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Short story – fall guy

malu is something else, fine people are another story. as the old of
issás always says, when the poor guy doesn’t stink for lack of bathing he is using shitty
perfume. malu has class, high class. i need to be careful so i won’t go head over heels in
love with her. dig it? so i won’t be dependent, be wrapped around her finger. because if
she gives me the boot i’ll be in bad shape.

júlio césar monteiro martins

malu is something else, fine people are another story. as the old of
issás always says, when the poor guy doesn’t stink for lack of bathing he is using shitty
perfume. malu has class, high class. i need to be careful so i won’t go head over heels in
love with her. dig it? so i won’t be dependent, be wrapped around her finger. because if
she gives me the boot i’ll be in bad shape.

júlio césar monteiro martins

 

foi numa manhă de vento sul que a malu pintou nas pedras pela primeira vez. malu era o
maior barato. num é por falar, năo, mas no nosso grupo só dava ratazana e sapatăo, só
barangada da pior, e quando a malu pintou, até o babu ficou de olho. eu nem me liguei,
tava a fim de aproveitar o solzăo pra alorar os pęlos. peguei a parafina. com o carrique
e fiquei passando de leve. a malu foi se chegando pro meu lado e entrou numa de me ajudar
a parafinar o cabelo. olhaí, alta loucura. aquelas duas lunetas mais verdes que o mar de
itaúna me olhando assim, assim, morou? eu relaxei numa boa e fechei os olhos, ela
começou a levar um som em inglęs que eu num sacava. cara, era uma transa da gente se
falar sem se falar que durou até o céu ficar pretăo.

 

num sei porque, minha velha nesse dia tava a fim de encricrizar. me torrou o saco.
ficou falando que eu matava aula por causa do surf, que eu ia ser um zé-ninguém, que
surf era brinquedo, num era profissăo, que ia conversar com papai e papai ia fazer num
sei o quę, esses papos. perguntou depois o que eu pretendia ser na vida. falei que ia ser
fiscal da natureza. como assim? ela perguntou. vou ficar o dia inteiro olhando o mar, as
plantas, as aves, as ondas, e se acontecer alguma coisa diferente, aí eu te conto, falou?

 

tinha a patota do surf. gente fina. bebeto, lauro, carrique, babu (esse era a maior
fera). renguitem e eu, o tôni. cinco e meia da matina a gente já tava de pé, com a
prancha debaixo do braço, e se mandava lá pro arpoador ou pra praia do diabo. a turma
sentava na pedra e ficava sacando a posiçăo do vento. se era o noroeste ou o sudoeste,
era a boa, lá mesmo a gente ficava. se era leste tinha que se dar um jeitinho de descolar
carona até a barra de guará. se era sul, era dia morto e liqüidado, era dia de abrir a
boca pra entrar mosca.

 

a malu, sempre que dava condiçăo, ia me ver surfar. chegava muito doida de fumo e
trazia uma bagana pra mim. maior barato a malu. eu nunca soube onde ela pintava depois que
o sol sumia, mas também nunca quis saber. isso era transa dela, e eu tinha que morgar
cedo mesmo pra madrugar na areia. a gente levava mil papos numa boa, e ela sacava ŕs
pampas das coisas, morou? uma vez o renguitem entrou numa de dar um beijo nela, curtindo
de babaca, e ela cortou a do carinha na maior, sem muito bla-bla-bla. o malandro num se
mancou e agarrou o braço dela. aí o sangue me subiu e eu fui dar uma porrada no
renguitem. o babu e o bebeto entraram no meio, com uma conversa de deixa-pra-lá. o babu
tava era querendo aparecer pra garota, que eu bem que saco a dele. o renguitem escapou por
pouco, sacou? mas tudo bem, a gente acerta isso.

 

na quinta feira o bebeto me deu um toque pra passar o fim de semana na casa dele, em
barra de guará. os pais deixaram o carro e a casa na maior confiança. isso é que é. me
tocou também que o carro já estava cheiăo, pra que eu desse um jeito de ir por mim
mesmo, na sexta-feira descolei uma carona com um primo babacăo que eu tenho, meio tarado.
que só fala em bundinha, num sei mais o quę, mas num come ninguém, cara. carreguei a
prancha a pé, depois, uns cinco quilômetros. altas caminhadas. saquei o vento leste no
ato. o pessoal devia estar pegando cada ondăo, cada rainha…aumentei o passo pra cair
logo de cabeça naquele mar. o mar era minha casa, onde eu moro de verdade, năo aquele
apartamento escroto do leblon.

 

maravilha, o babu montado na fibra era ferăo mesmo. tinha dia que eu ficava sentado na
praia aprendendo as manobras do babu na água. ele já disputou com o neco em saquarema, e
só num levou por pouquinho. pô, também o neco vai todo ano ao havaí, com a nota que
ele descola fazendo prancha.tava todo mundo lá, só num vi o bebeto e o lauro, dei um
tempo na areia. esperando alguém voltar, e quando o carrique pintou dei um toque: – cadę
o bebeto e o lauro? – o bebeto dançou num lance aí. – dançou como cara? fumo? – năo,
caiu de mau jeito na arrebentaçăo e levou uma porrada da prancha na testa, morou? – onde
é que tá agora? – sei lá, o lauro levou ele pra casa. – sangrando! – é. – por que que
num levou prum hospital? – a gente num manja dessas transas năo, tôni.

 

fui até a padaria e telefonei pra casa do bebeto. a empregada atendeu e disse que ele
foi dar ponto no hospital. – qual hospital? – peraí que a dona sílvia deixou o nome
escrito aqui num papelzinho. peguei a chave da casa de guará do bebeto, guardei a prancha
lá e gritei pro babu tomar conta da chave. peguei um ônibus e voltei pro leblon. pô,
cara, qualé a do bebeto de moscar assim?

 

mas é como diz o babu: “bobeatus sunt, enrabatus est”. é isso aí.

 

foi um saco descobrir o bebeto na emergęncia do hospital. primeiro que eu năo sabia
se o nome dele era alberto, roberto ou o quę. segundo que os caras da portaria tinham a
maior má vontade de responder ŕs perguntas. acabei achando o bebeto, já costurado, num
ambulatório, sei lá. a măe dele tava do lado. – olhaí, bebeto, soube do lance e dei um
chega até aqui, – valeu, cara, mas tudo bem, – pensei que fosse… – moita, cara. –
falou. cumé qui tá aí? – num deu pra quebrar a testa, năo, o médico falou que foi
superficial. vai ficar uma cicatriz feiona. – um charme meio brabo né cara? – charme é o
cacete, pô. melhor como tava antes. – mas vai cortar muito a sua? – uns dez dias de
repouso. – cabide de vez em quando é bom, cara. – valeu.

 

quando saímos do hospital já era noite. deu uma saudade descacetada da malu. mas eu
num sabia muita coisa dela. sabia onde era o apę ela, que morava com a măe, separada do
pai, e mais o carinha da măe dela, que ela dizia que era um cara maneiro. resolvi andar
pelas bibocas perto do edifício dela, quem sabe? pô, foi no ato. dei de cara com ela num
bar da montenegro. tava ela e duas outras gatinhas, só que num eram gatinhas, eram
escrotas pra caramba, morou? dava até medo. acho que a malu nem ficou

 

numa boa quando me viu. – que que há, tôni, pintando por aqui? – é, eu tava a fim de
te ver hoje, o bebeto se machucou num lance com a prancha e eu passei o dia no hospital
com ele, maior sufoco. – cumé que vocę descobriu onde eu tava? – por acaso. ué. – tá
legal senta aí. olha, essa é rita e essa é lurdinha.- cumé que é, tudo legal?

 

a tal lurdinha era cocozona. tinha uma olheira preta, era enrugada e meio suja, meio
porca. a outra nem se fala, era mil e um. tudo vazio de canino a canino, que a gengiva
encolheu de tanto esfregar pó e cuspiu os quatro dentes inteirinhos, com raiz e tudo.
caceta! eu senti que tinha cortado o papo delas, e que num tavam a fim de falar na minha
frente. deu o maior branco em todo mundo. depois uma barangona perguntou pra malu se eu
transava com ela. a malu ficou olhando nos olhos dela e num disse nada. a outra, a rita,
falou que eu era bonitinho. tava apavorado no lance. senti o baixo astral e me levantei. a
malu sacou que eu ia embora, levantou junto e foi comigo até a calçada. falou que eu
năo devia ter aparecido sem falar com ela antes. fiquei quieto, mas deu pra ver que eu
tava puto. ela me deu um beijo, combinou para amanhă na praia e jogou um baseado no bolso
da minha camisa.

 

fui pra casa, me tranquei no banheiro e queimei o fumo. queimar sozinho num é tăo
legal, num dá pra curtir muito. enchi a palma da măo de talco e soprei no ar. pra cortar
o cheiro. tinha mais é que tomar cuidado mesmo, uma vez a velha sacou e veio me
perguntar.

 

tive que inventar uma história de incenso indiano e o cacete. mas acho que mesmo assim
ela ficou desconfiada. deitei na cama entăo, botei um pink floyd no deck e curti aquele
som desbundante até pegar no sono.

 

nunca vi tanta gente, meu irmăo. só faltava nego estender a toalha na barriga do
outro. pra andar na praia tinha que sair dando pulinho no meio da rapaziada que nem
bailarino. foi fogo encontrar a malu. o mar tava pra lá de ruim, parecia um lagoăo,
morou? a malu foi logo me dizendo que precisava levar um papo comigo e que na praia nem ia
ser legal, que toda hora o pessoal ia chegar, interromper, encher o saco. – tá legal, mas
onde entăo? – vamos lá pro apartamento. – tua velha tá lá, ô cara… num acho uma
boa. – tem grilo năo, pô, vocę tem que conhecer a velha e o serginho. pessoal
maneiríssimo. – mas a gente num vai ficar ŕ vontade pra papear. – claro que vai. a gente
fica no meu quarto, fecha a porta e tudo bem.

 

ela enfiou a chave, mas tinha outra do outro lado. apertou a campainha, uma vez curta,
longa, curta. a mulher abriu um palmo de porta, olhou rápido e tirou a correntinha. –
simone (ela num chamava a măe de măe). esse é o tôni, amigăo aí. – prazer. fica ŕ
vontade, cara. quer tomar alguma coisa? – a senhora tem um copo d’água? – senhora? pelo
amor de deus! se vocę me chamar de senhora de novo eu te jogo pela janela. – tá legal,
vocę tem um copo d’água? – peraí que eu vou pegar.

 

ficamos sozinhos no quarto. perguntei pra malu o quę que ela queria falar, ela disse
que nada năo, era só pra saber se tava tudo bem. pra perguntar isso num precisava sair
da praia, pô. perguntou se eu tava zangado. năo, tudo bem. foi entăo até a
mesa-de-cabeceira e pegou uma seda na gaveta. abriu uma caixa, espalhou o fumo e ficou
apertando um charrăo que podia rodar numa roda de dez. – tu quase num queima, é cara? –
queimo muito năo, tô fumando mais, depois que a gente tá transando. – quem foi que te
aplicou? – qualé, malu? tá me achando com pinta de paru? eu já queimo fumo há mais de
sei lá quantos anos. – que nada, tôni, tu é pato novo. e olha lá que pato novo num dá
mergulho fundo. – tá de gozacăo, é? – ih, ele ficou putinho… num fode, porra!

 

o baseado pegou fogo na ponta, ela sacudiu e ficou brasa. deu tręs pauzinhos fortes e
entupiu a boca e o nariz com a palma da măo. me passou a coisinha e eu fui tentar fazer o
que ela fez e me deu um acesso de tosse de eu ficar todo vermelho. puta que o pariu. tô
fudido, agora é que ela vai me gozar o resto da vida. mas até que năo, ela tava
colocando um disco e nem se tocou com o lance. esmagou a brasa pra guardar a bagana pra
depois, sentou do meu lado e deitou a cabeça na minha barriga. fiquei bem quieto. ela
começou a me beijar no peito e enfiou a língua dentro do meu umbigo. aí me deu cócegas
e eu morri de rir.

 

pô, meu irmăo, depois que eu tava na rua é que eu saquei que tinha comido a malu
dentro da casa dela. cacete! e com a mae dela lá. cara, mas aquela mulher é o diabo,
levanta até condenado. maior viagem. onde é que ela aprendeu tudo isso? mas num dava pra
reprimir, era trepar ou se jogar pela janela, como diz a măe dela. que coisa! ela
também, pô, deve ter tido o maior treinamento. e o pior é que num leva jeito.

 

eu acho que fui legal no lance. dei-lhe uma surra de pica que ela ficou meio tonta. ela
deve estar pensando que eu tenho a maior tarimba do troço. se ela soubesse que até ontem
eu só tinha comido empregadinha, morou? igual o caso da marilda, que era só a coroada se
mandar pra batalha, que eu ia pra cozinha, me encostava na bunda dela e ela num falava
nada, só levantava o avental e pá. mas eu tinha o maior cagaço de chegar alguém. um
dia abriram de repente a porta da sala e eu levantei a calça e fui fechar o fechecler
depressa, com o pau do lado de fora e, uuuui! foi uma dor filha da puta e sangue pra todo
lado. o raio da marilda correu pro banheiro dela e eu fiquei na cozinha correndo em
círculo igual uma barata, com as duas măos no saco e urrando pra diabo. a velha correu:
que foi? que foi? eu só fazia uuuuh! uuuuh! nada, nada, uuuuh! maninho, o pau inchou,
ficou redondo que nem bola de tęnis, e eu entrei numa que ele ia cair, horrorzăo. num
gosto nem de lembrar.

 

aí passou. a marilda veio me tocar que tava grávida e o iscamba. eu queria perguntar
se era meu, mas pensei que ela ia dizer que era, mesmo se num fosse e fiquei na moita, ela
pediu uma nota pra tirar o neném. pô, cara, se eu tivesse, eu dava. mas nego mais duro
que eu num existe, e eu falei pra ela. ela chiou, falou que ia dedurar pros velhos, falou
até que ia casar, aí, veja só, eu sou menor… casar nada, eu vou é te dar porrada se
vocę cagüetar. ela chorou, fez a maior manha, falou que me amava, que andava com um
retrato tręs por quatro meu na carteira dela, que tinha achado numa gaveta. aí eu falei
assim: num quero nem saber, morou? ela ficou chorando lá uma pá de tempo. varrendo e
chorando, lavando e chorando. espanando e chorando. mijando e chorando. e eu cagando e
andando. uma vez cheguei da praia e ela num tava mais, mandaram embora, que sumiu um
troço, besteira, dois cruzeiros, tręs, sei lá, e ela nunca mais que pintou no meu
caminho.

 

mas a malu é outro lance, gente fina é outra coisa. como diz o velho do issás, pobre
quando num tá fedendo por falta de banho, tá com perfume que é uma merda. malu tem
nível, alto nível. tenho que me cuidar é pra num fissurar, morou? pra num criar
dependęncia, ficar na dela de inteiro, porque se ela me chutar eu vou ficar numa pior
tăo fudida, meu nego, que nem dez quilos de pó vai dar pra me agitar. num posso cair na
dela năo. se ela me caga na cabeça, vou ficar caçando minhoca no asfalto com picareta
de borracha. e, meu chefinho, esse olho é irmăo desse.

 

– entra, tôni, a malu tá lá no quarto. – falou. – é o tôni que taí, simone? – sou
eu sim. – ah, gatăo, que bom que vocę pintou. eu tava te esperando. – pra quę? – sei
lá, ué. te esperando, num pode? – tudo bem. – olha só que barato o som do led zeppelin
que a simone me trouxe. – tua velha é maneirona mesmo, né? – ŕs pampas… – ô malu,
num tá pintando uma coisinha, năo? – seguinte, eu tô de careta hoje, aliás desde
ontem, e tô sem nota também, mas o serginho tem. vocę podia ir lá e dar um toque
nele… – eu? – é, que que tem? – mas, pô, o cara transa com tua măe, mora na tua casa,
é teu chapa, cumé que eu é que vou lá agitar o lance com ele? – mas, tôni, é que a
minha barra anda meio suja pro lado dele. outro dia eu fui pedir um baseado e ele me
cortou, que ele tava ruim de nota e num dava pra alimentar o lance. agora, se vocę for
pedir, duvido que ele negue. – mas eu nunca vi o carinha… – eu vou contigo até lá.

 

ela bateu na porta do quarto. eu tava brancăo. o cara gritou:

 

– entra! malu entrou. – serginho, esse é o tôni, chapăo aí da gente. – tô sabendo,
a simone já me falou dele. – pois é, ele quer te falar um troço. eu vou esquentar um
café. – pode falar, cara.

 

que raiva, meu irmăo, que eu tava dela. pô, eu num podia pedir prum cara que eu num
conhecia que ele me agitasse, nem que fosse uma baga. a sacana num podia me deixar numa
dessa e sair na maior. nunca fiquei tăo desbundado. o cara era garotăo e tudo, mas eu
nunca tinha levado papo nenhum com ele, e tava arriscado a levar um fora pra valer, fiquei
meio suando frio, desmanchando os cachos do cabelo, de tanta agonia.

 

– pode falar, cara. – né nada năo, besteira da malu. – qualé, meu irmăo? aqui num
tem essa năo, desembucha, pô. – nada, é que eu tava a fim de levar um papo com vocę,
que ela falou que vocę era um cara legal e… – vocę entrou aqui pra me conhecer? – é
isso aí. – é isso o caralho! eu num sou artista de novela nem nada. cara, seu lance é
outro, que eu num nasci ontem. – mas é isso aí, cara. – é isso o quę? peraí, que eu
tô sacando… tu tá a fim dum baseado, é isso aí? – é isso também. – tudo bem, cara,
num precisa ficar enrolado năo, leva essa matuca de cinqüenta que depois a gente acerta.
– falou. valeu mesmo. – mete bronca, maninho. fui pro quarto. a malu veio toda se abrindo,
com um copo de café. – descolou? – porra, malu, cumé que vocę me dá uma dessa? –
qualé, tôni. eu num falei que o serginho era um cara legal? taí ó. – sacanagem tua…
– gatăo, fica puto năo, gatăo. – agora cumé que fica? – fica que a gente vai apertar e
queimar nosso fuminho numa boa e num fica me azucrinando năo que eu dou uma mordida na
sua bunda. – tu é foda mesmo…

 

duas semanas sem pintar na praia. o pessoal devia estar pensando que eu morri, sei lá.
passei no surf shop pra ver as pranchonas que tinham chegado e encontrei o babu lá. –
sumiu, tôni? – nada, babu, tem pintado uns lances aí… – lance teu eu sei qualé. é
aquela barangona que tava pintando na praia e agora tu vive grudado no rabo dela. – pô,
cara, tô te estranhando. – olha, eu num tenho nada com isso, mas aquela nega é manjadona
aí pelo pessoal, e tem brabeza em cima… – tu tá enganado, babu, eu tô em outra, cara.
– enganado tá vocę, e há muito tempo, morou? – pô, babu, esse papo teu tá cortando
nossa amizade. – tô levando esse papo porque sou teu amigăo. senăo eu num falava nada,
e se vocę tá entrando numa, eu quero que vocę se foda. – pô, tu tá é me agredindo de
graça. – olha cara, te digo só uma coisa, guarda bem, é o seguinte: moscou… dançou.
maior decepçăo com o babu. pô, qualé essa de querer me dar liçăo de moral na frente
de todo mundo? nego tava até rindo de mim lá, porra. o babu vive é querendo aparecer,
se mostrar pros babacas que passam o tempo todo chupando o dedăo do pé dele. acho que
ele tá puto comigo, mas num dá pra sacar é o motivo, só se o filho da puta do
renguitem andou botando minhoca na cabeça dele, de ciúme da malu: aquele papo que tia
branquinha falava, quando eu era pivetinho, da raposa e das uvas, que maluco num alcança
e sai dizendo que tăo verdes. mas pra cima de mim năo. e a minha barra fica suja com
eles e a deles comigo e é isso aí. que vai fazer?

 

– oi, simone. – oi, tôni, tudo bem? – hum, hum. – dá um pulo até lá dentro que a
malu quer levar uma conversa com vocę. – comigo? – é, vai lá. – posso ir no banheiro
antes? – eu, hein? precisa agora de permissăo pra mijar?

 

que que a malu quer falar comigo, cacete ? será que a velha dela descobriu que a gente
transa? năo, isso é babaquice minha, que a simone já sabe disso há uma pá de tempo.
só num fala na minha frente que é pra num dar bandeira, sei lá, tô sentindo um baixo
astral aqui, e eu num queria que pintasse grilo com o pessoal da malu… gente boa, que me
dá a maior guarita. (acaba de mijar logo, ô puto) gente muito fina, de cabeça
feitona…

 

– a simone falou que parece que pintou uma sujeira aí. – num se grila năo, gatăo, é
onda dela. – năo, fala, malu, que agora eu quero saber. – sabe o que é ? tu tá devendo
já oitocentas notas pro serginho, de fumo que ele tem te arrumado. – pô, é isso? – é,
só isso. vocę acerta com ele, que ele tá durăo, numa pior incrível, e tudo bem. – é,
mas também tô duro. – descola uma nota lá com os teus velhos. – o quę? só se eu
assaltar a coroa ŕ măo armada, morou? os velhos num tăo querendo me ver nem pintado de
ouro. – entăo sei lá, tôni. dá um jeito. – que jeito? – sei lá, transa um troço teu
aí. – troço meu? que que eu tenho meu? só o deck de som e a prancha, mais nada. – olha,
tôni, vamos cortar esse papo, que já tá qualquer coisa. isso depois vocę pensa
sozinho, que eu tô morrendo de tesăo. pô, mas eu num queria que pintasse grilo por… –
gatăo, a camisa vocę mesmo tem que tirar por cima, que eu num dou altura.

 

o pior é que vender o deck de som num dá, que os meus velhos văo dar por falta,
ficar perguntando, querendo saber detalhes, e aí vai pintar sujeira, a prancha, pelo
menos, eu posso dizer que emprestei a um amigo, além disso eles văo levantar as măos
pro céu de num ver mais aquela prancha em casa, que eles tęm a maior bronca de eu fazer
surf. mas vai doer. meu maninho,vaidoer pra caralho eu me desfazer daquela fibra, e além
disso eu num sei vender, nunca vendi nada, já tô sentindo o sufocăo.

 

– é o seguinte, cara, aqui a gente só transa prancha de primeira măo. – tô sabendo,
mas vocęs devem sacar algum cara que esteja a fim de comprar mais barato. – olha, eu vou
quebrar teu galho, mas é bom vocę ficar sabendo que num é interesse pra gente transar
essa, que o cara compra de vocę e acaba num comprando da gente. – pô, eu saco; mas é
que eu tô numa pior, precisando descolar essa nota hoje. – peraí, que eu vou telefonar.

 

que troço sinistro! que merda! essa prancha vale, na menor, duas milhas, essa nota tem
que pintar logo, senăo eu atolo a cabeça aqui no balcăo mesmo. é o seguinte, eu fico
puto nas calças. esses caras na hora de vender levam um papo super legal, mas se é um
lance deles soltarem a grana, fica tudo macambúzio.

 

– olhaí, o cara dá quatrocentos paus. – assim num dá, meu irmăo. isso vale dois mil
no mínimo, qualé? – é isso aí, tôni, se estiver a fim, pega lá o fone e resolve
vocę mesmo, que já me saturou. – quebra o galho, pede lá oitocentos pra ele. –
oitocentos? – é. – peraí.

 

que situaçăo escrota! quatrocentos só se for na bundinha da măe dele, morou? que eu
num tô aqui pra botar quetichupe no amburger do malandro. – tôni, é quinhentos no pega
ou larga. – setecentos. – porra! – tá legal, quinhentos. – falou, toma aqui a nota, que
depois ele me dá, e pode deixar a prancha ali no canto, do lado da vitrina, tá legal? –
e se eu disser que num tá? – aí eu vou achar que vocę é um babacăo chato, sacou?

 

– malu, seguinte: só deu pra descolar essa notinha azulzinha de quinhentinhos aqui. –
ih, tôni, isso num é problema meu năo. entrega lá pro serginho. – eu deixo com vocę,
vocę entrega. – nada disso, eu num sei se ele vai aceitar só uma parte… – porra, eu
tive que vender a merda da prancha pra dar pra ele esse pedacinho de papel com essas
carinhas estúpidas desenhadas aqui. – eu sei, cara, que foi chato procę, mas falta ainda
trezentos, né? – tá legal, eu vou vender o olho, o cérebro, sei lá, pra pagar o seu
serginho. – gatăo, vocę tá me agredindo por quę? agride lá a ele, que vai ficar com a
nota. – ó, num quero saber. a nota vai ficar aqui nessa cadeira. vocę vai entregar, que
eu num quero saber de papo.

 

acho muita sacanagem dele se ele num aceitar só os quinhentos, pô, o cara vive
dizendo que num tem nota. quem num tem sou eu, que vivo dependendo da veneta do velho. se
ele acorda mostrando a dentadura, se ele meteu direitinho na velha durante a noite, aí
solta uma graninha, mas se levanta com o cu virado pro inferno, que é quase todo dia,
neca de nota, e se pedir ainda leva , esporro.

 

– tôni, posso pedir um favorzinho procę? – claro, simone. – sabe o que é? dá procę
levar este embrulho na casa de uma amiga, quando sair daqui? – onde é? – aqui pertinho,
na lagoa. é que a pessoa que vai receber me telefonou que num vai poder sair de casa
hoje. – tá legal, me dá que eu levo depois. – năo, na saída vocę apanha comigo, tá?
– falou. – ah, o serginho deixou um negócio procę. – pra mim? – é, tá lá na primeira
gaveta do armário dele. pode apanhar. ele mandou dizer que é presente. – pô, legal. –
ah, e mandou dizer também procę esquecer os trezentos que faltam, que tá tudo bem.
valeu mesmo.

 

queria saber qualé essa do serginho deixar fumo de presente pra mim. quantas
amabilidades… he, he. acho que ele sentiu que eu fiquei ressabiado dele cobrar os
trezentos e agora tá a fim de me comprar… bom, deixa ver se o número é esse mesmo.
1102, é isso aí. pô, num tem campainha e tá um sonzăo brabo lá dentro, vou ter que
esmurrar essa porta. me pedem cada favor besta… – que é que vocę quer? – é da parte
da simone, que pediu pra eu trazer essa encomenda. – e precisava botar a porta abaixo? –
desculpa, mas é que a música tava tocando alto e eu achei que ninguém ia ouvir. –
falou. tá entregue, pode ir embora. – valeu.

 

cara grosso filho de uma égua. pensa que eu sou o quę? empregadinho? office boy?
mendigo pedindo păo velho? quase que eu falei pra ele: olha, cara, tô te fazendo um
favor, viu? num acostuma năo. e vai gritar no suvaco das tuas negas, ô extrato de pó de
merda.

 

bastou eu dizer pra simone que num queria mais levar aquelas trouxinhas de fumo, que eu
agora sei que é fumo ou pó, pra ela amarrar a cara pra mim. como se eu tivesse a maior
obrigaçăo. cansei de falar pra malu que o meu saco tava cheio de troço. ela só
responde a mesma coisa: tá me agredindo por quę? tá me agredindo por quę? pô, será
que ela num entende que eu num tô agredindo ninguém? só num tô mais nessa, de ficar me
arriscando com os baratos no meio da rua pra cá e pra lá a troco de uma mutuca de
cinqüenta e guarita do apę. já tô uma pá de tempo nesse lance e tô mais é a fim de
descolar uma melhor. escravidăo já era, morou?

 

e tem mais essa de quebra, num foi uma vez nem duas vezes que me tocaram da malu com o
pivete dum bugre amarelo tomando chopinho no nictheroy. o garotăo eu manjo de outras
bandas, e podes crer que o pinta é babaca, mas é tăo babaca, que se puxar a descarga de
mau jeito ele vai junto. e o cara fissurar na malu, isso dá pra sacar, que cabritinha que
nem ela num se acha em qualquer pasto, năo. mas o que num se entende é a malu embarcar
no muquirana. só se a sacaninha tá a fim de se motorizar. tá a fim do bugrinho e da
notinha que o xurreado pode descolar. soube que o cara só descola de quina pra cima,
além das brizolas. o zé mané é estribadăo. e logo a malu que dizia năo se ligar
nesses papos… olha aí, quem diria, maninho. mas eu tô mais é me convencendo que toda
gatinha, por mais feitona que pareça a cabeça, no fundo é maria-gasolina como todo
mundo. eu dou um toque na boa, e ela só me vem de gueri-gueri. é isso que me deixa
injuriado. o carinha tá sendo mamado na maior e nem no sonho ele se toca. mas tudo bem,
que se é pra aprontar auę, melhor chutar logo que ser colocado na marca do pęnalti. é
o seguinte…

 

– ó tôni, o seu negócio tá ali em cima. – tô a fim năo, simone. – como assim? –
eu tava pra te falar. a gente vai ter que transar o negócio diferente. – diferente como?
– olha, é chato eu falar… vocę tem sido tăo legal comigo e tudo, mas só uma de
cinqüenta num dá mais, que męs que vem eu faço dezoito anos e aí já vou ser maior de
idade, quer dizer, se os homens me arrocham, se os samangos descobrem as transaçőes, eu
danço e num dá pra ninguém ir lá me soltar, vocę sabe, menor eles ainda maneram, mas
passou dos dezoito a porrada come solta, pega prisăo e o iscambau. – tá legal, eu dobro
pra cem. – quero dez por cento. – como? vocę ficou louco? dez por cento pra carregar um
embrulhinho dois quarteirőes? – pra ser o traficante, vocę quer dizer. o vapozeiro, que
em caso de arrocho leva a toalha maior, se eu dançar vocę vai limpar minha barra? num
vai, né? entăo é dez por cento, e tudo pesadinho na balança. – nada feito. dez por
cento nem brincando. – nada feito? entăo tá, num se fala mais. fim de papo. – peraí.
peraí. vocę já falou com a malu sobre isso? – olha, é o seguinte, eu já tô com o
saco cheio da sua filha, simone, por uma pá de coisas, e principalmente porque há mais
de um męs que eu tô sacando como e porque começaram a me transar. quando lembro, chega
a dar nojo, que foi tudo pensado, calculado… – bom, já que é assim, entăo saiba que
seus serviços estăo dispensados, que a malu já tá transando outro babacăo pra botar
no teu lugar. vocę já está crescidinho e num serve mais, sacou? – tô sabendo. agora,
simone, presta atençăo: eu vou trabalhar sozinho, por minha conta, que eu já sei os
pontos e tudo, e corta de botar o serginho no meu rumo que eu sei o nome inteiro de cada
um de vocęs e dou parte no ato pra quem gosta de saber dessas coisas, e algumas das
pessoas que eu falo já săo meus chapinhas do coraçăo. daí, já sacou, né? amarra bem
o teu bode. tchau procęs, tá falado? caceta!

 

“Sabe quem dançou?” (“Do you know who screwed up?”), the original
name of this short story, is also the name of the book in which the story appeared. (Sabe
quem Dançou? – Rio, Codecri, 1978)

 

 

 

The original titles of these short stories are respectively “Os
Anos Frágeis”, “A Prima-Dona do Estado”, and “Mulheres Pobres com
Úteros Profanos.”

 

Júlio César Monteiro Martins, the author, was born in Niterói, in the Greater Rio, in 1955. He
has published several short-story books:
Torpalium, Sabe Quem Dançou?,
A Oeste de Nada, As Forças
Desarmadas
, and Muamba. Monteiro Martins is also the author of three novels:
Artérias e Becos,
Bárbara, O Espaço
Imaginário
and a volume of essays: O Livro das
Diretas
.
He is one of the founders of the Brazilian Green Party and from 1992 to
1994 worked as a lawyer for the Brazilian Center in Defense of
Children’s Rights. He taught literary creation at the Goddard College
in the US and is now a professor in Italy, teaching literary creation
and Brazilian literature in the University of Pisa. He also teaches
Literary Creation in Narration in Florence, Lucca, and Pistoia. Martins
is the founder of Sagarana School (http://www.sagarana.net). You can get in touch with him writing to

jmontei@tin.it
 

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