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Short story

 

O Alienista

The alienist could barely hide his astonishment; he confessed he expected
something else, the demolition of the madhouse, his own imprisonment, exile,
everything, but…

Machado de Assis

The alienist could barely hide his astonishment; he confessed he expected
something else, the demolition of the madhouse, his own imprisonment, exile,
everything, but…

Machado de Assis

 

…continued from the June issue

 

VIII
 

As Angústias do Boticário

 

Vinte e quatro horas depois dos sucessos narrados no capítulo anterior, o barbeiro saiu do palácio do governo, —
foi a denominação dada à casa da câmara, — com dois ajudantes-de-ordens, e dirigiu-se à residência de Simão
Bacamarte. Não ignorava ele que era mais decoroso ao governo mandá-lo chamar; o receio, porém, de que o alienista
não obedecesse, obrigou-o a parecer tolerante e moderado.

Não descrevo o terror do boticário ao ouvir dizer que o barbeiro ia à casa do alienista. — Vai prendê-lo, pensou ele.
E redobraram-se as angústias. Com efeito, a tortura moral do boticário naqueles dias de revolução excede a toda
a descrição possível. Nunca um homem se achou em mais apertado lance: — a privança do alienista chamava-o ao
lado deste, a vitória do barbeiro atraía-o ao barbeiro. Já a simples notícia de sublevação tinha-lhe sacudido fortemente
a alma, porque ele sabia a unanimidade do ódio ao alienista; mas a vitória final foi também o golpe final. A
esposa, senhora máscula, amiga particular de D. Evarista, dizia que o lugar dele era ao lado de Simão Bacamarte; ao passo
que o coração lhe bradava que não, que a causa do alienista estava perdida, e que ninguém, por ato próprio, se amarra
a um cadáver. Fê-lo Catão, é verdade,
sed victa Catoni, pensava ele, relembrando algumas palestras habituais do
padre Lopes; mas Catão não se atou a uma causa vencida, ele era a própria causa vencida, a causa da república; o seu
ato, portanto, foi de egoísta, de um miserável egoísta; minha situação é outra. Insistindo, porém, a mulher, não
achou Crispim Soares outra saída em tal crise senão adoecer; declarou-se doente e meteu-se na cama.

— Lá vai o Porfírio à casa do Dr. Bacamarte disse-lhe a mulher no dia seguinte à cabeceira da cama; vai
acompanhado de gente.

— Vai prendê-lo, pensou o boticário.

Uma idéia traz outra; o boticário imaginou que, uma vez preso o alienista, viriam também buscá-lo a ele na
qualidade de cúmplice. Esta idéia foi o melhor dos vesicatórios. Crispim Soares ergueu-se, disse que estava bom, que ia sair;
e, apesar de todos os esforços e protestos da consorte, vestiu-se e saiu. Os velhos cronistas são unânimes em dizer
que a certeza de que o marido ia colocar-se nobremente ao lado do alienista consolou grandemente a esposa do
boticário; e notam com muita perspicácia o imenso poder moral de uma ilusão; porquanto, o boticário caminhou
resolutamente ao palácio do governo e não à casa do alienista. Ali chegando, mostrou-se admirado de não ver o barbeiro, a quem
ia apresentar os seus protestos de adesão, não o tendo feito desde a véspera por enfermo. E tossia com algum custo.
Os altos funcionários que lhe ouviam esta declaração, sabedores da intimidade do boticário com o alienista,
compreenderam toda a importância da adesão nova e trataram a Crispim Soares com apurado carinho; afirmaram-lhe que o
barbeiro não tardava; Sua Senhoria tinha ido à Casa Verde, a negócio importante, mas não tardava. Deram-lhe
cadeira, refrescos, elogios, disseram-lhe que a causa do ilustre Porfírio era a de todos os patriotas; ao que o boticário
ia repetindo que sim, que nunca pensara noutra coisa, que isso mesmo mandaria declarar a Sua Majestade.

 

IX
 

DOIS LINDOS CASOS

 

Não se demorou o alienista em receber o barbeiro; declarou-lhe que não tinha meios de resistir, e portanto
estava prestes a obedecer. Só uma coisa pedia, é que o não constrangesse a assistir pessoalmente a destruição da Casa Verde.

— Engana-se Vossa Senhoria, disse o barbeiro depois de alguma pausa, engana-se em atribuir ao governo
intenções vandálicas. Com razão ou sem ela, a opinião crê que a maior parte dos doidos ali metidos estão em seu perfeito
juízo, mas o governo reconhece que a questão é puramente científica e não cogita em resolver com posturas as
questões científicas. Demais, a Casa Verde é uma instituição pública; tal a aceitamos das mãos da câmara dissolvida.
Há entretanto — por força que há de haver um alvitre intermédio que restitua o sossego ao espírito público.

O alienista mal podia dissimular o assombro; confessou que esperava outra coisa, o arrasamento do hospício, a
prisão

dele, o desterro, tudo, menos…

— O pasmo de Vossa Senhoria, atalhou gravemente o barbeiro, vem de não atender à grave responsabilidade
do governo. O povo, tomado de uma cega piedade que lhe dá em tal caso legítima indignação, pode exigir do
governo, certa ordem de atos; mas este, com a responsabilidade que lhe incumbe, não os deve praticar, ao menos
integralmente, e tal é a nossa situação. A generosa revolução que ontem derrubou uma câmara vilipendiada e corruta, pediu em
altos brados o arrasamento da Casa Verde; mas pode entrar no ânimo do governo eliminar a loucura? Não. E se o
governo não a pode eliminar, está ao menos apto para discriminá-la, reconhecê-la? Também não; é matéria de ciência.
Logo, em assunto tão melindroso, o governo não pode, não quer dispensar o concurso de Vossa Senhoria. O que lhe
pede é que de certa maneira demos alguma satisfação ao povo. Unamo-nos, e o povo saberá obedecer. Um dos
alvitres aceitáveis , se Vossa Senhoria não indicar outro, seria fazer retirar da Casa Verde aqueles enfermos que
estiverem quase curados e bem assim os maníacos de pouca monta, etc. Desse modo, sem grande perigo, mostraremos
alguma tolerância e benignidade.

— Quantos mortos e feridos houve ontem no conflito? perguntou Simão Bacamarte depois de uns três minutos.

O barbeiro ficou espantado da pergunta, mas respondeu logo que onze mortos e vinte e cinco feridos.

— Onze mortos e vinte e cinco feridos! repetiu duas ou três vezes o alienista.

E em seguida declarou que o alvitre lhe não parecia bom, mas que ele ia catar algum outro, e dentro de poucos
dias lhe daria resposta. E fez-lhe várias perguntas acerca dos sucessos da véspera, ataque, defesa, adesão dos
dragões, resistência da câmara, etc., ao que o barbeiro ia respondendo com grande abundância, insistindo principalmente
no descrédito em que a câmara caíra. O barbeiro confessou que o novo governo não tinha ainda por si a confiança
dos principais da vila, mas o alienista podia fazer muito nesse ponto. O governo, concluiu o barbeiro, folgaria se
pudesse contar não já com a simpatia senão com a benevolência do mais alto espírito de Itaguaí e seguramente do reino.
Mas nada disso alterava a nobre e austera fisionomia daquele grande homem que ouvia calado, sem desfalecimento
nem modéstia, mas impassível como um deus de pedra.

— Onze mortos e vinte e cinco feridos, repetiu o alienista depois de acompanhar o barbeiro até à porta. Eis aí dois
lindos casos de doença cerebral. Os sintomas de duplicidade e descaramento desse barbeiro são positivos. Quanto à
toleima dos que o aclamaram, não é preciso outra prova além dos onze mortos e vinte e cinco feridos. — Dois lindos casos!

— Viva o ilustre Porfírio! bradaram umas trinta pessoas que aguardavam o barbeiro à porta.

O alienista espiou pela janela e ainda ouviu este resto de uma pequena fala do barbeiro às trinta pessoas que
o aclamavam:

— … porque eu velo, podeis estar certos disso, eu velo pela execução das vontades do povo. Confiai em mim; e
tudo se fará pela melhor maneira. Só vos recomendo ordem. E ordem, meus amigos, é a base do governo.

— Viva o ilustre Porfírio! bradaram as trinta vozes, agitando os chapéus.

— Dois lindos casos! murmurou o alienista.

 

X
 

A Restauração

 

Dentro de cinco dias, o alienista meteu na Casa Verde cerca de cinqüenta aclamadores do novo governo. O
povo indignou-se. O governo, atarantado, não sabia reagir. João Pina, outro barbeiro, dizia abertamente nas ruas, que
o Porfírio estava “vendido ao ouro de Simão Bacamarte”, frase que congregou em torno de João Pina a gente
mais resoluta da vila. Porfírio, vendo o antigo rival da navalha à testa da insurreição, compreendeu que a sua perda
era irremediável, se não desse um grande golpe; expediu dois decretos, um abolindo a Casa Verde, outro desterrando
o alienista. João Pina mostrou claramente com grandes frases que o ato de Porfírio era um simples aparato, um
engodo, em que o povo não devia crer. Duas horas depois caía Porfírio ignominiosamente e João Pina assumia a difícil
tarefa do governo. Como achasse nas gavetas as minutas da proclamação, da exposição ao vice-rei e de outros atos
inaugurais do governo anterior, deu-se pressa em os fazer copiar e expedir; acrescentam os cronistas, e aliás subentende-se
que ele lhes mudou os nomes, e onde o outro barbeiro falara de uma câmara corruta, falou este de “um intruso eivado
das más doutrinas francesas e contrário aos sacrossantos interesses de Sua Majestade”, etc.

 

Nisto entrou na vila uma força mandada pelo vice-rei e restabeleceu a ordem. O alienista exigiu desde logo a
entrega do barbeiro Porfírio, e bem assim a de uns cinqüenta e tantos indivíduos que declarou mentecaptos; e não só lhe
deram esses como afiançaram entregar-lhe mais dezenove sequazes do barbeiro, que convalesciam das feridas apanhadas
na primeira revolução.

Este ponto da crise de Itaguaí marca também o grau máximo da influência de Simão Bacamarte. Tudo quanto
quis, deu-se-lhe; e uma das mais vivas provas do poder do ilustre médico achamo-la na prontidão com que os
vereadores, restituídos a seus lugares, consentiram em que Sebastião Freitas também fosse recolhido ao hospício. O
alienista, sabendo da extraordinária inconsistência das opiniões desse vereador, entendeu que era um caso patológico, e
pediu-o. A mesma coisa aconteceu ao boticário. O alienista, desde que lhe falaram da momentânea adesão de Crispim
Soares à rebelião dos Cangicas, comparou-a à aprovação que sempre recebera dele ainda na véspera, e mandou
capturá-lo. Crispim Soares não negou o fato, mas explicou-o dizendo que cedera a um movimento de terror ao ver a
rebelião triunfante, e deu como prova a ausência de nenhum outro ato seu, acrescentando que voltara logo à cama,
doente. Simão Bacamarte não o contrariou; disse, porém, aos circunstantes que o terror também é pai da loucura, e que o
caso

de Crispim Soares lhe parecia dos mais caracterizados.

Mas a prova mais evidente da influência de Simão Bacamarte foi a docilidade com que a câmara lhe entregou o
próprio presidente. Este digno magistrado tinha declarado, em plena sessão, que não se contentava, para lavá-la da afronta
dos Canjicas, com menos de trinta almudes de sangue: palavra que chegou aos ouvidos do alienista por boca do
secretário da câmara, entusiasmado de tamanha energia. Simão Bacamarte começou por meter o secretário na Casa Verde, e
foi dali à Câmara, à qual declarou que o presidente estava padecendo da “demência dos touros”, um gênero que
ele pretendia estudar, com grande vantagem para os povos. A Câmara a princípio hesitou, mas acabou cedendo.

Daí em diante foi uma coleta desenfreada. Um homem não podia dar nascença ou curso à mais simples mentira
do mundo, ainda daquelas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo metido na Casa Verde.
Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagramas, os maldizentes, os curiosos da
vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almotacé enfunado, ninguém escapava aos
emissários do alienista. Ele respeitava as namoradas e não poupava as namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a
um impulso natural e as segundas a um vício. Se um homem era avaro ou pródigo, ia do mesmo modo para a Casa
Verde; daí a alegação de que não havia regra para a completa sanidade mental. Alguns cronistas crêem que Simão
Bacamarte nem sempre procedia com lisura, e citam em abono da afirmação (que não sei se pode ser aceita) o fato de ter
alcançado da Câmara uma postura autorizando o uso de um anel de prata no dedo polegar da mão esquerda, a toda a pessoa
que, sem outra prova documental ou tradicional, declarasse ter nas veias duas ou três onças de sangue godo. Dizem
esses cronistas que o fim secreto da insinuação à câmara foi enriquecer um ourives amigo e compadre dele; mas,
conquanto seja certo que o ouvires viu prosperar o negócio depois da nova ordenação municipal, não o é menos que essa
postura deu à Casa Verde uma multidão de inquilinos; pelo que, não se pode definir, sem temeridade, o verdadeiro fim
do ilustre médico. Quanto à razão determinativa da captura e aposentação na Casa Verde de todos quantos usaram
do anel, é um dos pontos mais obscuros da história de Itaguaí; a opinião mais verossímil é que eles foram recolhidos
por andarem a gesticular, à toa, nas ruas, em casa, na igreja. Ninguém ignora que os doidos gesticulam muito. Em
todo caso, é uma simples conjetura; de positivo, nada há.

— Onde é que este homem vai parar? diziam os principais da terra. Ah! se nós tivéssemos apoiado os Cangicas…

Um dia de manhã — dia em que a câmara devia dar um grande baile, — a vila inteira ficou abalada com a notícia de
que a própria esposa do alienista fora metida na Casa Verde. Ninguém acreditou; devia ser invenção de algum gaiata. E
não era: era verdade pura. D. Evarista fora recolhida às duas horas da noite. O padre Lopes correu ao alienista e
interrogou-o discretamente acerca do fato.

— Já há algum tempo que eu desconfiava, disse gravemente o marido. A modéstia com que ela vivera em ambos
os matrimônios não podia conciliar-se com o furor das sedas, veludos, rendas e pedras preciosas que manifestou logo
que voltou do Rio de Janeiro. Desde então comecei a observá-la. Suas conversas eram todas sobre esses objetos; se eu
lhe falava das antigas cortes, inquiria logo da forma dos vestidos das damas; se uma senhora a visitava na minha
ausência, antes de me dizer o objeto da visita, descrevia-me o trajo, aprovando umas coisas e censurando outras. Um dia,
creio que Vossa Reverendíssima há de lembrar-se, propôs-se a fazer anualmente um vestido para a imagem de
Nossa Senhora da matriz. Tudo isto eram sintomas graves; esta noite, porém, declarou-se a total demência. Tinha
escolhido, preparado, enfeitado o vestuário que levaria ao baile da câmara municipal; só hesitava entre um colar de granadas
e outro de safira. Anteontem perguntou-me qual deles levaria; respondi-lhe que um ou outro ficava bem. Ontem
repetiu a pergunta ao almoço; pouco depois de jantar fui achá-la calada e pensativa. — Que tem? perguntei-lhe. — Queria
levar o colar de granada, mas acho o de safira tão bonito! — Pois leve o de safira. — Ah! mas onde fica o de granada? —
Enfim, passou a tarde sem novidades. Ceamos, e deitamo-nos. Alta noite, seria hora e meia, acordo e não a vejo;
levanto-me, vou ao quarto de vestir, acho-a diante dos dois colares, ensaiando-os ao espelho, ora um ora outro. Era evidente
a demência; recolhi-a logo.

O padre Lopes não se satisfez com a resposta, mas não objetou nada. O alienista, porém, percebeu e explicou-lhe
que o caso de D. Evarista era de “mania suntuária”, não incurável e em todo caso digno de estudo.

— Conto pô-la boa dentro de seis semanas, concluiu ele.

E a abnegação do ilustre médico deu-lhe grande realce. Conjeturas, invenções, desconfianças, tudo caiu por terra
desde que ele não duvidou recolher à Casa Verde a própria mulher, a quem amava com todas as forças da alma.
Ninguém mais tinha o direito de resistir-lhe — menos ainda o de atribuir-lhe intuitos alheios à ciência.

Era um grande homem austero, Hipócrates forrado de Catão.

 

XI
 

O Assombro de Itaguaí

 

E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que ficou a vila ao saber que um dia os loucos da Casa
Verde iam todos ser postos na rua.

— Todos?

— Todos.

— É impossível; alguns sim, mas todos…

— Todos. Assim o disse ele no ofício que mandou hoje de manhã à Câmara.

De fato o alienista oficiara à câmara expondo: —
1.° que verificara das estatísticas da vila e da Casa Verde que
quatro

quintos da população estavam aposentados naquele estabelecimento;
2.° que esta deslocação de população
levara-o a examinar os fundamentos da sua teoria das moléstias cerebrais, teoria que excluía da razão todos os casos em
que o equilíbrio das faculdades não fosse perfeito e absoluto;
3.° que, desse exame e do fato estatístico, resultara para
ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto, que se devia admitir como
normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio
fosse ininterrupto; 4.° que à vista disso declarava à Câmara que ia dar liberdade aos reclusos da Casa Verde e agasalhar
nela as pessoas que se achassem nas condições agora expostas;
5. ° que, tratando de descobrir a verdade científica, não
se pouparia a esforços de toda a natureza, esperando da câmara igual dedicação;
6.° que restituía à Câmara e
aos particulares a soma do estipêndio recebido para alojamento dos supostos loucos, descontada a parte
efetivamente gasta com a alimentação, roupa, etc; o que a câmara mandaria verificar nos livros e arcas da Casa Verde.

O assombro de Itaguaí foi grande; não foi menor a alegria dos parentes e amigos dos reclusos. Jantares,
danças, luminárias, músicas, tudo houve para celebrar tão fausto acontecimento. Não descrevo as festas por não
interessarem ao nosso propósito; mas foram esplêndidas, tocantes e prolongadas.

E vão assim as coisas humanas! No meio do regozijo produzido pelo ofício de Simão Bacamarte, ninguém
advertia na frase final do § 4.°; uma frase cheia de experiências futuras.

 

XII
 

O final do 4.°§

 

Apagaram-se as luminárias, reconstituíram-se as famílias, tudo parecia reposto nos antigos eixos. Reinava a
ordem, a câmara exercia outra vez o governo sem nenhuma pressão externa; o presidente e o vereador Freitas tornaram a
seus lugares. O barbeiro Porfírio, ensinado pelos acontecimentos, tendo “provado tudo”, como o poeta disse de
Napoleão, e mais alguma coisa, porque Napoleão não provou a Casa Verde, o barbeiro achou preferível a glória obscura
da navalha e da tesoura às calamidades brilhantes do poder; foi, é certo, processado; mas a população da vila
implorou a clemência de Sua Majestade; daí o perdão. João Pina foi absolvido, atendendo-se a que ele derrocara um
rebelde. Os cronistas pensam que deste fato é que nasceu o nosso adágio: — ladrão que furta a ladrão tem cem anos de
perdão; — adágio imoral, é verdade, mas grandemente útil.

 

Não só findaram as queixas contra o alienista, mas até nenhum ressentimento ficou dos atos que ele
praticara; acrescendo que os reclusos da Casa Verde, desde que ele os declarara plenamente ajuizados, sentiram-se tomados
de profundo reconhecimento e férvido entusiasmo. Muitos entenderam que o alienista merecia uma especial
manifestação e deram-lhe um baile, ao qual se seguiram outros bailes e jantares. Dizem as crônicas que D. Evarista a princípio
tivera idéia de separar-se do consorte, mas a dor de perder a companhia de tão grande homem venceu qualquer
ressentimento de amor-próprio e o casal veio a ser ainda mais feliz do que antes.

Não menos íntima ficou a amizade do alienista e do boticário. Este concluiu do ofício de Simão Bacamarte que
a prudência é a primeira das virtudes em tempos de revolução e apreciou muito a magnanimidade do alienista, que
ao dar-lhe a liberdade estendeu-lhe a mão de amigo velho.

— É um grande homem, disse ele à mulher, referindo-se àquela circunstância.

Não é preciso falar do albardeiro, do Costa, do Coelho, do Martim Brito e outros especialmente nomeados
neste escrito; basta dizer que puderam exercer livremente os seus hábitos anteriores. O próprio Martim Brito, recluso
por um discurso em que louvara enfaticamente D. Evarista, fez agora outro em honra do insigne médico — “cujo
altíssimo gênio, elevando as asas muito acima do sol, deixou debaixo de si todos os demais espíritos da terra”.

— Agradeço as suas palavras, retorquiu-lhe o alienista, e ainda não me arrependo de o haver restituído à liberdade.

Entretanto, a câmara, que respondera ao ofício de Simão Bacamarte com a ressalva de que oportunamente
estatuiria em relação ao final do § 4.°, tratou enfim de legislar sobre ele. Foi adotada sem debate uma postura, autorizando
o alienista a agasalhar na Casa Verde as pessoas que se achassem no gozo do perfeito equilíbrio das faculdades
mentais. E porque a experiência da câmara tivesse sido dolorosa, estabeleceu ela a cláusula de que a autorização era
provisória, limitada a um ano, para o fim de ser experimentada a nova teoria psicológica, podendo a câmara, antes mesmo
daquele prazo mandar fechar a Casa Verde, se a isso fosse aconselhada por motivos de ordem pública. O vereador
Freitas propôs também a declaração de que, em nenhum caso, fossem os vereadores recolhidos ao asilo dos
alienados: cláusula que foi aceita, votada e incluída na postura apesar das reclamações do vereador Galvão. O argumento
principal deste magistrado é que a câmara, legislando sobre uma experiência científica, não podia excluir as pessoas dos
seus membros das conseqüências da lei; a exceção era odiosa e ridícula. Mal proferira esta duas palavras, romperam
os vereadores em altos brados contra a audácia e insensatez do colega; este, porém, ouviu-os e limitou-se a dizer
que votava contra a exceção.

— A vereança, concluiu ele, não nos dá nenhum poder especial nem nos elimina do espírito humano.

Simão Bacamarte aceitou a postura com todas as restrições. Quanto à exclusão dos vereadores, declarou que
teria profundo sentimento se fosse compelido a recolhê-los à Casa Verde; a cláusula porém, era a melhor prova de que
ele não padeciam do perfeito equilíbrio das faculdades mentais. Não acontecia o mesmo ao vereador Galvão, cujo
acerto na objeção feita, e cuja moderação na resposta dada às invectivas dos colegas mostravam da parte dele um cérebro
bem organizado; pelo que rogava à câmara que lho entregasse. A câmara, sentindo-se ainda agravada pelo proceder
do vereador Galvão, estimou o pedido do alienista e votou unanimemente a entrega.

 

Compreende-se que, pela teoria nova, não bastava um fato ou um dito para recolher alguém à Casa Verde; era
preciso um longo exame, um vasto inquérito do passado e do presente. O padre Lopes, por exemplo, só foi capturado
trinta dias depois da postura, a mulher do boticário quarenta dias. A reclusão desta senhora encheu o consorte de
indignação. Crispim Soares saiu de casa espumando de cólera e declarando às pessoas a quem encontrava que ia arrancar as
orelhas ao tirano. Um sujeito, adversário do alienista, ouvindo na rua essa notícia, esqueceu os motivos da dissidência, e
correu à casa de Simão Bacamarte a participar-lhe o perigo que corria. Simão Bacamarte mostrou-se grato ao
procedimento do adversário, e poucos minutos lhe bastaram para conhecer a retidão dos seus sentimentos, a boa fé, o
respeito humano, a generosidade; apertou-lhe muito as mãos e recolheu-o à Casa Verde.

— Um caso deste é raro, disse ele à mulher pasmada. Agora esperemos o nosso Crispim.

Crispim Soares entrou. A dor vencera a raiva, o boticário não arrancou as orelhas do alienista. Este consolou o
seu privado, assegurando-lhe que não era caso perdido; talvez a mulher tivesse alguma lesão cerebral; ia examiná-la
com muita atenção; mas antes disso não podia deixá-la na rua. E, parecendo-lhe vantaaw6kxo reuni-los, porque a astúcia
e velhacaria do marido poderiam de certo modo curar a beleza moral que ele descobrira na esposa, disse
Simão Bacamarte:

— O senhor trabalhará durante o dia na botica, mas almoçará e jantará com sua mulher, e cá passará as noites, e
os domingos e dias santos.

A proposta colocou o pobre boticário na situação do asno de Buridan. Queria viver com a mulher, mas temia
voltar à Casa Verde; e nessa luta esteve algum tempo, até que D. Evarista o tirou da dificuldade, prometendo que
se incumbiria de ver a amiga e transmitiria os recados de um para outro. Crispim Soares beijou-lhe as mãos
agradecido. Este último rasgo de egoísmo pusilânime pareceu sublime ao alienista.

Ao cabo de cinco meses estavam alojadas umas dezoito pessoas; mas Simão Bacamarte não afrouxava; ia de rua
em rua, de casa em casa, espreitando, interrogando, estudando; e quando colhia um enfermo levava-o com a mesma
alegria com que outrora os arrebanhava às dúzias. Essa mesma desproporção confirmava a teoria nova; achara-se enfim
a verdadeira patologia cerebral. Um dia conseguiu meter na Casa Verde o juiz de fora; mas procedia com tanto
escrúpulo que não o fez senão depois de estudar minuciosamente todos os seus atos e interrogar os principais da vila. Mais
de uma vez esteve prestes a recolher pessoas perfeitamente desequilibradas; foi o que se deu com um advogado, em
que reconheceu um tal conjunto de qualidades morais e mentais que era perigoso deixá-lo na rua. Mandou prendê-lo;
mas o agente desconfiado, pediu-lhe para fazer uma experiência; foi ter com um compadre, demandado por um
testamento falso, e deu-lhe de conselho que tomasse por advogado o Salustiano; era o nome da pessoa em questão.

— Então, parece-lhe…?

 

— Sem dúvida: vá, confesse tudo, a verdade inteira, seja qual for, e confie-lhe a causa.

O homem foi ter com o advogado, confessou ter falsificado o testamento e acabou pedindo que lhe tomasse a
causa. Não se negou o advogado; estudou os papéis, arrazoou longamente, e provou a todas as luzes que o testamento
era mais que verdadeiro. A inocência do réu foi solenemente proclamada pelo juiz e a herança passou-lhe às mãos.
O distinto jurisconsulto deveu a esta experiência a liberdade.

Mas nada escapa a um espírito original e penetrante. Simão Bacamarte, que desde algum tempo notava o zelo,
a sagacidade, paciência, a moderação daquele agente, reconheceu a habilidade e o tino com que ele levara a cabo
uma experiência tão melindrosa e complicada, e determinou recolhê-lo imediatamente à Casa Verde; deu-lhe todavia
um dos melhores cubículos.

Os alienados foram alojados por classes. Fez-se uma galeria de modestos; isto é, os loucos em quem predominava
esta perfeição moral; outra de tolerantes, outra de verídicos, outra de símplices, outra de leais, outra de magnânimos,
outra de sagazes, outra de sinceros, etc. Naturalmente as famílias e os amigos dos reclusos bradavam contra a teoria; e
alguns tentaram compelir a câmara a cassar a licença. A câmara, porém, não esquecera a linguagem do vereador Galvão, e
se cassasse a licença, vê-lo-ia na rua e restituído ao lugar; pelo que, recusou. Simão Bacamarte oficiou aos
vereadores, não agradecendo, mas felicitando-os por esse ato de vingança pessoal.

Desenganados da legalidade, alguns principais da vila recorreram secretamente ao barbeiro Porfírio e
afiançaram-lhe todo o apoio de gente, de dinheiro e influência na corte, se ele se pusesse à testa de outro movimento contra a
câmara e o alienista. O barbeiro respondeu-lhes que não; que a ambição o levara da primeira vez a transgredir as leis, mas
que ele se emendara, reconhecendo o erro próprio e a pouca consistência da opinião dos seus mesmos sequazes; que
a câmara entendera autorizar a nova experiência do alienista, por um ano; cumpria, ou esperar o fim do prazo,
ou requerer ao vice-rei, caso a mesma câmara rejeitasse o pedido. Jamais aconselharia o emprego de um recurso que
ele viu falhar em suas mãos e isso a troco de mortes e ferimentos que seriam o seu eterno remorso.

— O que é que está me dizendo? perguntou o alienista quando um agente secreto lhe contou a conversação do
barbeiro com os principais da vila.

Dois dias depois o barbeiro era recolhido à Casa Verde. — Preso por ter cão; preso por não ter cão! exclamou o infeliz.

Chegou o fim do prazo, a câmara autorizou um prazo suplementar de seis meses para ensaio dos meios
terapêuticos. O desfecho deste episódio da crônica itaguaiense é de tal ordem, e tão inesperado, que merecia nada menos de
dez capítulos de exposição; mas contento-me com um, que será o remate da narrativa, e um dos mais belos exemplos
de convicção científica e abnegação humana.

 

XIII
 

PLUS ULTRA

 

Era a vez da terapêutica. Simão Bacamarte, ativo e sagaz em descobrir enfermos, excedeu-se ainda na diligência
e penetração com que principiou a tratá-los. Neste ponto todos os cronistas estão de pleno acordo: o ilustre alienista
fez curas pasmosas, que excitaram a mais viva admiração em Itaguaí.

Com efeito, era difícil imaginar mais racional sistema terapêutico. Estando os loucos divididos por classes,
segundo a perfeição moral que em cada um deles excedia às outras, Simão Bacamarte cuidou de atacar de frente a
qualidade predominante. Suponhamos um modesto. Ele aplicava a medicação que pudesse incutir-lhe o sentimento oposto;
e não ia logo às doses máximas, — graduava-as, conforme o estado, a idade, o temperamento, a posição social
do enfermo. Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma bengala para restituir a razão ao alienado;
em outros casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de brilhante, às distinções honoríficas, etc.
Houve um doente poeta que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar da cura, quando teve de mandar
correr matraca para o fim de o apregoar como um rival de Garção e de Píndaro.

— Foi um santo remédio, contava a mãe do infeliz a uma comadre; foi um santo remédio.

Outro doente, também modesto, opôs a mesma rebeldia à medicação; mas, não sendo escritor (mal sabia assinar
o nome), não se lhe podia aplicar o remédio da matraca. Simão Bacamarte lembrou-se de pedir para ele o lugar
de secretário na Academia dos Encobertos, estabelecida em Itaguaí. Os lugares de presidente e secretários eram
de nomeação régia, por especial graça do finado rei Dom João V, e implicavam o tratamento de Excelência e o uso de
uma placa de ouro no chapéu. O governo de Lisboa recusou o diploma; mas representando o alienista que o não pedia
como prêmio honorífico ou distinção legítima, e somente como um meio terapêutico para um caso difícil, o governo
cedeu excepcionalmente à súplica; e ainda assim não o fez sem extraordinário esforço do ministro da marinha e ultramar,
que vinha a ser primo do alienado. Foi outro santo remédio.

— Realmente, é admirável! dizia-se nas ruas, ao ver a expressão sadia e enfunada dos dois ex-dementes.

 

Tal era o sistema. Imagina-se o resto. Cada beleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição
parecia mais sólida; e o efeito era certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que a qualidade predominante resistia a
tudo; então o alienista atacava outra parte, aplicando à terapêutica o método da estratégia militar, que toma uma
fortaleza por um ponto, se por outro o não pode conseguir.

No fim de cinco meses estava vazia a Casa Verde; todos curados! O vereador Galvão, tão cruelmente afligido
de moderação e eqüidade, teve a facilidade de perder um tio; digo felicidade, porque o tio deixou um testamento
ambíguo e ele obteve uma boa interpretação corrompendo os juízes e embaçando os outros herdeiros. A sinceridade do
alienista manifestou-se neste lance; confessou ingenuamente que não teve parte na cura: foi a simples
vis medicatrix da natureza. Não aconteceu o mesmo com o padre Lopes. Sabendo o alienista que ele ignorava perfeitamente o
hebraico e o grego, incumbiu-o de fazer uma análise crítica da versão dos setenta; o padre aceitou a incumbência, e em boa
hora o fez; ao cabo de dois meses possuía um livro e a liberdade. Quanto à senhora do boticário, não ficou muito
tempo na célula que lhe coube, e onde aliás lhe não faltaram carinho.

— Por que é que o Crispim não vem visitar-me? dizia ela todos os dias.

Respondiam-lhe ora uma coisa, oura outra; afinal disseram-lhe a verdade inteira. A digna matrona não pôde conter
a indignação e a vergonha. Nas explosões de cólera escaparam-lhe expressões soltas e vagas, como estas:

— Tratante!… velhaco!… ingrato!… Um patife que tem feito casas à custas de ungüentos falsificados e podres…
Ah! tratante!…

Simão Bacamarte advertiu que, ainda quando não fosse verdadeira a acusação contida nestas palavras, bastavam
elas para mostrar que a excelente senhora estava enfim restituída ao perfeito desequilíbrio das faculdades; e
prontamente lhe deu alta.

Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o último hóspede da Casa Verde, mostrais com isso
que ainda não conheceis o nosso homem. Plus ultra!
era a sua divisa. Não lhe bastava ter descoberto a teoria
verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecido em Itaguaí o reinado da razão.
Plus ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado, cogitativo;
alguma coisa lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e
novíssima teoria.

— Vejamos, pensava ele; vejamos se chego enfim à última verdade.

Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde fulgurava a mais rica biblioteca dos domínios ultramarinos de
Sua Majestade. Um amplo chambre de damasco, preso à cintura por um cordão de seda, com borlas de ouro (presente
de uma Universidade) envolvia o corpo majestoso e austero do ilustre alienista. A cabeleira cobria-lhe uma extensa
e nobre calva adquirida nas cogitações quotidianas da ciência. Os pés, não delgados e femininos, não graúdos e
mariolas, mas proporcionados ao vulto, eram resguardados por um par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples
e modesto latão. Vede a diferença: — só se lhe notava luxo naquilo que era de origem científica; o que propriamente
vinha dele trazia a cor da moderação e da singeleza, virtudes tão ajustadas à pessoa de um sábio.

Era assim que ele ia, o grande alienista, de um cabo a outro da vasta biblioteca, metido em si mesmo, estranho a
todas as coisas que não fossem o tenebroso problemas da patologia cerebral. Súbito, parou. Em pé, diante de uma
janela, com o cotovelo esquerdo apoiado na mão direita, aberta, e o queixo na mão esquerda, fechada, perguntou ele a si:

 

— Mas deveras estariam ele doidos, e foram curados por mim, — ou o que pareceu cura não foi mais do que a
descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro?

E cavando por aí abaixo, eis o resultado a que chegou: os cérebros bem organizados que ele acabara de curar,
eram desequilibrados como os outros. Sim, dizia ele consigo, eu não posso ter a pretensão de haver-lher incutido
um

sentimento ou uma faculdade nova; uma e outra coisa existiam no estado latente, mas existiam.

Chegado a esta conclusão, o ilustre alienista teve duas sensações contrárias, uma de gozo, outra de abatimento. A
de gozo foi por ver que, ao cabo de longas e pacientes investigações, constantes trabalhos, luta ingente com o povo,
podia afirmar esta verdade: — não havia loucos em Itaguaí; Itaguaí não possuía um só mentecapto. Mas tão depressa esta
idéia lhe refrescara a alma, outra apareceu que neutralizou o primeiro efeito; foi a idéia da dúvida. Pois quê! Itaguaí
não possuiria um único cérebro concertado? Esta conclusão tão absoluta, não seria por isso mesmo errônea, e não
vinha, portanto, destruir o largo e majestoso edifício da nova doutrina psicológica?

A aflição do egrégio Simão Bacamarte é definida pelos cronistas itaguaienses como uma das mais
medonhas tempestades morais que têm desabado sobre o homem. Mas as tempestades só aterram os fracos; os fortes
enrijam-se contra elas e fitam o trovão. Vinte minutos depois alumiou-se a fisionomia do alienista de uma suave claridade.

Sim, há de ser isso, pensou ele.

Isso é isto. Simão Bacamarte achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral; pareceu-lhe
que possuía a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas
as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto. Duvidou logo, é certo, e chegou mesmo a concluir
que era ilusão; mas, sendo homem prudente, resolveu convocar um conselho de amigos, a quem interrogou com
franqueza. A opinião não foi afirmativa.

— Nenhum defeito?

— Nenhum, disse em coro a assembléia.

— Nenhum vício?

— Nada.

— Tudo perfeito?

— Tudo.

— Não, impossível, bradou o alienista. Digo que não sinto em mim esta superioridade que acabo de ver definir
com tanto magnificência. A simpatia é que vos faz falar. Estudo-me e nada acho que justifique os excessos da
vossa bondade.

A assembléia insistiu; o alienista resistiu; finalmente o padre Lopes explicou com este conceito digno de
um observador:

 

— Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda
uma qualidade que realça as outras: — a modéstia.

Era decisivo, Simão Bacamarte curvou a cabeça juntamente alegre e triste, e ainda mais alegre do que triste.
Ato contínuo, recolheu-se à Casa Verde. Em vão a mulher e os amigos lhe disseram que ficasse, que estava
perfeitamente são e equilibrado: nem rogos nem sugestões nem lágrimas o detiveram um só instante.

— A questão é científica, dizia ele; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reúno em mim
mesmo a teoria e a prática.

— Simão! Simão! meu amor! dizia-lhe a esposa com o rosto lavado em lágrimas.

Mas o ilustre médico, com os olhos acesos da convicção científica, trancou os ouvidos à saudade da mulher,
e brandamente a repeliu. Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os
cronistas que ele morreu dali a dezessete meses, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada.
Alguns chegaram ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco além dele em Itaguaí; mas esta opinião, fundada
em um boato que correu desde que o alienista expirou, não tem outra prova senão o boato; e boato duvidoso, pois
é atribuído ao padre Lopes, que com tanto fogo realçara as qualidades do grande homem. Seja como for, efetuou-se
o enterro com muita pompa e rara solenidade.

Third of three parts. O Alienista was originally published in
Papéis Avulsos, a collection of short stories by
Machado de Assis
.

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