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Gorgeous, But Who Cares?

Gorgeous,
      But Who
      Cares?

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By Adelaide Bouchardet Davis

"Sua
disposição atenciosa se tornara uma armadilha para ela agora. Ela estava, precisa-se
admitir, algumas vezes de forma provocativa e desnecessária, desejando sobrecarregar-se
com trabalhos manuais."

Thomas Hardy
  in The Mayor of Casterbridge

A década de 60 chegara trazendo consigo os novos tempos. Tempos de Beatles. Tempos de
enlatados americanos que enchiam a até então ingênua televisão brasileira. Os médicos
faziam sucesso e os fãs não queriam perder nem um filme do Dr. Kildare ou do Ben
Casey. As mocinhas morriam de amores pelos heróis de Rota 66, Martin Millner e
George Maharis, e os rapazes sonhavam, um dia, ter um Corvette conversível igual ao
deles. A televisão era ainda em preto-e-branco; estava saindo da fase dos teleteatros,
dos programas humorísticos, para mergulhar de cabeça num novo mundo dublado e
completamente fora da realidade que o país vivia então. A Praça é Nossa passava
a competir com o Bonanza e Neide Aparecida tinha seus dias contados como
garota-propaganda; os anúncios ao vivo começavam a morrer e as tais garotas eram
dispensadas levando consigo o sorriso que vendia de tudo, até felicidade.

Os concursos de "Miss Brasil" e "Miss Universo" povoavam os sonhos
das mulheres. Ieda Maria Vargas, Miss Brasil, se tornou "Miss Universo 1963",
competindo com candidatas louras e lindas de todo o mundo. Morena, delicada, elegante, e
com medidas perfeitas convenceu o júri do concurso que naquele ano as polegadas estavam
todas no lugar certo e que a coroa tinha de ser do Brasil. Assentadas em frente à
televisão, já de madrugada, vestidas em seus pijamas e camisolas de flanela, as mulheres
brasileiras de todas as idades, cores, e credos, viram Norma Nolan, "Miss Universo
1962", a argentina "mignon", coroar a moça que viera do Rio Grande do Sul,
em seu vestido longo azul e todo bordado de vidrilhos e canutilhos. As revistas O
Cruzeiro, Fatos e Fotos e Manchete fizeram da nova "miss" um
ídolo, dedicando a ela edições especiais, onde contavam toda a trajetória da moça.
Até mesmo os cidadãos decentes e conservadores, e as senhoras mais puritanas, que antes
criticavam qualquer moça que se atrevia a mostrar o corpo em coisas daquele tipo,
começaram a sonhar com as filhas participando de um concurso de Miss. Imagina! poder
ganhar aqueles prêmios que pareciam coisas de cinema—coisas daqueles americanos
ricos—carros, jóias, casaco de pele e dinheiro vivo… e o melhor! a chance de
viajar pelo mundo todo e, no final do reinado, conseguir um marido rico e importante,
maridos como os de Marta Rocha, Terezinha Morango e Adalgisa Colombo. Os maiôs Catalina
nunca venderam tanto; todas as mulheres queriam ter o "glamour" de Miss
Universo. A maquiagem adquiriu nova importância na vida delas, principalmente o
delineador que chegava para ficar, desenhando olhos de todas as formas e tamanhos. Tudo
excitantemente novo!

As meninas se atreviam então a usar mini-saias e a mostrar um pouco mais as
pernas—Mary Quant ditava a moda na Inglaterra e o resto do mundo copiava. Os rapazes,
que antes usavam calças largas, confortáveis e comportadas o suficiente para não
denunciar suas formas, agora as queriam justas mostrando que tinham "bundinhas"
extremamente interessantes. Os colégios, a igreja, os pais, todos tentavam controlar os
excessos mas não conseguiam muita coisa. Jovens revoltados com o "status quo"
que os reprimira por tantos anos, deixavam os cabelos cobrirem as orelhas—para
desespero total dos mais velhos e delírio pleno das menininhas de família—ou não!
Parecia que o mundo se descontrolava geral! Elvis Presley, com todo aquele rebolado,
cabelo de brilhantina, cantando baladas melosas, já não representava nenhum perigo. Os
quatro ingleses, branquelos e irreverentes, com seus cabelos compridos, esses sim,
passaram a ameaçar o sossego e os bons costumes das famílias conservadoras; continuavam
cantando e mostrando do que era capaz a geração pós-Juventude Transviada—um
verdadeiro delírio! Cantaram tanto que se transformaram no fenômeno do século e foram
condecorados pela Rainha Elizabeth. Depois deles o mundo nunca mais seria o mesmo.

Mesmo com toda aquela revolução de costumes e cultura, com o país absorvendo o que
havia de melhor—e pior—na Europa e nos Estados Unidos, a geração de
compositores e poetas brasileiros resistia bravamente. Na acanhada capital das Minas
Gerais, Pacífico Mascarenhas gravava, num compacto simples da gravadora Pampulha, o seu
"vou descobrir onde mora esta garota colegial, que passa sempre dando bola dentro de
um especial…". E, o país mergulhou numa revolução militar que mudaria a vida de
todos os brasileiros.

Letícia, como a maioria daquelas "garotas colegiais", se entregava ao seu
mundo de escola e festinhas, fazendo sucesso do seu jeito. Não se importava com problemas
sociais, nem com o custo de vida. Não sabia porque o presidente Jânio Quadros estava
renunciando, mas sabia que João Goulart, o vice-presidente que assumia o governo, vinha
do Rio Grande do Sul, como Ieda Vargas, a Miss Universo—tinha visto aquele homem nas
fotografias com a miss—e achava o "Che" Guevara um "pão". Não
se preocupou com a revolução militar quando ela aconteceu; ditadura e presos políticos
não faziam parte do seu mundo pequeno e inconsciente.

Nunca fora boa estudante, mas gostava de ir para o colégio—gostava dos amigos que
fazia por lá. Usava o uniforme obrigatório do "Colégio Estadual"—saia
cinza, blusa e meias brancas, gravata verde, sapatos e cinto marrons. Mas nada a fazia
parecer "só mais uma" no meio das outras meninas. Era diferente de todas e
tinha consciência disto.

Com quinze anos de idade não era alta e o corpo era como de qualquer
adolescente—nada de excepcional. Os cabelos eram longos e lisos, de franja—e,
por isso, seu apelido era "comanche". Algumas vezes, levantava parte deles e os
amarrava no alto da cabeça deixando que o resto caísse solto, num descuido cuidado. O
rosto era uma perfeição e todos diziam que Letícia era linda. A boca não existia outra
igual, e os dentes, um pouco irregulares mas muito claros, completavam o sorriso que
pairava sempre acima daquele queixo tão bem feito.

Gostava mesmo era de namorar e escolhia os rapazes mais cobiçados do colégio.
Antônio Maurício, estava no terceiro científico—mais velho, mais disputado pelas
menininhas do ginásio. Ele sabia que era bonito, que tinha charme, mas não era
convencido; era um sujeito simpático e tinha um "jeep" velho, uma
gracinha—ele e o "jeep"! Começou a namorar Letícia; no final do ano ele
passou no vestibular de Economia; saiu do colégio e o namoro acabou, sem dramas ou
choradeiras.

Osmani, estudante de Química, fazia um trabalho especial com o professor de Ângelo no
laboratório do colégio e era o alvo das meninas mais assanhadinhas. Letícia fingiu que
não achava nada de especial nele mas estava sempre passando pela porta do laboratório; o
moço não resistiu ao sorriso dela e os dois começaram a namorar. Uns três meses se
passaram e ela já não queria mais saber dele; dizia que o moço andava bem vestido
demais, e só conversava sobre Texaco, petróleo e química—tudo muito chato! Osmani
acabou o trabalho com o professor e foi logo esquecido.

Letícia passou a se encontrar com Carlos von Brenner, descendente de alemães, jogador
de tênis no clube que os dois freqüentavam. Desta vez o namoro foi mais curto que de
costume—a mãe de Carlos era muito aristocrática e pensava em coisa melhor para o
louro germânico. Letícia não se importou quando ele lhe disse que não iriam namorar
mais; ela já estava cansada daquela "velha chata e pedante", sempre controlando
o filho e as amizades dele.

Os livros ficavam esquecidos no meio de tantos namoros. Depois de três sucessos na
conquista de homens lindos, e de duas "bombas" na escola, teve de procurar um
novo colégio. A mãe ficou desgostosa; a avó disse que não esperava outra coisa.
Letícia foi morar com os tios em Volta Redonda; estudaria lá até que completasse o
ginásio. Depois de dois anos estava pronta para voltar para casa. Conseguira o diploma,
mesmo que entre provas e aulas tivesse namorado muitos daqueles fluminenses lindos que
falavam "puxando o s".

Voltava para casa com uma novidade a mais no curriculum—tinha morado no Estado do
Rio e conhecia uma parte do mundo que as outras meninas não conheciam. Não mudara muito,
só tinha se tornado mais bonita. E continuou a flertar, escolher e namorar; gostava e
desgostava de quantos iam aparecendo e desaparecendo, atormentava a vida das outras moças
que perdiam suas chances se ela se interessava pelos mesmos rapazes.

Conheceu Ronaldo numa hora dançante em casa de Márcio. E, para espanto dela mesma,
desta vez se apaixonara de verdade. Ronaldo falava arrastado, mas era um homem
extremamente agradável e inteligente; não a amolava com conversas sobre resistência de
materiais, tabela periódica e cálculo integral, apesar de ser mais um estudante de
Engenharia na cidade. Ele era alegre, gostava de festas, e cantava muito bem. Formavam um
par bonito e as famílias estavam satisfeitas com aquele namoro. "Até que enfim
Letícia assentou a cabeça!" pensava e dizia a avó, mesmo que ainda um pouco
descrente de que aquilo fosse durar.

No dia de seu aniversário, em novembro de 1972, Letícia estava apostando com as
amigas que Ronaldo iria lhe pedir para ficarem noivos. Ele chegou à noite e uma festa
estava preparada para os mais chegados. Tudo correu bem. No final da festa Ronaldo chamou
a namorada para conversarem a sós. Ela se sentiu flutuando. Ele, vencendo todo o
embaraço que a situação lhe trazia, disse que não podia continuar o namoro; estava
preocupado com os estudos, com a carreira, e não queria assumir nenhum compromisso sério
naquela fase da sua vida. Mais tarde, quem sabe… Letícia não chorou, não pediu que
ele repensasse a decisão; ouviu calada o que ele dizia; no final daquele discurso cheio
de explicações ela simplesmente lhe deu boa noite e entrou em casa. Ouviu quando ele
fechou o portão. No dia seguinte comunicou o rompimento à família e nunca mais tocou no
assunto com ninguém.

Seis meses depois, ela ficava noiva de Paulo com quem começara um namoro, tão logo
Ronaldo saíra de sua vida. A avó ficou contra aquele relacionamento desde o princípio.
Paulo e Letícia eram primos—de terceiro grau, mas ainda primos—e isto não
poderia dar certo. Paulo era um intelectual. Tinha um bom emprego, era inteligente e
parecia gostar muito de Letícia, mas ninguém acreditava que ela o amasse de verdade. Ele
era a antítese dos homens que Letícia sempre escolhera. Não era bonito e já estava
ficando careca, mesmo que fosse ainda muito jovem; era quieto e educado. Tinha três
irmãos que, como a mãe e o pai, aprovavam plenamente o casamento deles. A avó tentou
convencer a neta que ela estava fazendo uma grande bobagem, que deveria esperar mais;
dizia sempre "menina, casamento não é coisa para se brincar, é muito sério; um
erro pode estragar o resto da sua vida!". Mas Letícia não aceitava nenhuma
ponderação; dizia que estava decidida e que se casaria com Paulo de qualquer jeito.
Será que ninguém entendia que todas as suas amigas estavam se casando e ela continuava
solteira?! Ela não deixaria que aquilo acontecesse! E, enquanto a avó reclamava, eles
saíam praticamente todas as noites, com um grupo de amigos, também intelectuais, e todos
conversavam, sobre música clássica, cinema e livros de Proust, Kafka, Camus e Sartre.
Aquele era um mundo novo que ela estava disposta a tolerar—quem sabe precisava mesmo
ter um pouco mais de cultura!

Na noite do noivado Letícia era toda sorrisos. A festa trouxe os amigos e todos se
divertiram muito. O gato da casa, completamente assustado com aquele movimento, entrava e
saía pela janela da sala passando por cima dos convidados que estavam assentados no
sofá. Algumas crianças corriam pela casa sem dar sossego a ninguém, e os mais velhos
conversavam animadamente a um canto. Muitos canapés e drinques depois, os convidados se
foram e a família foi dormir, exausta. Quando se acomodava em sua cama, Letícia ouviu
uma voz de homem cantando. As irmãs correram para a janela e a chamaram rápido porque a
serenata era para ela; com cuidado abriu um cantinho da cortina e olhou para
baixo—Ronaldo estava lá com um amigo; os dois tocavam violão e ele cantava. Ela se
virou sem fazer nenhum comentário com as outras, voltou para a cama e cobriu a cabeça
com o travesseiro.

O casamento, o primeiro entre as irmãs, foi celebrado com toda a pompa e
circunstância. Durante a semana que precedeu à festa foram chegando
presentes—cristais, prataria, louças de excelente qualidade, faqueiros—todos
vinham em caixas embrulhadas em papéis elegantes, cheias de laços, e acompanhadas de
cartões; tudo era exposto convenientemente sobre a cama da noiva, conforme mandava a
tradição. Além dos pacotes chegavam também gordos cheques que eram muito bem-vindos e
separados cuidadosamente. A cerimônia civil foi em casa, seguida de aperitivos e hors
d’oeuvres; tudo muito chic, com direito a notinha nas colunas sociais. Várias
fotos, feitas por um profissional renomado, registraram o acontecimento. No dia seguinte,
outras fotos foram tiradas pelo mesmo fotógrafo, antes da cerimônia religiosa. Letícia
estava ainda mais bonita, penteada e maquiada. O vestido branco era uma perfeição; feito
pela famosa D. Alba, costureira da alta sociedade, era completado por um longo véu de
renda bordada. A noiva posou gloriosa—de perfil refletido no espelho de seu quarto,
junto às flores que haviam chegado pela manhã, um close especial de seu rosto
junto ao de sua mãe, e mais uma infinidade de outras poses tradicionais. As irmãs
também posaram para a posteridade—um luxo!

Chegara, finalmente, a hora do grande evento. A igreja estava cheia de flores, tapete
vermelho que ia da entrada até o altar; o padre conferia os últimos detalhes de seus
trajes e fazia recomendações a seu ajudante. A irmã mais nova era a dama de honra; em
seu vestido longo de jersey amarelo, tendo no alto da cabeça um trabalhado coque de
mechas cheio de fitas, tentava segurar com classe o buquê de flores que completava seu
visual. Um sem-número de padrinhos e madrinhas, enfeitados em suas roupas feitas
especialmente para a festa, concorriam por um lugar junto ao altar; os demais convidados
se apertavam como podiam nos bancos da igreja e em suas roupas e sapatos novos. Todos
olharam ao mesmo tempo quando o órgão começou a tocar a "Marcha Nupcial."
Letícia entrou sorrindo gloriosa na pequena igreja, levada pelo braço do irmão. Era a
mesma moça linda de sempre—os dentes, um pouco irregulares mas muito claros,
completavam o sorriso que continuava pairando acima daquele queixo tão bem feito.

A lua-de-mel foi em Campos do Jordão—muito em moda àquela época. Quando o casal
voltou, todos os presentes estavam organizados e prontos para serem despachados para o Rio
de Janeiro. Paulo e Letícia estavam se mudando para a Cidade Maravilhosa. Ele começaria
a trabalhar em uma nova companhia dentro de quinze dias; ela realizaria o sonho de viver
perto do mar.

O pequeno apartamento ficava num prédio muito alto em Copacabana, próximo à Avenida
Atlântica. Paulo saía para trabalhar de manhã e Letícia ia para a praia. E assim se
passaram os dois primeiros meses de casamento, um tempo de adaptação do casal ao novo
lugar, aos novos amigos, à nova vida. Rafael, irmão de Paulo, também morava e
trabalhava no Rio; ele e a mulher ajudaram muito naquela fase de começo de vida.

Depois de certo tempo Letícia andava notando que Paulo se tornara taciturno,
esquisito. Uma noite, já muito preocupada, tentou conversar com o marido e saber o que
estava acontecendo. Ele ficou agitado e começou a dizer coisas estranhas; falava alto,
repetindo todo o tempo que a vida não tinha nenhum sentido, que ninguém precisava estar
no mundo, que tudo era ridículo. Era um outro homem. Assustada com o rumo que as coisas
estavam tomando, Letícia foi ao quarto e telefonou para o cunhado. Pediu a ele que viesse
logo porque Paulo não estava bem. Voltou à sala e destrancou a porta. O marido, de pé
junto à janela, continuava a falar sobre a inconsistência da vida. Caminhava,
gesticulava, conversava sozinho. Falava em Buñuel, em Godard, dizia que precisava
telefonar para Elia Kazan. De vez em quando ria alto. Letícia não entendia o que estava
acontecendo com aquele homem calmo e gentil que ela conhecia. Subitamente ele se sentou e
ficou muito quieto. Ficou assim por um tempo; depois levantou-se da cadeira devagar e
caminhou outra vez em direção à janela. Letícia também se levantou e começou a
chamar de mansinho por ele. As cortinas balançavam com o ar da noite que estava fresca
lá fora, e muito cheia de estrelas. Paulo parou e ficou olhando para elas. Lentamente
virou-se para Letícia, como se só então a estivesse vendo ali, e disse calmo
"será um vôo tranqüilo e rápido, tenho certeza. Não terei tempo de me despedir
de ninguém. Bergman me perdoará por isto" e olhou novamente para o escuro com
pontos de luz. A mulher só teve tempo para se agarrar às suas pernas, antes que ele
desse mais um passo.

Letícia gritava por socorro quando Rafael entrou correndo no apartamento e dominou o
irmão que, aos poucos, foi ficando quieto. Rafael o levou para a cama e lhe deu um
comprimido e água para que ele bebesse. Passados uns dez minutos Paulo relaxou e dormiu.

Letícia ficou na sala, quieta, olhando para o nada. O cunhado veio se assentar perto
dela. Pegou-lhe a mão e disse devagar "nós deveríamos ter conversado com você
antes. Não tivemos coragem. O Paulo é psicótico-maníaco-depressivo."

Do que Rafael estava falando? O que significava aquilo? De quem ele estava falando?
Devagar o cunhado explicou a ela a gravidade da doença do irmão. Letícia não disse
nada a ninguém. Não contou à mãe, não falou com a avó, escondeu tudo das irmãs.
Sabia que nunca amara Paulo e não o amaria jamais. Agora sentia pena dele, sentia pena de
si mesma. Não podia voltar atrás na sua decisão—estava grávida. Encontraria um
jeito qualquer de ser feliz.

Voltaram a morar em Belo Horizonte. Paulo trabalhava em outra empresa, na assessoria do
diretor de marketing e relações públicas. Letícia preparava o enxoval da criança,
ajudada pela avó, que costurava cueros e roupinhas de cama, e pela a mãe, que bordava
camisinhas de pagão, tricotava mantas e fazia planos para o futuro do neto.

O bebê nasceu prematuro, depois de uma gravidez complicada. Um menino lindo, mas tão
miudinho que a cabeça cabia na palma da mão de sua bisavó. Deram a ele o nome de Tito,
em homenagem ao avô paterno. Cercado de cuidados e atenções de toda a família, a
criança conseguiu passar pelos primeiros meses de vida.

Quando o filho estava com dois anos—um tourinho forte e saudável—e a
situação financeira bem equilibrada, Paulo e Letícia fizeram uma viagem a França.
Deixaram a criança com a avó materna e se foram por vinte dias. O marido a levou a
Cannes onde acontecia o famoso festival de cinema. Ele fora mandado, pelo jornal para o
qual escrevia críticas de cinema, para cobrir o evento. Letícia estava encantada com
todo aquele clima de festa e fantasia. O tempo todo via passar os astros e estrelas que
ela já conhecia na tela; numa manhã, estava na piscina do hotel quando viu, sem poder
acreditar, Jean Sorel, o ator francês que fazia o marido de Catherine Deneuve em Belle
de Jour; o homem chegou para um banho de sol e atraiu a atenção de todas as mulheres
que o acharam lindo demais! Depois de uns dias em Paris e uma visita ao irmão dela, que
nesta época morava na França, voltaram para o Brasil.

Tito estava com três anos quando nasceu sua irmã Iêda. A menina não tinha sido
planejada e a mãe pensou em fazer um aborto quando soube que estava grávida novamente.
Tivera tanto trabalho com o menino, passara tantas noites em claro preocupada com sua
saúde, que não estava disposta a aturar tudo aquilo novamente. Com raiva daquela
gravidez indesejada, não se cuidou como da primeira vez, não preparou o
enxoval—aproveitaria o que fizera para Tito—não pensou em nenhum nome para a
criança. Fumava muito, mesmo com o médico a lhe dizer todo o tempo que aquilo
prejudicaria o bebê, e gostava de tomar um drinque todas as noites antes do jantar. A
menina nasceu chorando escandalosamente, e chorou por muito tempo tornando a vida da mãe
um verdadeiro calvário.

Agora tudo se resumia em crianças, babás, sopinhas, fraldas, escolinha. Uma droga!
Paulo se tratava dos problemas psicológicos; tinha terapia duas vezes por semana e
raramente as crises se manifestavam—nenhuma outra como aquela que tivera no Rio. As
crianças cresciam e não mostravam nenhum sinal de terem herdado a doença do pai.

Depois do segundo aniversário de Iêda, Letícia ficou grávida novamente—desta
vez, sem nenhum sentimento extremo de amor ou de raiva. Dulce nasceu quieta, séria,
pronta para passar assim o resto de sua vida. Dormia muito e era um bebê acomodado. Não
reclamava nem mesmo quando ficava molhada mais tempo do que o desejável. Aquela criança
não foi o centro de atenções da casa; logo depois do seu nascimento a mãe tivera uma
infecção renal séria e não pôde se dedicar muito ao bebê.

Letícia nunca trabalhara fora de casa antes—não era uma pessoa preparada, não
tinha nenhuma aptidão para estar numa empresa. Apareceram algumas poucas oportunidades
para as quais talvez ela pudesse se oferecer, mas o marido dizia sempre que "mulher
de Paulo C. T. Machado não precisa de trabalhar!". Agora, com as três crianças
ainda pequenas, não via muito sentido em sair de casa e deixá-las o dia todo por conta
da babá, mesmo que esta fosse um anjo e tratasse as crianças como mãe. Os poucos
pensamentos que tivera a respeito disso foram esquecidos. Assim, sua vida se resumia em
cuidar da casa, das roupas e da comida do marido, levar as crianças para o clube, para a
escola, para a cama. Nas férias, a família fazia ótimas viagens, hospedando-se em
hotéis cinco estrelas e conhecendo lugares incríveis por todo o país. Paulo gostava das
crianças e se revelava um bom pai para elas.

Entretanto, seu relacionamento com a mulher esfriara há muito tempo. Letícia, que
nunca tivera características de verdadeira amante, com o tempo foi ficando cada dia mais
fria. Fazer amor não era uma das suas atividades preferidas da noite—ou do dia!
Sempre fora reservada e arredia; muitas vezes, sexo lhe dava um certo nojo. Parecia
resignada com aquilo e não se importava com o que o marido pudesse pensar.

Paulo via a mulher envelhecendo e engordando ao seu lado. Não sentia nada mais por
ela; apenas dependência de seus cuidados—ela nunca se esquecia de lhe dar os
remédios, sempre descascava suas frutas, e cuidava de sua dieta—sua doença
cardíaca, diagnosticada alguns anos atrás, obrigava-o a controlar qualquer abuso. E ele
se sufocava naquela vida sem graça e sem sentido—aniversário das crianças três
vezes por ano, viagem de férias com a família, Natal com os pais, os irmãos, a sogra e
as cunhadas. Parecia mais velho e suas depressões voltaram a atormentá-lo com
frequência. Quando chegava em casa as crianças já tinham ido para a cama; punha para
tocar uma música clássica e ficava na sala escura assentado e bebendo suas doses de
uísque; a mulher lhe fazia companhia, quieta, mas impaciente por não poder assistir a
novela. Vida besta! Conheceu outras mulheres, se interessou por elas, viajou com elas, foi
infiel à mulher com elas. Precisava fazer sexo com alguém, queria sentir o cheiro e o
gosto de uma mulher na cama, queria o prazer de sentir prazer. Não se incomodava com o
fato de que Letícia pudesse descobrir qualquer uma de suas aventuras. Era importante para
ele sentir que ainda estava vivo, que ainda gostava de ter orgasmo, que ainda podia ter
uma mulher inteira para satisfazer seus deseaw6kx de homem.

Letícia, por sua vez, se importava cada vez menos com o que se passava com o marido.
Continuava tocando sua vida, carregando o fardo da sua existência, como carregava para a
piscina as crianças e as sacolas de roupas de banho. No clube ficava sempre com as irmãs
que intrigadas perguntavam quem era a mulher que passava todo o tempo conversando com
Paulo, um pouco afastados do grupo. Ela respondia apenas "deve ser uma das namoradas
dele". Todas se espantavam perguntando ao mesmo tempo "e você não vai fazer
nada a respeito?!". Com a indiferença de um boi pela mosca que pousa na ponta de sua
orelha, ela dizia "fazer o quê?! é a vida dele!". E mudava de assunto com
naturalidade, ou saía com uma das crianças para comprar sorvete. Quando Paulo recebia a
visita de uma de suas "amigas", Letícia preparava um tira-gosto, alguma bebida,
e deixava tudo na sala para eles se servirem; saía fechando a porta, para que não fossem
incomodados.

Tudo estava tão mudado naquelas duas vidas! Letícia já não era mais a sombra da
moça linda que fora antes; os dentes, ainda irregulares mas muito claros, já não eram
notados porque não havia mais um sorriso pairando sobre aquele queixo que agora se perdia
no meio de um rosto flácido, sem vida, gordo, contornado por um cabelo curto e ralo que,
de vez em quando era pintado de vermelho. Tornou-se uma mulher feia, maltratada pelo
tempo, sem muitas opções, sem muitas chances. Paulo continuava com seu trabalho e
passava horas conversando com os amigos quando estes vinham à sua casa.

Após quatorze anos de casamento, o casal se separou. Paulo disse a Letícia que estava
saindo de casa para viver com Tânia. A mulher ficou um pouco surpresa; afinal Tânia não
passava de uma menina, aspirante a atriz de teatro, que dormia com qualquer um que pudesse
lhe dar alguma oportunidade na vida. Talvez a idiota pensasse que Paulo fosse rico e isso
seria unir o útil ao agradável—ele era bem relacionado no meio artístico e essa
era a chance que aquela vagabunda esperava. Como por instinto Letícia repetiu o nome
"Tânia!" E Paulo, tentando se explicar disse com voz alterada "É, Tânia!
Eu estou cansado desta vida estúpida que tenho com você! Eu quero mais, e tenho certeza
que Tânia pode me dar o que procuro! Ela é nova, magra, bonita, inteligente e
interessante. Vou começar a vida de novo e tentar não repetir esta droga toda que está
me matando aos poucos! Não quero me destruir neste relacionamento doente, pobre e
feio!". Disse que se mudaria no dia seguinte para um hotel. Cuidariam do divórcio
mais tarde. Letícia ouviu em silêncio. Não discutiu, não chorou, não pediu que ele
ficasse.

Depois que o marido foi para o quarto, ela ficou sozinha na sala fria e escura. Pensou
nos tempos do Colégio Estadual. Em sua memória gasta podia ver os dias que não
voltariam nunca mais. Lembrou-se dos poemas que escreveu para George Maharis. Os antigos
namorados desfilavam por sua mente. Lembrou-se de Antônio Maurício—soube que ele
havia morrido no ano anterior num desastre de carro perto de Nova Lima. Lembrou-se da
velha pedante controlando a vida de Carlos. Pensou em Ronaldo e na serenata—por que
ele fizera aquilo? Vira-o no clube com a mulher e suas duas crianças—era ainda um
homem muito bonito. Pensou em Cannes, em Jean Sorel, na viagem a Paris. Tudo tão longe,
tão apagado! Dormiu ali mesmo, no meio dos seus fantasmas.

Paulo foi-se embora. Ela estava agora só com as crianças. Precisava consertar aquela
vida estragada. Não sabia como fazer isso—nunca cuidara de nada que não fosse filho
e casa, marido e comida. Tentou arranjar um emprego mas não teve muito sucesso. Mudou-se
para outro apartamento com as crianças; Paulo pagava as despesas e ela manobrava, como
podia, o pouco dinheiro que ele lhe dava. A situação era muito desconfortável. Morar em
casa alugada nunca fora bom, mas não havia outra alternativa. Quando voltara do Rio para
morar novamente em Belo Horizonte, tinha um apartamento que ela comprara com o dinheiro
que o pai tinha lhe deixado de herança. Alguns anos depois, o marido hipotecara o imóvel
e, com o dinheiro, fizera um filme de curta metragem que não passou de um grande
fracasso. Perderam o apartamento pois a hipoteca não pôde ser paga. Paulo sempre dizia
que não queria morar em gaiola; só compraria um outro imóvel quando encontrasse a casa
de seus sonhos. Talvez ele não tivesse sonhado com nenhuma porque nunca comprou outro
lugar para morarem. Agora, ela continuava sem um canto seu, com as crianças e a incômoda
situação de ter que pedir mais dinheiro para o marido quando as coisas se complicavam.

Continuavam amigos—afinal já estavam tão acostumados um com o outro… e havia
as crianças. Paulo lhe telefonara três semanas após a separação pedindo ajuda. Ele
alugara um apartamento e queria que estivesse limpo e organizado antes da mudança. Tânia
chegaria de viagem na semana seguinte e os dois iriam para lá. Sem o mínimo escrúpulo
pediu a Letícia que levasse a empregada e dessem um jeito em tudo para ele. A mulher
concordou. Conversou com Cida sobre um pagamento extra pelo serviço. A empregada de
tantos anos ficou indignada e respondeu "D. Letícia, por nenhum dinheiro do mundo eu
faria isto! Me admiro da senhora concordar com uma imundície dessa! A senhora parece que
ficou maluca! Eu nunca vi ninguém se rebaixar tanto! Arrumar a casa, limpar tudo, para
aquela vagabunda entrar com o "seu" Paulo! É muita sem-vergonhice! A senhora
tinha era de dar um tiro na cara daqueles dois e não deixar aquele homem fazer da senhora
tapete pra ele desfilar com amante! Desculpe o desabafo mas eu não posso fingir que isto
`tá certo! Não conta comigo!" A mulher estava furiosa e preparava com raiva
incontida a massa de pão-de-queijo. Letícia não discutiu.

No dia seguinte, pegou a chave que Paulo havia deixado na portaria do hotel. Chegou
cedo ao prédio pequeno que ficava na Serra. Abriu a porta da frente do apartamento e se
espantou com a sujeira do lugar—aquilo significava um dia inteiro de trabalho duro.
Pôs mãos à obra e, perdida entre vassoura, rodo, balde, panos e produtos de limpeza,
não viu o tempo passar. Eram sete horas da noite quando chegou exausta em casa. Ligou
para o marido e disse que tudo estava pronto—ele disse que ela era uma boa mulher.
Depois, sem muito ânimo, conversou com as crianças que se preparavam para dormir e
perguntou a Cida se estava tudo bem—a mulher respondeu com ar de reprovação
"poderia estar melhor!".

Letícia foi para o banheiro e se olhou no espelho—sentiu vergonha. Tomou um
banho, vestiu um roupão e foi para a cozinha; preparou um prato e se sentou à mesa da
copa. Comeu alguma coisa em silêncio e depois entregou o prato a Cida que estava
terminando de lavar algumas coisas na pia. Foi para a sala, ligou o rádio baixinho e, no
escuro, assentou-se na poltrona em frente à janela aberta. Encolheu as pernas, recostou a
cabeça e ficou lá quieta. Sentiu uma tristeza profunda e chorou. 

Já havia se passado um ano desde a separação. Letícia recuperou um pouco da sua
antiga imagem, relacionou-se com outros homens sem muito sucesso—só um pouco mais de
sofrimento. Tentava ignorar os problemas emocionais dos filhos que se somavam aos outros
tantos problemas que ela não conseguia resolver.

Paulo continuava a morar com a amante. O princípio do relacionamento fora excepcional.
Mesmo sem querer fazer comparações, ele não poderia deixar de sentir como Letícia e
Tânia eram tão diferentes em tudo, mas principalmente na cama. Enquanto a mulher era
fria e desinteressada, a amante lhe mostrava o paraíso; enquanto a mulher sentia nojo de
sexo, a amante se deliciava com aquele jogo sem fim.

Depois de pouco tempo tudo foi se modificando. Tânia descobriu rapidamente que ele
não era rico e que seus conhecimentos no meio artístico não eram suficientes para fazer
dela uma estrela. Ainda tão jovem ela não conseguia se sujeitar aos hábitos de um homem
mais velho e cheio de manias; era impossível conviver com aquele intelectual, que não
gostava de dançar, que gostava de ficar em casa vendo vídeos de filmes antigos e
recebendo amigos que, como ele, só pensavam em cinema, música clássica, livros
complicadíssimos e artes plásticas. Ela agora passava mais tempo com os amigos do
teatro. Inventando desculpas ridículas saía sempre à noite com homens mais velhos e
muito ricos, tentando, de alguma forma, buscar uma nova oportunidade; abandonava Paulo aos
seus pensamentos e sonhos com o passado. Ele sabia que a amante não lhe era fiel mas
preferia fingir que estava tudo bem para continuar a tê-la ao seu lado. Gostava de olhar
para ela, ter na cama aquele corpo lindo, acariciar-lhe os cabelos quando faziam amor; ela
lhe dava prazer, ela era sua naqueles poucos momentos em que ele se esquecia de que tudo
não passava de pura ilusão, uma mera fantasia que ele cultivava como se fosse a garantia
de sua existência. Constantemente, nos finais de semana, Tânia viajava com o grupo de
teatro para alguma apresentação em cidades do Interior do Estado. Naqueles dias a
solidão o torturava; nem sempre os amigos estavam disponíveis para um bate-papo e ele
andava muito desanimado para sair de casa e fazer algum outro programa. Nesses momentos
ligava para Letícia, com a desculpa de saber como estavam as crianças. A mulher era
paciente e conversava com ele, perguntando de sua saúde e do trabalho; ela continuava a
ler suas críticas de cinema e comentava sobre algumas.

Num sábado à tarde Paulo telefonou para Letícia e disse que estava sozinho e não se
sentia bem; perguntou se seria muito difícil para ela ir ao apartamento. A ex-mulher
disse que não achava conveniente; ele insistiu, quase implorando e, finalmente, ela
cedeu. Avisou Cida que estava saindo por umas duas horas, mas talvez voltasse antes. Tomou
um táxi e foi para a casa de Paulo. Quando entrou sentiu o coração apertado. O
ex-marido, ainda de pijamas, parecia muito abatido e doente; o lugar estava uma completa
desorganização com jornais e livros espalhados por todo lado; xícaras e copos suaw6kx se
misturavam sobre a mesinha de centro na sala. Um pouco sem graça ele lhe disse
"Tânia anda meio sem tempo para estas coisas e você sabe como eu sou …"
Letícia não comentou nada; apenas juntou os jornais, separou os livros num canto, levou
a louça suja para a cozinha e, rapidamente, limpou como pôde toda aquela sujeira; levou
o lixo para fora porque o apartamento estava com um cheiro muito ruim. Enquanto arrumava,
ouvia o marido falando sem muita convicção "você não precisa fazer isto,
Letícia! Na segunda-feira Tânia arranja alguém que dê um jeito em tudo. Sabe, não é
sempre que fica tanta bagunça acumulada, mas ultimamente as coisas andam meio fora de
controle nesta casa". Quando o apartamento finalmente já estava mais apresentável,
Letícia voltou à sala e se recostou no sofá. Sentiu muita pena daquele homem parecendo
um velho sentado à sua frente. Os pensamentos se atravessavam em sua cabeça e se
resumiam em uma pergunta sem resposta "por quê?!" Depois de um tempo em
silêncio Paulo começou a falar sobre coisas do passado perguntando se ela também se
lembrava; a mulher, envolvida em repentina tristeza apenas balançava a cabeça dizendo
que sim. Aqueles anos tinham ficado esquecidos no tempo e pareciam tão longe, tão
apagados. Ele falou em Cannes, falou sobre filmes que viram juntos, falou no tempo curto
de namoro que tiveram, lembrou-se dos detalhes da lua-de-mel em Campos do Jordão. Estava
cansado quando parou de falar. Letícia perguntou se ele queria comer ou beber alguma
coisa; e saiu para preparar uma fruta que ele comeu com gosto, mas sentindo vergonha
daquele prazer que apenas a mulher era capaz de lhe dar. Ela disse que tinha de voltar
para casa; ia pegar as crianças na casa de um amiguinho que estava aniversariando. Paulo
se levantou com dificuldade e pegou-lhe as mãos. Num gesto que ficou guardado por
dezessete anos ele as beijou em silêncio. Letícia o abraçou com o carinho esquecido por
tanto tempo e saiu sem olhar para trás. Ele ficou lá, de pé junto à porta e deixou que
um choro reprimido viesse lavar sua dor.

Com trinta e sete anos Paulo teve um derrame que o deixou com seqüelas sérias. Via os
filhos raramente—as crianças não gostavam de Tânia e evitavam ir ao apartamento do
pai. As únicas visitas que recebia eram o Dr. Luís, o cardiologista, e os poucos amigos
que ainda conseguiam engolir a raiva que sentiam de Tânia. Esta não mudara em nada seus
hábitos e continuava saindo com frequência, deixando o amante em companhia de alguém
que estivesse disponível.

Letícia estava em uma praia do Espírito Santo, com os filhos e alguns amigos, quando
recebeu a notícia da morte de Paulo; morrera sozinho assistindo no vídeo o filme Casablanca—sempre
gostou de ver Ingrid Bergman e Humphrey Bogart naquele clássico. A mulher voltou com as
crianças para o enterro. Chegaram no final da tarde e foram direto para o local do
velório. Tânia estava lá ao lado do caixão—parecia a viúva. Uma longa noite de
vigília. A amante saiu para ir em casa descansar um pouco e tomar um banho. A mulher
levou as crianças para a casa de uma das tias para que se recuperassem da viagem e do
susto. O enterro foi no dia seguinte. Logo pela manhã Tânia voltava ao local do
velório, vestida em um terno branco muito elegante, cabelo arrumado em trança e
perfeitamente maquiada. Letícia estava com um vestido comum que lhe acentuava o peso que
a idade e baixa auto-estima pareciam conservar; os cabelos, agora compridos até os
ombros, estavam soltos e o rosto não trazia senão uma leve cor de batom nos lábios
pálidos. Na hora do enterro, Tânia leu um poema de Pablo Neruda antes de lançar o livro
sobre o caixão e dizer em tom dramático "não vou esquecer você, meu amor!";
apanhou depois um punhado de terra que jogou sobre o livro. Letícia assistiu a tudo sem
se manifestar; de vez em quando, enxugava com discrição o canto do olho. 

O marido não deixara nada, além de uma apólice de seguros que estava no nome de
Letícia, a esposa, e de Tânia que ele caracterizava como "filha adotiva".
Nenhuma das duas recebeu o prêmio—o pagamento mensal da apólice não havia sido
feito. Tânia se mudou do apartamento levando o que lhe interessava. Letícia cuidou do
que sobrara—fotos, livros, discos com trilhas sonoras de filmes antigos, vídeos de
filmes famosos. Organizou tudo em caixas e, antes de sair, olhou para o apartamento vazio
sentindo uma grande pena de sua própria vida. Fechou a porta devagar; trancou lá dentro
um mundo de mágoas e entregou a chave ao proprietário.

A vida começava de novo. Letícia conseguiu um emprego como secretária. Todo o medo
acumulado não fora capaz de paralisar aquela caricatura de mulher. Morava então com a
irmã mais nova, solteira e com um filho—dividiam as despesas e a solidão. Não era
o melhor arranjo do mundo tolerar e conviver com aquela outra mulher amarga e desiludida,
mas era a solução mais imediata para ela. As crianças continuavam a ir ao colégio e a
carregar consigo problemas dos quais não tinham nenhuma culpa. Os anos 80 se acabavam,
dolorosos, levando com eles a esperança daquelas pessoas serem realmente felizes um dia.

O ano de 1990 trazia a nova década e Letícia apostava em novas chances para a vida
que ela carregara com dificuldade durante tanto tempo. Era quinta-feira e o dia estava
péssimo; uma chuva persistente e um céu escuro anunciavam que a enchente de São José
naquele mês de março poderia ser um desastre. O ônibus, cheio de gente e sombrinhas que
pingavam todo o tempo, deixou-a tarde na cidade; o trânsito estava péssimo e todo mundo
impaciente logo de manhã. Depois de empurrões e pedidos de licença, conseguiu
finalmente sair daquela lata de sardinha. Abriu a sombrinha que já não tinha muita
função porque ela estava completamente molhada e seus pés encharcados. Tinha de andar
depressa para não chegar atrasada à empresa.

Um Mercedes Benz branco parou no sinal de trânsito quando ela atravessava a avenida. A
buzina do carro elegante chamou sua atenção. Instintivamente olhou para a moça que
dirigia o carro. Era Tânia que, muito bem maquiada e elegante, atrás do limpador de
parabrisa, acenava para ela com um sorriso. O vidro do carro foi abaixado alguns
centímetros e Letícia pôde ouvir a outra dizendo alto: "Como vão as
crianças?!" Surpresa e confusa, Letícia seguiu seu caminho sem responder nada. De
pé do outro lado da avenida olhou mais uma vez para o carro. O sinal ficou verde e o
Mercedes partiu devagar.

Letícia trocou a sombrinha de mão, passou a bolsa para o outro ombro; enxugou com um
lenço o rosto molhado, e continuou seu caminho em direção ao trabalho.

The original title of this unpublished short story is "Todos Diziam
que Letícia Era Linda. E Daí?!" Its author, Adelaide Bouchardet Davis, born in
Visconde do Rio Branco, Minas Gerais state, is a writer and professor of Portuguese at
Denver University, Colorado, USA. You can reach her via e-mail: addavis@du.edu 

Copyright © Adelaide Bouchardet Davis

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