CHEFE DE GABINETE
Senhor Ministro, a sua sogra, a Dona Neuza, está querendo falar com o senhor.
MINISTRO
Coloque ela na linha.
CHEFE DE GABINETE
Ela está na sala de espera, Ministro.
MINISTRO
Então manda ela entrar. Tá esperando o quê?
CHEFE DE GABINETE
O senhor Nakamura, vice-presidente da Subaru, tem uma audiência marcada com o senhor para as quinze horas.
MINISTRO
Diz pro japonês esperar lá fora. Manda a sogrinha entrar.
CHEFE DE GABINETE
Sim, senhor Ministro.
DONA NEUZA
Tonico, desculpe eu vir aqui sem avisar. Mas é que eu preciso falar com você um assunto urgente.
MINISTRO
Diga lá, sogrinha.
DONA NEUZA
Hoje de manhã eu estive lá no Centro Espírita da Irmã Cordeiro, em Taguatinga. Eu estava com uma intuição forte, e resolvi me consultar. A Joselina, a chefe do terreiro, recebeu para mim o espírito de um hindu. Acho que era um daqueles gurus, um velho muito sábio.
MINISTRO
E daí?
DONA NEUZA
O hindu mandou uma mensagem especial para você. Ele até citou o seu nome. Ele mandou dizer o seguinte, preste atenção: "Corte o que tiver que ser cortado, mas antes afie bem a lâmina".
MINISTRO
Sei, mas e daí? O que é que ele quis dizer com isso?
DONA NEUZA
Ora, Tonico. Está na cara, não é?
MINISTRO
Não estou pegando...
DONA NEUZA
O déficit, Tonico. Os salários... É pra cortar mesmo.
MINISTRO
O quê? O déficit ou os salários?
DONA NEUZA
Tonico, não complique as coisas. Você sabe muito bem do que eu estou falando.
MINISTRO
Sogrinha, déficit público e salário são coisas diferentes. Tem que saber direitinho o que é que ele quer que eu corte.
DONA NEUZA
Os dois. É pra cortar os dois...
MINISTRO
Tem certeza? Não é melhor a senhora marcar uma nova consulta e perguntar direitinho o que é que ele quer que eu corte?
DONA NEUZA
Os dois, meu filho. Eu garanto... Você quer que eu marque para a Joselina vir aqui amanhã?
MINISTRO
Não. Aqui não. A senhora volta lá e conversa mais com ele. Diga que está muito hermético esse negócio. Peça pra ele ser mais claro. Faça o seguinte: pergunte a ele sobre a política fiscal do Governo. Vamos ver o que ele tem pra dizer.
DONA NEUZA
Política fiscal?
MINISTRO
É, diga só isso. Pergunte a ele assim: "Como deve ser executada a política fiscal do Governo?" Vamos ver se ele é craque mesmo ou se é fajuto.
DONA NEUZA
Pode deixar... Tonico, você se lembra da Zezé?
MINISTRO
Qual Zezé? A Zezé lá do sítio?
DONA NEUZA
Não. A Zezé, filha de criação da tia Dolores. Uma lourinha, magrinha, lembra?
MINISTRO
Sei, que o tio Chico chamava de "lagartixa"...
DONA NEUZA
Essa mesma. Pois é, a Zezé se casou com um rapaz muito bom, um economista, que fez mestrado lá nos Estados Unidos. Ele agora está morando aqui em Brasília, e passando grandes dificuldades, pobrezinho. Não dão valor ao rapaz, sabe? Você não arranjava uma coisinha melhor pra ele não? Veja bem, meu filho, se você não puder, pra mim é a mesma coisa...
MINISTRO
Manda o rapaz aqui.
DONA NEUZA
O nome dele é Fúlvio. Família italiana...
MINISTRO
Tudo bem. Eu jogo ele lá pro Banco Central.
DONA NEUZA
Graças a Deus! Deus é muito bom, meu filho... Jesus seja louvado!
MINISTRO
Que assim seja.
DONA NEUZA
Bom, meu querido, agora eu vou deixar você trabalhar em paz. Deus vai ajudar você a brilhar no Ministério. E eu vou todo dia lá na Irmã Cordeiro pedir uma ajudazinha pros espíritos, não é? Eu também quero dar uma mãozinha...
MINISTRO
Tá bom, sogrinha. Torcida boa é isso aí. Então, amanhã, não esquece, hein: política fiscal do Governo!
DONA NEUZA
Pode deixar, que eu vou anotar num papelzinho... E você já sabe, né Tonico. Afia a faca e corta. Corta mesmo. Não tenha pena, não... Uma beijoca aqui pra sogra coruja do grande Ministro da Fazenda... Ah, hoje vai ter festança na casa da Zezé. Deus é muito bom!
Na Convenção
MINISTRO
É preciso que os senhores percebam que os banqueiros internacionais mudaram radicalmente a sua postura diante do Brasil. Eles já estão conscientes de que o Brasil jamais poderá pagar os juros da dívida externa, e já se conformaram. É uma situação completamente diferente de seis meses atrás. Eles hoje apostam no nosso desenvolvimento, e as exigências que o Brasil terá que aceitar a curto prazo, e que incluem a monitoração da nossa economia interna pelos bancos credores, o achatamento dos salários e o aumento dos impostos, virão a beneficiar o país a longo prazo...
CONVENCIONAL 1
Ministro, Vossa Excelência é um imbecil...
CONVENCIONAL 2
Vossa Excelência está transformando o país em sucata e gerenciando a escravidão do nosso povo. Vossa Excelência é um traidor.
SECRETÁRIO DO PARTIDO
O que é isto, senhores? Vamos respeitar o senhor Ministro... Vamos seguir o nobre exemplo de Cícero, que dizia: "Eu não concordo com uma só palavra do que dizes, mas daria a minha vida para que tenhas o direito de dizê-las".
CONVENCIONAL 3
Vossa Excelência devia tomar vergonha e dar um tiro na cabeça...
MINISTRO
Os senhores estão sendo passionais, deixando-se levar pela emoção num assunto que é meramente técnico, e que vem sendo administrado com a maior competência pela excelente equipe de economistas que me assessora no...
CONVENCIONAL 1
Cala a boca, burro!
SECRETÁRIO DO PARTIDO
Com tumulto nós não vamos chegar a lugar nenhum.
MINISTRO
Isto não é diálogo, é uma provocação.
CONVENCIONAL 3
Provocação o quê, seu safado, seu irresponsável...
CONVENCIONAL 1
Vossa Excelência, das duas uma: ou é muito ingênuo, ou está levando dinheiro para defender essas idéias inteiramente idiotas.
CONVENCIONAL 2
É esse o homem que é o Ministro do nosso partido? Esse indivíduo não tem condições nem para ser trocador de ônibus. Ele vai nos levar à falência. O país todo. Ele vai nos conduzir à miséria total. Seremos daqui a pouco uma nação de escravos, de prostitutas e de ladrões. Esse homem devia ser preso...
SECRETÁRIO DO PARTIDO
Os senhores não estão deixando o Ministro expor as suas idéias. Não vamos nos esquecer de que ele foi indicado por nós ao Presidente da República, após ter sido escolhido numa convenção democrática. Agora nós temos que prestigiá-lo Ele é sem dúvida um dos nossos mais brilhantes correligionários... Lembremos, senhores: E pluribus unum.
CONVENCIONAL 1
Ele devia ser ministro dos nossos inimigos.
SECRETÁRIO DO PARTIDO
O Brasil não costuma fazer inimigos, nobre colega.
CONVENCIONAL 2
Depois desse comentário, eu não sei quem é mais idiota, se o senhor Ministro ou o senhor Secretário-Geral do Partido...
CONVENCIONAL 3
É isso mesmo! Vossa Excelência está entregando o país aos interesses dos estrangeiros e nos transformando numa colônia de mendigos. Vossa Excelência quer adotar uma política suicida e nos levar junto para o abismo. Nós não o indicamos para que o senhor nos liquidasse... Nossa proposta era outra.
MINISTRO
Os senhores me indicaram porque não tinham outra escolha. Se não sou eu, quem poderia ser? O senhor? Aliás, eu não temo o abismo porque estou certo de que o Brasil é maior que o abismo...
CONVENCIONAL 1
Pois Vossa Excelência está desautorizado pelo Partido. Nós exigimos a vossa renúncia imediata.
SECRETÁRIO DO PARTIDO
Calma! Calma, senhores! Não se pode decidir as coisas desta maneira.
MINISTRO
Eu me pergunto: Será que os senhores estão dispostos a abrir mão dos cargos que o Partido detém hoje no Ministério? Os senhores vão renunciar aos privilégios do Executivo? Quem os senhores vão colocar no meu lugar? Vão entregar o Ministério de mão beijada aos outros partidos da Aliança? Se assim for, eu lavo as minhas mãos...
CONVENCIONAL 1
Mas Ministro, a sua política é totalmente contrária ao programa do nosso Partido. É o avesso do que nós pensamos...
MINISTRO
Sim, reconheço que há algumas discrepâncias... Mas, senhores, vamos raciocinar: o nosso Partido, que hoje é o Governo, não pode praticar o programa que ele pregava quando era oposição. São duas coisas totalmente diferentes...
CONVENCIONAL 1
Isso é a coisa mais cínica, mais imoral e mais descarada que eu já ouvi na minha vida. Eu tenho nojo de Vossa Excelência. Nós queremos Vossa Excelência fora do Ministério. E já!
SECRETÁRIO DO PARTIDO
Os ânimos aqui estão exaltados. Eu gostaria de propor um intervalo nos nossos trabalhos, para tomar um cafezinho e colocar a cabeça no lugar. Precisamos ter bom-senso. Homo homini lupus.
CONVENCIONAL 3
Antes do intervalo, este Ministro calhorda precisa renunciar ao cargo diante da Convenção.
MINISTRO
Devo informá-los que muito me orgulho de contar com a total confiança do senhor Presidente da República, que acredita nas diretrizes que estamos imprimindo à política econômica do país. Eu não poderia renunciar mesmo que quisesse, pois como os senhores sabem, o meu cargo não pertence a mim, e nem mesmo ao Partido, mas ao Presidente da República.
CONVENCIONAL 3
Esse Presidente, tá na cara que é um débil mental!
SECRETÁRIO DO PARTIDO
Senhores, assim não é possível! Assim não vamos chegar a lugar nenhum. Não podemos cair na mixórdia inconseqüente ou no reles desacato. Precisamos respeitar os poderes constituídos...
CONVENCIONAL 3
Nós queremos que os senhores morram afogados.
CONVENCIONAL 2
E que os corpos de Vossas Excelências não voltem mais à tona para não assombrar o país.
CONVENCIONAL 3
Vá pro inferno, senhor Ministro! E leve toda a sua equipe!
MINISTRO
Bem, eu gostaria de agradecer as palavras gentis dos senhores convencionais, e dizer que eu espero contar com o vosso apoio para que possamos sair logo desta crise perversa em que o Brasil está mergulhado. Nós acreditamos em Deus, e Deus é brasileiro e está torcendo por nós. Muito obrigado.
No saguão da Convenção
REPÓRTER 1
Ministro, por favor. Como é que o senhor encara as críticas do seu Partido à política econômica do Governo?
MINISTRO
Que críticas?
REPÓRTER 1
O Partido parece que não está de acordo com as diretrizes tomadas junto aos credores externos do Brasil...
MINISTRO
Quem disse isto?
REPÓRTER 1
Todo mundo sabe, Ministro.
MINISTRO
Não é bem assim. Eu sou um Ministro do Partido, e é claro que o Partido me apóia. O que ocorre é que a função dos convencionais é apresentar sugestões de natureza política que venham a contribuir para as nossas negociações.
REPÓRTER 1
Mas alguns convencionais pediram a sua renúncia imediata.
MINISTRO
Sem comentários.
REPÓRTER 1
O senhor pensa em renunciar, Ministro?
MINISTRO
É sempre assim. Vocês jornalistas têm uns truques engraçados. Já reparei que vocês sempre põem uma repórter bonitinha, como esta moça aqui, para fazer as provocações. Eu não caio nessa. Vocês precisam ser mais responsáveis.
REPÓRTER 2
Sem provocação, Ministro. Nós precisamos fazer o nosso trabalho... Muita gente está achando que a sua política é suicida, e que pode levar o país à miséria absoluta. O que o senhor tem a dizer sobre isto?
MINISTRO
Quem está achando isso? É preciso citar os nomes. Vamos agir com responsabilidade, não é? Quem afirmou uma sandice dessas?
REPÓRTER 2
Os convencionais do seu próprio partido, Ministro
MINISTRO
Os senhores ouviram o galo cantar e não sabem aonde. A política do Ministério é a política que é ditada pelo Presidente da República. Eu sou um Ministro do Presidente.
REPÓRTER 1
Mas o senhor acabou de dizer que era Ministro do Partido...
MINISTRO
Eu sou Ministro do Partido e do Presidente. Satisfeita agora?
REPÓRTER 2
Ministro, não há comida nos supermercados, e quando aparece é por um preço que o povo não pode comprar. O senhor acha que isso pode agravar a crise social?
MINISTRO
Crise social? Que crise? Quem cria a crise é a imprensa, que ao alarmar o povo presta um desserviço à nação. Vocês são os responsáveis pela crise. O país está em ordem, o valor real dos salários será mantido, e as instituições e o povo estão apoiando o Governo integralmente.
REPÓRTER 1
Mas então como o senhor explica que toda vez que aparece um carro oficial, o povo vaia, apedreja e incendeia?
MINISTRO
Não disse que era provocação? O que existe é a ação de baderneiros e de grupos subversivos, malfeitores organizados pelos extremistas que só querem desestabilizar a ordem e desgraçar o nosso povo. São os inimigos da Democracia. Mas eles todos serão punidos exemplarmente.
REPÓRTER 2
E a fome, Ministro? E a recessão? E o desemprego?
MINISTRO
Vocês estão sendo falaciosos. A fantasia cria a realidade. Acreditem na fome, e ela virá. Acreditem na prosperidade, e ela virá. Eu, como sou otimista, ou melhor, realista, acredito na prosperidade do nosso povo. Somos a oitava economia do mundo. O Brasil tem riquezas infinitas. Como se pode acreditar em fome e desemprego neste país? Só um irresponsável pensaria uma coisa dessas. O Brasil é maior que o pessimismo de alguns e não se deixa convencer pelas lamúrias das cassandras da oposição. Nós estamos no caminho certo. Vamos chegar lá. Há um pote de ouro do outro lado do arco- íris. Muito obrigado, senhores. Com licença.
No gabinete do Presidente
MINISTRO
Bom dia, Presidente.
PRESIDENTE
Bom dia, Tonico. Senta aí. Como está a Dona Terezinha?
MINISTRO
Vai muito bem, obrigado, Presidente. E a sua esposa, já está recuperada?
PRESIDENTE
Já... Aquilo foi só um susto... Foi uma gripe forte, que apresenta alguns sintomas de pneumonia. Está pegando em todo mundo, essa gripe. Dizem até que já batizaram a danada com o meu nome...
MINISTRO
É, eu ouvi contar... É a popularidade, Presidente...
PRESIDENTE
Que nada, isso é gozação. O pessoal é muito gozador... Mas fora de brincadeira, essa gripe não é fácil. Lá em casa pegou em todo mundo. Até a minha netinha, que aliás é coleguinha de sua filha, da caçulinha, na escola, ficou arriada. E o pior é que a menina não sossega. É um azougue! Não fica de cama de jeito nenhum. Agora então com esse disco da Xuxa, que ela ganhou da minha sobrinha, é um tal de dançar rock o dia inteiro. Tem uma música lá que diz que a "She-Ha namorava o Esqueleto no quintal", que a menina fica louca. Tem que parar todo mundo para ver ela dançar. Já falei que qualquer hora a gente monta uma discoteca lá no Palácio. E só o que falta...
MINISTRO
Ela é uma gracinha. A minha filha gosta muito dela ... Bem, o senhor me chamou aqui, e eu imagino que seja por causa do problema da política fiscal do Governo. Eu trouxe um anteprojeto...
PRESIDENTE
Muito bem, muito bem. Mas quanto a isto eu confio cem por cento na capacidade de sua equipe. Vamos colocar a casa em ordem, não é? Deus há de nos ajudar. Mas não foi por isso que eu o chamei aqui.
MINISTRO
Em que posso servi-lo, Presidente?
PRESIDENTE
Eu estou muito bem impressionado com a maneira como vocês lá na Fazenda vem conduzindo as negociações com os credores externos. Os jornais, principalmente do exterior, têm elogiado muito as suas gestões. É por aí mesmo, Tonico. É fé em Deus e pé na tábua. Bom, eu mandei confeccionar estas abotoaduras de ouro com as minhas iniciais gravadas, e gostaria de presenteá-lo. É uma lembrança singela, mas muito sincera, que eu estou oferecendo aos meus colaboradores mais leais e a algumas autoridades civis e militares.
MINISTRO
Que beleza, senhor Presidente. São muito bonitas. Eu fico muito honrado em recebê-las.
PRESIDENTE
Sabe, Tonico, tem um ditado lá na minha terra que diz que "macaco gordo não pula em galho seco". Eu tenho procurado pautar o meu Governo dentro desta máxima da sabedoria popular. Vox populi, vox Dei, não é mesmo? A prudência é uma grande virtude, Tonico. E a coragem, aliada à prudência, é a maior de todas as virtudes.
MINISTRO
É uma grande verdade, Presidente.
PRESIDENTE
É preciso zelar diuturnamente pela liturgia do cargo e pelos interesses maiores da nação. E você sabe, Tonico, seu pai era meu compadre, e você me conhece muito bem... Eu sou um idealista. E tenho muita fé em Deus.
MINISTRO
Deus está ao seu lado, Presidente.
PRESIDENTE
Eu sinto isso, Tonico. Eu sinto a presença de Nosso Senhor Jesus Cristo dia e noite ao meu lado, e rezo muito para que o Divino Espírito Santo ilumine as minhas decisões, que às vezes são duras, enérgicas, mas têm que ser tomadas, doam a quem doer!
MINISTRO
Tem toda razão, Presidente.
PRESIDENTE
O poder é muito solitário, Tonico. Na minha terra se diz que "pimenta nos olhos dos outros é refresco".
MINISTRO
Muito sábio...
PRESIDENTE
E muito verdadeiro também. A gente só sente quando arde nos olhos da gente. E aqui, nesta cadeira, as pressões são terríveis... Você deve sentir o mesmo lá no Ministério...
MINISTRO
E como sinto, Presidente!
PRESIDENTE
Pois é... O seu cachorro é bassê?
MINISTRO
Como? Ah, não... Nos não temos cachorro no momento, Presidente.
PRESIDENTE
Mas que pena! A minha netinha ganhou uma cadelinha bassê, aquela raça compridinha, você sabe... Bom, já está na época de cruzar, e ela me pediu para arranjar um namorado pra Xuxa, que é o nome que ela deu pra bichinha. Se você souber de algum bassê desimpedido, manda avisar lá no Palácio...
MINISTRO
Claro. Sem dúvida... Eu tenho uma cunhada, a Lurdes, que é casada com o irmão do Senador Ferreirinha, que é louca por cachorros. Vou falar com ela hoje mesmo.
PRESIDENTE
E o Ferreirinha, como está? Há tempos eu não o vejo. Cheguei a pensar nele para o Ministério da Irrigação, mas as pressões do nosso Partido... O Ferreirinha é muito amigo do meu sogro. Eu soube que ele teve um ameaço de infarto há uns dois meses.
MINISTRO
Ele fez os exames no Hospital das Clínicas, mas já está tudo sob controle. Zero quilômetro. A filha dele, a Marisa, vai se casar no mês que vem com o filho do Granatto.
PRESIDENTE
Qual Granatto? Aquele do Citibank? Ele andou envolvido num escândalo financeiro aí, não foi? Na Previdência ou na Caixa Econômica, já não me recordo...
MINISTRO
É, acusam ele de um rombo, mas não conseguiram provar nada. Esse pessoal é fogo...
PRESIDENTE
Tem muita inveja, não é? "Olho grande", como se diz. Mas eu vou mandar um telegrama para a filha do Ferreirinha. Casamento hoje em dia é uma aventura...
MINISTRO
É verdade. "Casar não é a casaca", como diz a minha mãe.
PRESIDENTE
Muito boa essa! Eu poderia até acrescentar que "ser Presidente não é a casaca". É como dizia o Machado, não é? "Ao vencedor, as batatas".
MINISTRO
Boa lembrança, Presidente. Já reparei que o senhor gosta muito de citar Machado de Assis. Eu também sou fã do Machado. Li a obra completa dele na minha adolescência.
PRESIDENTE
A literatura é o mel da vida, meu caro Tonico. E o pior é que estas obrigações da liturgia do poder são o fel da existência.
MINISTRO
É uma belíssima imagem, Presidente.
PRESIDENTE
Bem, meu caro Ministro. Eu não quero atrapalhar os seus afazeres lá na Fazenda. Lembranças à sua senhora e não se esqueça: Deus só ajuda a quem tem fé. Vamos acreditar!
MINISTRO
Eu guardo muita fé e rezo muito para Santa Edwiges para acertar com os nossos credores externos.
PRESIDENTE
Deus é brasileiro! Ele vai iluminar o seu caminho...
MINISTRO
Muito obrigado pelas abotoaduras, meu Presidente. Já vou usá-las
hoje mesmo. Lembranças à netinha e à Xuxa dela.
Júlio César Monteiro Martins, the author, was born in Niterói, in the Greater Rio, in 1955. He has published several short-story books: Torpalium, Sabe Quem Dançou?, A Oeste de Nada, As Forças Desarmadas, and Muamba. Monteiro Martins is also the author of three novels: Artérias e Becos, Bárbara, O Espaço Imaginário and a volume of essays: O Livro das Diretas. He is one of the founders of the Brazilian Green Party and from 1992 to 1994 worked as a lawyer for the Brazilian Center in Defense of Children's Rights. He taught literary creation at the Goddard College in the US and is now a professor in Italy, teaching literary creation and Brazilian literature in the University of Pisa. He also teaches Literary Creation in Narration in Florence, Lucca, and Pistoia. Martins is the founder of Sagarana School (http://www.sagarana.net). You can get in touch with him writing to jmontei@tin.it