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Short story

João de Oliveira was moved. He didn’t care about the price anymore. All he
wanted was that his piano be treated with a little care. At least that. It might not be worth
a lot, but it deserved special consideration.


Anibal M. Machado

João de Oliveira was moved. He didn’t care about the price anymore. All he
wanted was that his piano be treated with a little care. At least that. It might not be worth
a lot, but it deserved special consideration.


Anibal M. Machado

Rosália! gritava João de Oliveira. Toquei para fora o homem!… Insolente! Veio dizer que não valia nem quinhentos cruzeiros.

— O conserto? respondeu a voz da mulher lá de cima.

— Não; o piano! E ainda saiu rindo-se…

— Tinha graça. Você não vê que isso é jogo! O que ele queria é ficar com o piano dado e vendê-lo depois por qualquer
preço. É assim que essa gente enriquece…

Rosália e Sara desceram assustadas. E a família acercou-se com respeito do velho móvel, como a querer consolá-lo
do ressentimento deixado pela avaliação mesquinha.

— Havemos de vendê-lo ainda por bom preço, você vai ver, anunciou Oliveira, fitando-o com emoção confusa. Não se
fabrica mais desse tipo.

— Bota anúncio, que esta casa vai ficar assim de pretendentes, disse Rosália, juntando os dedos da mão. Pena é ter a
gente que se separar dele.

 

— Ah, é um amor de piano! Parece coisa até que só de olhar para ele a gente ouve música, resumiu Oliveira,
acariciando-lhe a caixa de carvalho.

— Então vamos botar anúncio, João.

Custear o enxoval de Sara com a venda; transformar a saleta em quarto para o futuro casal, — teriam que dispor dele
de qualquer maneira.

Três dias depois, amanhecera o piano engalanado de flores para o sacrifício e a casa preparada para a recepção
dos pretendentes.

O primeiro candidato a aparecer foi uma senhora acompanhada da filha. Esta, mal avistara o móvel, avançou logo para
ele, abriu-o, tentou uma frase no teclado.

— Ih! mamãe, mas está todo estragado…

A senhora levantou-se, olhou para as teclas descascadas. Escandalizou-se. Pegou a filha e retirou-se resmungando:

— Andar tanto para ver uma porcaria dessas!…

Não houve tempo para a família Oliveira se magoar, porque à mesma porta por onde saíra a mulher com a filha
chegavam outros pretendentes: uma senhora de idade, cheirando a defunto rico; uma mocinha de óculos escuros com a sua pasta de
música; e um judeu ruivo, de roupa sovada. O diálogo entre a velha dama e a mocinha mais parecia um princípio de discussão.

— Eu não faço questão, alegava a moça. Vim porque mamãe me pediu. Há de haver outros à venda. O que eu queria
dizer é que já estava batendo na campainha da porta quando a senhora desceu do ônibus. Entramos juntas, mas eu cheguei primeiro.

A discussão pela conquista do piano lisonjeava os Oliveiras. Entretanto, acharam prudente desmanchá-la oferecendo
café e sorrindo a todos. Dirigira-se a moça em seguida ao piano, que o judeu avaliava de longe com olhar frio. Entrou, nesse
momento, uma senhora conduzindo uma colegial. Sentaram-se desconfiadas. De repente, toda a sala ficou suspensa às notas que a
mocinha tirava do teclado. Sons desafinados, metálicos, horrorosos. Era a prova. A recém chegada fez uma careta, apertou a mão
da menina; mostrando-se mais tolerante, a dama perfumada mandava um olhar indulgente para a velha caixa de música. Os
Oliveiras procuravam ler com ansiedade na fisionomia dos outros. O judeu se conservava impassível. Às vezes todos se entendiam
pelos olhos.

Era como um julgamento do piano. A moça
continuava a tocar, como se o estivesse pondo em confissão. Falhavam as
notas, algumas teclas não existiam, outras se apresentavam
descortiçadas. Nem as cordas vocais de cantora decrépita ou de velho
cardíaco soariam com aquele timbre. Quando Doli investiu aos latidos,
percebia-se que era um pronunciamento da cachorrinha. E o mal-estar
culminou. Havia um riso correndo pela sala. Entretanto, ninguém estava
rindo. A moça parecia tocar por maldade agora, acentuando as
cacofonias, martelando as teclas mortas. Situação aflitiva.

— Esse piano tem uma coisa, tentava explicar João de Oliveira: é muito sensível, muda muito com a temperatura.

A moça largou-o de repente, parou de pé para repintar os lábios e tomou a pasta:

— Nem sei como o senhor teve coragem de pôr anúncios para essa carcaça, disse lançando um olhar de desdém para
Rosália, como se fosse Rosália a carcaça.

E saiu.

João de Oliveira suportava tudo calado. Não era a ele a ofensa era ao velho móvel. Sentia-se todavia na obrigação de
declarar que se tratava de uma relíquia de família.

 

— Não se constrói hoje igual, acentuava; igual não se faz mais. Houve um silêncio logo perfurado por uma pergunta do
judeu, pergunta que fora feita no momento em que mais claudicava a reputação do pobre piano:

— Quanto pede por ele?
À vista do acontecido, João de Oliveira receou dizer o que pensava. Baixou o preço que trazia em mente.

— Cinco contos, respondeu com timidez. E olhou para todos, a ver o efeito. Ninguém riu, ninguém disse nada. Mas
tinha-se a sensação de uma hilaridade geral.

Foram-se preparando os pretendentes para
sair. Era a resposta muda. Oliveira esfriou. Teria dito alguma
monstruosidade? Só a velha fora delicada: disse que ia pensar. Mas
porque aquele ar tão piedoso que deixava transparecer o seu verdadeiro
juízo sobre o piano? perguntou-se Oliveira.

Na porta da rua os que desistiram cruzaram com um senhor que queria entrar.

— Veio pelo piano? perguntaram. Ih! o senhor vai ter uma… Mas a voz animada de Oliveira interrompeu logo:

— Entre! ele está aqui perto. Já tem vindo muita gente. Era um homem de meia-idade, cabeleira grisalha e abundante.
Abriu a tampa da máquina, examinou-a demoradamente. Devia ser um professor. Não pediu preço, disse que depois ia ver e
despediu-se:

 

— Depois conversaremos… A casa ficou vazia. Os moradores se
entreolharam decepcionados.

— Ninguém está compreendendo o valor dele, comentou João de
Oliveira com tristeza. A vendê-lo por
qualquer preço, prefiro deixar como está.

— E o enxoval de Sarita? objetou Rosália.

— Farei um empréstimo.

— Mas teu ordenado não dá para desconto em folha.

— Adiaremos o casamento.

 

— Eles estão apaixonados, João! Querem se casar de qualquer jeito…

Ouvia-se nesse momento a voz de Sarita gritar do quarto que se
casaria apenas com duas combinações novas
e mais alguma roupinha indispensável.

— A questão, prosseguia Rosália,
é que esta casa é uma caixa de
fósforos. Onde iremos alojar o casal?
Teremos que sacrificar o piano de qualquer maneira para dar espaço. Nossa
Senhora! Todo o mundo hoje quer espaço,
precisa de espaço.

— Não, não, gritou a filha lá de
dentro. Deixe quieto o nosso piano. Tão
bonito que ele é…

— Tão silencioso, atalhou a mãe.
Tu mesma o abandonaste. Vives na vitrola.

A velha abriu a porta do quarto para falar mais de perto à filha.
Estranhava que ela se pronunciasse dessa maneira. Lançou-lhe o dilema:

— Um marido ou um piano? escolhe.

— Ah! um marido, respondeu Sarita com voluptuosa convicção. Lógico…

E abraçando-se ao travesseiro:

— O meu maridinho, uai!

— Então!…

— Estás também contra ele,
Rosália? rugiu a voz de João de Oliveira.

— Ele quem, João?

— O nosso piano.

— Oh! João, tu me julgas capaz!…

No dia seguinte, mal chegara do trabalho, João de Oliveira foi indagando:

— Muita gente hoje, Rosália?

 

Sim, alguns pedidos de informação pelo telefone e um senhor que
viera pessoalmente e ficou olhando muito para o piano. E o judeu de ontem.

— Eles disseram alguma coisa? perguntou o marido.

— Nada.

— Prometeram?

— Também não. Mas olharam muito, muito mesmo…

— Ah, olharam? Com interesse, com admiração?

— Isso não sei dizer.

— Olharam, sim, mamãe, interveio Sarita. O velho principalmente.
Só faltava comer o piano com os olhos.

João de Oliveira se comoveu. Já
não fazia questão do preço. Queria
apenas que o seu piano fosse tratado com certa atenção. Ao menos isso. Podia não
valer muito dinheiro, mas merecia consideração especial. Lamentava
não estar presente, mas pelo que a filha dissera da atitude respeitosa do
velho, sentia-se consolado da má impressão
da véspera. Aquele homem devia ser
alguém sensível à alma dos velhos móveis.

— Ele deixou endereço, Sarita?
Não? Ah!… mas voltará na certa.

E se levantou para rondar a peça antiga. Namorou-a
longo tempo.

— Meu piano! disse baixinho, correndo-lhe a mão pelo
verniz da madeira, como se acariciasse o pêlo de um animal.

Nenhum candidato no dia seguinte. Apenas uma voz
de sotaque estrangeiro que queria saber se ele era novo.
Rosália respondeu que não, mas era
como se o fosse, tão conservado estava.

— “Amanhã é sábado”,
pensou Oliveira; “com certeza há de vir muita gente”.

No dia seguinte desceu de uma limusine um senhor com
uma menina. Defrontando com a casinha modesta dos
Oliveiras, perdeu a vontade de entrar, e informando-se na porta
mesmo da marca e da idade do piano, foi indo embora sem querer vê-lo.

— Muito obrigado. Não é preciso, respondia às
insistências do dono. Eu pensava que se tratava de uma coisa
moderna. Passar bem…

João de Oliveira tomava as dores pelo seu piano. Desde
que recebera aquela herança de família, guardava-a com
cuidado, sem pensar que seria forçado, num momento extremo como esse,
a abrir mão dele. Ninguém, entretanto, queria reconhecer-lhe
o valor. Ninguém.

 

Mas, e aquele indivíduo que apareceu na quarta-feira
seguinte, fez-lhe tantos elogios arrebatados, disse que era uma maravilha e
se recusou a adquiri-lo declarando que teria remorsos de
comprá-lo por tão baixo preço, e que
ele, João, e mais dona Rosália, estavam praticando um
crime abrindo mão de tão preciosa coisa? Oliveira não entendeu
o que pretendia esse homem.

— Estaria zombando ou falando sério? perguntou à
mulher.

— Parece um gaiato, observou a companheira.

— Talvez não, Rosália…

Mais depressa que seu marido, perdera Rosália as
esperanças. Sua preocupação agora, quando
o via entrar, era atenuar-lhe o sofrimento.

— Quantos hoje?

— Ninguém. Dois telefonemas. Não deram os
nomes mas ficaram de vir, disse-lhe a mulher em voz calma.

— E o judeu?

— Acaba voltando na certa.

Durante dias, ficara esquecido o piano. Como quem gosta de
ver uma pessoa amiga perder o trem só pelo prazer de gozar-lhe
mais tempo a companhia, assim estava João de Oliveira em relação
ao seu piano. Sentava-se perto dele, gozava-lhe os últimos
momentos, apreciava-lhe a dignidade do aspecto, confidenciava-lhe coisas. Três
gerações tocaram ali. À quanta gente fez
sonhar, fez dançar! Tudo passava. O piano
ficava. O único móvel que falava da
presença dos antepassados. Meio eterno. Ele e
o oratório.

— Vem, Sarita. Aquele trecho de Chopin. Vê se te recordas.

— Ah! papai, é impossível; para
se tocar nele é uma desgraça. Não dá
mais nada.

— Não fales assim, sussurrou
Rosália. Não vês como anda teu pai…

Toda vez que o olhar de Sarita tombava sobre o piano,
transformava-se este em uma cama de casal em que ela
se revia abraçada ao seu tenente de artilharia.

Durante dias e dias não apareceu nenhum pretendente. Apenas de vez
em quando, o telefonema espaçado do judeu, como a controlar as últimas pulsações
de um moribundo.

O anúncio fora retirado. Rosália
fazia sentir ao marido que o casamento era para breve.

— Como há de ser, João?

 

— Como há de ser o quê, Rosália?

— O piano!…

— Vender não vendo, gritou João decidido. Esses canalhas querem
é explorar. Prefiro dá-lo de graça, mas
a alguém que o preserve, que saiba o que ele representa.

Andava agitado pela sala. Uma expressão nova desenhou-se-lhe no rosto.

— Escuta, Rosália; liga para os nossos parentes da Tijuca.

Rosália compreendeu satisfeita o que o marido queria. João de Oliveira
acorreu ao telefone.

— Pronto! Chame o Messias. Já saiu? Ah! é a prima?… olhe: venho
oferecer-lhe o nosso piano de presente… Sim, de presente… Não estou doido, não…
pois é… Justamente!… É isto mesmo…
Não sairá da família…hein? Ah! sim.
Muito pequena mesmo. Então mandam buscar depois, não é?… Absolutamente… Oh!…

Voltou depois para a mulher:

— Ora veja! Pensou que fosse primeiro de abril. Não acreditou.

Rosália exultou com a idéia.
João encaminhou-se depois para o velho móvel, como a consultá-lo sobre o
que viera de fazer. — “Minha
consciência está tranqüila”, pensou. “Tu não
serás rejeitado, ficarás na família, no
mesmo sangue. As filhas de minhas filhas te respeitarão, ainda tocarás para elas.
Sei que não ficarás zangado em ires para
a casa do Messias, continuação da
nossa casa…”

— Quando virão buscá-lo?
interrompeu Rosália disposta já a arrumar o
quarto nupcial de Sarita.

No dia seguinte, Messias, pelo telefone, pede confirmação aos
parentes de Ipanema. Um piano de presente era muito, era demais. Estava perturbado
e agradecido. Nem tinha acreditado.

— Mas é a verdade, Messias. Você sabe, não é? a nossa casinha é uma
casca de noz. O piano não pode continuar aqui
e João não quer que ele vá para
mãos estranhas. Ficando com vocês é como
se

estivesse conosco. Pode buscá-lo quando quiser, sim?

Passaram-se alguns dias. Os carregadores não vieram. O casal
Oliveira estranhou o silêncio do pessoal da Tijuca.

— Houve alguma coisa. Telefona, Rosália.

Atendeu a prima. Estava embaraçada. Cobravam uma fortuna pelo carreto.

— Vocês compreendem… Com essa falta de gasolina, não é?… Esperem
mais alguns dias, o Messias está providenciando. Estamos contentíssimos,
só pensamos nele, Rosália. A última
frase soou falso aos ouvidos da mulher. Ao cabo de uma semana, João de
Oliveira interpelou o primo pelo telefone:

— Quer ou não quer, Messias?

Do outro lado da linha chegara a réplica em palavras gaguejadas:

— Ó parente, não imaginas como estamos desolados aqui. Ganhamos
o presente e não podemos recebê-lo.
Pedem um dinheirão pelo transporte. E por
cima de tudo, nós aqui também não
temos espaço. É uma luta por falta de
espaço! Somente agora pensamos nisso.
Miquita está inconsolável.

— Quer dizer que não fica com ele, não é?

— Isto é, fico… Ou melhor, não
fico, mas…

João de Oliveira desligou secamente. Já estava compreendendo.

— Você está vendo, Rosália;
nem dado querem saber do nosso piano, nem dado!

— Que se há de fazer, João! Todas
as coisas acabam assim…

Ficaram tristes os dois. Sarita abriu-se num pranto sufocado. A mãe
amparou-a:

— Que é, filhinha? Não faz mal, havemos de vendê-lo a alguém
por qualquer preço.

— Eu quero que ele saia quanto antes, mamãe. Quanto antes. Faltam
poucos dias e meu quarto nem está arranjado ainda. Não vejo nada para o
casamento. Só esse piano enjoado para
atrapalhar minha vida, esse piano que
ninguém quer.

— Fala baixo, minha filha, teu pai está ouvindo

— É para que ouça mesmo,
exclamou a moça no último soluço, enxugando
os olhos. João de Oliveira passou a noite quase em claro a meditar sobre a
vida. Reflexões confusas, melancólicas
em geral. Amanheceu com raiva do piano e da vida. Saiu cedo e deixou-se ficar
num botequim próximo a conversar com um e outro indivíduo.

— “Que andaria fazendo seu marido por lá?” indagava Rosália a si
mesma. João nunca tivera esse hábito.

 

A casa distava três quarteirões da praia. De suas janelas não era visível
o mar, mas sentia-se ali o seu cheiro e o seu barulho. Para além da
avenida litorânea ainda havia largo trecho
de areia até se lhe alcançarem as
águas. João de Oliveira entrou
acompanhado de um preto e de dois portugueses robustos em camisa de
trabalho. Mostrou-lhes logo o piano. Eles o acharam grande demais.
Experimentaram-lhe o peso. Seriam precisos outros três
homens. Rosália e a filha ficaram suspensas. A mulher perguntou:

— Achou comprador?

— Não, mulher; não há comprador para esse piano.

— Presente?

— Não, mulher; não há
mais quem queira recebê-lo de presente.

— Então, que é que você
está fazendo, João? Que é que
você está fazendo? interrogou
Rosália, pressentindo-lhe o gesto. O rosto de João de Oliveira
endureceu, enquanto seus olhos umedeciam.

— Atirá-lo ao mar?

— Sim, mulher. Vou atirá-lo ao mar.

— Ah! isso não, papai. Isso não! Que loucura!
exclamou Sarita.

Os homens esperavam.

— Que coragem, João! Não haverá outra saída? interveio
a mulher. Pense bem. Fica esquisito, um piano lançado ao mar…

— Que é que você quer, Rosália! Não se afundam tantos
navios? A objeção do homem fez a mulher calar. E ele se animou.

— Pessoal! ordenou aos homens. Carregue com
ele. Vamos!…

 

Um dos portugueses se adiantou para dizer humildemente
que não podiam fazer aquilo. O
patrão que os desculpasse. Doía-lhes
na consciência jogar tamanha coisa ao mar. Parecia até um crime.

— O patrão por que não faz um anúncio? O piano está ainda
tão perfeito!

— Sim, eu é que sei! respondeu ironicamente Oliveira.
Podem retirar-se.

Retiraram-se os homens. Um deles, o preto maltrapilho,
concebeu uma coisa enorme: tomar o piano para si. Estava ali
à disposição de quem quisesse.
Saiu olhando para ele, hipnotizado pela idéia de poder possuí-lo; só
para ser dono de alguma coisa, e logo um objeto de luxo, ele que
não era dono de coisa alguma, senão de sua viola. Era sonho que
podia ser uma realidade imediata. Mas para onde levá-lo também?
E para quê? Nem tinha casa, nem sabia tocar…

Rosália encostou se chorosa aos ombros do marido. João
de Oliveira tinha uma expressão de crueldade no olhar.

— Ah! João! que decisão horrível você tomou!

— Mas se ninguém o quer, e se ele não pode continuar aqui…

— Sim, João. Mas a gente sente. Ele sempre
nos acompanhou. E fica esquisito, não fica? depois de tantos anos,
jogá-lo ao mar. Olhe como ele está
sem saber nada do que vai acontecer. Há quase vinte anos ali, naquele
canto, sem fazer mal a ninguém…

— Agora é você que está
sentimental, Rosália!

A mulher olhou para o marido:

— Está bem, João: faça o que
você quiser.

*******************

Na Praia do Pinto e na Latolândia agrupam-se casebres miseráveis
donde partem os negrinhos em incursões
pelos bairros ricos, em bandos maltrapilhos, mas alegres. Assim, é fácil
encontrá-los ora pedindo tostão para sorvete,
ora admirando cartazes à porta dos cinemas, ora rolando nas areias do Leblon.

Aquele dia o Atlântico amanhecera enfurecido pela ressaca. O piano
estava tranqüilo como sempre. E imponente na severidade de suas linhas.

Faziam-se os aprestos para o saimento.

 

João de Oliveira pediu à mulher e
à filha que o despissem das peças
que podiam ser aproveitadas. Foram retirados os castiçais de bronze.
Arrancaram-se depois os pedais e ornatos de metal.
Em seguida, a tampa de carvalho.

— Eu acho que não se devia tocar nele, opinou Rosália.

— Ih! já está tão transfigurado!
disse Sara.

Os moleques que João de Oliveira recrutara sem nada dizer à família
ficaram na porta impacientes, à espera do
aviso. Oliveira mandou que entrassem primeiro os mais fortes.

Eram quatro e vinte da tarde quando começou o saimento. Uma multidão
de gente abria alas na calçada. O piano vinha vindo com certa
dificuldade. Alguns curiosos avançavam para
vê-lo de mais perto. Rosália e a filha
ficaram contemplando da varanda de cima, abraçadas. Tristes. Não tiveram
ânimo de acompanhá-lo. A cozinheira
enxugava os olhos com o avental.

Ao chegar a procissão à esquina
da rua transversal, indagaram os moleques:

— Para onde?

Todos queriam segurar o esquife ao mesmo tempo, e o piano quase tombava.

— Para onde? perguntava-se de novo.

— Para o mar! gritava energicamente João de Oliveira em atitude de
comandante.

E apontava o Atlântico.

— Para o mar! para o mar! repetia a meninada em coro.

Daí por diante os moleques perderam o respeito. Compreendendo que
era alguma coisa que ia ser destruída, tomaram-se de súbita excitação e
faziam algazarra. A todo momento tocavam a cachorrinha Doli, que saltava em cima
e latia furiosa.

Das sacadas apinhadas de gente as moças se espantavam:

— Que será aquilo, Mãe do Céu?
Um piano!…

Ele já vinha voltado para o lado da praia donde soprava o sudoeste.

— Saiu do noventa e um! gritou um pretinho informando as famílias.

 

— Ah! é da casa de Sara.

— É da casa de João de Oliveira.

Um conhecido saiu à rua para

interpelá-lo:

— Que foi isso? Será possível, João?

— Não é nada, não é nada! Eu sei
o que estou fazendo. Não me atrapalhem.

— Mas por que não o vendes?

— Vou vendê-lo, sim… ao mar… olha lá… o mar…

E afobado, com ar de carrasco, retomava a tarefa, dando ordens.

— Mais para a esquerda, pessoal… Cuidado, senão ele tomba… fiquem
só os mais fortes.

Vinha aos baques, exalando gemidos. De vez em quando um moleque metia
o braço no labirinto da máquina e corria
a mão pelas cordas, provocando-lhe os últimos estertores.

Uma senhora da sacada gritou para João de Oliveira:

— O senhor não o vende, por acaso?

— Não senhora, não vendo. Dou de graça. Quer?

A senhora enrubesceu, sentiu-se ofendida e entrou logo. João de
Oliveira oferecia de um modo geral:

 

— Não haverá por aí quem queira
um piano?…

Aceitou-o mais adiante, no quarenta e três, uma família de exilados
poloneses. Aceitou cheia de espanto.

— Então podem ficar de uma vez com ele, gritou João de Oliveira.

Os poloneses desceram, acercaram-se do velho móvel, hesitantes:

— Nós ficaremos com ele… isso
não há dúvida, mas… nossa casa é
muito pequena, queríamos um prazo.

— Ou agora ou nunca! respondeu Oliveira. Ele já está na rua. Não
querem, não é? Pessoal, toca o bonde!

Os moleques se assanharam de novo.

E o piano cada vez mais se aproximava do mar. Balançava como
barata morta levada por formigas.

João de Oliveira mal percebia que das portas e janelas de todas
as residências partiam exclamações
confusas.

— Mas isto é uma loucura! bradava alguém de outra sacada.

— Loucura? volveu João de Oliveira exaltado, olhando para cima. Então
fica com ele, fica…

Mais adiante, ao passar por outras janelas, repetia-se a cena. Todo o
mundo achava que era loucura, todo o mundo queria o piano; bastava porém que
o dono o oferecesse de graça, assim
à queima-roupa, para que todos se descartassem embaraçados. Quem
está preparado para receber de sopetão
um piano?

João de Oliveira já não dava
mais explicações a ninguém e
prosseguia resoluto, acompanhado por um sussurro de vozes e lamentações.

Agora a procissão parou por ordem de alguém. Motociclistas da
polícia cercavam o velho móvel. João de
Oliveira dava explicações demoradas.
Exigiram-lhe os documentos. Foi à casa
buscá-los. Achou que eram naturais as
exigências da polícia, dado o estado de guerra;
com relação, porém, ao que estava
fazendo, ponderou que era em virtude de uma decisão tomada em família, uma
coisa íntima, para a qual não devia
explicações a ninguém. Estava fazendo
uso de um direito: jogar fora o que entendesse. E, colocando a
mão sobre o piano, como sobre a testa de um amigo morto,
comoveu-se, começou a discorrer sobre a
vida dele:

— É uma peça antiga, das mais antigas que existem.

Tinha sido de seus avós, gente que prestara serviços ao Império.

— Bom piano, podem acreditar. Músicos famosos
tocaram nele. Diziam que para Chopin não havia igual. Mas que vale
isso? Ninguém o aprecia mais… Os tempos estão mudados. Sara,
minha filha, vai casar-se, morar comigo. A casa é pequena… Que se
pode fazer? Ninguém o quer. Só
há essa saída.

 

E acenava para o mar.

Estava acabrunhado. Os carregadores improvisados
impacientavam-se com essas
interrupções. Queriam vê-lo quanto
antes afundar-se nas águas.

Carrocinhas de pão, entregadores de volumes,
estafetas, senhoras e crianças completavam a massa de acompanhantes.

Os policiais examinaram-no por dentro, nada encontraram
de grave e, restituindo os papéis ao dono, recomendaram-lhe
que andasse depressa com aquilo, o trânsito não podia ser perturbado.

Formou-se um grupo e um fotógrafo bateu a chapa. João
de Oliveira saiu ao lado numa pose triste. Acabou aborrecido
também com essas paradas que prolongavam os momentos finais de
seu piano.

Anoiteceu rapidamente. Um guarda observou que depois
das dezoito horas não era mais permitido. Só no dia seguinte. E
o mar ficou esperando.

Dispersaram-se os pretinhos. Seriam gratificados depois.

Estranhou-se que no bairro aquela noite aparecessem
tantos moleques com teclas nas mãos, ossos de algum extinto piano.

Ficara ele na rua, tal como o deixaram, adernado entre o
meio-fio e o asfalto. Posição
ridícula. Cercaram-no logo os transeuntes, rapazes e moças do
footing a fazer comentários. João de
Oliveira voltou para casa aborrecido. Algumas amigas de Sara
vieram perguntar o que havia.

De madrugada, João de Oliveira e a mulher acordaram
ao barulho forte da chuva. Vento e chuva, juntando-se ao rugido
da ressaca. Acenderam a luz. Entreolharam-se.

— Eu estava pensando nele, Rosália.

— Eu também, João. O pobrezinho!
Desabrigado, apanhando chuva… Com esse frio!

— E as águas a entrarem pela máquina, a estragarem tudo…
a camurça, as cordas… que coisa
horrível, hein, Rosália?

— Afinal, foi uma ingratidão o que fizemos, João.

— Não quero nem pensar, Rosália.

 

O vento fustigava as frondes que os relâmpagos descobriam. João de
Oliveira adormeceu de novo num sono agitado. Despertou logo em seguida e começou
a contar à mulher que ouvira o piano tocar tudo o que se havia tocado nele…

— Uma porção de mãos,
Rosália… Mãos diferentes de diversas
mulheres. As de minha avó, as de minha mãe;
as tuas; as de minhas tias, as de Sara. Mais de vinte mãos, mais de cem dedos
brancos ferindo o teclado. Nunca ouvi
músicas tão bonitas. Uma coisa sublime,
Rosália. Certos acordes as mãos mortas
tiravam melhor que as vivas. Muitas moças
de outras gerações estavam ao lado, ouvindo. Perto, nossos parentes
se namoravam, pediam-se em casamento. Não sei por que, todos olhavam
para mim com certo desprezo. De repente, os dedos se retiraram; ouviu-se a
Marcha Fúnebre; o piano se fechou a si
mesmo… tomou a enxurrada… deslizou para o oceano… Eu gritei para ele… mas já
era tarde, não me atendeu mais. Parece
que partiu ressentido, Rosália!… Eu
fiquei na rua, só, com vontade de soluçar…

João de Oliveira arquejava. O misterioso concerto deixara-o
extasiado. E com remorsos. Esperou que a madrugada rompesse e, cessada a chuva, saiu
a recrutar de novo os moleques. Desejava agora que tudo se consumasse depressa.

O vento agitava a bandeira vermelha do posto e o oceano rumorejava como
se fizesse a digestão do temporal da noite. Os meninos compareceram em
número menor. Havia homens grandes no meio. João de Oliveira, com a voz
rouca, reassumiu o comando. Na areia, o piano rolou com mais dificuldade.
Finalmente o lambeu a língua comprida das ondas.

Algumas famílias de longe, na calçada, assistiam ao espetáculo.
Era preciso empurrá-lo mais até que a
força da arrebentação se incumbisse de
arrastá-lo para o fundo. Dois vagalhões
enormes se despejaram sem resultado sobre ele; o terceiro fê-lo estremecer; o quarto
levou-o para sempre.

João de Oliveira, acabrunhado, ficou boquiaberto, em tempo de ser
levado também. Sentiu um silêncio enorme
no mar. Ninguém percebeu que chorava, tanto as lágrimas no seu rosto
borrifado se confundiam com as gotas do mar.

Viu Sara de longe reclinar-se nos ombros do tenente. Doli estava ao
lado, de focinho suspenso. Era perto do piano que dormia sempre. Foi bom que
Rosália não viesse.

Muita gente se juntava depois na praia a pedir informações. Que
teria havido? Constou a princípio que uma família inteira de poloneses se
havia afogado; depois, que fora uma
criança. Alguns afirmavam que não: era
uma senhora que se suicidara, desiludida do amor. Só mais tarde se soube que
se tratava de um piano.

A vizinhança de João de Oliveira postava-se à janela para vê-lo voltar.

 

— Lá vem o homem! anunciou alguém.

Oliveira passou olhando para o chão, cercado de um respeito geral.

— Ele se foi, Rosália. Dessa vez, definitivamente! exclamou ao entrar.

— Vai primeiro mudar a tua roupa, João.

— O nosso piano nunca mais voltará, Rosália.

— Claro que não; foi para isso mesmo que o atiraste ao mar.

 

— Sabe lá se ele vai dar ainda em alguma praia? lembrou a voz de Sara.

— Não se pensa mais nele. Acabou! Está acabado. Sara, chegou a vez
de arrumarmos teu quarto.

Houve uma pausa. João de Oliveira prosseguiu ainda na lamentação:

— Eu vi as ondas engolirem-no…

— Chega, meu marido. Chega!…

— …ele ainda voltou à tona duas vezes!

— Já acabou! Não se pensa mais, João.

— …Eu não queria dizer para
não passar por doido… todo o mundo agora deu para pensar que sou doido…
talvez eu seja o homem mais equilibrado do meu bairro… mas, nessa hora, eu
vi claramente que ele executava a Marcha Fúnebre.

— Isso foi no teu sonho desta noite, lembrou Rosália.

— Não, isso foi ali no mar, agora
há pouco, à luz do dia…

Tu não ouviste também, Sara? Depois… depois… uma
espumarada horrível cobriu-o todo.

Fez com a cabeça um aceno de quem defronta o irremediável. E ficou
conjeturando: –“Deve estar longe a estas horas. Sempre debaixo das
águas… Passando por coisas estranhas.
Destroços de navios. Submarinos. Peixes. Um móvel que nunca saiu desta sala…
Daqui a anos vai dar nalguma ilha. E quando Sara, Rosália e eu estivermos
mortos, ele andará ainda recordando as
músicas cá de casa. Em que mar? Em que costa?

Sarita passeava o olhar pela saleta vazia e se detinha no pedaço de chão
há quase vinte anos ocupado pelo piano. Toda a vez que o fazia, as linhas
do velho móvel se estiravam e convertiam-se em macia cama de casal. Começava
a perturbar-se com esses devaneios, quando alguém bateu à porta.
Entrava um sujeito com uma intimação.
Havia suspeitas de que dentro do piano afundado se escondesse alguma
estação de rádio clandestina, a que seu
pai quisesse dar sumiço. Que ele comparecesse ao distrito policial
para prestar esclarecimentos. Era medida aconselhada pelo estado de guerra,
que se podia fazer?

Oliveira consumiu o resto do dia no interrogatório. Voltou tarde.

— Que vida, Rosália! disse, caindo desanimado na poltrona. Que vida!
Não se tem o direito de atirar fora o que
é nosso.

Permaneceu calado, sentindo a opressão de tudo. Fez-se um
silêncio. Meditou algum tempo e falou:

— Já reparaste, Rosália, como a gente custa a se
desembaraçar das coisas antigas? Como elas agarram!…

 

— Não só as coisas antigas, ponderou Rosália. Também
as velhas idéias.

Doli farejava o antigo local do piano. Uivou surdamente
e dormiu. Soou de novo a campainha. Entrou um cavalheiro
que tirava papéis de uma pasta. Disse vir da parte da Capitania do Porto.

— O senhor é João de Oliveira?

— Sim, sou João de Oliveira.

— Que é que o senhor atirou ao mar esta manhã?

Oliveira ficou estupefato.

— Mas isso aqui não é mais porto, meu senhor. É oceano.

— Por acaso o senhor pretende me ensinar a diferença?

O homem renovou a pergunta e acrescentou-lhe uma
advertência para ajudar a resposta:

— Hoje não se pode estar assim dispondo do mar para
qualquer coisa. O senhor tinha licença?

Oliveira humildemente perguntou se tinha sido mal
aquilo que fizera.

— Pois o senhor não sabe que estamos em guerra? Que as
nossas costas precisam ser protegidas? Que os nazistas não dormem?

— Mas foi um simples piano, meu senhor.

— Pouco importa. E teria sido mesmo um piano? O senhor
está bem certo disto?

— Eu acho que estou, balbuciou inseguro de si mesmo, a
olhar para a filha e para a mulher. Não foi um piano, Rosália? Não
foi, Sara?

— Onde é que estás com a cabeça, João? exclamou
Rosália. Então não sabes que foi o piano?

A dúvida do marido surpreendeu a todos. Oliveira
ficou cismando. Depois disse:

 

— Eu pensava poder jogar no mar o que entendesse.

— Não senhor! Era só o que faltava…

Ergueu-se como alucinado:

— E se eu quiser jogar-me no mar a mim mesmo, posso?

— Isso depende, respondeu o homem da Capitania.

— Depende de quem? Só de mim, ora essa! Eu sou
livre. Disponho de minha vida…

— Muito menos do que parece, replicou o outro.

Sarita abriu o sorriso com que costumava receber o tenente,
que agora entrava. Correu a abraçá-lo.

— Olha onde vai ser o nosso quarto, querido. Ficou bom
agora, não é, Luís? Bom mesmo.

— É. Ficou bom. E onde vão botar o novo?

— O novo?

— Sim; pois não vão adquirir um outro?

Sara e a mãe entreolharam-se com espanto.

— Eu sou louco por piano, confessou-lhe o noivo. Vocês não imaginam
como a música me descansa os ouvidos. Tiro de canhão, sempre tiro de canhão,
isso acaba aborrecendo a gente.

Sara teve um acesso de tosse. João de Oliveira, mal cumprimentara o
futuro genro, foi caminhando até a porta.
Sentia-se sufocado. Precisava respirar a noite.

Quem mais surgiria do seio dela a pedir-lhe ainda satisfações, a fazer
novas exigências? Como poderia supor que um piano, escondido de todo o
mundo, vivendo uma vida anônima, fosse coisa pública, protegido pela vigilância
dos outros, pelas leis da cidade!…

Para que fora bulir nele? Estava longe agora, viajando milhas… Longe…
A caminho dos mares do Sul… E livre. Mais que ele, que Sara, que
Rosália. Quem se sentia abandonado agora
era ele, João de Oliveira. Ele e sua
família. O piano, não. Partira para a
aventura. Mudara de ambiente. De caráter,
com certeza… Antes, era de casa, só para
a família. Agora, já não é mais seu
piano. Uma coisa solta no mundo. Cheia de vida e de orgulho… Que se move
debaixo dos mares. Que ressoa… Que é
abraçada por todas as águas e pode ir para
qualquer direção.

 

Para que fora bulir nele?

Na sombra do arvoredo, em frente, os negrinhos esperavam
gratificação suplementar. Fizeram muita força
aquele dia. Mal se distinguiam na escuridão suas cabecinhas raspadas. No meio
deles, o vulto de alguém que não era
desconhecido e que, abrindo o portão do jardim, pedia licença para entrar.

João de Oliveira a custo reconhecera naquele vulto o judeu, mas
nada percebera da proposta que ele lhe fazia e em que se falava de um piano.

— Um piano! Que piano!

 


“O Piano” was previously published in

Maravilhas do Conto Moderno Brasileiro

by Editora Cultrix, São Paulo

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