Brazil - BRAZZIL - Short Story - "Os loucos, a egua..." by Dario Borim - In Portuguese and English - Brazilian Literature - Portuguese Language - Brazilian Books & Authors - June 2001


Brazzil
June 2001
Short Story

 

 

Os loucos, a égua,
e uma porção de ratos

Quando os americanos e russos começaram a explorar  o espaço sideral, nós demos ao Marechal uma garrafa velha e suja, cheia de um líquido amarelado. Aquela leva de desalmados havia contribuído  para o presente com uma amostra quente de urina.

Dário Borim

"Esta cidade é de amargar", a gente costumava reclamar o tempo todo no Grupo Escolar Alfredo Galdino, em Paraguaçu, uma cidade de quase 10.000 habitantes no sudeste do Brasil. Pior que aquele marasmo de cidade pequena nos meados dos anos 60, só mesmo um lugar na face da terra: a própria Paraguaçu debaixo de chuva, já que tínhamos que ficar em casa, de papo para o ar.

O que tenho a dizer é vergonhoso, mas não aconteceu por acaso: muitos de nós, garotos que não sabiam como estragar a infância diante da TV, adorávamos insultar e fazer galhofa dos excêntricos da cidade. Os adultos já tinham avisado que havia tantos doentes mentais em Paraguaçu porque primos tinham se casado com primas, tios com sobrinhas, etc. e tal. Isso não significava lá muita coisa para nós. Nós estávamos sempre aborrecidos com a falta do que fazer. Então a gente descontava naqueles que se davam bem com a mansidão geral. Os malucos, então, viravam o principal alvo de nossa frustração coletiva.

É verdade que nossos pais não se cansavam de bater na mesma tecla, lembrando que era rude incomodar qualquer pessoa, principalmente os inocentes que aparentemente careciam de um parafuso ou dois na moringa. E era perigoso, também, porque os doentes mentais não eram responsáveis por suas ações. Mas e daí? Nós éramos umas pestes e precisávamos gastar energia de algum modo.

Na verdade gostávamos de alguns aluados. Um deles era Marechal o Lenhador, um negro de sorriso largo, com cinqüenta e tantos anos de idade. Eu pessoalmente achava que aquele homem tinha algo de sensacional. Gostava do seu cheiro, por causa do charuto barato que morava nas beiras dos lábios, aceso ou apagado. De cabelos grisalhos, ele demonstrava um certo orgulho e com freqüência nos divertia a troco de nada. Empossando o mesmo velho uniforme, como se nunca saísse de moda, aquele senhor gordinho e tranqüilo fazia brilhar e chacoalhar todo tipo de bugiganga, entre medalhas de mentira, pequenas flâmulas, broches de material de terceira, e, curiosamente, até mesmo um bracelete de escravo (de verdade).

Bem, o que importa mesmo é que o velho adorava contar estórias que pareciam não ter mais fim. Você tinha que ter muita paciência. Ao cumprimentar a todos que encontrava pelas ruas, o Marechal descortinava seu sorriso cativante, ao mesmo tempo doce e natural (apesar da saudade dos dentes de outrora). Então logo tentava revelar para fulano e cicrano o seu passado mítico, recheado de lorotas envelhecidas mas nunca esquecidas no folclore infantil dos nossos dias.

Alguns dos enredos mais repetidos eram aqueles da sua apaixonada mas infrutífera contribuição à campanha pela liberdade dos escravos nos idos anos de 1850. Também contava passagens de sua impecável campanha militar durante a Guerra do Paraguai, na década seguinte. Cem anos mais tarde (dava pra acreditar?), lá estava ele, em Paraguaçu: uns biscates no correr do dia, e muita ostentação pela noite afora, por conta da sua desgastada honra de ex-militar, agora catador de lenha das padarias locais.

A criançada não tinha muita consciência. Ele gostava da gente, e nós às vezes acreditávamos naquele mentiroso de carteirinha. Mas também pregávamos umas peças no pobre coitado. Quando os americanos e russos começaram a explorar o espaço sideral, nós demos ao Marechal uma garrafa velha e suja, cheia de um líquido amarelado. Para nosso deleite, dissemos a ele que um amigo seu lhe tinha mandado água da Lua. E era disso que o homem se gabava por todo canto da cidade. Aquela leva de desalmados havia contribuído para o presente com uma amostra quente de urina.

Havia outro pirado na cidade, com quem convivíamos quase que diariamente. Esse companheiro, com idade na faixa dos vinte e poucos anos, representava uma estranha combinação de hippie californiano e bandido de filmes de bang-bang. Como o Marechal, ele também aparecia nas ruas vestindo uma roupa estilizada. Além das botas de vaqueiro, com pequenos sinos nos calcanhares, ele usava uma camiseta de malha branca com um enorme símbolo de paz e amor azul na altura do peito. Uma correia púrpura segurava uns jeans bem desbotados e remendados — talvez sua única calça. Longos cabelos loiros, quase sempre oleosos, às vezes cobriam os olhos azuis grandes, pálidos e irrequietos. Nós todos o chamávamos de Bandido da Lua, mas ele não se importava. O Bandido adorava a gente. Nos papéis de índios, bêbados ou policiais, abríamos fogo uns contra os outros (só de brincadeira), e fazíamos tudo para que ele, o bandido, sempre nos matasse.

O pessoal da cidade soltava diferentes estórias sobre o que causara a doença mental do Bandido. Alguns diziam que ele tinha caído de bicicleta e batido a cabeça no paralelepípedo; para outros, o problema vinha do alcoolismo do seu pai. De qualquer modo, as pessoas da cidade não se importavam tanto com a origem dos problemas do Bandido, mas, sim, com as conseqüências.

Com certeza, o prazer maior de cada dia daquele Bandido era arriscado. Costumava entrar para um lugar público, um bar ou mercearia, por exemplo, cobrindo o rosto com um lenço vermelho. "Mãos ao alto, pessoal", ele gritava, apontando o indicador para diferentes pessoas a cada instante, como se a sua mão direita por si só constituísse um revólver. Poucos segundos após assustar a todos os presentes, principalmente aqueles que nunca ouviram falar da loucura do rapaz, o Bandido da Lua era tomado por um certo riso encabulado. Em seguida se desculpava: "Sinto muito, gente boa, mas está tudo bem. Isso aqui foi só uma brincadeira".

O tiro imaginário do Bandido da Lua estava condenado a sair pela culatra um dia, todo mundo achava. E realmente aconteceu. Foi quando ele pulou para dentro do Banco do Estado de Minas Gerais e repetiu o esquema tradicional. O guarda-de-segurança tinha mudado de outra cidade. Era jovem e imaturo, e, provavelmente, bastante nervoso. A cena do Bandido acontecia às suas costas. O guarda deu um giro e um tiro quase certeiro. A bala atingiu o rapaz fantasiado na orelha direita, despedaçando-a. Ela ainda lhe fraturou uma pequena parte posterior do crânio, mas nada mais.

O Dr. Oscar Gabeira tratou bem da vítima. Afinal de contas, o Bandido não foi tão azarado. Aquela experiência quase trágica o transformou em um moço bastante calmo. Hoje em dia ele detesta fingir de criminoso, e ele não tolera qualquer brincadeira de mau gosto.

Entre outros excêntricos bem conhecidos, havia ainda o baixinho e barulhento Anísio, também conhecido como o Anão Desmiolado. Ele não mora mais em Paraguaçu. No verão de 1990 eu o encontrei. Nós dois visitávamos nossa terra natal. Quando lhe perguntei se tinha saudade de Paraguaçu, Anísio disse que sim, mas que não estava interessado em voltar para lá.

O que ouvi de Anísio a seguir me deixou ao mesmo tempo embaraçado quanto ao seu passado e suspeito quanto ao seu presente. De fato, ele parecia bem em controle de suas faculdades. Soava bem franco, aliás. Disse que gostava de Poços de Caldas, uma cidade turística de certo charme, ali pelas montanhas do Sul de Minas. Mal escondendo uma desconfortável onda de vaidade, Anísio olhou para o chão e comentou em voz baixa: "Sou um bom porteiro em um pequeno hotel lá. É ótimo. Ninguém me enche a paciência. Ninguém sabe que eu sou louco". Não sei por quais transformações ele passara, mas sem dúvida percebia que elas o tornaram uma pessoa diferente: bem mais gentil e reservado do que aquele Anão Desmiolado que todos conhecíamos de décadas atrás.

Nos anos 60 e princípios dos anos 70, ele parecia que gastava toda a sua energia juvenil na esfera pública. Para a maioria das pessoas, acho, ele era tão alegre quanto inconveniente. O rapaz era espalhafatoso em quase todo sentido da palavra. Adorava cantar canções bregas do tipo "Receba as flores que lhe dou / em cada flor um beijo meu". Quando não estava carregando um autofalante portátil, velho e enferrujado, ele fechava o punho direito e levava à boca, fingindo que se tratava de microfone. Sua voz não era nada má, mas desconhecia limites. Com sua voz volumosa no ar preguiçoso de Paraguaçu, Anísio ocasionalmente parava de cantar para se dirigir a qualquer pessoa na rua, sem se importar se estava interrompendo conversas alheias.

O Anão Desmiolado era um cantor desassossegado, por certo, mas também um animado vendedor ambulante. Subindo e descendo as ladeiras da cidade, ele não apenas vendia broas de milho que guardava em uma cesta de bambu, como também anunciava a programação semanal do Cine Íris, a única sala de projeção de Paraguaçu. "Não percam, meus caros! É só hoje à noite. É Benhur, um sensacional filme com Xarton Réuston e todos aqueles leões romanos". Em frente a um de nós, vinha mais propaganda: "É só hoje, queridinho. Vai lá e traz lá papai e mamãe para o Cine Íris hoje à noite".

Naqueles anos, as pessoas diziam que apenas duas coisas deixavam o Anísio ainda mais louquinho. Era o time de futebol do Palmeiras (e como gostava de discutir sobre as partidas e os talentos superiores dos seus jogadores!); e era bobagem, a qualquer hora e em qualquer lugar (uma ereção em público não parecia incomodá-lo nem um pouco!).

Para nós, o Anão Desmiolado era uma personagem favorita em uma série de estórias que escutávamos, inventávamos e espalhávamos sobre certas pessoas da cidade. Não queríamos causar nenhum mal a ninguém; era só uma questão de entreter-nos uns aos outros um bocadinho. O Anão era especial porque, acima de tudo, nos tinha dado uma experiência fantástica, o tipo de aventura que virou fofoca e motivo de orgulho para nós por vários anos.

As pessoas mais velhas já tinham dito que o homem era um "tarado". A gente pensava que ele era mesmo estranho, por cantar e gritar nas ruas, mas a gente não entendeu direito a advertência que nos passaram os adultos. Tínhamos que ver para ter uma idéia do que se tratava. E olha que foi coisa do outro mundo.

Um fim de tarde, depois das aulas, cinco de nós fomos brincar de esconde-esconde no quintal ao lado da loja de meu pai. Era lá que as pessoas da roça "estacionavam" seus cavalos para que elas pudessem comprar roupas e sapatos. Depois de pular o muro, ouvimos um som estranho, um tipo de grunhido vindo do outro lado da cerca de bambu, um espaço estreito e cheio de estrume ao fundo do lote.

De imediato, todos fixamos o olhar naquela direção. O que vimos nos fez segurar o ar e arregalar os olhos por alguns segundos. Julinho, o mais falador da turma, suspirou que aquilo parecia uma figura do livro de História: um cavalo de duas cabeças, uma em cada extremidade do bicho. Mas na verdade era o famoso Anísio. O Anão Desmiolado se encontrava de pé sobre duas pilhas de tijolos, enquanto penetrava uma jovem e satisfeita égua.

Bom, vou dizer uma coisa: o Anão logo descobriu que tinha espiões atrás dele e, então, pirou de verdade. Acho que nenhum de nós jamais tivera que pôr tanta fé nas pernas. Isto foi segundos depois do diabo do Julinho ter a coragem de gritar, "Ah, mas que vergonha senhor Anísio, Anão Desmiolado. Então o senhor está executando a pobre da égua! Vou contar pra cidade inteira, seu desgraçado!"

Rapidinho nós garotos já estávamos fugindo daquela cena de pecado rural. Movíamos sob o telhado baixo e empenado da loja. Lá em baixo meu pai fazia dinheiro e pagava contas; aqui em cima era outra manobra de sobrevivência. O próximo desafio era lidar com as enormes teias de aranha tropicais grudando no rosto, braços e pernas. Engatinhando naquela superfície de laje fria, escura e empoeirada, às vezes resvalávamos a cabeça e as canelas em pregos enferrujados, ou algo parecido. O edifício era grande, e acabamos levando um tempo para atravessá-lo até cairmos na liberdade das ruas. Por fim, conseguimos. Com aquele Anão Desmiolado na nossa cola, apressamos o expediente, como se fôssemos uma porção de ratos fugindo de um edifício em chamas.

 

 

The Madmen, the Mare, and a Handful of Mice

When Americans and Russians started to explore outer space, we gave Marshall an old dirty bottle, filled with a yellowish liquid. Of course many of us kids, vile little bastards, had chipped in the gift with the hottest of our urine.

Dário Borim

"This town just stinks," we used to say it all the time at Alfredo Galdino Elementary School, where, in the mid-1960s, most of us had the same opinion about Paraguaçu, a town of approximately 10,000 people in southeastern Brazil. Worse than that sluggish little town, there was only one spot in the entire world: Paraguaçu itself, in the rain, since we would have to stay home, shooting the breeze.

It was a shame, but not by chance, that so many of us kids, who still did not know how to waste childhood in front of the TV, took to insulting and playing pranks on the mad folks in the streets. Grown-ups had told us there were so many loonies in Paraguaçu because cousins had married their cousins, uncles their nieces, and so on. That did not mean much to us. We were bored by the lack of action in town, so we took it out on those who got along with that drowsiness. The lunatics became our dearest target.

It's true our parents never tired. They often reminded us that it was rude to bother anyone, especially the innocent guys that apparently had a screw loose in their heads. It was dangerous too, because the eccentrics weren't responsible for what they did. But who cared? We were naughty, and we needed to do something to keep going.

We actually liked some of the loonies. One of them was Marshall, a black man of broad smiles, in his late fifties. I personally thought he looked cool and smelled great, just because of the cut-rate cigar he constantly kept in either corner of his mouth, lighted or laid out for display. Gray-haired Marshall was proud, and he entertained us quite often, free of charge. Wearing the same old uniform, as if it were not going out of style, the chubby mellow man shone and clattered with all sorts of junk, such as miniature banners, make-believe medals, cheap brass brooches, and, rather curiously, even a slave bracelet (the real thing).

Well, what matters is that the old man loved telling long, long stories. You had to be patient. Upon greeting anyone in the streets, he would unveil an endearing, sweet and natural smile (even if he missed the good old teeth of yesteryears). Then, Marshall would immediately try to unfold, again and again, his mythic past through imaginary tales, which, no matter how old, would remain a vital part of our folklore. Some of his repetitive narratives had to do with his passionate but fruitless contribution to the slaves' struggle for freedom, in the 1850s, or the adventures of his impeccable military campaign in the Paraguayan War, in the next decade. One hundred years later (would you believe it?), there he was, in Paraguaçu: daytime doing odd jobs, nighttime showing off his worn-out officer status as a Marshall that collected firewood for the local bakeries.

We kids did not know better. He liked us, and we sometimes believed that full-time liar. But we played our tricks on the poor guy too. When Americans and Russians started to explore outer space, we gave Marshall an old dirty bottle, filled with a yellowish liquid. For his delight, we told him that an old friend of his had sent him some water from the Moon. And that's what Marshall would boast about everywhere in town. Of course many of us kids, vile little bastards, had chipped in the gift with the hottest of our urine.

There was also a guy we hung around with. This buddy, nearly twenty years old, stood for a strange combination of hippie and gangster. He would also turn up in the streets in stylized attire. Besides the high cowboy boots, with unusual jingle bells by the ankles, he wore a white T-shirt with a huge peace-and-love symbol in blue ink on the upper front side. A purple waistband tied his only, worn-out pair of jeans. Long, curly blonde hair, nearly always greasy, sometimes covered his wobbly, big pale blue eyes. We called him Butt-Head the Gunslinger, but he did not mind. He loved us, since we played battles with him and made sure he, the bandit, always killed us, Indians, drunkards or cops.

The townsfolk circulated different rumors about what caused Butt-Head to be crazy. Some said he had a bicycle accident and hit the cobblestone with his head; some said his Dad was a terrible alcoholic. Just the same: in reality, Paraguaçu people did not care much about the origins of his problems, but their consequences.

For sure the Gunslinger's greatest daily thrill was risky. He'd run into a public place, like a bar or a grocery store, hiding his face with a red handkerchief. "Hands up everybody," he shouted, pointing out at different people as if his right hand itself were a revolver. Seconds after scaring everyone, especially those who hadn't learned about him, the Gunslinger would burst into a self-conscious chuckle. He would then apologize, "Sorry, folks. You're okay. This was just a joke."

Butt-Head the Gunslinger's tricks were likely to backfire one day, townsfolk often said. And it did. That was when he popped into the Minas Gerais State Bank and repeated the traditional skit. The security guard had recently moved from out of town. He was kind of young and silly, and probably very nervous too. The scene was happening behind his back. He turned around and shot Butt-Head. The bullet hit him in the right ear, bursting it into pieces. It still chipped the rear of his skull, but nothing else.

Dr. Oscar Gabeira took care of him. Gunslinger was not too unfortunate, after all. The nearly tragic experience turned him into a mellow young man. Today he hates acting as an outlaw; he can't stand any foul play.

Among the other popular lunatics there was the short and loud Anísio, the guy known as the Crazy Dwarf. He no longer lives in Paraguaçu. In the summer of 1990 I met him while both of us visited our hometown. When I asked him if he missed Paraguaçu, he said he did but was not willing to move back.

What Anísio said next made me feel just as awkward about his past as suspicious about his present. He looked very much in control of himself. He sounded quite candid, actually. He said he liked living in Poços de Caldas, a quaint neighboring city in the south of Minas. Barely hiding an uneasy sense of pride, he looked down and commented in low-key: "I'm a good doorman at a small hotel there. It's great. Nobody bugs me. Nobody knows I'm crazy." I did not know what sort of changes Anísio had gone through, but I certainly recognized they had made him quite a different person: much more gentle and reserved than he had ever been.

In the 1960s and early 1970s, though, he would spend all his youthful energy in the public sphere. To most people, I guess, he was just as cheerful as inconvenient. The guy was boisterous in just about every sense of the word. He loved singing tacky songs through the streets, songs that ran like "Take all these flowers that I want to give you / Through each of them a kiss of mine." When he was not carrying an old, rusty portable loudspeaker, he clenched his right fist, brought it up close to his mouth and pretended to hold a microphone. His voice was not bad at all, but it knew no limits. With his loud music in the lazy air of Paraguaçu, Anísio would approach people in the streets and did not care a bit if he interrupted their conversations.

The Crazy Dwarf was a busy singer for sure, but also a cheerful peddler. Strolling up and town the slopes of town, he sold corn bread in a bamboo basket and advertised the movies showing at the old and only theater house in Paraguaçu: "Don't miss it, folks! It's only tonight. It's `Bengur,' a great movie with our hero `Shurston Herston' and all those big lions in Rome." In front of some of us kids, he added, "It's only tonight, my dear. Bring Mama and Papa to Cine Iris, the cool fantasy house in Paraguaçu."

That was Anísio, who would repeat himself over and over again and pinch and startle any little girl on the cheek, here and there, while saying a long, musical enigma—something like "phe-ee-ee-ka." The initiated knew it was a giddy, distorted rendition of the Portuguese word "filhinha" (little daughter).

Back in the 1960s, people said just two things drove Anísio crazy. It was the Palmeiras soccer team (and how he loved arguing about games and players!); and it was dirty sex, anytime, anywhere (an erection in public did not seem to bother him at all!).

To us kids, the Crazy Dwarf was a favorite character in a series of stories we heard, invented and re-told a thousand times about the townspeople. We did not mean any harm; we just amused one another. The Dwarf was special mostly because we once had an awesome experience with him, the sort of stuff we would gossip and brag about for ages in school.

The older folks said the man was a "sex maniac." We thought he was bizarre by singing and shouting in the streets for nothing, but we could not quite catch what they meant when they warned us about him. We sort of had to see it ourselves to have an idea. And it sure was something else! One late afternoon, after school, five of us were going to play hide-and-seek in the backyard right next to my dad's store. That's where the country people "parked" their horses, so that they could go shopping for shoes and clothes. After hopping in there we heard this strange noise, some kind of groaning coming from beyond the bamboo fence, somewhere on the narrow, manure-filled backside of the lot.

We all looked straight towards that end. What we saw made us hold our breath and stare straight ahead for a few seconds. Julinho, the most opinionated of the group, whispered that the whole thing looked like a picture in his history book: a double-headed horse, one head on each end of the animal. But it was actually the famous Anísio; the short man was standing on two piles of bricks, while penetrating a poor young and satisfied female horse.

Well, I'll tell you what: the Dwarf soon realized he had spies behind him and turned really mad. I guess all of us had never had to trust our legs that way before. This was right after that darn Julinho had the guts to shout, "Huh, what a shame Senhor Anísio, the Crazy Dwarf. So you're screwing the poor mare! Gonna tell the whole town about it, son of a gun."

Pretty soon we kids were trying to flee from the scene of rural sin through the low, creaky, and dreadful wood framework between the concrete ceiling and the red-tile roof of the store. Down below, my dad made the bucks enough to pay his bills; up there, it was another attempt to survive. Next thing we knew was that a whole bunch of tropical cobweb was getting at our faces, arms and legs. Crawling on that dusty, dark stony surface, we bumped our heads and shins against rotten beams and rafters. Now and then, we got a scratch from those darn rusty nails, or something. The building was large. It was tough, and it took us a while to get to the streets. We finally made it, though. With Crazy Dwarf at our heels, we moved fast, as fast as a handful of mice would flee from an old burning house.

Dário Borim is a storyteller with an M.A. degree in Creative Writing and a Ph.D. in Brazilian Literature from the University of Minnesota. He now teaches at the University of Massachusetts Dartmouth. You can reach him at dborim@umassd.edu 

 

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