José Condé’s A Velha Senhora Magdala – In Portuguese

Tears came to her eyes. She felt a little dizzy, and she
didn’t know the reason. Was it the wine or was it the emotion? Mentally
she followed the melody, recalling the lyrics She is now crying but she
doesn’t if it’s for poor Amelia of the song or for herself — for her memories.
She sobs. All her body is treembling like a leaf shaken by the wind.

José Condé

É um burrinho velho e magro que vem em marcha cadenciada, levantando
poeira. Segue-o, a poucos passos, um menino, de cabeça baixa, com
os pés descalços pisando a terra que escalda ao sol do meio-dia.
Tilinta o cincerro. No galho seco do oitizeiro, um pintassilgo ensaia algumas
notas. Interrompe, porém, e fica de bico aberto, afogueado pelo
calor. Mas acaba flechando sobre o menino e o burrinho, para ir pousar
do outro lado, numa estaca de cerca.

Do alpendre da casa-grande, uma voz chama:

— Neco! Ô Neco!

Assustado, o passarinho foge para a ravina mais próxima. A negra
Joana chama outra vez. Resmungando, dirige-se para o terreiro, olha em
todos os sentidos. Subitamente, desiste. Senta-se na roda de um carro de
bois abandonado e fixa a curva da estrada onde o menino e o animal desapareceram.
Uma pequena nuvem de poeira ergue-se por um instante, demora pouco no ar,
voltando em seguida à terra de onde saiu.

— O que é da terra, à terra torna a voltar — diz Joana.

Havia alguns anos, também ela partira para a cidade e acabara
voltando. Pouco importava que a fazenda já não fosse o que
tinha sido; que em vez de fartura de antigamente, até necessidade
passassem hoje em dia. Ali nascera e vivera grande parte da existência;
ali queria acabar seus dias e ser enterrada no pequeno cemitério
dos escravos. Fora invadido pelo mato e pelas cobras, sabia ela; quase
não havia cruzes de pé e, por outro lado, os tijolos do muro
tinham sido todos vendidos.

Entretanto, igual destino tivera também o muro do cemitério
dos brancos. Somente a terra se conservava no mesmo lugar como se ela própria
desejasse ser enterrada.

Joana olha na direção da estrada e se lembra de que por
ali vira passar muitas carruagens puxadas por animais ricamente ajaezados.
Sim, há muito, muito tempo: nos dias solenes de batizados, nos casamentos
das moças da casa-grande, durante as festas da colheita. “Há
muito, muito tempo…” torna a pensar. Pouca gente agora atravessava
a velha porteira: um ou outro fazendeiro da vizinhança, o fiscal
da Prefeitura de Santa Rita, ou o homem do banco, que ainda não
desistira de adquirir a propriedade da velha Magdala.

A negra continua olhando. Entre o portão e o alpendre, tudo é
mato rasteiro, esturricado, onde cascavéis faziam ninhos. À
esquerda, ficava um resto da antiga senzala; mais atrás, na pequena
elevação de terreno que ia ter aos cafezais de outrora, a
capela, cuja porta principal já não se abria há tantos
anos. Inexoravelmente o sol ia queimando tudo.

Joana torna a se lembrar do Neco. Onde se metera o diabo do moleque?
Chama-o:

— Neco! Ô Neco!

Decide voltar ao alpendre. Arregaça a saia, por causa do mato
rasteiro, e caminha com cautela, resmungando sem parar. Sobe as escadas.
Olha em torno, novamente. Vê, então, o negrinho, que se aproxima,
sem pressa, cabisbaixo.

— Onde tu andou, negro ruim?

Neco não responde.

Mas Joana já esqueceu o motivo por que o chamara. Faz um muxoxo,
enquanto os olhos se alongam na direção da estrada: o menino
e o burrinho estão de volta. Tilinta novamente o cincerro. E tornam
a sumir ao erguer-se sobre eles outra nuvem de poeira amarela.

 

II

 

De tarde choveu. Uma nuvem ligeira que o vento trouxe e, rápido,
levou para outros horizontes. Mas deixou um céu azul translúcido
e também o ar leve com todos os perfumes do mato lavado.

A velha Magdala estava no alpendre; não teve a menor surpresa
quando o cabriolé de Antônio Arruda atravessou a porteira
e veio se aproximando da casa-grande.

— Boa tarde, dona — saudou o homem, tirando o chapéu.

Ela fechou a cara. Por que voltara outra vez? Odiava aquele homem alto
e magro, de voz fina, irritante, que falava como se soprasse as palavras.
Via-o agora caminhar na direção onde ela estava, curvado,
naquele passo curto, sorrindo. Pensou: “Sua mão está
sempre fria e suada. Dá-me náuseas.” Antônio Arruda
subiu as escadas, cumprimentou-a e pediu licença para sentar-se.

— O calor não está para brinquedos, dona.

Defrontavam-se, ambos, na mesma expectativa inquietante. Foi o homem
quem, dentro em pouco, puxou o assunto:

— Então, Dona Magdala?

A velha apertou com força o espaldar da cadeira. Sim, — recordava
— era a mesma conversa de outras vezes: de que adiantava conservar uma
propriedade sem nenhuma serventia, uma casa que estava caindo aos pedaços,
quando ela, Dona Magdala, com o dinheiro da venda, poderia se mudar para
um sobrado em Santa Rita e ali viver tranqüila os dias que lhe restavam?
Quarenta contos era bom dinheiro em qualquer lugar. Onde encontraria melhor
oferta?

— Não é questão de dinheiro — respondeu a mulher.
— Já lhe disse que não é questão de dinheiro.

— Que diabo será então, dona?

“Ele não se irá embora enquanto eu não lhe
tornar bem claro que sua presença aqui me é desagradável.”
Entretanto, mesmo depois de ter dito o que pensava, depois de ver Antônio
Arruda afastar-se para o cabriolé, no seu passo curto, cabisbaixo,
prometendo que daí a dias estaria de volta, que quarenta contos
era uma fortuna, e a fazenda estava em ruínas, a casa-grande acabaria
desabando quando ela menos esperasse, mesmo depois de tudo isso, a velha
Magdala se sentiu cansada e triste. “Por que ainda o aturo, meu Deus?”

Ergueu-se, desceu as escadas que davam para o pátio, e saiu caminhando
na direção do carro de bois abandonado. O cachorro, que madornava
na sombra formada pela roda, abriu os olhos, bocejou, e se pôs de
pé, abanando a cauda. A velha não lhe deu atenção
e continuou andando. Ao alcançar a senzala, mudou de rumo, tomando
a picada que levava à igreja e ao cemitério. O mato rasteiro
ainda estava molhado e as hastes se prendiam ao vestido. Magdala afastava-se,
sem pressa, recomeçando a andar, para tornar a descansar mais adiante,
respirando com esforço. Assim foi até atingir a colina onde
se erguia a capela da fazenda. Contemplou-a de alto a baixo, tranqüilamente,
detendo-se no exame de cada janela, da porta, das fendas que cortavam a
parede do oitão. Há quanto tempo não fazia isto? Pensou
depois: — “que importa a separação dos anos?”
Poderiam passar mais cinqüenta ou mesmo cem anos, e não esqueceria
um só detalhe da construção: o grande portal de cedro
bordado por mãos hábeis, as cornijas, o nicho entre a torre
e a fachada, acolhendo a imagem de São José, as duas janelas
e os vitrais; não, não a esqueceria, sobretudo a voz do sino.
Estava calado, é verdade, mas se alguém o fizesse tocar,
estivesse ela onde estivesse, reconheceria o chamado. Quem sabe — indagou
— não teria sido aquele silêncio de tantos e tantos anos,
que semeara a morte e a solidão nos campos em derredor? Quem sabe?…
Aproximou-se da porta e empurrou-a. Foi um esforço inútil.
Tornou a empurrar, desta vez numa tentativa quase frenética. Houve
como que um suspiro abafado, trêmulo, e a porta se escancarou, oferecendo
aos seus olhos a visão do altar-mor iluminado por uma réstia
de sol que descia de uma telha quebrada. Antes mesmo de entrar, pôde
sentir a crosta de poeira agarrada aos bancos e às imagens. No entanto,
havia qualquer coisa de sagrado e de singela beleza naquele silêncio
de abandono. Exatamente como sempre fora — disse consigo mesma — a pintura
do teto, os castiçais, o ouro do púlpito…

Dirigiu se à sacristia; depois ao corredor que ia ter à
escada em caracol por onde se subia para o campanário. Tremiam-lhe,
excitadas, as mãos. Mas estava feliz. Já não importava
o cansaço, a respiração difícil, a dor que
feria nas juntas como se lhe estivessem dando agulhadas. E, amarrando-se
ao corrimão, começou a galgar a escada; em cada degrau vencido
fazia uma pausa e respirava com sofreguidão. Enfim, a torre, pequena,
suja e o súbito despertar de asas de morcegos em debandada. Levou
as mãos ao rosto e fechou os olhos. Ao abri-los, novamente, descobriu
os campos em derredor: lá estavam os morros onde pastavam as reses
de uma fazenda vizinha; lá estava a sua própria casa-grande,
a velha senzala, o carro de bois abandonado

Ao pé da capela, à esquerda, o cemitério. Mesmo
daquela altura, podia reconhecer cada sepultura. Estavam cobertas pelo
mato e somente uma ou outra cruz ainda se mantinha erguida. Mas as flores
silvestres, vermelhas, amarelas e brancas, despontavam aqui e ali, irredutíveis
à invasão do mato traiçoeiro.

Magdala ergueu a mão e agarrou com força a ponta da corda
presa ao badalo. Puxou-a. E ficou aguardando, ansiosa, que a badalada forte
a envolvesse. Mas nada ouviu. Repetiu o gesto, e só agora com o
novo impulso, pôs-se o sino a tocar alto, sempre mais alto, firme,
talvez alegre, como outrora.

Ali permaneceu a velha Magdala até que as sombras do crepúsculo
desceram sobre a terra, os morros, a casa-grande, a senzala e a encontraram,
nem triste nem feliz.

 

III

 

O jantar foi servido à hora do costume. Magdala não tinha
vontade de comer. Cruzou o talher, afastando o prato que não havia
tocado. Levantou-se e, como de hábito, foi tomar a fresca da noite,
na cadeira de balanço do alpendre. O cachorro apareceu para ocupar
o lugar de sempre aos pés da velha. O silêncio e o mistério
da noite já rondavam os campos, a lua ainda não surgira;
além da estrada, a mata e os morros eram uma só mancha escura
e densa, também triste. Mas essa tristeza não se comunicava
ao coração de Magdala. Balançando-se na cadeira, os
olhos semicerrados, parecia distante do mundo e de si mesma. Daí
a pouco devia recolher-se ao quarto, onde, depois de trocar a roupa, faria
as orações de costume, ajoelhada ao lado da cama, e dormiria
profundamente. Antes disso, não fora o cansaço que lhe trouxeram
as emoções daquela tarde, gostaria de tocar um pouco de piano.
Não por prazer. Era um hábito antigo. Mas os braços
e as pernas pareciam presos de estranha lassidão. Os próprios
pensamentos, confusos.

Distante, um cão ladrou.

Depois, foi o vento que começou a soprar quase inesperadamente.
A princípio, uma simples aragem, trazendo o cheiro da terra; em
seguida, a própria terra numa vaga de poeira, veio chocar-se de
encontro às paredes da casa, levantando redemoinhos no terreiro
e invadindo o alpendre. Magdala resolveu entrar. Fechou a porta que se
comunicava com a sala e, apanhando o candeeiro sobre a mesa, subiu a escada
que conduzia ao quarto, no fim de corredor.

Deitou-se depois das orações, e adormeceu.

Pela madrugada, acordou com um ruído estranho. Sentou-se na cama
e ficou ouvindo: o vento zunia nas árvores do pátio. Mas
não foi propriamente o vento que a despertou, tinha certeza; foi
um ruído diferente, quase indefinível, mesmo. Sim, era uma
espécie de estalos estranhos que se repetiam, confundindo-se com
gemido prolongado. Escutava-os perfeitamente; um estalo, dois, três…
afinando-se, pelo contrário, quase num lamento… Ainda no escuro,
ficou indecisa e teve receio de acender o candeeiro. De onde viriam? Do
corredor, do teto, da sala lá embaixo? O vento cresceu de intensidade
e por alguns instantes sufocou todos os rumores, inclusive o uivo do cão.
Dentro em pouco, no entanto, os sons enervantes ergueram-se outra vez e
tomaram conta da casa.

Magdala levantou-se, acendeu o candeeiro, foi à procura da negra
Joana, no quarto ao lado. Mas teve dificuldade de chegar até lá.
Bateu à porta. Nenhuma resposta. Tornou a bater. Uma lufada mais
forte de vento fez o assoalho estremecer sob os seus pés.

— Joana! — chamou.

Como ainda desta vez não obtivesse resposta, esmurrou a porta.
Ouviu, finalmente, o ruído da taramela e a voz da negra.

— Abra! abra! — gritou.

Joana surgiu, empunhando o castiçal.

— Você ouviu, Joana?

— Escuto todas as noites, sinhá, mas não queria dizer
nada pra não assustar vosmecê.

Conservaram-se em silêncio durante alguns instantes. Escutaram,
então, nítidos, os gemidos. Seguiu-se o uivo do cachorro,
demorado, varando a solidão lá fora.

— Venha! — ordenou Magdala.

Atravessaram o corredor e, com o movimento de ambas, um rato, assustado,
saiu correndo e chegou a roçar a saia de Joana. Desceram as escadas.
A luz do candeeiro se projetava verticalmente, envolvendo móveis,
paredes, a poeira adormecida nos quadros suspensos das paredes. Diminuíra
a intensidade do vento. Coisa estranha: já não se ouvia agora
nenhum ruído. A sala parecia maior no seu ermo. As cadeiras, a enorme
mesa de jacarandá, eram como pessoas mortas, em rigidez cadavérica,
no esquecimento em que se encontravam. As mulheres continuavam avançando;
foram pelo corredor que ia ter à cozinha, examinaram a despensa,
o quarto dos arreios, a camarinha. Súbito, recomeçaram os
gemidos. Entreolharam-se, ambas. Era impossível afirmar de onde
vinham, assim de repente: do teto, do soalho, das próprias paredes?
Pareciam partir da cozinha, da despensa e da camarinha. De um momento para
outro silenciaram de novo.

Magdala deixou Joana na sala, abriu a porta, atravessou o alpendre,
dirigindo-se ao terreiro. Arrefecera de todo o vento, e a lua brilhava
sob o ar frio. Cheirava o mato noturno nos campos adormecidos. E o branco
sujo das paredes da capela, lá adiante, era como um fantasma que
velasse a solidão do vale. Aí, entretanto, nenhum ruído
chegava aos ouvidos da velha. Escutava somente o cricri dos grilos e, de
quando em vez, o uivo do cachorro. Então, esquecida de tudo, pôsse
a contemplar a casa. Curioso: era como se a tivesse esquecido durante anos
e, de repente, a reencontrasse, diferente, não conseguindo nela
vislumbrar a razão do amor antigo. Mas, por quê? Ali nascera
e sempre vivera; ali haviam nascido e vivido pensamentos, vozes, ruídos,
gestos que sempre lhe pertenceram. Escutava-os ainda: pareciam tão
vivos e tão próximos como se apenas estivessem ocultos sob
as paredes, e jamais mortos. No entanto, a casa parecia ter agora uma fisionomia
diferente. Envolvida pelo luar — pensou — era como um túmulo abandonado.

 

IV

 

No dia seguinte, a velha Magdala não desceu, e recusou o alimento
que a negra Joana mandou Neco levar ao quarto.

— Não tenho fome — disse.

Recostada na cama, diante da janela aberta, esteve todo o dia a pensar.
Houve um instante, mesmo, em que chegou a admitir a possibilidade de acabar
vendendo a fazenda a Antônio Arruda. Arrependeu-se, logo, dessa fraqueza,
e teve a impressão exata de quem estivesse cometendo uma traição.

Olhando pela janela, via os campos iluminados pelo sol, o oitão
do estábulo, um pedaço do morro por onde subiam outrora os
cafezais. Lembrou-se do pai, a cavalo, percorrendo a plantação
e dando ordens aos escravos. E tão funda foi a recordação
que, por um momento, julgou ouvir-lhe a voz. Uma saudade grande e dolorida
lhe subiu pelo peito e morreu na garganta.

Depois dormiu e só despertou, ao entardecer, quando uma pancada
de vento fez bater a janela do quarto.

— Cheiro de chuva — disse.

Ao cabo de uma hora, com efeito, o aguaceiro desabou, forte, cantando
no telhado. Prolongou-se por toda a noite e o dia seguinte. Mas agora já
não era uma chuva grossa. Caía quase de leve sobre a casa
e o pátio, transformando-se em lama, na estrada.

No alpendre, onde os passos da Magdala não se faziam ouvir há
dois dias, o cachorro cochilava. Vez por outra, abria, penosamente, os
olhos, levantava a cabeça e tornava a pousá-la sobre as patas,
voltando à madorna. Quando, de súbito, a noite chegou, abriu
os olhos novamente e fixou a cadeira vazia. Não aparecera ninguém
para lhe trazer comida. Desanimado, retornou à mesma postura.

Passos no terreiro vieram, finalmente, despertá-lo. Ergueu-se.
Ainda indeciso, caminhou até a escada. Parou. Estava muito escuro
e não via nada; ouvia; apenas. Assustado, põe-se a ladrar.
Mas não saiu do lugar. E quando o homem subiu os degraus, aos pulos,
ele recuou para a porta que dava para a sala.

— Ó de casa! — gritou o estranho.

O cachorro começou a latir com mais força. O homem, porém,
fê-lo fugir para longe, quando sapateou o chão e ergueu os
braços num gesto de ameaça.

— Fora!

Depois:

— Ó de casa!

A negra Joana apareceu na soleira da porta:

— Quem está aí?

— É de paz, dona. Queria falar com o homem da casa.

Joana examinava-o; a mão direita segurando o candeeiro e a esquerda
agarrada à porta, numa atitude de expectativa. O visitante tinha
as calças arregaçadas, as botinas sujas de lama e o casaco
de couro aberto no peito.

— Quero falar com o homem da casa — insistiu o estranho.

Joana pediu-lhe que esperasse. Fechou a porta, e os passos se perderam
lá dentro. O patamar ficou novamente no escuro. Parara de chover
e trilavam os grilos, quando um gemido seco e prolongado, vindo do teto,
obrigou o homem a erguer a cabeça. Pensou: “Estas vigas estão
podres.”

Ouviu o ruído da taramela. Abriu-se a porta e Joana botou a cabeça
para fora:

— Sinhá está doente e não pode aparecer.

E depois de uma pausa:

— Que está querendo vosmecê?

O estranho ia começar a falar, quando, por trás dos ombros
da preta, viu surgir a cabeça da velha. Joana afastou-se, e Magdala
avançou alguns passos à frente.

— Dona, — disse o homem — somos artistas de uma troupe ambulante.
Vim na frente para lhe pedir agasalho por algum tempo; o carro em que a
gente viajava quebrou-se e o conserto vai demorar pelo menos umas três
horas:

E depois:

— Somos de paz, dona. Há duas mulheres com a gente.

— Estão com fome? — indagou, secamente, Magdala.

O homem sorriu e concordou, balançando a cabeça.

Magdala disse:

— Diga a eles que podem vir.

 

V

 

Depois de ordenar à Joana que preparasse jantar para os forasteiros,
a velha Magdala subiu para o quarto. Sentia-se ligeiramente excitada: talvez
porque a negra não tivesse recebido de boa vontade a incumbência
de fazer comida para um bando de gente, àquela hora da noite; talvez
porque… Bem, ela também estava se achando diferente com a novidade
de ter visitas para jantar em casa. Há quantos anos não acontecia
isso? Parou, no meio da escada, pois a respiração lhe fugia
e o coração batia mais apressado. “Realmente, estou
alegre.” Mas logo em seguida (pensou): “Por quê?…”
Sorriu. Acabou de vencer os derradeiros degraus que davam para o corredor
largo e mal iluminado pela chama do candeeiro de azeite de peixe. No quarto,
foi diretamente ao lugar onde se achava há tantos anos a velha arca
de couro. Guardava aí toda série de objetos de uso particular:
algumas jóias sem muito valor, três ou quatro vestidos (que
não usava pelo menos há vinte anos), fitas, dois pares de
sapatos, um álbum com os retratos da família. “Quem
haveria de dizer que um dia tornaria ainda a usar essas coisas?…”

— Mas, — lembrou-se num relance — onde botei a chave?

Talvez o mais acertado fosse perguntar a Joana… Não, não
perguntaria. Aborrecida como estava, a negra acabaria por desfazer a alegria
em que ela, Magdala, sentia mergulhar. Começou então procurando
na gaveta da cômoda, deu em seguida uma busca na mesinha de cabeceira,
chegou até a subir no banco para olhar em cima do armário.
Movimentava-se com certa sofreguidão e foi obrigada a sentar-se
um pouco, pois o coração batia cada vez mais agitado. Recuperada,
porém, a calma, fez a última tentativa na gaveta do consolo,
onde guardava os papéis da propriedade. Felizmente, aí estava
a chave.

O cheiro forte da naftalina se desprendeu da arca, quando Magdala ergueu
a tampa.

Dir-se-ia que os três melhores vestidos, de seda macia, dobrados
com capricho, estavam ali à sua espera há muitos e muitos
anos. Estendeu-os sobre a cama e ficou a mirá-los com tamanha ternura,
que lhe vieram lágrimas aos olhos. Sim, era bom alisá-los,
deixar que a ponta dos dedos corresse sobre o tecido macio. Pelo qual se
decidiria? Súbito, notou: o de alpaca preta, com rendas guipur
(e fora o seu predileto em certas ocasiões!) estava ligeiramente
poído na dobra da manga esquerda e havia uma pequena mancha na altura
do peitilho. Ergueu-o na altura da luz para melhor examiná-lo. Mais
convincente do que esses pequenos defeitos foi o mundo de recordações
que, de repente, baixou sobre ela: sim, as velhas e boas coisas de outros
tempos, que o vestido evocava.

Na tarefa de vestir-se consumia uma meia hora e, durante todo o tempo,
Magdala não poucas vezes se viu obrigada a fazer uma pausa, numa
procura desesperada de ar. Houve um momento mesmo em que precisou abrir
a janela. Olhando a noite lá fora, escura, varrida pela chuva, uma
noite triste como as inúmeras outras que desceram sobre ela e a
solidão em que vivia, teve sua primeira dúvida: sim, Deus
do céu, qual o sentido de tudo isso? da sua alegria? desse vestido?…

Depois foi o penteado. O espelho estava embaçado, a chama do
candeeiro não ajudava muito — e suas mãos tremiam tanto,
tanto, santo Deus! A caixinha de grampos estava diante dos olhos, enquanto
ela tateava a gaveta à procura. Inútil foi também
a busca do perfume — um vidrinho cuja essência talvez, mesmo, já
se tivesse evaporado. Pronta, finalmente, examinou-se longamente no espelho,
sorriu, e tornou a pensar:

— “Por quê?…”

Não desceu em seguida. De olhos cerrados, envolvida pelo silêncio
do quarto, foi-lhe impossível repelir os pensamentos que a subjugaram,
de súbito. Na verdade (pensou) desejaria repeli-los? Deixou-se,
então, envolver por eles, como quem se entrega a uma canção
antiga, muitas vezes ouvida e cada vez mais amada. Vozes subiam da sala.
Também sons de música. Risos conhecidos. Tudo isto perfeitamente
identificável. Eram animais resfolegando no pátio, batidas
de portas de carruagens, ordens dadas aos gritos. Estava atrasada, Deus
do céu, e no entanto não tinha pressa de descer. Curioso!
esperara tanto, tantos meses se passaram desde que sonhara com essa festa,
contando os dias que ainda faltavam, fazendo-a lembrada de todos em casa.
E o vestido? Perdera a conta dos modelos escolhidos e substituídos;
perdera não poucas noites de sono… E, agora, chegado o instante
de tomar uma decisão, pois a data já estava tão próxima,
vira-se obrigada a não protelar por mais um minuto sequer. Já
pronta, linda como estava, com os longos e perfumados cabelos, a pele jovem
e macia, as pessoas esperando lá embaixo no salão, a orquestra,
as amigas, os parentes, os convidados que vieram das fazendas vizinhas
— deixava-se estar ali, apática, quase desesperada de ansiedade,
mas também de temor…

Escuta passos que se aproximam no tapete do quarto. Uma mão cai-lhe
sobre o ombro. Seu pai que a vem buscar? Quem?…

Abre os olhos e vê Joana:

— Não vai descer, sinhá?

Magdala fica olhando a negra e não parece compreender-lhe a presença.

— Como? — indaga.

A negra dá um muxoxo. Magdala desperta, ergue-se e avança
para o corredor.

 

VI

 

Eram duas mulheres e quatro homens, sem contar com o negro condutor
da carroça, que ficara na estrada consertando o veículo.
Magdala estendeu a mão a cada um, retirando-se depois para ver se
estava tudo em ordem. Não estava. A mesa parecia posta para um piquenique
e não para um jantar de cerimônia, como determinara. Teve
ímpeto de repreender asperamente Joana. Conteve se, para evitar
novos aborrecimentos. E ela mesma apanhou os cristais no aparador, mudou
a colocação dos talheres e dos guardanapos. Dirigiu-se, depois,
à cozinha, onde sabia estar guardada, num armário, a última
garrafa de vinho existente na casa, um Porto com mais de trinta anos. Joana
mexia a caçarola, mas não deixou de lançar uma olhadela
de censura à patroa. Não, não compreendia a razão
de tamanha estrepolia. Teria sinhá enlouquecido ? E o espanto foi
ainda maior quando viu os trajes da velha. Pôs se a resmungar. Magdala
percebeu tudo, mas estava decidida a não se deixar envolver pela
má vontade da negra. Ajustaria contas no dia seguinte. Porque, apesar
dos pesares, Joana continuava sendo uma escrava, e como escrava deveria
ser tratada. Logo que fora abolido o cativeiro, partira da fazenda. Mas
acabara voltando. E, se tinha voltado, era porque desejava continuar no
antigo modo de vida.

— Você podia cortar algumas flores lá fora.

Joana voltou-se, surpreendida:

— Onde vou encontrar flores neste escuro e debaixo da chuva, sinhá?

A velha já estava botando a galinha na terrina, esquecida do
pedido que fizera. A negra deu outro muxoxo e não teve mais dúvida:
a dona enlouquecera.

Magdala voltava à sala:

— Vamos logo, pelo amor de Deus, criatura — disse. — Aquela gente
está morrendo de fome.

Agora, sim, — pensou depois — a mesa estava com um ar decente: a luz
suave dos castiçais se espalhava sobre a toalha branca, os cristais
e os talheres. Ficou a admirá-la, feliz. Sim, porque estava realmente
feliz. E quando Joana surgiu trazendo as terrinas fumegantes, Magdala dela
se aproximou numa atitude de reconciliação:

— Sinto-me tão alegre, Joana.

A outra nada respondeu.

Tudo pronto, afinal, foi ela chamar os visitantes, que, daí a
pouco, sentavam-se em torno da ampla mesa de jacarandá. E somente
quando Magdala assumiu o seu lugar à cabeceira, os artistas lhe
notaram o traje de gala. Ninguém achou ridículo. Admiraram,
pelo contrário, o porte da velha senhora, a elegância com
que dirigia a refeição, a simpatia que se irradiava do seu
rosto e de seus gestos. Ninguém teve mesmo coragem de falar antes
que ela o fizesse. Houve, assim, um silêncio longo, profundo, só
interrompido quando um som estranho, porém breve, desceu do teto
quase como um gemido. O homem ao lado de Magdala ergueu a cabeça
e olhou para cima: “Estas vigas…”

 

VII

 

— Com sua licença, dona — disse o diretor da troupe.

E foi apanhar o acordeão.

Estavam todos na sala de visitas, para onde foram levados os castiçais.
Magdala sentia-se envolvida por um agradável torpor, em conseqüência
do copo de vinho que havia bebido. Escutava, de uma das mulheres, a narrativa
das aventuras da troupe ambulante. Há mais de três
meses — contava a loura — que se encontravam fora do Rio, visitando cidades
do interior de Minas e de São Paulo. Regressavam agora ao ponto
de partida. Era uma vida de sacrifícios. Fora um fracasso a temporada
e voltavam mais pobres do que quando partiram.

Acrescentou sua decisão firme de abandonar aquela existência
errante e boêmia, já não era criança, precisava
pensar no dia de amanhã.

Foi interrompida pelas primeiras notas do acordeão. Uma polca.
O homem cantava:

Tive um amor na vida,

Um velho amor lá no Sul.

E quando a tarde vem,

Leontina…

Todos entraram alegremente em coro. Magdala havia cerrado os olhos.
O vento frio da noite atravessava as janelas abertas. E quando a tarde
vem, Leontina…
Magdala abre os olhos: bem à sua frente, sobre
o consolo de jacarandá, parece contemplá-la a imagem do avô
Felipe. Não o conhecera, é verdade. Mas pela descrição
que dele costumava fazer o pai, facilmente lhe reconstituía os traços
na memória. Via-o, assim, como nos velhos tempos, enchendo a fazenda
de escravos, multiplicando as terras, arrancando riquezas do solo. Em poucos
anos transformara os poucos alqueires de sua sesmaria naquele mundo de
serras, de vales e planícies que as plantações de
café e de cana-de-açúcar dominavam em dezenas e dezenas
de léguas. A vasta casa-grande, quadrada, simples, fora erguida
por ele. Também a capela.

A música silenciara.

— Que deseja ouvir agora? — indagou o homem do acordeão.

Magdala pensou um pouco e pediu o Doce Amélia. Era uma
cantiga triste e Magdala a dançara muitas vezes. Também costumava
cantá-la ao piano, acompanhada pela irmã Tereza.

Oh! doce Amélia

Quem pode ver-te. . .

Vieram-lhe lágrimas aos olhos. Sentia-se ainda tonta, e não
sabia se era do vinho ou de emoção. Mentalmente, acompanhava
a melodia, recordando os versos: a doce Amélia fora obrigada a casar-se
com um velho conde, porque assim lhe ordenara o pai. Mas o grande amor
de sua vida era o mancebo que todas as tardes passava à frente do
sobrado e suspirava por lhe tocar nos longos cabelos negros. Um dia, por
intermédio da mucama de confiança, conseguem ajustar a fuga
para daí a três noites. O pai descobre o plano e manda assassinar
o jovem. Amélia suicida-se, apertando entre os dedos o lenço
de renda que o amado lhe remetera pouco antes de atingi-lo o punhal assassino.

Oh! doce Amélia

Quem pode ver-te…

As lágrimas escorrem pelas faces de Magdala. Não sabe
se chora pela infeliz Amélia, ou por ela mesma — pelas suas lembranças.
Soluça. Todo o seu corpo estremece como uma folha sacudida pelo
vento.

O homem pára de tocar:

— A senhora não está se sentindo bem? — indaga.

Magdala faz um esforço para sorrir.

— Continue, por favor. É tão bonito!

Novamente o retrato do avô Felipe a contemplá-la: está
sentado numa cadeira de braços e tem as mãos apoiadas no
cajado. Sob o cabelo cortado à escovinha e a barba cerrada, sobressaem
os olhos escuros , penetrantes, a fitá-la do fundo do tempo. O mesmo
ar da família — pensa Magdala: olhos que também foram do
seu pai, do seu irmão Abílio, dela mesma; formato de rosto
semelhante ao de Maria e ao de Tereza. Onde estavam todos, onde estavam?
Deus, não somente as terras haviam sido duramente marcadas pelas
intempéries; também os seus o foram, a sua gente, o seu sangue.
E estavam todos mortos, como a terra.

Lembrou-se então de Antônio Arruda. Via-o saltando do carro
e se aproximando do alpendre. Que importava o dinheiro dele? “Cão,
cão miserável!”– murmurou. Mas já era impossível
afastar a verdade que a lembrança de Antônio Arruda vinha
sugerir. Sim, o mato, que lá fora invadira toda a antiga extensão
de terreno coberto pelos cafezais e canaviais, acabaria também avançando
sobre a casa-grande, para subjugá-la. Nas noites de pesadelo, acordava
sentindo cipós que se lhe enrodilhavam ao pescoço. Eram como
centenas de mãos de dedos longos e finos procurando estrangulá-la.
Gritava, possuída de terror. Despertando, sentava-se na cama e não
conseguia tornar a adormecer. Outras vezes, aproximava-se da janela e olhava
lá fora como para se convencer de que ainda estava em segurança;
tudo escuro nos campos, tudo escuro e triste, como sempre. Mas — sabia
— o mato ruim continuava ali numa ameaça permanente, crescia dia
a dia, avançava para os degraus do alpendre, inexoravelmente.

Magdala olhou em volta: o homem do acordeão continuava tocando
e os outros cantando. Indagou, de repente: “Por que estão aqui?
que significa a presença deles nesta sala?” Sente-se cansada.
Dói-lhe a cabeça. Passado o efeito do vinho, o organismo
começa a reagir. “Por que estão aqui? Por quê?…”
— volta a interrogar a si mesma, num crescente espanto. Ergue-se de repente.
A chama das velas diminui cada vez mais. Apenas muito vagamente consegue
enxergar os homens e as mulheres. Parecem não ter forma definida,
são como fantasmas. Ao dar acordo de si, estava quase gritando,
no meio da sala:

— Deixem-me, deixem-me! Vão-se embora, vão…

Virou-se, rapidamente, e abandonou a sala.

VIII

Os artistas entreolharam-se, sem compreender. O homem do acordeão
aproximou-se da janela. Parara de chover e a lua cheia começava
a subir no céu, iluminando os campos adormecidos, a copa das árvores,
a capela lá no alto da colina. O mato noturno cheirava. E os grilos
assumiam o comando da noite.

— Bem, — disse ele — podemos partir.

Foi quando tornou a ouvir aquele estranho gemido que vinha do teto.
Olhou para cima:

— Estas vigas estão podres.

A mulher loura disse, por sua vez:

— Diabo de velha esquisita, hein, gente?

Saíram para o pátio. A carroça, já consertada,
fora trazida para ali. Um a um, os artistas tomaram seus lugares sob o
toldo de lona.

— Tudo pronto?

Um grito, o estalar do chicote, e a carroça começou a
se mover. Deixou o pátio e alcançou a estrada na rampa. Era
uma rampa em curva e tão extensa que, lá adiante, a uns trezentos
metros da fazenda, não perdia de vista a casa-grande, a capela,
a senzala iluminadas pelo luar. Alguém pôs-se a assobiar.
O homem do acordeão retirou o instrumento da caixa e executou Leontina.

Tive um amor na vida,

Um velho amor lá no Sul.

E quando a tarde vem,

Leontina…

Então, ouviram o estrondo. Era como se subitamente a terra se
tivesse aberto sob as rodas do carro e os cascos dos animais. Voltaram-se
todos para o caminho já percorrido: silêncio, agora; um silêncio
denso, profundo, quase palpável. Mas a lua cheia velava os escombros.

Originally published as “A Velha
Senhora Magdala” in Maravilhas do Conto Moderno Brasileiro, Editora
Cultrix, São Paulo.

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