, besta foi ele, em achar que no Mercado ia passar algumas horas mais ou menos em sossego. Logo na passagem para a tenda de Inocêncio, Lindomar do Açougue, embora com a fina educação de sempre, encostou a banda de uma lambedeira do tamanho de um remo na barriga dele para lhe chamar a atenção e ponderou que, os preços da carne subindo mais do que os foguetes da festa de São Lourenço, estava tendo grande prejuízo com as contas atrasadas. Só de cabeça assim, lembrava que João Grande lhe devia seis quilos de chupa-molho, quatro quilos de rabada, quatro quilos de sarapatel e pelo menos uns cinco quilos de bucho de boi, brincando, brincando, era uma dívida vultosa e, sem querer ofender e absolutamente com todo o respeito, necessário se tornava achar uma solução. João Grande desencostou a faca da barriga, pigarreou muitíssimo, elogiou Lindomar em belos termos e se referiu a uma transação comercial secreta cuja existência, confidencialmente, revelava ao amigo, na qual ganharia para mais de cem contos, parte deles, naturalmente reservada para o pagamento daquela dívida sagrada, não pensasse que ele havia esquecido, jamais esquecia suas dívidas, saíra ao pai, o finado Bento Grande, que morreu pobre, mas sem dever um tostão. Lindomar agradeceu os elogios, mas lembrou que o finado, certamente por distração, lhe deixara uma conta de chupa-molho, em moeda antiga, que ele nem sabia mais quanto valia. Mas está certo, disse Lindomar, eu espero mais uma semana, e deu uma pancadinha amistosa com o lado da lambedeira na barriga de João Grande, que sorriu e foi saindo, mas não se sentia muito tranqüilo, ao chegar à tenda de Inocêncio, coçando a barriga e suando um pouco.

Inocêncio este, que, também educadíssimo como sempre, disse que, infelizmente, não podia mais manter o crédito de bebidas e cigarros a retalho, que o compadre procurasse compreender a situação do homem de negócios na difícil conjuntura atual, não era uma coisa pessoal, era uma questão de princípio, afinal tratava-se de mais de seis dúzias de doses generosas de cachaça, fora as de quebra, e mais de quarenta cigarros, para não falar nas duas porções de lingüiça frita e na lata de salsicha aberta naquele dia em que o compadre achara que ganhara no bicho, mas se enganara. Paciência, paciência, o compadre seria sempre bem-vindo à mesa de sua casa de morar, mas não na casa de negociar, embora, como prova de estima e boa vontade, lhe ofertasse meio copo de cachaça, mas era só, princípio é princípio.

Menos mal, o copinho de cachaça que, um pouco sem graça, começou a bebericar devagarzinho, em lugar de engolir tudo de vez, como faz o verdadeiro homem. Aproximou-se do dominó, onde sabia que sua habilidade era respeitada. Respeitada sim, como logo confirmaram os parceiros, mas desta vez o jogo era a dinheiro e ele, coçando de novo o lugar da barriga onde Lindomar, com tanta educação, encostara a faca, disse que o jogador de respeito não joga a dinheiro, é uma desonestidade, o equivalente a tomar dinheiro dos amigos menos dotados, uma covardia—e se encostou para apreciar de fora, com seu melhor sorriso de superioridade, o desenrolar das partidas.

Partidas essas jogadas, entre outros, por Murilo Porco, hoje residente de um belo bangalô de chão todo forrado de lajotas, nenhum aposento de chão batido, lajotas que, no mutirão, João Grande havia tanto carregado, com o dono da casa sequer uma cerveja oferecendo aos colaboradores; por Divino Beiço, igualmente residente de casa até com frisas em cima da porta e das janelas, igualmente erguida com sua ajuda no mutirão; por Bom Cabelo, igualmente orgulhoso senhor de casa igualmente equipada, até com descarga de botão na sentina, que ele mostrava às visitas, omitindo que a roubou de um veranista e a instalou com a ajuda de amigos com conhecimento de encanamento, como João Grande; por Piolho Doido, igualmente proprietário e igualmente auxiliado no mutirão, agora cobrindo a casa de finos azulejos e exibindo prosperidade no anel que não cessava de ostentar a cada pedra de dominó que tamancava na mesa; pelo sacana do Passo Preto, todo monarca, canino de ouro comprado com o dinheiro que ganhara no empréstimo da canoa, fingindo que não o via e jogando notas de mil fora como um deputado federal na eleição; e, finalmente, Diderô Calça Pintada, anelzão de ouro no dedo, charuto de caixa na boca e todo perfumado, aproveitando que sua dupla saíra no jogo numa rodada, para, dando-lhe uns beliscõezinhos no braço e umas dedadazinhas no peito, lembrar que a correção estava subindo, o paralé tinha disparado e o betenê já sumira na distância, de maneira que a coisa estava preta, a dívida tinha quase dobrado, a coisa estava muito preta mesmo, podia esperar pagamento amanhã, como sem falta?

Felizmente a chuva passou um pouco e ele, depois de chegar a espremer o copo para ver se não saía mais cachaça, declarou que ia aproveitar a estiada para resolver alguns negócios. Não tinha nenhum negócio a resolver, naturalmente, e andou pelo cais até o Jardim, sentou num banco sem ligar para os fundilhos que se molharam, pensou muito na vida e se distraiu, imaginando que era um peixe graúdo navegando pelos mares, muito longe dali. Nem notou a chegada da noite, nem reparou que se levantou sem pensar e caminhou de volta à casa devagar, para chegar e encontrar Astéria carrancuda mas calma, muito mais calma do que esperara, e então comeu de mão o pirãozinho de azeite com moqueca de ovo que ela tinha guardado para ele, ajudou a afastar a cama da goteira nova que apareceu quando a chuva voltou e, porque Deus é grande e tem pena do pequeno, dormiu como nunca esperara dormir, para só acordar já dia claro, na manhã seguinte.

É, Deus é grande, mas grandes também são os pecados do homem, assim como seu castigo, de maneira que, mal deu oito horas, um solzinho fraco se espremendo entre as nuvens como quem vem mas não vem, ele estava sentado no batente, pensando em que talvez pudesse vender a canoa e se aliviar mais uma semana ou duas, quando aquele farrancho colorido de mulheres, cada qual mais gorda e dobrada do que a outra, virou a esquina e, no meio de uma barulheira que parecia que o Governador ali tinha arribado com todas as suas comitivas, Domingas, Secundina, Tercina, Quartina, Quintina, Sextina e Sabatina, as caras tão assemelhadas quanto as de mabaças, as roupas estampadas tão iguais como nos blocos de carnaval, as vozes tão fortes como as das cantoras do rádio e as saias mais rodadas do que panos de saveiro, o cobriram de abraços que quase o matam e invadiram a casa.

Invadiram a casa é modo de dizer, porque pareciam que iam derrubar tudo naquele assanhamento, até que se juntaram em redor de Astéria como abelhas numa rapadura e aí começou. Primeiro, os presentes elétricos. Tercina, muito bem-casada com um alto barraqueiro de frutas e legumes, trouxe um liqüidificador moderníssimo, cheio de botões. Secundina trouxe um lindo abajur vermelho e branco. Sextina trouxe um rádio, Sabatina uma maquinazinha de costura com motor e por aí foi, parecia um bazar. Mas ele, mordido de cobra, sentiu logo que aquilo não podia dar certo. Porque Astéria, mesmo agradecendo os presentes, torceu o nariz e suspirou: tudo muito bonito, tudo muito bom, mas não tinha nem que fosse uma banana para liquidificar, nem um pedaço de chita para costurar, só uma tomada para ligar o rádio e o abajur, assim mesmo molhada da chuva e soltando umas fumacinhas de vez em quando, para não falar que daí a uns três dias iam cortar a luz por falta de pagamento.

Ele ainda quis dar uma risadinha e entrar com uma história de que a situação era passageira, que o dinheiro da aposentadoria, pouquinho porém seguro, estava atrasado mas ia chegar logo e isso e aquilo, mas, quando viu as cabeças daqueles rnulherões todos se levantando do círculo que tinham formado em torno da mãe e aqueles quatorze olhos miudinhos parecendo umas verrumas lhe furando e aquelas sete beiçolas estendidas em sua direção e Domingas, a maior de todas, marchando para ele dizendo "coitada de Mãinha, coitada de Mãinha", resolveu parar onde estava, dar meia-volta, falar que ia ali e já voltava e sair mais do que acelerado, na direção da bodega de Guto Javali, onde talvez ainda tivesse crédito. Bem verdade que Javali vendia pouco mais do que cachaça e fumo de corda, mas para ele era suficiente, naquele transe.

E, de fato, Javali, que a essa hora já tinha provado sua mercadoria principal algumas vezes, não lhe negou crédito e até o recebeu alegremente— e por aí se vê como o Destino traiçoeiro enfeita as coisas, para depois dar mais um golpe. Porque a bebida rolou farta na bodega, a conversação se tornou vivaz e otimista e tudo passou a parecer tão melhor que, pouco antes do meio-dia, o juízo leve, o peito transbordando confiança e o andar altivo, ele decidiu voltar para casa. Certo que não havia muita comida, mas as três galinhas poedeiras também podiam servir para comer, já estavam ficando velhas de qualquer forma e botando cada vez menos, também não era assim, o negócio não estava tão ruim assim—e ele sentiu falta do tempo em que tinha dentes, para poder assoviar uma bela melodia.

Mas que barulho de lataria era esse, saindo de casa, como se alguém estivesse demolindo um automóvel lá dentro? Astéria estava chutando o balde outra vez? Não, não podia ser, soava como um time de futebol disputando o balde dentro da área, não podia ser só ela. Sentindo uma súbita palpitação, resolveu se aproximar com cautela e foi a salvação, porque, um instantinho antes de poder enfiar a cara na janela e dar uma espiada para dentro, o balde, mais parecendo que um elefante tinha sapateado em cima dele, saiu voando através dela, seguido por uma sucessão medonha de gritos e palavrões e a cara descabelada de Domingas.

—Ah!—gritou ela, quando o viu.—Ah! Voltando cheio de cana para almoçar, não é? Para comer a comida que o senhor deixou aqui, não é? Aqui não tem comida nenhuma, aqui só tem essa casa despencada, nem nos cinqüenta anos de Mãinha o senhor resolve alguma coisa! Nós vamos levar Mãinha para almoçar na pensão e o senhor não vai chegar nem perto! É isso mesmo, não vai chegar nem perto! Que vergonha, minha Nossa Senhora, ai minha Nossa Senhora, que vergonha, os cinqüenta anos de Mãinha, que vergonha! O senhor vai ter coragem de entrar, vai? Vai ter coragem?

Apesar de dispostas e despachadas, as meninas, muito menos Domingas, que o que tinha de grandona tinha de coração mole, nunca falaram assim com ele, nunca faltaram com o respeito devido ao homem da casa. Que teria havido, que calamidade repentina era aquela? Uma olhada para dentro da casa lhe deu a resposta e o encheu de terror. Sim, não havia dúvida, era patente por aquelas caras transtornadas e pálidas, pelas saias amarfanhadas, pelas cusparadas, pelas mãos esfregando as barrigas, pelos gritos, gemidos e grunhidos, era mais do que claro, Senhor dos Desgraçados! Certamente fora alguma coisa da lua, alguma conjuminação dos astros e espíritos maus, obra do Cão, agora correndo solto no meio-dia, sua hora preferida de atentar, pois a terrível, a apavorante verdade era que, sabe lá Deus como, os bois de todas chegaram juntos em mortal harmonia, ali estavam eles, oito dos bois mais ferozes que jamais acometeram uma mulher, e ele no meio, logo ele, que nunca fora vaqueiro, nem nunca admirara essa profissão.

Ainda pensou em falar nas galinhas e mostrar os dois quilos de farinha que pegara fiado na bodega de Javali, e respirou fundo para falar alto e impor sua autoridade, mas Domingas deixou a janela para ir buscar o balde no outro lado da rua e ele pôde divisar os olhos injetados de Astéria, espichada no fundo da sala com um saco plástico cheio de água quente em cima da barriga e uma cara ainda pior que a das filhas. Não, não, existe um limite para o que o homem tem condição de suportar. Se fossem apenas mulheres, nenhum problema, pois um homem decidido pode enfrentar quantas mulheres apareçam, ainda mais uma sendo legítima esposa e as outras filhas registradas, com obrigação por lei de levar porrada do marido ou pai, mas esses oito bois eram demais, elas que ficassem com seus bois e seus berreiros, já que era assim ficassem com seus bois e sua falta de educação e seus problemas sicológicos. Já que o mundo se voltava contra ele, ele se voltava contra o mundo.

E foi com uma certa pressa, embora digna, que largou o saco de farinha no parapeito da janela, sem olhar para trás nem quando ouviu o saco, jogado por uma delas, caindo junto a seus calcanhares, e desceu a ladeira sem saber para onde ia, a não ser que era para uma distância segura daquele estouro de boiada. Fatalidades, fatalidades, é uma boa mulher, são sete boas meninas, mas de vez em quando precisam de uma lição, talvez agora se dessem conta da falta que ele fazia. Sim, ia fazer falta, ia fazer muita falta, porque não voltaria para casa tão cedo, havia muitas tocas neste mundo onde podia se enfurnar, havia quem gostasse dele, era isso mesmo, havia quem gostasse dele.

Havia, sim, mas não tantos como pensava, porque, quando pegou uma ponga na canoa de Sempre Certo e desembarcou duas horas depois no Baiacu, as portas não estavam abertas da maneira esperada. Compadre Basílio, adoentado de uma moléstia que pegava, falou com ele com um lenço na boca e muito preocupado em não lhe passar a doença, não, não era maluco de hospedá-lo, não queria ameaçar a saúde de um compadre tão querido, sua casa agora era um perigo mortal, por que não procurava o compadre Romário? O compadre Romário fez grande festa ao vê-lo, mas observasse como estava a situação, casa de dois quartos, um com a parede toda brocada, três filhas prenhas, duas fazendo tudo para emprenhar, cinco meninos ainda mijando nas esteiras, a mulher virada num cação por causa de uma aventurazinha boba, aliás o compadre João não tinha uns dois ou três mil para emprestar-lhe até sábado? E por aí ele foi, de compadre em compadre e de amigo em amigo, até que Simão Feitor lhe arranjou uma bendita de uma rede no telheiro da antiga casa de dendê e, mesmo com cobras cipó se esgueirando entre as palhas por cima do nariz dele, muriçoca como poeira e tudo mais, que bela maneira para o homem viver! Liberdade, muito ar puro, muita Natureza, apesar do problema da pouca comida, porque logo enjoou dos siris e sururus cozidos na água do mar que comeu inicialmente e passou dias somente chupando uns cajuzinhos temporões e umas duas carambolas. Mas nem isso foi de todo ruim, porque, se a fome de início lhe rendeu umas tonturas e umas fraquezas, terminou por lhe depurar o corpo e o espírito, eis que um belo dia, depois de uma noite em que pouco dormiu e muito meditou, amanheceu leve e tranqüilo, um novo homem, um homem inteiramente novo. Sentia-se livre de preocupações mesquinhas e interesses que no fundo não levavam a nada, perdera qualquer ambição material, sim, agora era mesmo o relâmpago, que brilha só um instante, mas brilha, enquanto a nuvem escurece e a chuva molha. Viveria como um beato, um santo solitário, não precisava de nada além de um canto para se encostar e duas ou três migalhas par comer, coisas fáceis de achar, até mesmo no adro da igreja de São Lourenço, na boa companhia de mendigos e loucos mansos.

Ao voltar do Baiacu nesse mesmo dia, não queria descer no Mercado, não queria ver nenhum dos velhos amigos e conhecidos, mas não teve jeito, porque o saveiro que o transportou só parou lá. Desceu disfarçadamente, mudando o jeito de andar e puxando o chapéu para cima dos olhos, e já achava que tinha conseguido passar despercebido no burburinho da manhã de sábado, quando um dedo lhe cotucou o ombro e, ao se virar, deu com o rosto sorridente de Passo Preto, embora no sorriso se notasse que faltava o dente de ouro. Que queria o sem-vergonha? Se pensava que ia tripudiar, se pensava que ia humilhar ou provocar súplicas de pagamento, estava muito enganado, ele agora era um homem superior, muito acima dessas coisas.

Mas, muito surpreendenternente, Passo Preto não queria humilhá-lo, queria homenageá-lo. Sim, que preocupação que tinha dado a todos com sua ausência inesperada, um homem tão estimado não devia fazer aquilo com os amigos e a famí1ia, chegava a ser crueldade. Já tinha passado na casa nova, agora precisando apenas de pequenos acabamentos e com D. Astéria confortavelmente instalada?

João Grande precisou se segurar na castanheira da frente do Mercado, para não cair. Casa nova, que casa nova? Se Passo Preto estava pensando em gozá-lo, podia desistir, o que vinha de baixo não o atingia, agora desse licença, ele precisava ir embora, tinha mais o que fazer do que ficar ali ouvindo lérias. Mas que lérias, homem de Deus, então não sabia nada do que havia acontecido? Não sabia que, na sua ausência, Murilo Porco, Divino Beiço, Bom Cabelo, Piolho Doido, o próprio Passo Preto e seus respectivos filhos, parentes e aderentes haviam organizado um mutirão fulminante para a conclusão da casa e, em poucos dias, tinham terminado praticamente todo o serviço? E que, como cortesia adicional, aliás obrigação sua há muito injustificavelmente adiada, a canoa estava agora toda calafetada, de pano e remos novos, quase como se tivesse acabado de ser feita? Realmente parecia que havia muitas novidades que João desconhecia e ele fazia questão de contá-las, nada como o prazer de dar boas notícias aos amigos, por que não tomavam uma cerveja juntos, por sua conta, claro, para pôr os assuntos em dia?

Segurando o queixo, balançando a cabeça e tão nervoso que quase não conseguia ficar sentado, João ouviu a narrativa de Passo Preto. Bem, em primeiro lugar ele gostaria de expressar sua admiração e respeito pelas meninas de João, excelentes meninas, filhas exemplaríssimas, de maneira que se numa palavra ou outra, ele estivesse parecendo que não as tinha em altíssima conta, isso devia ser relevado, porque realmente as admirava muitíssimo. Mas é que, para contar o que elas fizeram a partir do dia em que João tinha tomado aquele sumiço, talvez fosse necessário usar algum termo mais forte, que tivesse assim mais poder de descrição. Por exemplo, somente a palavra mula, com todo o respeito, podia descrever a força daquela mais velhinha, como é o nome da desgraç..., da menina? Domingas, pois é, Domingas. Domingas, não é? Pois é, fortezinha, fortezinha e bastante disposta, uma beleza de moça.

Pois é, continuou Passo Preto, nesta vida cheia de imprevistos, ele tinha resolvido gastar parte do dinheiro que tinha ganho no dominó com um almoço fino, no restaurante da pensão, assim um macarrão com feijão reforçado e moqueca de camarão graúdo, saladão de alface, ovos estrelados e mal-assada, com sobremesa de goiabada e queijo de cuia, afinal havia lucrado bastante no dominó e desta vida só se leva a vida que a gente leva, hoje vivo, amanhã morto. Mas, quando chegou ao restaurante, aquelas caval..., as meninas também estavam chegando, junto com a mãe e, apesar de ser almoço de aniversário, ninguém estava com a cara muito contente, pelo contrário, estavam todas com umas caras de jararac..., estavam com as caras, vamos dizer, um bocadinho malsatisfeitas. Procurara ser discreto e cortês, mas elas nem mesmo responderam, quando ele levantou o chapéu em saudação e lhes dirigiu um cordial "como passaram?". E tinha certeza que nenhuma delas estava sequer se dando conta da presença dele até que, mal tinha metido o garfo no primeiro prato de macarrão com feijão, ouviu D. Astéria—bela senhora, bela senhora, ninguém pode dizer isso assim dela—falar "esse daí é um", e a primeira coisa de que se lembra depois é ter sentido uma mão de mais de cinco quilos lhe apertar a nuca que quase o aleijou, ter olhado para trás e ter batido de cara com Domingas, em pé atrás dele, a mão que não estava em sua nuca fechada um pouco acima da cabeça dela. Não queria desfazer da educação das meninas, todas educadíssimas e finíssimas, mas talvez pudesse oferecer algumas críticas ao jeito com que ela o tratou, pois não teria custado nada ela aceitar o convite dele para que sentasse à sua mesa e conversassem com calma. Não foi possível, porque ela estava um pouco nervosa e as outras também. Bem, para encurtar a história, elas lhe fizeram ver que não ficava bem aquele negócio da canoa arrendada sem lucro, que era necessário corrigir algumas coisas etc, etc. Está certo, dissera ele, depois do almoço eu cuido disso. Não, disseram elas, antes do almoço. E não foi por medo delas, foi por consideração, que ele deixou o macarrão, deixou a salada, deixou tudo e foi com elas ver a canoa e tomou as providências imediatamente, no que, aliás, tinha incorrido em grandes despesas e alguns transtornos. João estava notando a falta do dente de ouro? Pois é, quando os serviços na canoa ultrapassaram em muito o orçamento inicial e ele alegou falta de caixa para completá-los, Domingas mencionou o dente de ouro—aliás eram dois, tinha um atrás também, que antes ninguém via e agora nunca mais vai ver. Inicialmente, ele se recusara a negociar o ouro dos dentes, talvez pudesse haver outra solução, uma ampliação do prazo, qualquer coisa assim. Mas as meninas, João conhece as meninas, meninas ótimas mas um pouco impacientes, insistiram. Não, argumentara ele, não tenho tempo de ir no dentista, mas Domingas e Tercina disseram que, nesse caso, cuidariam elas mesmas da extração, de forma que, novamente por uma questão de consideração, ele preferiu ir ao dentista e entregar os dentes em perfeito estado, coisa que poderia não ocorrer se a extração fosse feita por elas, afinal são muito prendadas, prendadíssimas, mas podiam, talvez, não entender muito de extração de dentes, um dentista é sempre preferível, nesses casos delicados.

E, sim, que meninas extraordinárias! Nesse mesmo dia, enquanto Domingas e Tercina, sem largar do pé dele, se certificavam de que as providências da canoa corriam da melhor forma, as outras saíram procurando Murilo Porco, Divino Beiço, Bom Cabelo e Piolho Doido, rapazes ótimos, mas um pouco folgados, que não por mal não cumpriram antes seus deveres de mutirão e sim por um esquecimento ou outro, tão comum na agitada vida moderna. Mas, assim que as meninas refrescaram suas memórias, foi com muito prazer que, nesse mesmo dia, puseram mãos à obra de maneira mais do que entusiástica, uma coisa linda de se ver, entre episódios tocantes, como Divino Beiço, que de início relutou um pouco em trabalhar, carregando baldes de argamassa com o braço destroncado, destroncamento este acontecido por infeliz acaso, na hora em que Quintina estava argumentando com ele para que fosse trabalhar e se exaltou um pouco.

E mais muitos e muitos acontecimentos se desenrolaram nesse dia e nos subseqüentes, notadamente os encontros de negócios que as meninas tiveram com Diderô Calça Pintada, no primeiro dos quais, como é natural, ele resistiu ao argumento de que não era João quem devia a ele, mas sim, o contrário. Aliás, resistiu tanto que, quando Domingas o segurou pela gola e o levantou do chão para demonstrar sua razão, quase comete a insensatez de reagir, mas o anjo da guarda dele é forte e ele não reagiu e em vez disso aproveitou um momento de distração dela para correr e se trancar dentro de casa, onde ficaria o resto da vida, se as meninas—meninas inteligentíssimas, umas pérolas—não tivessem tido a idéia de chamar para a ilha os auxiliares do marido barraqueiro de Tercina, todos carregando uns porretes que eles usam para não deixar os cachorros mijarem na mercadoria da feira, os quais, verdadeiros diplomatas, convenceram Diderô a fazer nova reunião de negócios com as meninas, reunião esta em que ele, muito constrangido e pedindo sinceríssimas desculpas, lembrou que seu nome era o de um grande sábio francês cujo exemplo sempre procuraria honrar e que esse sábio francês não deixaria de notar os enganos involuntários cometidos em suas contas, claro, claro, havia um erro, errar é humano, quem devia era ele, ali estavam o betenê e dola paralé que não o deixavam mentir, de maneira que devolvia o recebido sem razão e ainda pagaria as contas do açougue, porque isso lhe saía mais em conta, já que Lindomar Açougueiro, como todo mundo, também lhe devia uma certa quantia.

Pois é, disse Passo Preto, o amigo não gostaria de outra cerveja? Fazia questão de solidificar uma amizade tão sólida e tão vitimada por mal-entendidos, ainda mais agora que as meninas haviam anunciado que, toda semana, uma delas passaria o sábado e domingo com os pais, para matar saudades e verificar o andamento dos acordos e negócios que haviam tão bem encaminhado, belas meninas, filhas de dar inveja a qualquer um—João Grande sabia que era um homem abençoado?

Sabia, sim, como lembrou orgulhoso, parando para aspirar o perfume dos jasmineiros no caminho de sua nova casa e ver como o céu estava mais azul do que nunca, as nuvens eram claras e a chuva que viesse seria tão bem-vinda quanto o relâmpago que viesse, uma fecundando a terra, outro enfeitando a terra. Era um homem abençoado, sim, um homem de sucesso, um homem que agora colhia os frutos de seu correto viver, cheio de lindas filhas e com mais linda esposa, Deus é grande, Deus é bom, havia premiado sua paciência e seu sofrimento, por via daquelas mulheres. Sim, tinha de reconhecer, as mulheres o tinham ajudado em seu caminho para a vitória, sozinho não teria sido tão fácil. As mulheres têm o seu valor, pensou, já descortinando o telhado vermelho de sua nova casa no alto da ladeira e já antecipando abraçar Astéria, agora para sempre livre do boi e tão boa como sempre fora, esperando-o numa casa sem goteiras e cheia de belas tomadas elétricas. É, pensou ele, a mulher tem o seu valor, mas, se não fosse o homem, a mulher não paria, e parir é o valor da mulher, é ou não é?


The best race

A tie is not good enough for someone who defends his own country even if this country ties him up. Honorino is already killing himself because now besides the American there is a Japanese following each one of his steps. They don’t catch a thing, but they annoy you, and as everybody knows the Japanese never get tired.

João Ubaldo Ribeiro

Sabe-se que o estrangeiro, ao jogar futebol, ataca o balão de couro como se fosse inimigo. Há quem diga que o joelho empedrado é natural do gringo, variando uma besteirinha de acordo com a espécie. Isto devido à comida que eles comem, que é muito melhor do que a comida que o brasileiro come, com exceção de que o joelho fica empedrado. Porém a comida dá enormes sustanças e além disso eles usam foguetes e o raio leise. Ninguém me diga que a Hungria não usou o raio leise em cinqüenta e quatro, quando eles davam de 11 a 8 e 19 a 15 e 48 a O em quem aparecesse, eles não facilitavam. Disse seu Góes, que não esteve nessa copa, aliás não esteve em copa nenhuma, mas esteve com Pongó que o primo esteve nessa copa, que eles vinham lá de baixo do campo parecendo uns cavalos, tudo falando hurunguês e dando aqueles passes de joelho empedrado, situque-situque. Pela cara de abestalhado que eu vi numa revista, pela cara de abestalhado que ficou um beque, quando esse cabeceador pulou de um jeito que quase amunta nas costas do beque e olhe que o beque tinha subido e era maior do que Chico do Correio, a gente via que o beque só podia estar estontecido pelo leise, eles usam todos os recursos, a copa é uma guerra. No Brasil mesmo enfiaram 4 a 2, se não me engano, assim mesmo porque o comprido cabeceador deles não estava cabeceando bem naquele dia, visto que o americano foi lá e roubou o leise e ficou com a invenção para ele, mas não quero saber dessas coisas porque não suporto política. Estólei Mattos, o grande ponteiro inglês, enfiou uma bola pelo meio das pernas do Nilton Santos, coisa que só foi possível porque o inglês guarda o segredo do espitifaire, aeroplano que derrotou o alemão na guerra, em razão de que continha o segredo da bomba atômica—em inglês, espeito-faire, bomba atômica. Essas coisas, quem sabe esperanto sabe. Nesse dia de Estólei Mattos, Gilmar pegou dois pênaltis, naturalmente porque a bomba atômica também fez efeito nele, isto devido que ele sempre se vestiu à inglesa e isto influi. O alemão ganhou em cinqüenta e quatro porque primeiro quebraram a canela do grande Purcas e também o cabeceador deles, se não me engano Costas, ainda estava zonzo com o roubo do leise e explicaram a ele que iam mandar o time todo para a Libéria, que é para onde eles mandam time russo que perde na copa. Toda copa tem um time russo na Libéria, só não teve nesta última, porque os russos não foram para a Argentina, menos porque não concordam com o governo da Argentina, que dizem que não pode ver um russo que não meta logo na cadeia por questão de prevenção, do que porque nenhum jogador de lá quer ir para a Libéria. O que mais se joga na Libéria é futebol. No inverno, faz frio que as partes de baixo vão encristalando, encristalando que quebra tudo igual a pedra. Razão por que o russo fugido fala fino, senão repare. No verão, faz um calor péssimo e eles todos andam de camelo. Para conhecer essas coisas todas, é preciso ter viagem. Ou então ler e prestar atenção nas conversas ilustradas. O homem da Hungria não é russo, mas tem bastantes russos no lugar onde eles moram, de forma que, quando eles dizem quero me mudar, vem o russo e diz não muda nada aí. Tudo isso são políticas internacionais. O russo que marcou Garrincha em cinqüenta e oito está na Libéria até hoje e conta o povo que todo mundo que passa cospe na cara dele. Aliás, deles, porque quem marcou Garrincha foram sete e todos os sete estão lá com o povo todo cuspindo na cara deles e dizendo tavares-tavares, que é mais ou menos vá sentar num birro de chuteira na língua deles. Pelo menos dois eu sei que botaram para marcar Garrincha de sacanagem, porque todo mundo sabia que não podia ser, mas os outros cinco o pessoal de lá botou na esperança. Tinha uma medalha de heróis do socialismo para quem marcasse Garrincha e segurasse, mas ninguém ganhou.Essas coisas eu estou falando para mostrar que não desconheço o que estou falando, quando estou falando sobre o futebol ou sobre esse problema ocorrido com os americanos e os japoneses. O time aqui forma no dabliú-mê, o povo aqui ainda não adotou essas viadagens, aqui é um goleiro, dois beques, três ralfes e cinco linhas, como sempre foi. Então nós alinhamos Chupeta, Cremildo e Didi. Poroba, Bertinho e João Baguinha. Geraldo Tuberculoso (conhecido pelo vulgo de Tubério, mas ele não gosta), Pingüim, Delegado, Jonga, Digaí e Honorino, este na reserva de qualquer posição, ou então se resolvessem fazer baba de doze. Tem críticas porque nesse time escalamos dois tuberculosos, que são Geraldo Tuberculoso, como o nome indica, e João Baguinha, que pegou a tuberculose e o apelido pela mania de ficar catando baga de cigarro no chão e fumando. Mas Geraldo é amarelo assim mas é o sive ele mandou buscar uns matos especiais para servir ao povo da comitiva e esses matos são tudo os olhos da cara. Também ninguém capina mais, justiça seja feita, mas também contamos com os jegues, que fazem um serviço mais ou menos, só não fazem no meio das pedras. Está uma situação assim—nem ele paga nem ninguém capina, ainda se aqui se comesse capim como o pessoal da cidade até que ia ser melhor. Para quem viu o almoço do prefeito, estava tudo nojentíssimo, até papas brancas tinha misturado com os bifes e a mulher de Antenor da Bodega, que é vereador, ficou com vergonha de comer na frente daquele povo todo, também a mulher de Antenor—cala-te, boca, mas por aí se vê que quem nasce para vintém nunca chega a derréis, não estou dizendo nada.Os gringos chegaram de uniforme vermelho e o São Lourenço entrou de camisa amarela e calção variando um pouco, porque o prefeito esqueceu de pedir calção também, mas é mentira que Poroba jogou de cueca, isto espalham os que não se conformam com a vitória, os entreguistas. Esses calções a maior parte nós conseguimos quando passou uma gente aqui do programa da rua do lazer, mas ninguém ligou para a rua do lazer, que aqui qualquer uma é, e então eles deixaram esses calções aqui, uns dois ou três já tendo virado calçolas, pois o que tem de mulher descalçolada nestas bandas é mais do que abóbora quando a terra baixa molha, e o marido se torna desassossegado se a mulher está desprevenida, não fica bem. De forma que esses calções do lazer umas mulheres pegaram e usaram de calçolas e já estavam acostumadinhas, teve dificuldades na coleta.

A situação do time não ficou boa logo na saída, porque, se você já viu japonês fazendo qualquer coisa, você sabe como é. Japonês, você diz uma coisa a ele, ele acredita. Então esses japoneses acreditavam em todas as coisas que diziam a eles e aí saíam todos de bolo, menos o goleiro que também era japonês, e quatro americanos que também estavam jogando. Os americanos davam bicudas. Porém eram bicudas de americanos, cada bicuda da porra. Chupeta dá na direita para Cremildo, com aquela intenção de que ele devolva, que é para execução das piruetas que fazem os profissionais, nisso quando seu Cremildo escorrega, porque não está acostumado com chuteiras e aí chegam uns duzentos mil japoneses, tudo chutando para a frente, tudo zumbindo e dando uns grunhidos de japoneses. Um japonês adentra a grande área, gritando como uma jega deflorada, com outro japonês um de cada lado e prepara a zorra para cima de Chupeta, que essas alturas está xingando a mãe de Crernildo, que é irmã da mãe dele e isso já rende complicação na família, porque Nascimento, marido da irmã da mãe dele, era bandeirinha e passou o resto do jogo dizendo se aquele filhodaputa não fosse goleiro toda vez que ele pegasse na bola eu marcava ofiçáide. Nisso chega seu Didi, que era beque porque tinha as canelas grossas e tinha quebrado a clavícula de Caetano com uma calcanhada e nem conversou: caiu de dois pés no joelho do japonês. O japonês apagou, porque, se você nunca viu um elefante, você nunca viu Didi, e então o japonês deu aquele uai de japonês, cambalhotou três vezes e caiu parado. Nisso seu Cremildo, que ficava desresvalando nas chuteiras, levanta a cara e passa um japonês na carreira e dá um chute na cara de Cremildo, que mais que depressa corre atrás do japonês e, não tendo como pegar, pega o japonês pelas pernas e dá uma dentada nele, no que o japonês se vira e dá um golpe de jojitso em Cremildo e Cremildo quase ficou sem nariz, quando bateu numa jaqueira que está assim do lado do campo, todo mundo conhece. João Baguinha quis puxar as pernas do japonês que Didi tinha acertado, mas chegou um americano e segurou João Baguinha pelo cabelo e parece que ia até dar uma bicuda em João Baguinha, quando entraram no campo o prefeito e a comitiva e então tudo se organizou, mais ou menos com meia hora de trabalho. Teve um americano que ficava dando sorrisos o tempo todo e abrindo os braços, porém foi vaiado.

Quando chegou o fim do primeiro tempo, a situação não estava boa para a nossa agremiação, apesar, verdade seja dita, de que não se usou qualquer daquelas armas secretas, que se saiba. O juiz marcou pênalti na jogada de Didi contra o japonês e Chupeta defendeu, nem ele até hoje sabe como. Mas eu sei e Bertinho, chamado Bertinho-Pinico, por ter umas manchas na cara escritinho aquelas manchas de ferrugem que dá em pinicos velhos, também sabe, porque foi Bertinho quem encarcou a bola na marca, afundando bastante, de maneira que o americano que cobrou o pênalti deu uma bicuda para o chão. São recursos do jogador de experiência e Bertinho já jogou até em Alagoinhas, quanto mais. Mas assim mesmo os gringos enfiaram dois na gente, um de japonês e outro de americano, sendo que nesse Chupeta quase sai de baixo, porque o americano chutou que parecia que queria lançar um satélio no espaço, só que esse satélio ia na direção de Chupeta, como de fato foi. Se tivesse rede, furava.

Tubério, que não estava bem, por causa da marcação homem a homem do beque americano, nós substituímos por Honorino, com a missão de chegar na linha de fundo e centrar para Jonga ou Delegado subirem na cabeçada, visto que a zaga americana não sabia cabecear e sempre metia a cara na bola e relava o nariz todo e a zaga japonesa gostava de meter a mão na bola, quando ela subia demais. O problema era o goleiro japonês. O homem era o cão, o que tinha de pequeno tinha de abusado e só ia na bola fazendo ará-ará e outros gritos, com a cara de quem pretendia esfarelar a bola com os dentes, espantava bastante o atacante. Delegado quis mandar pegar um cachorro dele para a torcida iscar no japonês, mas não foi possível, mesmo porque esse cachorro, que se chama Menezes, em homenagem a um coletor que teve aqui, tinha sido preso por pedido do prefeito, pois esse Menezes não somente se ousa com todas as cachorras como também com qualquer perna que aparece e, quando o dono da perna não deixa, ele morde. Então não ficava bem para o bom nome da cidade soltar Menezes. A tática resolvida foi que Jonga e Delegado somente um subia de cada vez, o outro procurando ficar em cima dos pés do goleiro, para não deixar que ele subisse. Possa ser que o japonês não fosse gostar, mas ninguéni estava disposto a tomar lavagem daqueles gringos, o metal é deles, mas o futebol é nosso, é a lei da vida.

O time deles entrou também com uma modificação, que foi outro japonês no lugar do que Didi tinha acertado, que estava todo triste junto da comitiva, com o joelho maior do que a cabeça. Eu disse a Didi que não se animasse, que não ficasse quebrando os joelhos todos do adversário, a não ser quando fosse por providência, que aí todo mundo entende. Pois então Honorino começou a correr pela ponta direita. Honorino não tem assim um controle de bola muito bom, mas ele é especialista em dar um chutão para a frente e sair atrás da esfera galopando acelerado e depois centra. Nessa posição, ele só sabe fazer isso, quer dizer é melhor do que Gil. Honorino então deu uma porção de corridas, mas nem Delegado nem Jonga estavam acertando direito a pisar nos pés do goleiro. Jonga chegou na beira do campo e me disse que o desgraçado ficava sapateando e, quando subia, espalhava os joelhos para os lados e que se ele, Jonga, ainda tivesse dentes, já tinha perdido todos das caqueradas do japonês. Nessa hora foi que nós resolvemos que, quando o goleiro fosse subir, Jonga metia o dedo por debaixo dele, tendo para nós que nem japonês, nem americano, nem ninguém—talvez o francês, que é o povo mais descarado—ia tolerar que enfiassem o dedo nas partes traseiras, isso assim de repente dá um sobressalto em qualquer homem. O jogo até que tinha facilitado, porque Pingüim caiu dentro da área quando ia passar pelo americano que abria os braços e o americano pensou que tinha matado Pingüim e aí largou a bola para ver, quando que Pingüim se levanta ligeirinho e marca o São Lourenço! O goleiro ficou retado, porque o americano atrapalhou na hora da defesa, mas esses problemas de brancos eles resolvem lá entre eles mesmos e Pingüim ainda sacudiu a camisa na direção do americano, essa gente miúda gosta muito de pirraçar.

Mesmo assim estamos perdendo e Honorino já vai dando sinal de que não agüenta mais correr e na defesa temos grande pressão japonesa, no mesmo jeito, tudo de bolo. Felizmente Cremildo já tinha tido permissão do juiz para jogar sem chuteira e cada pontapé que ele dava com aqueles cascos que Deus lhe deu espalhava diversos japoneses e descontrolava o ataque estrangeiro. Poroba também aprendeu a escorar as bicudas dos americanos. De vez em quando, o americano acertava a bicuda em cheio e Poroba calçava e subia com bola e tudo. Mas escorava e esse é o heroísmo do atleta brasileiro, porque, depois do jogo, Poroba passou muito tempo com zumbido nos ouvidos, dos solavancos que ele levava, toda vez que escorava uma bicuda.

Está se vendo que a situação não era boa, mas podia ser notado que o japonês do gol estava cada vez mais aporrinhado com as dedadas de Jonga, inclusive porque Delegado também tirava suas lasquinhas de vez em quando. O japonês fez diversas caretas e foi piorando depois do gol mais sensacional da tarde, que foi Digaí, que até agora não tinha pegado na bola. Digaí pegou a bola solto na ponta esquerda, porque um beque americano foi rebater de primeira e ela espirrou para o lado e o americano ficou carrapeteando sem entender nada. Digaí ficou até meio sem graça e começou a dar com o canto do pé na bola, doido para aparecer alguém para receber um passe, mas—é por isso que eu digo, torcida vale muito—todo mundo começou a gritar "digaí, louro, digaí, louro!" e Digaí ficou mais do que emputecido. Até hoje eu fico pensando se Digaí, que o nome cristão é Juvenal mas só a mãe dele chama ele de Juvenal, acha que aquela gritaria toda vem do goleiro, porque ele parte para cima do goleiro. Quem já quis segurar um maluco atacado sabe como é para segurar Digaí, precisa um destacamento de homens dobrados e mesmo assim com uns porretes. Então seu Digaí faz uma diagonal pelo bico da área e um japonês que cercou ele tomou uma peitada que até hoje aquele japonês não compreendeu e, quando chega bem no bico da área, seu Digaí me dá um cacete que quase a bola fica encaixada no ânglio superior direito da trave do japonês, mas não ficou: bateu no ânglio, voltou, bateu na cabeça do japonês e entrou e sacudiu o véu da noiva, só que não tinha véu, mas também não tinha noiva e gol do Brasil! Carlito Bofe, que estava tomando conta do foguete da vitória, não agüentou e soltou a pamonha, catapriutabum! Marcador igualado e Digaí abraçadíssimo e perguntando cadê meu papagaio, cadê o papagaio, me dê meu papagaio. Esqueci de dizer que o papagaio de Digaí é finado, porque ele enchia a boca de água e barrufava o papagaio para ele aprender a falar, de sorte que deve de ter afogado o bicho numa certa feita dessas, ou então matado de defluxo.

Mas o empate não serve a quem defende o seu país, mesmo quando ele empata a gente. Honorino já está botando os bofes pela boca, mesmo porque, agora, além do americano está um japonês marcando ele. Não pegam, mas chateiam, inclusive japonês não cansa, todo mundo sabe disso. Mas como ninguém marcava João Baguinha, que até agora não tinha feito nada a não ser reclamar do juiz e correr para abraçar quem fazia gol, a redonda acabou sobrando para ele na intermediária dos gringos e ele aí deu um esticão para dentro da área, uma coisa linda, que só se acredita que foi João Baguinha porque se viu. O goleiro deles sai e arma o bote, mas nisso Delegado vem de lá e enfia o dedo na bunda do japonês e o japonês não quis acordo. Revirou o corpo e deu uma pezada na cara de Delegado que Delegado nem catou ficha. Caiu inteiro no meio da área. Temos ai um pênalti claro, mas o japonês avançou para o juiz e disse ele mete dedo no meu trazezo, ele mete no meu trazezo, isto seu Delegado todo estatelado no gramado, com um lado da cara inchado e fazendo careta com o outro. João Baguinha, que era especialista nisso, veio logo esticar as pernas de Delegado, mas ele só se levantou quando disseram que iam aplicar uma injeção e assim mesmo estava meio bambo. Então o juiz botou Delegado para se perfilar assim com as mãos nas costas e disse seu Delegado, o senhor dá a sua palavra de honra de esportista? Dou sim senhor, disse Delegado. O senhor, disse o juiz, dá sua palavra de honra de esportista como não meteu o dedo no traseiro do goleiro adversário? E Delegado não era besta de dizer que não dava, senão depois do jogo ele ia ver onde a gente socava a honra de esportista dele, honra é a da pátria amada que ali a gente está defendendo, eles levam o metal mas não levam a flâmula. Aí o juiz apontou para a marca do pênalti e o japonês quase vira um baiacu de tanto inchar as bochechas, sabe-se que o japonês e o chinês são os povos de maior capacidade de inchar as bochechas. Eu adentrei o tapete verde, com a finalidade de declarar que o São Lourenço não aprovava o tumulto e que ou respeitavam o juiz ou eu tirava o time do campo e considerava o jogo ganho e aí não me responsabilizava pela conduta dos meus atletas, que era tudo rapazes de sangue quente. Eu sei que acabou Cremildo se dirigindo para a marca penal e a última coisa que o japonês viu foi o pé de Cremildo se levantando, porque se tem uma coisa que Cremildo sabe fazer, essa coisa é dar um porrete fixe, desses que a bola entorta. Tive que dar um esporro em Carlito Bofe, porque ele já tinha gasto nosso foguete no gol de empate e o jogo terminando e o time todo se fechando na defesa. Didi aprendeu que, se batesse os pés na frente do gringo que estava com a bola, o gringo se assustava pensando que Didi ia dar um chute nele e soltava o esférico. Vitória do Brasil, ninguém envergonhou a pátria. Muita gente pergunta se, em vez de ganhar no futebol, não era melhor a gente viver bem, igual aos gringos vivem? Isso demonstra ignorância, porque se sabe que ao gringo interessa mais mostrar que a raça deles é melhor, por isso que Hitler mandou matar todos os alemães que não ganharam nas olimpíadas, para não envergonhar a raça. Daí se vê que, ganhando no futebol, a melhor raça somos nós.

Excerpted from Já Podeis da Pátria Filhos, 3rd edition, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1991. The original titles of these stories were "O Estouro da Boiada" and "Já Podeis da Pátria Filhos".


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