Lygia Fagundes Telles’s Mistérios – In Portuguese

3 by Lygia Fagundes Telles

I exaggerated, I didn’t have to exaggerate so much. I
could just have said that I have a lover, that’s all, an average guy, nothing
special. But I started with my hallucinations, all this hunger for beauty
and power. I never had anything, neither a family nor an important job,
never the joy of the superfluous.

Emanuel

— Emanuel — eu respondo. E não digo mais nada porque sinto
que ninguém está acreditando em mim, ninguém acredita
nisso, que tenho um amante e que esse amante tem olhos verdes, um Mercedes
branco e que se chama — Emanuel — repete Afonso. — Tive um colega com
esse nome mas parece que morreu. Você disse que ele vem te buscar?

Loris está tentando servir uísque mas o uísque
não sai da garrafa que ela sacode. Se sacode também de tanto
rir:

— Num Mercedes Benz branco, não é finíssimo? Conta
mais, Alice, todo mundo quer saber os detalhes, detalhes!

Quero alcançar o cinzeiro no centro do tapete e o cinzeiro está
longe demais, tenho que me estender no almofadão num movimento que
poderia ser elástico, gracioso e meu gesto é duro e minha
voz fica postiça, todos ali à vontade pelo chão, só
eu assim tensa como um faquir em pregos. Serpentes deslizando no caixão.

— Peguei uma vez numa cobrinha. Não, não era viscosa,
era apenas fria — digo e ninguém está interessado em saber
o que senti quando peguei na cobra. — Eu queria um conhaque.

Afonso puxou para mais perto o carrinho de bebidas. “Estou me lembrando
de uma piada”, diz abrindo o riso mas sei muito bem que a piada sou
eu. Me ofereceu o copo fazendo uma reverência.

— Pronto, menina.

Cínico. Está se divertindo à beça, nem ele
nem Loris nem Solange — ninguém acreditou. Nessa história
de amante. Mas por que não acreditam, por quê? Sou assim tão
horrenda, tão repugnante? Hein? Me respondam, por quê? Um
homem de olhos verdes e Mercedes branco, ele vem me buscar no Mercedes,
digo e Loris quase se engasgou no uísque e Afonso, o cínico.
Até o homenzinho de cravo no peito também fez aquelas caras,
mal me conhece e já se incorporou ao grupo, o anão. Um anão
cretino, ridículo, ô Deus! Tomo um largo gole, respiro, preciso
me acalmar, não é assim não, puro exagero, histeria,
o homenzinho nem me notou, essa mania de perseguição, minha
culpa, minha culpa, quem mandou exagerar? Exagerei, não precisava
ter exagerado tanto, podia dizer apenas que tenho um amante, pronto, um
tipo comum, nada de especial. Mas comecei com meus delírios, tanta
vontade de beleza, de poder. Vontade antiga de chamar atenção,
brilhar de mistura com um desejo agudo de vingança, Loris me olhando
no maior espanto e eu num crescendo de apoteose mental, fúria de
sons com a orquestra desencadeada, Wagner, mais mais! Desfrutável.
Uma desfrutável, nunca entendi direito o que quer dizer desfrutável
mas sei que é uma coisa vergonhosa, acho que vem de fruta que virou
bagaço e as pessoas que se aproveitaram — mas quem se aproveitou
de mim? Nem isso. É que nunca tive nada, nem família, nem
emprego importante, nunca a alegria do supérfluo que só o
dinheiro, mas que dinheiro? Nem ao menos um gato pingado pra puxar pelo
rabo — não, espere um pouco, um gato isso até que eu tenho.
Bebo outro gole enternecida. Um gato de rua mas um gato, Emanuel. Nome
que dei ao meu amante e que saiu tão espontâneo da minha boca,
Emanuel.

— Ainda bem, acho que já passou da hora de você arrumar
um caso, a gente já estava preocupada com essa virgindade, que horror.
E se ainda por cima é um tipo assim lindo — disse Solange ajeitando
o cigarro na piteira.

O sorriso amanteigado foi para Afonso ou para Loris? Acariciou o contorno
da boca com a ponta da piteira, tem corpo bonito mas a boca é grossa,
vulgar — não, não! devo estar verde de inveja, tem uma boca
fascinante, quisera eu. Quisera eu.

— Sabe o que quer dizer Emanuel? Aquele que há de vir
— disse Loris fazendo girar com o dedo o gelo do copo. Chupou devagar
o dedo molhado.

Fechei meu dedo na gruta da mão: agora me lembrava do sonho da
véspera, da voz dizendo dentro do meu ouvido que queria a minha
boca, minha boca! Abri a boca e a voz ficou mais obscura, mais secreta,
queria a outra boca, a boca silenciosa. Esvazio o copo. Através
do vidro vejo os olhos bistrados de Loris me olhando lá de longe,
fica distante quando bebe. E próxima, ouve tudo. Entende tudo. Descobriu
que menti desbragadamente e ficou perversa, ela que não precisa
ser perversa.

— Afonso, você está rindo sem parar, vai, conta! Sabe
que é de mim, a quarentona sem a menor graça e com esses
delírios. Sonhando com homens me pedindo a boca, não essa,
a outra! Que sonho. Que vida. Só me resta agora ficar repetindo
que ele virá me buscar, o Emanuel dos olhos e do Mercedes. Branco?
Branco. Finíssimo, disse Loris. Sustentar a mentira enquanto minha
cara comprida vai encompridando mais, no boneco de pau era o nariz que
crescia
— ô meu Pai! vontade de vomitar esta cara de freira sem a menor
vocação. Tarde demais para começar e começar
com quem? Mulheres aos montes se oferecendo, jovens, velhas, meninas de
doze anos e meio e os homens exauridos, enfartados, a Loris sabe disso,
ela que já se deitou com todos os sexos daqui e do mundo, viajou
pelo mundo inteiro. E eu não saí nem do meu bairro. Dois
ou três namorados sem o menor empenho, com preguiça de aprofundamento,
mas em que tempo a virgindade era prestigiada? O desejo morno, a preguiça
penalizada, quer dizer que a minha Alicinha?… Alicinha. Quando me chamam
de Alicinha já sei que não vai acontecer nada, viro confidente,
irmã. Se ao menos a entrada fosse facilitada, se não sugerisse
uma certa mão-de-obra, delicadezas. O medo que eles têm de
envolvimentos, vínculos. E eu afetando essa calma quando minha vontade
é gritar de ódio, puxar os cabelos, ódio de mim mesma,
sua imbecil! cretina, pior ainda do que feia é ser assim opaca,
medíocre, nenhuma luz. O dinheiro resolveria, ah, com dinheiro podia
fazer a excêntrica, a vaca sagrada que paga sua corte e mais esse
Emanuel, por que não? Dava-lhe o Mercedes, avião, navio e
mais daria. Meu homem resplandecente, coberto de ouro em pó, dê
suas ordens, amor, quer que faça sua comida? que engraxe seus sapatos?
Engraxo tudo, sou um ser menor, dependente, frágil, que venham as
feministas e que cuspam em mim seu desprezo, ora, cuspam à vontade!
As idiotas se fazendo de fortes, arregaçando mangas e dentes, tamanha
arrogância.

— Tinha esse quadro — prosseguiu Solange e fiquei sem saber que quadro
era esse. Fico olhando a correntinha de ouro do seu tornozelo, tem pernas
belíssimas.

Encolho as minhas. Ainda assim amanheço e quero escovar os dentes
com cuidados especiais, uns dentinhos fracos e a esperança de que
um dia. Esperança no creme das sardas, os cabelos ralos e o ovo,
a vitamina. Tanta vontade de luta. “A esperança é curva
como uma asa”, disse alguém. Melhor me deitar na planície
mas quando dou acordo de mim já estou subindo a própria montanha
resfolegando e subindo. Orgulho? A esperança será só
isso, orgulho?

— E o que ele faz? Seu amado — pergunta Loris mordendo o sanduíche.

— É médico.

Ginecologista, tenho vontade de dizer. O que sempre desejei, um namorado
médico que me tomasse em suas mãos hábeis e através
delas eu conheceria a mim mesma a começar por este corpo que me
escapa como um inimigo, saberia do meu contorno quando as mãos fossem
me palmilhando, tateantes. Meu cheiro, meu gosto — ele que já conheceu
tantos corpos dentro e fora da profissão, me tome depressa que o
tempo é de amor! Com mil desculpas pela minha virgindade, mas não
foi nem por virtude, bloqueio, lá sei! eu podia pegar o homem do
leite mas faz séculos que não tem mais nem homem do leite
nem do pão, mamãe abria a porta e o cheiro da cesta de pães
dourados, vem neném, escolhe sua rosquinha — ah, se essa trabalheira
lhe desse afinal um pouco mais de emoção. Sim, me guardei
até hoje, nunca antes? Nunca. É simples, Alice, ele diz Aliiiice.
Simples como beber um copo d’água, não fique contraída,
você está tensa demais, relaxe, seu pescoço parece
pedra, não endureça a boca porque desse jeito o doutor não
vai poder arrancar o seu dentinho! e meu pai segurou forte na minha mão,
vamos, filha, prometo que nem vai doer… Enxugo os olhos no guardanapo
de papel.

— Estou curiosíssima, a que horas ele vem? — pergunta Loris.

Cravo as unhas no guardanapo.

— Nem sei se virá, hoje é dia de plantão, já
me avisou que vai ser muito difícil aparecer, médico tem
aqueles horários complicados.

— Nem diga.

Mastigo um croquete fumegante. Sopro a fumaça, queria ficar uma
formiguinha para entrar nesse vulcão, Loris sabe, os outros desconfiam
mas os outros estão distraídos, ela não. Encolho as
pernas mas queria encolher os pés que são enormes. Agora
Loris quer saber se continuo na mesma casa. Respondo que sim.

— Sozinha?

— Com meu gato.

— Mas ele não é livre?

— Mais ou menos.

— Mais ou menos, como?

Estou rindo e é bom rir do Emanuel que tentou fugir, tentou várias
vezes até que mandei levantar o muro e agora ele se deita feito
uma esfinge no pequeno canteiro e fica olhando o portão.

— Tem uma dona, é claro. Mas sempre consegue dar suas escapadas,
digo. Pela primeira vez nesta festa estou me sentindo melhor, gosto da
ambigüidade, do jogo, que difícil ser eu mesma. E que fácil.

— Ah, ele é casado?

Afonso escolhe outro disco, quer jazz, Solange avisa que vai fazer pipi
e o homenzinho do cravo no peito toma nota do telefone da jovem desenhista,
não é bonita mas soube armar um tipo com tanta imaginação
que bateria a Vênus da concha se a Vênus da concha aportasse
nesta praia. Faz o que eu devia ter feito: tirou partido da feiúra
que virou ousadia, eu poderia me vestir de egípcia, não?
Se esqueceriam da minha boca, do meu cabelo mas do estilo, da irreverência
— e não é isso que eu quero? Ser conversada, discutida.
Me volto para Loris que está bêbada e lúcida, o lado
ruim me espicaçando, e o Emanuel?… Comecei e agora não
posso parar, ninguém acredita, ninguém está se importando
mas Loris me fisgou e vem me puxando como o velho pescador puxou aquele
peixe, fiquei tão deprimida nesse pedaço da fita, a linha
mais curta, completamente esticada e o peixe. Me deixo levar sem resistência
e agora ela está querendo — mas o que ela quer agora?

— Não há muito o que contar, Loris. Achei-o na rua.

— Na rua?

— Parecia solitário, infeliz.

Mais precisamente numa esquina. A lembrança me emociona demais,
deve ser do conhaque, ah se passasse por aqui aquela bandeja de doces eu
comeria a bandeja inteira, uma vontade de açúcar, chocolate,
um analista esperto explicaria depressa, carência afetiva. Meu pai
me levava a caneca de chocolate quente e esperava eu virar a caneca até
o fim, podia ter vivido até o fim e foi acontecer aquilo, ah! paizinho!
mas não, não quero lembrar isso, eu pensava no analista,
tudo virando carência afetiva, meu irmãozinho de oito anos
dependurava os gatos pelo rabo, um varal de gatos se contorcendo aos urros,
também carência? Fazia frio e ele miava e tremia tanto, guardei-o
no bolso do casaco, um gatinho mijado, feio, a cabeça vacilante
pesada demais para o pescoço fino. Emanuel, eu chamei. Ele miou
e escondeu o focinho na minha mão. Tenho um gato, pensei. E uma
túnica grega? Uma túnica podia ser uma solução,
o friso dourado, sandálias com as tiras subindo pelas pernas, a
Alice anda fantasiada de grega, acho que enlouqueceu. Está certo,
enlouqueci, a loucura é uma boa saída mas teria que ser uma
loucura requintada, com lampeaw6kx, iluminações. Eu seria capaz
dessas iluminações? Solange levanta a perna que se descobre
até a coxa enquanto o homem do lábio leporino tenta abrir
o fecho da sua pulseirinha no tornozelo, como ficariam nessas minhas pernas
de fio de macarrão as tais tiras douradas? Loris passa engatinhando
debaixo da perna de Solange, vai pegar o prato de croquetes. Volta e me
encara apertando os olhos. Recomeçamos a comer com voracidade. Preciso
falar.

— Ele gosta muito de música, fica tão calmo quando ouve
Mozart.

— Finíssimo.

— Às vezes ele se deita na almofada e fica horas e horas imóvel,
ouvindo. Os olhos verdes brilhando tanto, como brilham seus olhos quando
apago a luz e me deito ao lado.

— Vocês preferem o chão?

— Ou a cama, quando acordo tarde da noite ele já pulou na cama,
dividimos o travesseiro. Mas o que é isso, está chovendo?

— Uma tempestade.

— Tenho que ir, Loris.

— Ir, como?! Imagine se — recomeçou ela e emudeceu, a campainha?
Não tocaram a campainha? — Mas se não estou esperando mais
ninguém! Então é ele, só pode ser ele!

Ainda de joelhos vou recuando para a zona de sombra, quero esconder
minha cara que ficou branca, úmida, não, Loris, não
pode ser, hoje tem plantão lá no hospital, dificílimo
fugir do plantão! Mas ela encurtou depressa a linha e vem me puxando,
mas como?! o amado de Alice acaba de chegar e todo mundo desligado, “pois
não foi ele que chegou? só pode ser ele, gente, quem mais?”

 

A campainha outra vez é agora mais forte, estremeço inteira,
o som agudo é o de uma cigarra me serrando pelo meio, ô Deus!
a chuva e Loris de pé, oscilando triunfante na proa do barco. Engulo
penosamente a saliva, estou salivando sem parar porque no medo a saliva
cresce borbulhosa, quero repetir que não pode ser ele e o anzol.
Ouço minha voz num sopro, tem o plantão lá no hospital,
Loris, dificílimo. Dificílimo.

— Afonso, meu queridinho, vai abrir a porta!

Baixei a cabeça. E eu já tinha cedido sem a menor resistência,
não tinha? Um pouco mais e confessaria, tudo brincadeira, você
sabe que não tenho nenhum homem, tenho apenas um gato, Emanuel é
um gato! Ela não precisava fazer isso, não precisava. Aperto
contra a boca o copo vazio, eu vazia e a plenitude da chuva e das falas,
todos falam ao mesmo tempo enquanto a janela se escancara e a cortina derruba
garrafas, consegui tumultuar a festa que parece rodopiar na ventania com
a voz de Afonso pairando sobre as águas, voltou arfante porque subiu
a escada correndo:

— É o Emanuel que veio te buscar.


As formigas

Quando minha prima e eu descemos do táxi, já era quase
noite. Ficamos imóveis diante do velho sobrado de janelas ovaladas,
iguais a dois olhos tristes, um deles vazado por uma pedrada. Descansei
a mala no chão e apertei o braço da prima.

— É sinistro.

Ela me impeliu na direção da porta. Tínhamos outra
escolha? Nenhuma pensão nas redondezas oferecia um preço
melhor a duas pobres estudantes com liberdade de usar o fogareiro no quarto,
a dona nos avisara por telefone que podíamos fazer refeições
ligeiras com a condição de não provocar incêndio.
Subimos a escada velhíssima, cheirando a creolina.

— Pelo menos não vi sinal de barata — disse minha prima.

A dona era uma velha balofa, de peruca mais negra do que a asa da graúna.
Vestia um desbotado pijama de seda japonesa e tinha as unhas aduncas recobertas
por uma crosta de esmalte vermelho-escuro, descascado nas pontas encardidas.
Acendeu um charutinho.

— É você que estuda medicina? — perguntou soprando a
fumaça na minha direção.

— Estudo direito. Medicina é ela.

A mulher nos examinou com indiferença. Devia estar pensando em
outra coisa quando soltou uma baforada tão densa que precisei desviar
a cara. A saleta era escura, atulhada de móveis velhos, desparelhados.
No sofá de palhinha furada no assento, duas almofadas que pareciam
ter sido feitas com os restos de um antigo vestido, os bordados salpicados
de vidrilho.

Vou mostrar o quarto, fica no sótão — disse ela em meio
a um acesso de tosse. Fez um sinal para que a seguíssemos. — O
inquilino antes de vocês também estudava medicina, tinha um
caixotinho de ossos que esqueceu aqui, estava sempre mexendo neles.

Minha prima voltou-se:

— Um caixote de ossos?

A mulher não respondeu, concentrada no esforço de subir
a estreita escada de caracol que ia dar no quarto. Acendeu a luz. O quarto
não podia ser menor, com o teto em declive tão acentuado
que nesse trecho teríamos que entrar de gatinhas. Duas camas, dois
armários e uma cadeira de palhinha pintada de dourado. No ângulo
onde o teto quase se encontrava com o assoalho, estava um caixotinho coberto
com um pedaço de plástico. Minha prima largou a mala e, pondo-se
de joelhos, puxou o caixotinho pela alça de corda. Levantou o plástico.
Parecia fascinada.

— Mas que ossos tão miudinhos! São de criança?

— Ele disse que eram de adulto. De um anão.

— De um anão? é mesmo, a gente vê que já
estão formados… Mas que maravilha, é raro a beça
esqueleto de anão. E tão limpo, olha aí — admirou-se
ela. Trouxe na ponta dos dedos um pequeno crânio de uma brancura
de cal. — Tão perfeito, todos os dentinhos!

— Eu ia jogar tudo no lixo, mas se você se interessa pode ficar
com ele. O banheiro é aqui ao lado, só vocês é
que vão usar, tenho o meu lá embaixo. Banho quente extra.
Telefone também. Café das sete às nove, deixo a mesa
posta na cozinha com a garrafa térmica, fechem bem a garrafa recomendou
coçando a cabeça. A peruca se deslocou ligeiramente. Soltou
uma baforada final: — Não deixem a porta aberta senão meu
gato foge.

Ficamos nos olhando e rindo enquanto ouvíamos o barulho dos seus
chinelos de salto na escada. E a tosse encatarrada.

Esvaziei a mala, dependurei a blusa amarrotada num cabide que enfiei
num vão da veneziana, prendi na parede, com durex, uma gravura de
Grassman e sentei meu urso de pelúcia em cima do travesseiro. Fiquei
vendo minha prima subir na cadeira, desatarraxar a lâmpada fraquíssima
que pendia de um fio solitário no meio do teto e no lugar atarraxar
uma lâmpada de duzentas velas que tirou da sacola. O quarto ficou
mais alegre. Em compensação, agora a gente podia ver que
a roupa de cama não era tão alva assim, alva era a pequena
tíbia que ela tirou de dentro do caixotinho. Examinou- a. Tirou
uma vértebra e olhou pelo buraco tão reduzido como o aro
de um anel. Guardou-as com a delicadeza com que se amontoam ovos numa caixa.

— Um anão. Raríssimo, entende? E acho que não
falta nenhum ossinho, vou trazer as ligaduras, quero ver se no fim da semana
começo a montar ele.

Abrimos uma lata de sardinha que comemos com pão, minha prima
tinha sempre alguma lata escondida, costumava estudar até de madrugada
e depois fazia sua ceia. Quando acabou o pão, abriu um pacote de
bolacha Maria.

— De onde vem esse cheiro? — perguntei farejando. Fui até o
caixotinho, voltei, cheirei o assoalho. — Você não está
sentindo um cheiro meio ardido?

— É de bolor. A casa inteira cheira assim — ela disse. E puxou
o caixotinho para debaixo da cama.

No sonho, um anão louro de colete xadrez e cabelo repartido no
meio entrou no quarto fumando charuto. Sentou-se na cama da minha prima,
cruzou as perninhas e ali ficou muito sério, vendo-a dormir. Eu
quis gritar, tem um anão no quarto! mas acordei antes. A luz estava
acesa. Ajoelhada no chão, ainda vestida, minha prima olhava fixamente
algum ponto do assoalho.

— Que é que você está fazendo aí? — perguntei.

— Essas formigas. Apareceram de repente, já enturmadas. Tão
decididas, está vendo?

Levantei e dei com as formigas pequenas e ruivas que entravam em trilha
espessa pela fresta debaixo da porta, atravessavam o quarto, subiam pela
parede do caixotinho de ossos e desembocavam lá dentro, disciplinadas
como um exército em marcha exemplar.

— São milhares, nunca vi tanta formiga assim. E não tem
trilha de volta, só de ida — estranhei.

— Só de ida.

Contei-lhe meu pesadelo com o anão sentado em sua cama.

— Está debaixo dela — disse minha prima e puxou para fora o
caixotinho. Levantou o plástico. — Preto de formiga. Me dá
o vidro de álcool.

— Deve ter sobrado alguma coisa aí nesses ossos e elas descobriram,
formiga descobre tudo. Se eu fosse você, levava isso lá pra
fora.

— Mas os ossos estão completamente limpos, eu já disse.
Não ficou nem um fiapo de cartilagem, limpíssimos. Queria
saber o que essas bandidas vem fuçar aqui.

Respingou fartamente o álcool em todo o caixote. Em seguida,
calçou os sapatos e como uma equilibrista andando no fio de arame,
foi pisando firme, um pé diante do outro na trilha de formigas.
Foi e voltou duas vezes. Apagou o cigarro. Puxou a cadeira. E ficou olhando
dentro do caixotinho.

— Esquisito. Muito esquisito.

— O quê?

— Me lembro que botei o crânio em cima da pilha, me lembro que
até calcei ele com as omoplatas para não rolar. E agora ele
está aí no chão do caixote, com uma omoplata de cada
lado. Por acaso você mexeu aqui?

— Deus me livre, tenho nojo de osso. Ainda mais de anão.

Ela cobriu o caixotinho com o plástico, empurrou-o com o pé
e levou o fogareiro para a mesa, era a hora do seu chá. No chão,
a trilha de formigas mortas era agora uma fita escura que encolheu. Uma
formiguinha que escapou da matança passou perto do meu pé,
já ia esmagá-la quando vi que levava as mãos a cabeça,
como uma pessoa desesperada. Deixei-a sumir numa fresta do assoalho.

Voltei a sonhar aflitivamente mas dessa vez foi o antigo pesadelo em
torno dos exames, o professor fazendo uma pergunta atrás da outra
e eu muda diante do único ponto que não tinha estudado. Às
seis horas o despertador disparou veementemente. Travei a campainha. Minha
prima dormia com a cabeça coberta. No banheiro, olhei com atenção
para as paredes, para o chão de cimento, a procura delas. Não
vi nenhuma. Voltei pisando na ponta dos pés e então entreabri
as folhas da veneziana. O cheiro suspeito da noite tinha desaparecido.
Olhei para o chão: desaparecera também a trilha do exército
massacrado. Espiei debaixo da cama e não vi o menor movimento de
formigas no caixotinho coberto.

Quando cheguei por volta das sete da noite, minha prima já estava
no quarto. Achei-a tão abatida que carreguei no sal da omelete,
tinha a pressão baixa. Comemos num silêncio voraz. Então
me lembrei:

— E as formigas?

— Até agora, nenhuma.

— Você varreu as mortas?

Ela ficou me olhando.

— Não varri nada, estava exausta. Não foi você
que varreu?

— Eu?! Quando acordei, não tinha nem sinal de formiga nesse
chão, estava certa que antes de deitar você juntou tudo…
Mas então quem?!

Ela apertou os olhos estrábicos, ficava estrábica quando
se preocupava.

— Muito esquisito mesmo. Esquisitíssimo.

Fui buscar o tablete de chocolate e perto da porta senti de novo o cheiro,
mas seria bolor? Não me parecia um cheiro assim inocente, quis chamar
a atenção da minha prima para esse aspecto mas estava tão
deprimida que achei melhor ficar quieta. Espargi água-de-colônia
flor de maçã por todo o quarto (e se ele cheirasse como um
pomar?) e fui deitar cedo. Tive o segundo tipo de sonho que competia nas
repetições com o sonho da prova oral: nele, eu marcava encontro
com dois namorados ao mesmo tempo. E no mesmo lugar. Chegava o primeiro
e minha aflição era levá-lo embora dali antes que
chegasse o segundo. O segundo, desta vez, era o anão. Quando só
restou o oco de silêncio e sombra, a voz da minha prima me fisgou
e me trouxe para a superfície. Abri os olhos com esforço.
Ela estava sentada na beira da minha cama, de pijama e completamente estrábica.

— Elas voltaram.

— Quem?

— As formigas. Só atacam de noite, antes da madrugada. Estão
todas aí de novo.

A trilha da véspera, intensa, fechada, seguia o antigo percurso
da porta até o caixotinho de ossos por onde subia na mesma formação
até desformigar lá dentro. Sem caminho de volta.

— E os ossos?

Ela se enrolou no cobertor, estava tremendo.

Aí é que está o mistério. Aconteceu uma
coisa, não entendo mais nada! Acordei pra fazer pipi, devia ser
umas três horas. Na volta senti que no quarto tinha algo mais,
está me entendendo? Olhei pro chão e vi a fila dura de formiga,
você lembra? não tinha nenhuma quando chegamos. Fui ver o
caixotinho, todas trançando lá dentro, lógico, mas
não foi isso o que quase me fez cair pra trás, tem uma coisa
mais grave: é que os ossos estão mesmo mudando de posição,
eu já desconfiava mas agora estou certa, pouco a pouco eles estão…
estão se organizando.

— Como, organizando?

Ela ficou pensativa. Comecei a tremer de frio, peguei uma ponta do seu
cobertor. Cobri meu urso com o lençol.

— Você lembra, o crânio entre as omoplatas, não
deixei ele assim. Agora é a coluna vertebral que já está
quase formada, uma vértebra atrás da outra, cada ossinho
tomando seu lugar, alguém do ramo está montando o esqueleto,
mais um pouco e… Venha ver!

— Credo, não quero ver nada. Estão colando o anão,
é isso?

Ficamos olhando a trilha rapidíssima, tão apertada que
nela não caberia sequer um grão de poeira. Pulei-a com o
maior cuidado quando fui esquentar o chá. Uma formiguinha desgarrada
(a mesma daquela noite?) sacudia a cabeça entre as mãos.
Comecei a rir e tanto que se o chão não estivesse ocupado,
rolaria por ali de tanto rir. Dormimos juntas na minha cama. Ela dormia
ainda quando saí para a primeira aula. No chão, nem sombra
de formiga, mortas e vivas, desapareciam com a luz do dia.

Voltei tarde essa noite, um colega tinha se casado e teve festa. Vim
animada, com vontade de cantar, passei da conta. Só na escada é
que me lembrei: o anão. Minha prima arrastara a mesa para a porta
e estudava com o bule fumegando no fogareiro.

— Hoje não vou dormir, quero ficar de vigia — ela avisou.

O assoalho ainda estava limpo. Me abracei ao urso.

— Estou com medo.

Ela foi buscar uma pílula para atenuar minha ressaca, me fez
engolir a pílula com um gole de chá e ajudou a me despir.

— Fico vigiando, pode dormir sossegada. Por enquanto não apareceu
nenhuma, não está na hora delas, é daqui a pouco que
começa. Examinei com a lupa debaixo da porta, sabe que não
consigo descobrir de onde brotam?

Tombei na cama, acho que nem respondi. No topo da escada o anão
me agarrou pelos pulsos e rodopiou comigo até o quarto, acorda,
acorda! Demorei para reconhecer minha prima que me segurava pelos cotovelos.
Estava lívida. E vesga.

— Voltaram — ela disse.

Apertei entre as mãos a cabeça dolorida.

— Estão aí?

Ela falava num tom miúdo como se uma formiguinha falasse com
sua voz.

— Acabei dormindo em cima da mesa, estava exausta. Quando acordei,
a trilha já estava em plena. Então fui ver o caixotinho,
aconteceu o que eu esperava…

— Que foi? Fala depressa, o que foi?

Ela firmou o olhar oblíquo no caixotinho debaixo da cama.

— Estão mesmo montando ele. E rapidamente, entende? O esqueleto
está inteiro, só falta o fêmur. E os ossinhos da mão
esquerda, fazem isso num instante. Vamos embora daqui.

— Você está falando sério?

— Vamos embora, já arrumei as malas.

A mesa estava limpa e vazios os armários escancarados.

— Mas sair assim, de madrugada? Podemos sair assim?

— Imediatamente, melhor não esperar que a bruxa acorde. Vamos,
levanta.

— E para onde a gente vai?

— Não interessa, depois a gente vê. Vamos, vista isto,
temos que sair antes que o anão fique pronto.

Olhei de longe a trilha: nunca elas me pareceram tão rápidas.
Calcei os sapatos, descolei a gravura da parede, enfiei o urso no bolso
da japona e fomos arrastando as malas pelas escadas, mais intenso o cheiro
que vinha do quarto, deixamos a porta aberta. Foi o gato que miou comprido
ou foi um grito?

No céu, as últimas estrelas já empalideciam. Quando
encarei a casa, só a janela vazada nos via, o outro olho era penumbra.


Seminário dos ratos

“Que século, meu Deus! — exclamaram os
ratos e começaram a roer o edifício.”

Carlos Drummond de Andrade

O Chefe das Relações Públicas, um jovem de baixa
estatura, atarracado, sorriso e olhos extremamente brilhantes, ajeitou
o nó da gravata vermelha e bateu de leve na porta do Secretário
do Bem-Estar Público e Privado:

Excelência? O Secretário do Bem-Estar Público e
Privado pousou o copo de leite na mesa e fez girar a poltrona de couro.
Suspirou. Era um homem descorado e flácido, de calva úmida
e mãos acetinadas. Lançou um olhar comprido para os próprios
pés, o direito calçado, o esquerdo metido num grosso chinelo
de lã com debrum de pelúcia.

Pode entrar — disse ao Chefe das Relações Públicas
que já espiava pela fresta da porta. Entrelaçou as mãos
na altura do peito: — Então? Correu bem o coquetel?

Tinha voz branda, com um leve acento lamurioso. O jovem empertigou-se.
Um ligeiro rubor cobriu-lhe o rosto bem escanhoado:

— Tudo perfeito, Excelência. Perfeito. Foi no Salão Azul,
que é menor, Vossa Excelência sabe. Poucas pessoas, só
a cúpula, ficou uma reunião assim aconchegante, íntima
mas muito agradável. Fiz as apresentações, bebericou-se
e — consultou o relógio — veja, Excelência, nem seis horas
e já se dispersaram. O Assessor da Presidência da RATESP está
instalado na ala norte, vizinho do Diretor das Classes Conservadoras Desarmadas
e Armadas que está ocupando a suíte cinzenta. Já a
Delegação Americana achei conveniente instalar na ala sul.
Por sinal, deixei-os há pouco na piscina, o crepúsculo está
deslumbrante, Excelência, deslumbrante!

— O senhor disse que o Diretor das Classes Conservadoras Desarmadas
e Armadas está ocupando a suíte cinzenta. Por que cinzenta?

O jovem pediu licença para se sentar. Puxou a cadeira mas conservou
uma prudente distância da almofada onde o secretário pousara
o pé metido no chinelo. Pigarreou:

— Bueno, escolhi as cores pensando nas pessoas — começou
com certa hesitação. Animou-se: — A suíte do Delegado
Americano, por exemplo, é rosa-forte, eles gostam das cores vivas.
Para o de Vossa Excelência escolhi este azul-pastel, mais de uma
vez vi Vossa Excelência de gravata azul… já para a suíte
norte me ocorreu o cinzento, Vossa Excelência não gosta da
cor cinzenta?

O Secretário moveu com dificuldade o pé estendido na almofada.
Levantou a mão. Ficou olhando a mão:

— É a cor deles. Rattus Alexandrius.

— Dos conservadores?

— Não, dos ratos. Mas enfim, não tem importância
prossiga, por favor. O senhor dizia que os americanos estão na piscina,
por que os? Veio mais de um?

— Pois com o Delegado de Massachusetts veio também a secretária,
uma jovem. E veio ainda um ruivo de terno xadrez, tipo um pouco de boxer,
meio calado, está sempre ao lado dos dois. Suponho que é
um guarda-costas mas é simples suposição, Excelência,
o cavalheiro em questão é uma incógnita. Só
falam inglês. Aproveitei para conversar com eles, completei há
pouco meu curso de inglês para executivos, se os debates forem em
inglês, conforme já foi aventado, darei minha colaboração.
Já o castelhano eu domino perfeitamente, enfim, Vossa Excelência
sabe, Santiago, Buenos Aires…

— Fui contra a indicação. Desse americano — atalhou
o Secretário num tom suave mas infeliz. — Os ratos são nossos,
as soluções têm que ser nossas. Por que botar todo
mundo a par das nossas mazelas? Das nossas deficiências? Devíamos
só mostrar o lado positivo não apenas da sociedade mas da
nossa família. De nós mesmos — acrescentou apontando para
o pé em cima da almofada: — Por que não apareci ainda, por
quê? Porque simplesmente não quero que me vejam indisposto
, de pé inchado, mancando. Amanhã calço o sapato para
a instalação, de bom grado faço esse sacrifício.
O senhor que é candidato em potencial desde cedo precisa ir aprendendo
essas coisas, moço. Mostrar só o lado positivo, só
o que pode nos enaltecer. Esconder nossos chinelos.

— Mas Vossa Excelência me permite, esse americano é um
técnico em ratos, nos Estados Unidos também tem muito, ele
poderá nos trazer sugestões preciosas. Aliás, estive
sabendo que é um expert em jornalismo eletrônico.

— Pior ainda. Vai sair buzinando por aí — suspirou o Secretário
tentando mudar a posição do pé. — Enfim, não
tem importância. Prossiga, prossiga, queria que me informasse sobre
a repercussão. Na imprensa, é óbvio.

O Chefe das Relações Públicas pigarreou discretamente,
murmurou um “bueno” e apalpou os bolsos. Pediu licença
para fumar.

— Bueno, é do conhecimento de Vossa Excelência
que causou espécie o fato de termos escolhido este local: por que
instalar o VII Seminário dos Roedores numa casa de campo, completamente
isolada? Essa a primeira indagação geral. A segunda, é
que gastamos demais para tornar esta mansão habitável, um
desperdício quando podíamos dispor de outros locais já
prontos. O noticiarista de um vespertino, marquei bem a cara dele, Excelência,
esse chegou a ser insolente quando rosnou que tem tanto edifício
em disponibilidade, que as implosões até já se multiplicam
para corrigir o excesso. E nós gastando milhões para restaurar
esta ruína…

O secretário passou o lenço na calva e procurou se sentar
mais confortavelmente. Começou um gesto que não se completou.

Gastando milhões? Bilhões estão consumindo esses
demônios, por acaso ele ignora as estatísticas? Estou apostando
como é da esquerda, estou apostando. Ou então amigo dos ratos.
Enfim, não tem importância, prossiga, por favor.

— Mas são essas as críticas mais severas, Excelência.
Bisonhices. Ah, e aquela eterna tecla que não cansam de bater, que
já estamos no VII Seminário e até agora, nada de objetivo,
que a população ratal já se multiplicou sete mil vezes
depois do primeiro Seminário, que temos agora cem ratos para cada
habitante, que nas favelas não são as Marias mas as ratazanas
que andam de lata d’água na cabeça –acrescentou contendo
uma risadinha. — O de sempre… Não se conformam é de nos
reunirmos em local retirado, que devíamos estar lá no centro,
dentro do problema. Nosso Assessor de Imprensa já esclareceu o óbvio,
que este Seminário é o QuartelGeneral de uma verdadeira batalha!
E que traçar as coordenadas de uma ação conjunta deste
porte exige meditação. Lucidez. Onde poderiam os senhores
trabalhar senão aqui, respirando um ar que só o campo pode
oferecer? Nesta bendita solidão, em contato íntimo com a
natureza… O Delegado de Massachusetts achou genial essa idéia
do encontro em pleno campo. Um moço muito gentil, tão simples.
Achou excelente nossa piscina térmica, Vossa Excelência sabia?
ele foi campeão de nado de peito, está lá se divertindo,
adorou nossa água de coco! Contoume uma coisa curiosa, que os ratos
do Pólo Norte têm pêlos deste tamanho para agüentar
o frio de trinta abaixo de zero, se guarnecem de peliças, os marotos.
Podiam viver em Marte, uma saúde de ferro!

O Secretário parecia pensar em outra coisa quando murmurou evasivamente
um “enfim”. Levantou o dedo pedindo silêncio. Olhou com
desconfiança para o tapete. Para o teto:

— Que barulho é esse?

— Barulho?

— Um barulho esquisito, não está ouvindo?

O Chefe das Relações Públicas voltou a cabeça,
concentrado.

— Não estou ouvindo nada…

–Já está diminuindo — disse o Secretário abaixando
o dedo almofadado. — Agora parou. Mas o senhor não ouviu? Um barulho
tão esquisito, como se viesse do fundo da terra, subiu depois para
o teto… Não ouviu mesmo?

O jovem arregalou os olhos de um azul inocente.

— Absolutamente nada, Excelência. Mas foi aqui no quarto?

— Ou lá fora, não sei. como se alguém — Tirou
o lenço, limpou a boca e suspirou profundamente. — Não me
espantaria nada se cismassem de instalar aqui algum gravador. O senhor
se lembra? esse Delegado americano…

— Mas Excelência, ele é convidado do Diretor das Classes
Desarmadas e Armadas!

— Não confio em ninguém. Em quase ninguém — corrigiu
o Secretário num sussurro. Fixou o olhar suspeitoso na mesa. Nos
baldaquins azuis da cama. — Onde essa gente está, tem sempre essa
praga de gravador. Enfim, não tem importância, prossiga, por
favor. E o Assessor de Imprensa?

— Bueno, ontem à noite ele sofreu um pequeno acidente,
Vossa Excelência sabe como anda o nosso trânsito! Teve que
engessar um braço, só pode chegar amanhã, já
providenciei o jatinho — acrescentou o jovem com energia. — Na retaguarda
fica toda uma equipe armada para a cobertura. Nosso Assessor vai pingando
o noticiário por telefone, criando suspense até o encerramento,
quando virão todos em jato especial, fotógrafos, canais de
televisão, correspondentes estrangeiros, uma apoteose. Finis
coronat opus,
o fim coroa a obra!

— Só sei que ele já deveria estar aqui, começa
mal — lamentou o Secretário inclinandose para o copo de leite.
Tomou um gole e teve uma expressão desaprovadora: — Enfim, o que
me preocupa muito é ficarmos incomunicáveis. Não sei
mesmo se essa idéia do Assessor da Presidência da RATESP vai
funcionar, isso de deixarmos os jornalistas longe. Tenho minhas dúvidas.

— Vossa Excelência vai me perdoar, mas penso que a cúpula
se valoriza ficando assim inacessível. Aliás, é sabido
que uma certa distância, um certo mistério excita mais do
que o contato diário com os meios de comunicação.
Nossa única ponte vai soltando notícias discretas, influindo
sem alarde até o encerramento, quando abriremos as baterias! Não
é uma boa tática?

Com dedos tamborilantes o Secretário percorreu vagamente os botões
do colete. Entrelaçou as mãos e ficou olhando as unhas polidas.

— Boa tática, meu jovem, é influenciar no começo
e no fim todos os meios de comunicação do país. Esse
é o objetivo. Que já está prejudicado com esse assessor
de perna quebrada.

— Braço, Excelência. O antebraço, mais precisamente.

O Secretário moveu penosamente o corpo, para a direita e para
a esquerda. Enxugou a testa. Os dedos. Ficou olhando para o pé em
cima da almofada.

— Hoje mesmo o senhor poderia lhe telefonar para dizer que estrategicamente
os ratos já se encontram sob controle. Sem detalhes, enfatize apenas
isto, que os ratos já estão sob inteiro controle. A ligação
é demorada?

— Bueno, cerca de meia hora. Peço já, Excelência?

O Secretário foi levantando o dedo. Abriu a boca. Girou a cadeira
em direção da janela. Com o mesmo gesto lento, foi se voltando
para a lareira.

— Está ouvindo? Está ouvindo? O barulho, ficou mais forte
agora!

O jovem levou a mão à concha da orelha. A testa ruborizou-
se no esforço da concentração. Levantou- se e andou
na ponta dos pés:

— Vem daqui, Excelência? Não consigo perceber nada!

— Aumenta e diminui, olha aí, em ondas, como um mar… Agora
parece um vulcão respirando, aqui perto e ao mesmo tempo tão
longe! está fugindo, olha aí… — Tombou para o espaldar
da poltrona, exausto. Enxugou o queixo úmido. — Quer dizer que
o senhor não ouviu nada?

O Chefe das Relações Públicas arqueou as sobrancelhas
perplexas. Espiou dentro da lareira. Atrás da poltrona. Levantou
a cortina da janela e olhou para o jardim:

— Tem dois empregados lá no gramado, motoristas, creio… Ei!
vocês aí!… — chamou, estendendo o braço para fora.
Fechou a janela. — Sumiram. Pareciam agitados, talvez discutissem mas
suponho que nada tenham a ver com o barulho. Não ouvi coisa alguma,
Excelência, escuto tão mal deste ouvido!

— Pois eu escuto demais, devo ter um ouvido suplementar. Tão
fino. Quando fiz a revolução, em 32 e depois em 64, era sempre
o primeiro do grupo a pressentir qualquer anormalidade. O primeiro! Lembro
que uma noite avisei meus companheiros, o inimigo está aqui com
a gente e eles riram, bobagem, você bebeu demais, tínhamos
tomado no jantar um vinho delicioso. Pois quando saímos para dormir,
estávamos cercados.

O Chefe das Relações Públicas teve um olhar de
suspeita para a estatueta de bronze em cima da lareira, uma opulenta mulher
de olhos vendados, empunhando a espada e a balança. Estendeu a mão
até a balança. Passou o dedo num dos pratos empoeirados.
Olhou o dedo e limpou-o com um gesto furtivo no espaldar da poltrona.

— Vossa Excelência quer que eu vá fazer uma sondagem?

O Secretário estendeu doloridamente a perna. Suspirou:

— Enfim, não tem importância. Nestas minhas crises sou
capaz de ouvir alguém riscando um fósforo na sala.

Entre consternado e tímido, o jovem apontou para o pé
enfermo:

— É algo… grave?

— A gota.

E dói, Excelência?

— Muito.

— Pode ser a gota d’água! Pode ser a gota d’água!
— cantarolou ele ampliando o sorriso que logo esmoreceu no silêncio
taciturno que se seguiu à sua intervenção musical.
Pigarreou. Ajustou o nó da gravata: — Bueno, é uma
canção que o povo canta por aí.

— O povo, o povo disse o Secretário do Bem Estar Público
entrelaçando as mãos. A voz ficou um brando queixume: —
Só se fala em povo e no entanto o povo não passa de uma abstração.

— Abstração, Excelência?

— Que se transforma em realidade quando os ratos começam a expulsar
os favelados de suas casas. Ou roer os pés das crianças da
periferia, então sim, o povo passa a existir nas manchetes
da imprensa de esquerda. Da imprensa marrom, enfim, pura demagogia. Aliada
às bombas dos subversivos, não esquecer esses bastardos que
parecem ratos — suspirou o Secretário percorrendo languidamente
os botões do colete. Desabotoou o último: — No Egito Antigo
resolveram esse problema aumentando o número de gatos. Não
sei por que aqui não se exige mais da iniciativa privada, se cada
família tivesse em casa um ou dois gatos esfaimados…

Mas Excelência, não sobrou nenhum gato na cidade, já
faz tempo que a população comeu tudo. Ouvi dizer que dava
um ótimo cozido!

Enfim — sussurrou o Secretário esboçando um gesto que
não completou: — Está escurecendo, não?

O jovem levantou-se para acender as luzes. Seus olhos sorriam intensamente:

— E a noite, todos os gatos são pardos! — Depois, sério:
— Quase sete horas, Excelência. O jantar será servido às
oito, a mesa decorada só com orquídeas e frutas, a mais fina
cor local, encomendei do norte abacaxis belíssimos! E as lagostas,
então? O Cozinheiro-Chefe ficou entusiasmado, nunca viu lagostas
tão grandes. Bueno, eu tinha pensado num vinho nacional que
anda de primeiríssima qualidade, diga-se de passagem, mas me veio
um certo receio: e se der alguma dor de cabeça? Por um desses azares,
Vossa Excelência já imaginou? Então achei prudente
encomendar vinho chileno.

— De que safra?

— De Pinochet, naturalmente.

O Secretário do Bem-Estar Público e Privado baixou o olhar
ressentido para o próprio pé.

Para mim um caldo sem sal, uma canjinha rala. Mais tarde talvez um…
— Emudeceu. A cara pasmada foi-se voltando para o jovem: está ouvindo
agora? está mais forte, ouviu isso? Fortíssimo!

O Chefe das Relações Públicas levantou-se de um
salto. Apertou entre as mãos a cara ruborizada:

— Mas claro, Excelência, está repercutindo aqui no assoalho,
o assoalho está tremendo! Mas o que é isso?!

— Eu não disse, eu não disse? — perguntou o Secretário.
Parecia satisfeito: — Nunca me enganei, nunca! Já faz horas que
estou ouvindo coisas mas não queria dizer nada, podiam pensar que
fosse delírio, olha aí agora! Parece até que estamos
em zona vulcânica, como se um vulcão fosse irromper aqui embaixo…

— Vulcão?

— Ou uma bomba, tem bombas que antes de explodir dão avisos!

— Meu Deus — exclamou o jovem. Correu para a porta. — Vou verificar
imediatamente, Excelência, não se preocupe, não há
de ser nada, com licença, volto logo. Meu Deus, zona vulcânica?!…

Quando fechou a porta atrás de si, abriu-se a porta em frente
e pela abertura introduziu-se uma carinha louramente risonha. Os cabelos
estavam presos no alto por um laçarote de bolinhas amarelas.

What is that?

— Perhaps nothing… perhaps something… — respondeu ele abrindo
o sorriso automático. Acenou-lhe com um frêmito de dedos imitando
asas. — Supper at eight, Miss Gloria!

Apressou o passo quando viu o Diretor das Classes Conservadoras Desarmadas
e Armadas que vinha com seu chambre de veludo verde. Encolheu-se para lhe
dar passagem, fez uma mesura, “Excelência”… e quis prosseguir
mas teve a passagem barrada pela montanha veludosa:

— Que barulho é esse?

— Bueno, também não sei dizer, Excelência,
é o que vou verificar, volto num instante, não é mesmo
estranho? Tão forte!

O Diretor das Classes Conservadoras Desarmadas e Armadas farejou o ar:

— E esse cheiro? O barulho diminuiu mas não está sentindo
um cheiro? — Franziu a cara: — Uma maçada! Cheiros, barulhos…
E o telefone que não funciona, por que o telefone não está
funcionando? Preciso me comunicar com a Presidência e não
consigo, o telefone está mudo!

— Mudo! Mas fiz dezenas de ligações hoje cedo… Vossa
Excelência já experimentou o do Salão Azul?

— Venho de lá, também está mudo, uma maçada!
Procure meu motorista, veja se o telefone do meu carro está funcionando,
tenho que fazer essa ligação urgente.

— Fique tranqüilo, Excelência. Vou tomar providências
e volto em seguida, com licença, sim? — fez o jovem, esgueirando-se
numa mesura rápida. Enveredou pela escada. Parou no primeiro lance:
— Mas o que significa isso? Pode me dizer o que significa isso?

Esbaforido, sem o gorro e com o avental rasgado, o Cozinheiro-Chefe
veio correndo pelo saguão. O jovem fez um gesto enérgico
e precipitou-se ao seu encontro:

— Como é que o senhor entra aqui neste estado?

O homem limpou no peito as mãos sujas de suco de tomate:

— Aconteceu uma coisa horrível, doutor! Uma coisa horrível!

— Não grita, o senhor está gritando, calma — e o jovem
tomou o Cozinheiro-Chefe pelo braço, arrastou-o a um canto: — Controle-se,
mas o que foi? Sem gritar, não quero histerismo, vamos, calma, o
que foi?

— As lagostas, as galinhas, as batatas, eles comeram tudo! Tudo! Não
sobrou nem um grão de arroz na panela, comeram tudo e o que não
tiveram tempo de comer, levaram embora!

— Mas quem comeu tudo? Quem?

— Os ratos, doutor, os ratos!

— Ratos?… Que ratos?

O Cozinheiro-Chefe tirou o avental, embolou-o nas mãos:

— Vou-me embora, não fico aqui nem mais um minuto, acho que
a gente está no mundo deles, pela alma da minha mãe, quase
morri de susto quando entrou aquela nuvem pela porta, pela janela, pelo
teto, só faltou me levar e mais a Euclídea! Até os
panos de prato eles comeram, só respeitaram a geladeira que estava
fechada, mas a cozinha ficou limpa, limpa!

— Ainda estão la?

— Não, assim como entrou, saiu tudo guinchando feito doido,
eu já estava ouvindo fazia um tempinho aquele barulho, me representou
um veio d’água correndo forte debaixo do chão, depois martelou,
assobiou, a Euclídea que estava batendo maionese pensou que fosse
um fantasma quando começou aquela tremedeira e na mesma hora entrou
aquilo tudo pela janela, pela porta, não teve lugar que a gente
olhasse que não desse com o monte deles, guinchando! E cada ratão,
viu? Deste tamanho! A Euclídea pulou em cima do fogão, eu
pulei em cima da mesa, ainda quis arrancar uma galinha que um deles ia
levando assim no meu nariz, taquei o vidro de suco de tomate com toda força
e ele botou a galinha de lado, ficou de pé na pata traseira e me
enfrentou feito um homem, pela alma da minha mãe, doutor, me representou
um homem vestido de rato!

— Meu Deus, que loucura… E o jantar?!

— Jantar? O senhor disse jantar? Não ficou nem uma cebola!
Uma trempe deles virou o caldeirão de lagostas e a lagostada se
espalhou no chão, foi aquela festa, não sei como não
se queimaram na água fervendo, cruz-credo, vou-me embora e é
já!

— Espera, calma! E os empregados? Ficaram sabendo?

Empregados, doutor? Empregados? Todo mundo já foi embora, ninguém
é louco e se eu fosse vocês também me mandava, viu?
Não fico aqui nem que me matem!

— Um momento, espera! O importante é não perder a cabeça,
está me compreendendo? O senhor volta lá, abre as latas que
as latas ainda ficaram, não ficaram? A geladeira não estava
fechada? Então, deve ter alguma coisa, prepare um jantar com o que
puder, evidente!

— Não, não! Não fico nem que me matem!

— Espera, eu estou falando: o senhor vai voltar e cumprir sua obrigação,
o importante é que os convidados não fiquem sabendo de nada,
disso me incumbo eu, está me compreendendo? Vou já até
a cidade, trago um estoque de alimentos e uma escolta de homens armados
até os dentes, quero ver se vai entrar um mísero camundongo
nesta casa, quero ver!

— Mas o senhor vai como? Só se for a pé, doutor.

O Chefe das Relações Públicas empertigou-se. A
cara se tingiu de cólera. Apertou os olhinhos e fechou os punhos
para soquear a parede mas interrompeu o gesto quando ouviu vozes no andar
superior. Falou quase entredentes:

Covardes, miseráveis! Quer dizer que os empregados levaram todos
os carros? Foi isso, levaram os carros?

— Levaram nada, fugiram a pé mesmo, nenhum carro está
funcionando, o José experimentou um por um, viu? Os fios foram comidos,
comeram também os fios. Vocês fiquem aí que eu vou
pegar a estrada e é ja!

O jovem encostou-se na parede, a cara agora estava lívida. “Quer
dizer que o telefone…” — murmurou e cravou o olhar estatelado no
avental que o Cozinheiro-Chefe largou no chão. As vozes no andar
superior começaram a se cruzar. Uma porta bateu com força.
Encolheu-se mais no canto quando ouviu seu nome: era chamado aos gritos.
Com olhar silencioso foi acompanhando um chinelo de debrum de pelúcia
que passou a alguns passos do avental embolado no tapete: o chinelo deslizava,
a sola voltada para cima, rápido como se tivesse rodinhas ou fosse
puxado por algum fio invisível. Foi a ultima coisa que viu porque
nesse instante a casa foi sacudida nos seus alicerces. As luzes se apagaram.
Então deu-se a invasão, jorrando espessa como se um saco
de pedras borrachosas tivesse sido despejado em cima do telhado e agora
saltasse por todos os lados na treva dura de músculos, guinchos
e centelhas de olhos luzindo negríssimos. Quando a primeira dentada
lhe arrancou um pedaço da calça, ele correu sobre o chão
enovelado, entrou na cozinha com os ratos despencando na sua cabeça
e abriu a geladeira. Arrancou as prateleiras que foi encontrando na escuridão,
jogou as latarias para o ar, esgrimou com uma garrafa contra dois olhinhos
que já corriam no vasilhame de verduras, expulsou-os e num salto,
pulou lá dentro. Fechou a porta mas deixou o dedo na fresta, que
a porta não batesse. Quando sentiu a primeira agulhada na ponta
do dedo que ficou de fora, substituiu o dedo pela gravata.

No rigoroso inquérito que se processou para se apurar os acontecimentos
daquela noite, o Chefe das Relações Públicas jamais
pôde precisar quanto tempo teria ficado dentro da geladeira, enrodilhado
como um feto, a água gelada pingando na cabeça, as mãos
endurecidas de câimbra, a boca aberta no mínimo vão
da porta que de vez em quando algum focinho tentava forcejar. Lembrava-se,
isso sim, de um súbito silêncio que se fez no casarão:
nenhum som, nenhum movimento. Nada. Abriu a porta da geladeira, espiou.
Um tênue raio de luar era a única presença na cozinha
esvaziada. Foi andando pela casa completamente oca, nem móveis,
nem cortinas, nem tapetes. Só as paredes. E a escuridão.
Começou então um murmurejo secreto, rascante, que parecia
vir da Sala de Debates e teve a intuição de que estavam todos
reunidos ali, de portas fechadas. Não se lembrava sequer como conseguiu
chegar até o campo, não poderia jamais reconstituir a corrida,
correu quilômetros. Quando olhou para trás, o casarão
estava todo iluminado.

These short stories were originally published in
Mistérios, Editora Nova Fronteira

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